segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Capitulo VII - Jason






ASSIM QUE JASON VIU A CASA, ele soube que era um homem morto.
— Aqui estamos nós! — Drew disse alegremente. — A Casa Grande, quartel-general do acampamento.
Ela não parecia ameaçadora, apenas uma mansão de quatro andares pintada de azul bebê com acabamento em branco. A varanda tinha cadeiras de descanso, uma mesa de cartas e uma cadeira de rodas vazia. Sinos dos ventos pareciam ninfas se tornando árvores enquanto giravam. Jason podia imaginar velhinhos vindo aqui para férias de verão, sentados na varanda e bebendo suco de ameixa enquanto assistiam o pôr do sol. No entanto, as janelas pareciam encará-lo de maneira raivosa. A porta parecia pronta para engoli-lo. Na parte mais alta do telhado um cata-vento no formato de uma águia de bronze girava no ar e apontava direto na sua direção, como se dissesse para ele dar meia-volta.
Cada molécula no corpo de Jason lhe dizia que ele estava em território inimigo.
— Eu não devia estar aqui — ele disse.
Drew enroscou seu braço no dele.
— Ah, por favor. Você é perfeito aqui, querido. Acredite em mim, eu já vi vários heróis.
Drew cheirava como o Natal – uma estranha combinação de pinheiro e noz-moscada. Jason queria saber se ela sempre cheirava assim ou se era algum tipo de perfume especial para os feriados. Seu delineador pink era realmente perturbador. Sempre que ela piscava, ele se sentia obrigado a olhar para ela. Talvez aquele fosse seu objetivo, exibir seus belos olhos castanhos. Ela era linda. Não havia a menor dúvida sobre isso. Mas ela fazia Jason se sentir desconfortável.
Ele puxou seu braço, gentilmente.
— Olhe, eu agradeço...
— É aquela garota? — Drew fez beiço. — Ah, por favor, me diga que você não está namorando a Rainha do Lixo.
— Você quer dizer Piper? Hã...
Jason não sabia como responder. Ele não achava que já tinha visto Piper antes, mas se sentia estranhamente culpado por isso. Ele sabia que não deveria estar nesse lugar. Ele não deveria fazer amizade com essas pessoas, e certamente não deveria namorar nenhuma delas. Entretanto... Piper estivera segurando sua mão quando ele acordou naquele ônibus. Ela acreditava que era sua namorada. Fora corajosa na passarela de vidro, lutando cotra aqueles ventus, e quando Jason a pegara no ar e eles se seguraram corpo a corpo, ele não podia fingir que não estava um pouco tentado a beijá-la. Mas aquilo não estava certo. Ele nem sabia sua própria história. Ele não podia brincar com as emoções de outra pessoa.
Drew rolou os olhos.
— Deixe-me ajudar a decidir, querido. Você merece coisa melhor. Um garoto com o seu rosto e talento óbvio?
Ela não estava olhando para ele, porém. Ela estava olhando para um local bem acima da sua cabeça.
— Você está esperando um sinal — ele supôs. — Como aquele sobre a cabeça do Leo.
— O quê? Não! Bem... sim. Digo, pelo que ouvi, você é bastante poderoso, certo? Você vai ser importante no acampamento, então calculo que seu pai irá lhe reclamar a qualquer momento. E eu amaria ver isso. Eu quero estar com você a cada passo do caminho! Quem é o deus, seu pai ou sua mãe? Por favor, me diga que não é sua mãe. Eu odiaria se você fosse um filho de Afrodite.
— Por quê?
— Porque você seria meu meio-irmão, bobo. Você não pode ficar com alguém do próprio chalé. Eca!
— Mas todos os deuses não são parentes? — Jason perguntou. — Então todos aqui não são seus primos ou alguma coisa assim?
— Como você é fofo! Querido, o lado divino da sua família não conta, exceto se for seu pai ou sua mãe. Então qualquer um de outro chalé... pode ser um alvo. Então, quem é seu parente olimpiano: sua mãe ou seu pai?
Como sempre, Jason não tinha uma resposta. Ele ergueu os olhos, mas nenhum sinal brilhante apareceu sobre sua cabeça. No topo da Casa Grande, o cata-vento ainda estava apontando na sua direção, aquela águia de bronze olhando como se falasse, Dê meia-volta, criança, enquanto ainda pode.
Então ele ouviu passos na varanda da frente. Não... não eram passos... era um galope.

— Quíron! — Drew chamou. — Esse é Jason. Ele é totalmente incrível!
Jason recuou tão rápido que quase caiu. Contornando o canto da varanda estava um homem montado num cavalo. Exceto que ele não estava montado no cavalo – ele era parte de um. Da cintura para cima ele era humano, com cabelos castanhos cacheados e uma barba bem-aparada. Vestia uma camiseta que dizia Melhor Centauro do Mundo, e tinha um arco e uma aljava amarrados nas costas. Sua cabeça era tão alta que ele precisava se abaixar para não bater nas luzes da varanda, porque da cintura para baixo, ele era um garanhão branco.
Quíron começou a sorrir para Jason. Então a cor drenou do seu rosto.
— Você... — Os olhos do centauro arregalaram-se como os de um animal encurralado. — Você devia estar morto.

Quíron ordenou Jason – bem, convidou, mas soou como uma ordem – a entrar na casa. Ele falou para Drew voltar ao seu chalé, o que não pareceu agradá-la.
O centauro trotou para a cadeira de rodas vazia na varanda. Ele se desfez da sua aljava e arco e aproximou-se de costas na cadeira, que abriu como uma caixa de mágica. Quíron cuidadosamente abaixou-se nela com suas pernas traseiras e começou a se apertar num espaço que devia ser muito pequeno. Jason imaginou barulhos inversos de um caminhão – bip, bip, bip – enquanto a metade de baixo do centauro desaparecia e a cadeira ajustou-se, fazendo aparecer um conjunto de pernas humanas falsas cobertas por um cobertor, de forma que Quíron parecia ser um mortal normal numa cadeira de rodas.
— Siga-me — ele ordenou. — Temos limonada.
A sala de estar parecia que fora reprimida por uma floresta tropical. Videiras curvavam-se pelas paredes e pelo teto, o que Jason achou um pouco estranho. Ele não achava que plantas crescessem assim, do lado de dentro, especialmente no inverno, mas essas tinham folhas verdes e estavam cheias de cachos de uvas vermelhas.
Sofás de couro rodeavam uma lareira de pedra com fogo estalando. Apertado num canto, um fliperama de Pacman antigo fazia bip e piscava. Montada nas paredes havia uma coleção de máscaras – como de teatro grego, sorridentes/tristes, emplumadas, de carnaval veneziano com grandes narizes parecidos com bicos e outras africanas esculpidas em madeira. Videiras cresciam entre suas bocas parecendo que elas tinham línguas frondosas. Algumas tinham uvas vermelhas brotando pelo buraco dos olhos.
Mas a coisa mais esquisita era a cabeça empalhada de leopardo sobre a lareira. Parecia tão real, seus olhos pareciam seguir Jason. Então ele rosnou, e Jason quase saltou de sua pele.
— Ora, Seymour — Quíron repreendeu. — Jason é um amigo. Comporte-se.
— Essa coisa está viva! — Jason disse.
Quíron remexeu no bolso lateral da sua cadeira de rodas e tirou um pacote de biscoitos. Ele jogou um para o leopardo, que o abocanhou e lambeu os lábios.
— Você precisa desculpar a decoração — Quíron disse. — Esse foi um presente de despedida do nosso antigo diretor antes de ser chamado ao Monte Olimpo. Imaginou que ajudaria a nos lembrar dele. O Sr. D tem um senso de humor estranho.
— Sr. D — Jason disse. — Dionísio?
— Ahã — Quíron serviu limonada, embora suas mãos estivessem tremendo um pouco. — Quanto a Seymour, bem, o Sr. D o encontrou em uma venda de garagem em Long Island. O leopardo é o animal sagrado de Dioniso, entende, e o Sr. D ficou aterrorizado ao perceber que alguém foi capaz de empalhar tal nobre criatura. Ele decidiu concedê-lo a vida, numa hipótese de que a vida como uma cabeça pendurada era melhor do que nenhuma vida, afinal. Devo dizer que é um destino mais bondoso do que o antigo dono de Seymour teve.
Seymour exibiu suas presas e cheirou o ar, como se procurasse mais biscoitos.
— Se ele é só uma cabeça — Jason comentou — para onde vai a comida quando ele come?
— Melhor não perguntar. Por favor, sente-se.
Jason pegou um pouco de limonada, apesar de o seu estômago estar agitado.
Quíron reclinou-se na sua cadeira de rodas e tentou um sorriso, mas Jason podia dizer que era forçado. Os olhos do velho homem eram tão profundos e escuros como um poço.
— Então, Jason — ele disse — você se importaria em me dizer... hã... de onde você é?
— Eu também gostaria de saber.
Jason lhe contou toda a história, desde quando acordou no ônibus até a aterrissagem forçada no Acampamento Meio-Sangue. Ele não escondeu nenhum detalhe, e Quíron era um bom ouvinte. Ele não demonstrava qualquer reação, apenas mexia a cabeça, encorajando-o a contar mais.
Quando Jason acabou, o velho homem deu um gole na limonada.
— Entendo — Quíron disse. — E você deve ter perguntas para mim.
— Só uma — Jason admitiu. — O que você quis dizer quando falou que eu deveria estar morto?
Quíron o estudou com preocupação, como se esperasse que Jason explodisse em chamas.
— Meu garoto, você sabe o que essas marcas no seu braço significam? A cor da sua camisa? Você lembra de algo?
Jason olhou para a tatuagem no seu antebraço: SPQR, a águia, doze linhas retas.
— Não — ele disse. — Nada.
— Você sabe onde está? — Quíron perguntou. — Você entende o que esse lugar é, e quem eu sou?
— Você é o centauro Quíron — Jason disse. — Suponho que seja o mesmo das histórias antigas, que costumava treinar os heróis gregos como Hércules. Esse é um acampamento para semideuses, filhos dos deuses olimpianos.
— Então você acredita que esses deuses ainda existem?
— Sim — Jason disse imediatamente. — Digo, não acho que devíamos adorá-los ou sacrificar galinhas por eles ou qualquer coisa, mas eles ainda estão por perto, pois são uma poderosa parte da civilização. Eles vão de país em país conforme o centro do poder se desloca... como eles foram da Grécia Antiga para Roma.
— Não podia ter dito melhor. — Algo na voz de Quíron mudou. — Então você já sabe que os deuses são reais. Você já foi reclamado, não foi?
— Talvez — Jason respondeu. — Mas não tenho certeza.
O leopardo Seymour rosnou.
Quíron esperou, e Jason percebeu o que acabara de acontecer. O centauro havia mudado para outro idioma e Jason entendera automaticamente, respondendo na mesma língua.
— Quis erat... — Jason vacilou, então fez um esforço consciente para falar inglês. — O que foi aquilo?
— Você sabe Latim — Quíron observou. — A maioria dos semideuses reconhecem algumas frases, naturalmente. Está no sangue deles, mas não tanto quanto o Grego Antigo. Ninguém pode falar Latim fluentemente sem prática.
Jason tentou entender o que aquilo significava, mas vários pedaços da sua memória estavam perdidos. Ele ainda tinha a sensação de que não deveria estar aqui. Era errado – e perigoso. Mas pelo menos Quíron não estava o ameaçando. Na verdade, o centauro parecia preocupado com ele, com medo pela sua segurança.
O fogo refletia nos olhos de Quíron, fazendo-os balançar numa dança raivosa.
— Eu ensinei o seu xará, você sabe, o Jasão original. Ele teve um caminho duro. Eu vi vários heróis irem e virem. Ocasionalmente, eles tem finais felizes. Na maior parte, não. Isso parte meu coração, é como perder um filho sempre que um dos meus pupilos morre. Mas você... você não é como qualquer pupilo que eu já treinei. Sua presença aqui poderia ser um desastre.
— Obrigado — Jason disse. — Você deve ser um professor inspirador.
— Desculpe meu garoto. Mas é verdade. Eu esperava que depois do sucesso de Percy...
— Percy Jackson, você se refere. O namorado de Annabeth, o que está sumido.
Quíron assentiu.
— Esperava que depois que ele tivesse sucesso na Guerra dos Titãs e salvasse o Monte Olimpo, pudéssemos ter alguma paz. E eu poderia ser capaz de desfrutar um triunfo final, um final feliz, e talvez uma retirada discreta. Eu devia ter me informado melhor. O último capitulo se aproxima, assim como foi antes. O pior ainda está por vir.
No canto, o fliperama fez um triste som pa-pa-pa-pa, como se o Pacman tivesse morrido.
— Ok... — Jason disse. — Então... estamos no último capitulo, e o pior ainda por vir. Soa divertido, mas podemos voltar à parte onde eu devia estar morto? Não gosto dessa parte.
— Receio que não possa explicar, garoto. Jurei pelo Rio Estige e por todas as coisas sagradas que eu nunca... — Quíron franziu a testa. — Mas você está aqui, em violação do mesmo juramento. Isso também, não deveria ser possível. Eu não entendo. Quem faria tal coisa? Quem...
O leopardo Seymour berrou. Sua boca congelou meio aberta. O fliperama parou de fazer bip. O fogo parou de estalar, suas chamas endurecendo como vidro vermelho. As máscaras olhavam para Jason silenciosamente com seus olhos de uva grotescos e línguas de folhas de parreira.
— Quíron? — Jason perguntou. — O que está aconte...
O velho centauro congelara, também. Jason pulou do sofá, mas Quíron continuou olhando para o mesmo lugar, sua boca aberta no meio de uma afirmação. Seus olhos não piscavam. Seu peito não se mexia.
Jason, uma voz chamou.
Por um terrível momento, ele pensou que o leopardo estivesse falando. Então uma névoa escura espiralou da boca de Seymour, e um pensamento ainda pior ocorreu a Jason: espíritos da tempestade.
Ele pegou a moeda de ouro do seu bolso. Com um rápido arremesso, ela se transformou numa espada.
A névoa tomou a forma de uma mulher vestida com roupas negras. Seu rosto estava encapuzado, mas seus olhos brilhavam na escuridão. Sobre seus ombros ela usava uma capa de pele de cabra. Jason não tinha certeza de como sabia que era pele de cabra, mas ele a reconheceu e sabia que era importante.
Você atacaria a sua patrona? A mulher repreendeu. Sua voz ecoou na cabeça de Jason. Abaixe a espada.
— Quem é você? — ele exigiu. — Como você...
Nosso tempo é limitado, Jason. Minha prisão fica mais poderosa a cada hora. Precisei de um mês inteiro para reunir energia o suficiente para conseguir utilizar uma simples magia entre seus grilhões. Consegui trazer você aqui, mas agora não me resta muito tempo e até menos energia. Esta pode ser a última vez que falo com você.
— Você está numa prisão? — Jason decidiu que talvez ele não baixasse sua espada. — Olhe, eu não te conheço, e você não é minha patrona.
Você me conhece, ela insistiu. Eu conheço você desde o seu nascimento.
— Eu não lembro. Eu não me lembro de nada.
Não, você não lembra, ela concordou. Isso também foi necessário. Tempos atrás, seu pai me deu sua vida como presente para apaziguar minha raiva. Ele lhe nomeou Jason, por causa do meu mortal favorito. Você pertence a mim.
— Espera aí — Jason falou. — Eu não pertenço a ninguém.
Agora é a hora de pagar sua dívida, ela disse. Encontre minha prisão. Liberte-me, ou o rei deles irá erguer-se da terra e eu serei destruída. Você nunca recuperará sua memória.
— Isso é uma ameaça? Você roubou minhas memórias?
Você tem até o pôr do sol no solstício, Jason. Quatro curtos dias. Não me decepcione.
A mulher de preto se dissolveu, e a névoa entrou na boca do leopardo.
O tempo descongelou. O berro do Seymour veio numa tosse como se tivesse engolido uma bola de pelos. O fogo estalou para a vida, o fliperama fez bip, e Quíron disse:
— ... quem ousaria trazer-lhe aqui?
— Provavelmente a mulher na fumaça — Jason propôs.
Quíron olhou em surpresa.
— Você não estava sentado... por que você tem uma espada na mão?
— Odeio lhe dizer isso — Jason disse — mas eu acho que seu leopardo comeu uma deusa.
Ele contou para Quíron sobre a visita que fez o tempo parar, sobre a figura enevoada que desapareceu na boca de Seymour.
— Ah, meu caro — Quíron murmurou. — Isso explica muita coisa.
— Então por que você não me explica algumas delas? — Jason disse. — Por favor.
Antes que Quíron pudesse dizer alguma coisa, passos ecoaram na varanda do lado de fora. A porta da frente abriu com uma batida, e Annabeth e outra garota, uma ruiva, entraram correndo, arrastando Piper entre elas. A cabeça de Piper pendia, como se estivesse inconsciente.
— O que aconteceu? — Jason apressou-se. — O que há de errado com ela?
— Chalé de Hera — Annabeth ofegou, como se tivessem corrido por todo o caminho. — Visão. Ruim.
A garota ruiva olhou para cima, e Jason viu que ela estava chorando.
— Eu acho... — A garota ruiva tragou. — Eu acho que posso tê-la matado.

Capitulo VI - Leo






— COMO ELE MORREU? — Leo perguntou. — Digo, Beckendorf.Will Solace marchou em frente.— Explosão. Beckendorf e Percy Jackson explodiram um cruzeiro cheio de monstros. Beckendorf não resistiu.Lá estava aquele nome novamente – Percy Jackson, o namorado desaparecido de Annabeth. O cara parecia estar envolvido em tudo por aqui, Leo pensou.— Então Beckendorf era muito popular? — Leo perguntou. — Digo... antes de explodir?— Ele era impressionante — Will concordou. — Foi difícil para todo o acampamento quando ele morreu. Jake... ele se tornou conselheiro no meio da guerra. Do mesmo jeito que eu, na verdade. Jake deu o seu melhor, mas ele nunca quis ser líder. Ele só vive construindo coisas. Então, depois da guerra, as coisas começaram a dar errado. As bigas do chalé 9 explodiram. Seus autômatos ficaram loucos. Suas invenções começaram a dar problemas. Era como uma maldição e no fim as pessoas começaram a chamar isso assim mesmo: a Maldição do Chalé 9. Então Jake teve seu acidente...— Que tinha algo a ver com o problema que ele mencionou — Leo supôs.— Eles estão trabalhando nisso — Will falou sem entusiasmo. — E aqui estamos nós.A forja parecia uma locomotiva movida a vapor que batera no Partenon grego e ambos se fundiram. Colunas brancas de mármore acompanhavam as paredes manchadas de fuligem. A fumaça saía por uma elaborada chaminé, entalhada com desenhos de deuses e monstros. A estrutura estava no canto de um riacho, com várias turbinas girando uma série de engrenagens de bronze. Leo ouviu o rugir das máquinas, chamas crepitando e martelos batendo em bigornas.Eles passaram pela entrada, e uma dúzia de garotos e garotas que estavam trabalhando em vários projetos congelaram. O barulho morreu sob o ruído da forja e do click-click-click de engrenagens e alavancas.— E aí, galera — Will disse. — Esse é o novo irmão de vocês, Leo... hã, qual é o seu sobrenome?— Valdez — Leo percorreu os olhos pelos outros campistas.Ele realmente era parente de todos eles? Seus primos vinham de algumas grandes famílias, mas ele sempre teve apenas sua mãe – até ela morrer.Crianças subiram e começaram a apertar mãos e apresentarem-se. Seus nomes se misturaram juntos: Shane, Christopher, Nyssa, Harley (é, como a moto). Leo sabia que não podia decorar todos eles. Eram muitos. Muita pressão.Nenhum deles se parecia um com os outros – rostos de todos os diferentes tipos, tons de pele, cor do cabelo, altura. Você nunca pensaria, "Ei, olha, é a turma de Hefesto!" Mas todos eles tinham mãos poderosas, repletas com calos e manchas de graxa de motor. Até o pequeno Harley, que não devia ter mais que oito anos, parecia que podia ir a seis rounds contra Chuck Norris sem suar.E todas as crianças compartilhavam um triste tipo de seriedade. Seus ombros estavam caídos como se a vida os tivesse abatido duramente. Vários pareciam ter sido fisicamente abatidos, também. Leo contou dois braços com gesso, um par de muletas, um tapa-olho, seis bandagens e aproximadamente sete mil Band-Aids.— Ok, muito bem! — Leo disse. — Eu ouvi que esse é o chalé da festa!Ninguém riu. Todos apenas olharam para ele.Will Solace bateu de leve no ombro de Leo.— Eu vou deixar vocês se entenderem. Alguém pode levar Leo para jantar quando for a hora?— Eu posso — uma das garotas respondeu.Nyssa, Leo lembrou. Ela usava calças de camuflagem, uma regata que exibia seus braços musculosos e uma bandana vermelha sobre um punhado de cabelos negros. Exceto pelo seu Band-Aid sorridente no queixo, ela parecia uma daquelas heroínas de ação, como se a qualquer segundo ela fosse pegar uma metralhadora e começar a matar aliens do mal.— Legal — Leo disse. — Eu sempre quis uma irmã que pudesse me vencer.Nyssa não sorriu.— Vamos lá, piadista. Eu vou te mostrar tudo por aqui.

Leo não era nenhum desconhecido das oficinas. Ele crescera rodeado por ferramentas e graxa. Sua mãe costumava brincar que sua primeira chupeta foi um trocador de pneu. Mas ele nunca tinha visto um lugar como a forja do acampamento.Um rapaz estava trabalhando num machado de batalha. Ele ficava testando a lâmina numa placa de concreto. Cada vez que ele batia, o machado cortava a placa como se fosse de queijo quente, mas ele parecia insatisfeito e voltava para afiar a ponta.— O que ele está planejando abater com aquilo? — Leo perguntou para Nyssa. — Um encouraçado?— Impossível saber. Mesmo com o bronze celestial...— É esse o metal?Ela assentiu.— Extraído do próprio Monte Olimpo. Extremamente raro. Afinal, geralmente desintegra monstros só com um toque, mas grandes monstros poderosos muitas vezes tem couraças bem duras. Drakons, por exemplo...— Você quer dizer dragões?— Espécies similares. Você aprenderá a diferença na aula de luta com monstros.— Aula de luta com ombros. É, já consegui minha faixa preta lá.Ela não abriu um sorriso. Leo esperou que ela não fosse tão séria todo o tempo. O lado da família do seu pai tinha que ter algum senso de humor, certo?Eles passaram por alguns rapazes fazendo um brinquedo de corda. Pelo menos era o que parecia. Era um centauro de quinze centímetros – meio homem, meio cavalo – armado com um arco em miniatura. Um dos campistas acionou a manivela no rabo do centauro, e ele zumbiu em vida. Ele galopou pela mesa, gritando, “Morra, mosquito! Morra, mosquito!” e atirando em tudo no caminho.Aparentemente isso já havia acontecido antes, pois todos sabiam que deveriam atirar-se ao chão, exceto Leo. Seis flechas do tamanho de agulhas enterraram-se na sua camisa antes que um campista pegasse um martelo e esmagasse o centauro em pedaços.— Maldição estúpida! — O campista agitou o martelo no ar. — Eu só quero um matador mágico de insetos! É pedir muito?— Ai — Leo disse.Nyssa tirou as agulhas da sua camisa.— Ah, você está bem. Vamos continuar antes que eles o reconstruam.Leo esfregou o peito enquanto andavam.— Esse tipo de coisa acontece muito?— Nos últimos tempos — Nyssa disse — tudo que construímos vira sucata.— A maldição?Nyssa franziu a testa.— Eu não acredito em maldiçoes. Mas alguma coisa está errada. E se não descobrirmos o problema do dragão, isso vai ficar cada vez pior.— O problema do dragão? — Leo esperou que ela estivesse falando sobre um dragão em miniatura, talvez um que matasse baratas, mas ele teve a sensação que não teria tanta sorte.Nyssa o levou para um grande mapa de parede que um par de meninas estava estudando. O mapa mostrava o acampamento – um semicírculo de terra com o Estreito de Long Island na costa do norte, a floresta ao oeste, os chalés ao leste e um anel de colinas no sul.— Tem que ser nas colinas — a primeira garota disse.— Nós olhamos nas colinas — a segunda argumentou. — A floresta é um lugar melhor para se esconder.— Mas já colocamos armadilhas...— Espere — Leo disse. — Vocês perderam um dragão? Um dragão de tamanho real, verdadeiro?— É um dragão de bronze — Nyssa respondeu. — Mas sim, um autômato de tamanho real. O chalé de Hefesto o construiu anos atrás. Então ele se perdeu na floresta alguns verões passados, quando Beckendorf o encontrou em pedaços e o reconstruiu. Tem ajudado a proteger o acampamento, mas, hã, é um pouco imprevisível.— Imprevisível — Leo repetiu.— Fica louco e derruba chalés e incendeia as pessoas, tenta comer os sátiros.— É bastante imprevisível.Nyssa assentiu.— Beckendorf era o único que podia controlá-lo. Então ele morreu, e o dragão só foi ficando cada vez pior. No fim, ele ficou furioso e fugiu. Ocasionalmente ele aparece, destrói alguma coisa, e parte novamente. Todos esperamos encontrá-lo e destruí-lo...— Destruí-lo? — Leo estava pálido. — Vocês tem um dragão de bronze em tamanho real, e querem destruí-lo?— Ele solta fogo — Nyssa explicou. — É mortal e fora de controle.— Mas é um dragão! Cara, é impressionante. Você não pode tentar conversar com ele, controlá-lo?— Tentamos. Jake Mason tentou. Você viu como isso acabou bem.Leo pensou em Jake, enrolado num gesso, dormindo sozinho no seu beliche.— Mas...— Não temos opção — Nyssa virou para as outras garotas. — Vamos tentar colocar mais armadilhas na floresta... aqui, aqui e aqui. Encha-as com trinta litros de óleo de motor.— O dragão bebe isso? — perguntou Leo.— Bebe. — Nyssa suspirou pesarosamente. — Ele costumava gostar disso com um pouco de molho de pimenta, antes de dormir. Se ele pular numa armadilha, podemos entrar com pulverizadores ácidos... isso deve derreter sua couraça. Então entraremos com cortadores de metal e... e acabamos o trabalho.Todas pareciam tristes. Leo percebeu que elas não queriam matar o dragão tanto quanto ele queria.— Gente — ele disse. — Tem que haver outro jeito.Nyssa pareceu incerta, mas alguns outros campistas pararam com o que estavam trabalhando e amontoaram-se para ouvir a conversa.— Como o quê? — um perguntou. — A coisa solta fogo. Não podemos nem chegar perto.Fogo, Leo pensou. Ah, cara, as coisas que ele podia dizer para eles sobre fogo... Mas ele tinha que ser cuidadoso, mesmo se esses fossem seus irmãos e irmas. Especialmente se ele tivesse que viver com eles.— Bem... — Ele hesitou. — Hefesto é o deus do fogo, certo? Então ninguém de vocês tem, tipo, resistência ao fogo ou algo parecido?Ninguém agiu como se fosse uma pergunta louca, o que era um alívio, mas Nyssa balançou a cabeça gravemente.— É uma habilidade dos ciclopes, Leo. Semideuses filhos de Hefesto... somos apenas bons com nossas mãos. Somos construtores, artesãos, fabricantes de armas... coisas assim.Os ombros de Leo caíram.— Ah.Um garoto no fundo disse:— Bem, um longo tempo atrás...— Sim, ok — Nyssa reconheceu. — Um longo tempo atrás algum filho de Hefesto nasceu com poder sobre o fogo. Mas aquela habilidade era muito, muito rara. E sempre perigosa. Nenhum semideus assim nasceu em séculos. O último… — Ela olhou para um dos garotos por ajuda.— 1666 — a garota ofereceu. — Cara chamado Thomas Faynor. Ele começou o Grande Incêndio de Londres, destruiu quase toda a cidade.— Certo — Nyssa disse. — Quando uma criança de Hefesto assim aparece, normalmente significa que algo catastrófico esta prestes a acontecer. E não precisamos de mais nenhuma catástrofe.Leo tentou manter seu rosto limpo de emoção, o que não era seu ponto forte.— Acho que estou entendendo. Muito mau, porém. Se você pudesse resistir as chamas, poderia chegar perto do dragão.— Então ele te mataria com suas garras e dentes — Nyssa rebateu. — Ou simplesmente pisaria em você. Não, temos que destruí-lo. Confie em mim, se alguém pudesse descobrir outra resposta...Ela não terminou, mas Leo captou a mensagem. Esse era o grande teste do chalé. Se eles pudessem fazer algo que só Beckendorf podia fazer, se pudessem subjugar o dragão sem matá-lo, então talvez a sua maldição seria retirada. Mas eles estavam vazios de ideias. Qualquer campista que descobrisse como, seria um herói.Uma trombeta de concha soprou à distância. Campistas começaram a levantar suas ferramentas e projetos. Leo não havia percebido que havia ficado tão tarde, mas ele olhou pela janela e viu o sol baixando. Seu TDAH fazia isso com ele Às vezes. Se ele estava aborrecido, uma aula de cinquenta minutos parecia ter seis horas. Se ele estava interessado em alguma coisa, como fazer um tour no acampamento semideus, as horaspassavam despercebidas e bam – o dia havia acabado.— Jantar — Nyssa disse. — Vamos, Leo.— Lá no pavilhão, certo? — ele perguntou.Ela assentiu.— Vocês vão na frente — Leo disse. — Você pode... me dar um segundo?Nyssa hesitou. Depois sua expressão derreteu.— Certo. É muito para processar. Lembro do meu primeiro dia. Suba quando estiver pronto. Apenas não toque em nada. Quase todos os projetos aqui podem te matar se não for cuidadoso.— Não vou tocar em nada — Leo prometeu.Seus companheiros saíram da forja. Logo, Leo estava sozinho com os sons dos foles, turbinas e pequenas máquinas clicando e zunindo.Ele olhou para o mapa do acampamento – os locais onde seus novos irmãos iriam colocar armadilhas para pegar um dragão. Estava tudo errado. O plano era equivocado. Muito disperso, ele pensou. E também perigoso.Ele estendeu sua mão e estudou seus dedos. Eles eram longos e finos, e não cheio de calos como os dos outros campistas de Hefesto. Leo nunca fora o garoto maior ou mais forte. Ele sobreviveu em bairros violentos, escolas duras e casas de adoção complicadas usando o que sabia fazer de melhor. Ele era o palhaço da sala, o bobo da corte, porque aprendeu cedo que quem faz piadas e finge não estar assustado, geralmente não recebe os golpes. Até o menino mais malvado iria lhe tolerar, mantê-lo por perto para rir um pouco. E mais, humor era um bom jeito de esconder a dor. E se isso não funcionasse, sempre haveria o Plano B. Fugir. Quantas vezes fosse preciso.E havia um Plano C, mas ele prometera a si próprio nunca usá-lo de novo.Ele sentiu um impulso de tentar agora – algo que ele não fizera desde o acidente, desde a morte de sua mãe. Ele estendeu seus dedos e os sentiu formigando, como se estivessem acordando. Então chamas trêmulas ganharam vida, ondulações de fogo vermelho dançando pela sua palma.






Capitulo V - Leo

O TOUR DE LEO ESTAVA SENDO ÓTIMO ATÉ ele descobrir sobre o dragão.
O arqueiro, Will Solace, parecia bastante legal. Tudo que ele mostrava para Leo era tao incrível, só podia ser ilegal. Verdadeiros navios de guerra gregos ancorados na praia que às vezes eram usados para lutas com flechas em chamas e explosivos? Ótimo! Aulas de artes & ofícios onde você pode fazer esculturas com motosserras e maçaricos? Leo estava, tipo, Me inscreva! A floresta era cheia de monstros perigosos, e ninguém deveria entrar lá sozinho? Perfeito!
E o acampamento estava inundado de garotas bonitas. Leo não entendeu muito bem a história de parentes de deuses, mas esperou que não significasse que ele era primo de todas aquelas meninas. Isso seria péssimo. No mínimo, ele queria olhar aquelas garotas submersas no lago novamente. Elas eram definitivamente algo pelo que valia a pena se afogar.
Will mostrou os chalés, o pavilhão de jantar e a arena de espadas.
— Vou ter uma espada? — Leo perguntou.
Will olhou para ele como se achasse a ideia perturbadora.
— Você provavelmente fará a sua própria, já que está no Chalé 9.
— Sim, o que tem lá? Vulcano?
— Geralmente não chamamos os deuses pelos seus nomes romanos — Will explicou. — Os nomes originais são gregos. Seu pai é Hefesto.
— Festo? — Leo ouvira alguém dizer aquilo antes, mas ele ainda estava desanimado. — Parece o deus dos cowboys.
— He-festo — Will corrigiu. — Deus dos ferreiros e do fogo.
Leo também ouvira aquilo, mas estava tentando não pensar sobre isso. O deus do fogo... sério? Considerando o que aconteceu com a sua mãe, aquilo parecia uma brincadeira sem graça.
— Então o martelo flamejante sobre minha cabeça — Leo disse. — Coisa boa ou coisa má?
Will demorou um pouco para responder.
— Você foi reclamado quase imediatamente. Isso geralmente é bom.
— Mas aquele cara do arco-iris e dos pôneis, Butch, mencionou uma maldição.
— Ah... olhe, não é nada. Desde que o último conselheiro do Chalé 9 morreu...
— Morreu? Tipo, dolorosamente?
— Eu devo deixar seus companheiros de chalé lhe falar sobre isso.
— Sim, onde estão meus companheiros de chalé? O conselheiro deles não deveria estar me dando um tour VIP?
— Ele, hã, não pode. Você verá por quê — Will o impeliu para frente antes que Leo pudesse fazer mais perguntas.
— Maldições e morte — Leo disse para si. — Isso fica cada vez melhor.


Leo estava na metade do caminho através do campo quando ele localizou sua antiga babá. E ela não era o tipo de pessoa que ele esperava ver num acampamento de semideuses.
Leo congelou no caminho.
— Qual é o problema? — Will perguntou.
Tía Callida – Tiazita Callida. Era como ela chamava a si mesma, mas Leo não a via desde que ele tinha cinco anos de idade. Ela estava simplesmente parada ali, na sombra de um grande chalé branco no fim do campo, observando-o. Ela usava seu vestido de viúva de linho preto, com um xale preto colocado sobre sua cabeça. Seu rosto não mudou — pele parecendo couro, olhos negros penetrantes. Suas mãos secas eram como garras. Ela parecia velha, mas não havia nenhuma diferença que Leo notasse.
— Aquela velhinha... — Leo disse. — O que ela esta fazendo aqui?
Will seguiu o seu olhar.
— Que velhinha?
— Cara, a única velhinha. A vestida de preto. Quantas velhinhas você vê por aqui?
Will franziu a testa.
— Acho que você teve um longo dia, Leo. A Névoa ainda pode estar fazendo truques na sua mente. Que tal se formos direto para seu chalé agora?
Leo queria protestar, mas quando olhou de volta para o grande chalé branco, Tía Callida havia partido. Ele tinha certeza que ela estava ali, quase como se pensar em sua mãe houvesse convocado Callida de volta do passado. E aquilo não era bom, pois Tía Callida tentara matá-lo.
— Só brincando com você, cara — Leo puxou algumas engrenagens e alavancas dos bolsos e começou a remexê-las para acalmar os nervos. Ele não podia ter todos no acampamento pensando que ele era louco. Pelo menos, não mais louco do que ele realmente era.
— Vamos ver o Chalé 9 — ele disse. — Estou com ânimo para uma boa maldição.
Do lado de fora, o chale de Hefesto parecia um grande trailer com reluzentes paredes de metal e janelas com lâminas de metal. A entrada era tipo uma porta de cofre, circular com alguns metros de espessura. Abriu com várias engrenagens girando e êmbolos hidráulicos soprando fumaça.
Leo assobiou.
— Eles conseguiram um tema bem legal, hein?
Dentro, o chalé parecia deserto. Beliches de aço estavam dobrados nas paredes como camas high-tech. Cada um tinha um painel de controle digital, luzes LED piscando, lâmpadas brilhantes e engrenagens interligadas. Leo deduziu que cada campista tinha sua própria combinação para liberar sua cama, e provavelmente tinha uma câmara de armazenamento atrás, talvez algumas armadilhas para afastar visitantes indesejados. Pelo menos seria assim que Leo teria desenhado. Um mastro descia do segundo andar, ainda que o chalé nao parecesse ter um segundo andar olhando pelo lado de fora. Uma escadaria circular descia para algum tipo de porão. As paredes estavam alinhadas com todo o tipo de instrumento de poder que Leo podia imaginar, mais uma grande variedade de facas, espadas, e outras ferramentas de destruição. Uma grande banca transbordava de sobras de metal — parafusos, pinos, arruelas, pregos, rebites e um milhão de outros pedaços de máquina. Leo teve um grande impulso para enfiar tudo nos bolsos do seu casaco. Ele amava aquele tipo de coisa. Mas ele precisaria de mais cem casacos para guardar tudo.
Olhando ao redor, ele podia quase imaginar que estava de volta à loja de ferragens da sua mãe. Não pelas armas, claro... mas pelas ferramentas, as pilhas de sucatas, o cheiro de graxa e metal e motores quentes. Ela teria amado esse lugar.
Ele repeliu aquele pensamento. Ele não gostava de memórias dolorosas. Siga em frente — esse era seu lema. Não insista nas coisas. Não fique em um lugar por muito tempo. Era o único jeito de enfrentar a tristeza.
Ele pegou um instrumento comprido da parede.
— Um cortador de grama? O que o deus do fogo faria com um cortador de grama?
Uma voz nas sombras falou:
— Você se surpreenderia.
No fundo do quarto, um dos beliches estava ocupado. Uma cortina escura de material de camuflagem foi recolhida, e Leo pode ver o rapaz que estava invisível a um segundo atrás. Era difícil dizer como ele era, porque estava coberto de gesso no corpo. Sua cabeça estava toda enfaixada, exceto o rosto, que estava inchado e ferido. Ele parecia um boneco de gesso depois de uma luta.
— Eu sou Jake Mason — o rapaz disse. — Eu apertaria sua mão, mas...
— Sim — Leo disse. — Não levante.
O garoto abriu um sorriso, então estremeceu, como se mexer o rosto doesse. Leo queria saber o que aconteceu com ele, mas teve medo de perguntar.
— Bem-vindo ao Chalé 9 — Jake disse. — Faz muito tempo desde que tivemos novas pessoas. Eu sou o conselheiro por enquanto.
— Por enquanto? — Leo perguntou.
Will Solace limpou a garganta.
— Então onde está todo o mundo, Jake?
— Embaixo, nas forjas — Jake disse saudosamente. — Eles estão trabalhando no... você sabe, aquele problema.
— Ah — Will mudou o assunto. — Então, você conseguiu uma cama extra para Leo?
Jake estudou Leo, calculando sua altura.
— Você acredita em maldições, Leo? Ou fantasmas?
Eu acabei de ver minha babá do mal, Tía Callida, Leo pensou. Ela tinha que estar morta depois de todos esses anos. E eu não posso ficar um dia sem lembrar minha mãe no incêndio naquela loja de ferragens. Não fale para mim sobre fantasmas, soldado.
Mas em voz alta, ele respondeu:
— Fantasmas? Aha. Não. Eu sou tranquilo. Um espírito da tempestade me atirou no Grand Canyon essa manhã, mas você sabe, tudo num dia de trabalho, certo?
Jake assentiu.
— Que bom. Porque eu vou lhe dar a melhor cama no chalé: a de Beckendorf.
— Uau, Jake — Will disse. — Tem certeza?
Jake gritou:
— Beliche 1-A, por favor.
Todo o chale tremeu. Uma sessão circular do chão espiralou-se e abriu como a lente de uma câmera, e uma cama enorme apareceu repentinamente. A armação de bronze tinha uma estação de jogo embutido no pé, um sistema estéreo na cabeceira, um refrigerador com porta de vidro montado na base, e um grupo inteiro de painéis de controle funcionado no lado.
Leo pulou na cama e deitou-se com os braços embaixo da cabeça.
— Acho que posso aguentar.
— Quando desce, ela se transforma em um quarto privado — Jake disse.
— Ah, hum, ok — Leo disse. — Até mais tarde então. Vou estar lá na Caverna do Leo. Que botão eu aperto?
— Pera aí — Will Solace protestou. — Vocês tem quartos privados subterrâneos?
Jake provavelmente teria sorrido se não doesse tanto.
— Nós temos vários segredos, Will. Vocês de Apolo não podem ter toda a diversão. Nossos campistas estiveram escavando um sistema de túneis sob o Chalé 9 por quase um século. Ainda nem encontramos o fim. Aliás, Leo, se você não se importa em dormir na cama de um homem morto, ela é sua.
Subitamente, Leo não quis mais ficar deitado. Ele sentou-se, tomando cuidado para não tocar em nenhum dos botões.
— O conselheiro-chefe que morreu? Essa era sua cama?
— Sim — Jake disse. — Charles Beckendorf.
Leo imaginou serrotes vindo pelo colchão, ou talvez uma granada costurada dentro dos travesseiros.
— Ele não, tipo, morreu nesta cama, morreu?
— Nao — Jake disse. — Ele morreu na Guerra dos Titãs, no último verão.
— A Guerra dos Titãs — Leo repetiu — que não tem nada a ver com essa cama superlegal?
— Os Titãs — Will disse, como se Leo fosse um idiota. — Os caras mais poderosos que governavam o mundo antes dos deuses. Eles tentaram fazer um retorno no último verão. O líder deles, Cronos, construiu um novo palácio no topo do Monte Tam na California. Seus exércitos vieram para Nova York e quase destruíram o Monte Olimpo. Vários semideuses morreram tentando pará-los.
— E suponho que isso não estava nos noticiários? — Leo disse.
Parecia como uma pergunta limpa, mas Will sacudiu a cabeça em descrença.
— Você não ouviu sobre o Monte Santa Helena em erupção ou as esquisitas tempestades atravessando o país ou aquele colapso da construção em St. Louis?
Leo deu de ombros. No último verão, ele estivera fugindo de outra família adotiva. Então um policial o pegou no Novo México, e a justiça o enviou ao reformatório mais próximo — a Escola da Vida Selvagem.
— Acho que estava ocupado na época.
— Não importa — Jake disse. — Você teve sorte de perder isso. A coisa é, Beckendorf foi uma das primeiras baixas, e desde então...
— Seu chalé foi amaldiçoado — Leo adivinhou.
Jake não respondeu. Mas seu corpo estava completamente engessado. Aquela era uma resposta. Leo começou a notar pequenas coisas que ele não vira antes — uma marca de explosão na parede, uma mancha no chão que podia ser óleo... ou sangue. Espadas quebradas e máquinas esmagadas jaziam nos cantos do quarto, talvez fora de funcionamento. O lugar se sentia infeliz.
Jake suspirou demoradamente.
— Bem, eu devia descansar um pouco. Espero que você goste daqui, Leo. Costumava ser... realmente legal.
Ele fechou os olhos, e a cortina de camuflagem caiu sobre a cama.
— Vamos lá, Leo — Will disse. — Vou te levar nas forjas.
Enquanto eles iam, Leo olhou de volta para sua nova cama, e ele quase podia imaginar um conselheiro morto sentando ali — outro fantasma que não deixaria Leo sozinho.








Capitulo IV - Piper






PIPER LOGO PERCEBEU QUE O CORAÇÃO DE ANNABETH não estava no passeio.
Ela falou sobre todas essas coisas surpreendentes que o acampamento oferecia – arco e flecha mágico, equitação de pégaso, a parede de escalada com lava, luta com monstros – mas ela não demonstrou nenhuma animação, como se sua mente estivesse em outro lugar. Ela apontou para o pavilhão de jantar ao ar livre que contemplava do alto o Estreito de Long Island. (Sim, Long Island, Nova York; eles haviam viajado aquela distância na biga.) Annabeth explicou que o Acampamento Meio-Sangue era na maior parte um acampamento de verão, só que alguns garotos ficavam aqui quase o ano inteiro, e eles tinham adicionado tantos campistas que sempre estava cheio agora, até no inverno.
Piper queria saber quem dirigia o acampamento, e como eles sabiam que Piper e seus amigos eram membros dali. Ela queria saber se teria que ficar em tempo integral ou se teria alguma vantagem nas atividades. Alguém poderia ser reprovado em luta com monstros? Milhões de perguntas borbulhavam na sua cabeça, mas dado o ânimo de Annabeth, ela decidiu ficar quieta.
Enquanto elas subiam uma colina na beira do acampamento, Piper se virou e teve uma incrível visão do vale – uma grande extensão de florestas ao noroeste, uma linda praia, o riacho, o lago de canoagem, magníficos campos verdes e os chalés – um bizarro agrupamento de construções, arranjados na forma de um ômega (Ω) com um gramado no centro e dois anexos nas extremidades. Piper contou vinte chalés. Um brilhava a ouro, outro a prata. Um tinha grama no telhado. Outro era vermelho vivo com trincheiras de arame farpado. Um chalé era preto com ardentes tochas verdes na frente. Tudo isso parecia como um mundo diferente das colinas nevadas e campos do lado de fora.
— O vale é protegido dos olhos mortais — Annabeth explicou. — Como você pode ver, o clima é controlado, também. Cada chalé representa um deus grego, e neles vivem os filhos desses deuses.
Ela observava Piper como se estivesse tentando avaliar como a garota estava recebendo aquelas novidades.
— Você está dizendo que minha mãe é uma deusa?
Annabeth assentiu.
— Você está aceitando isso muito bem.
Piper não pôde dizer a ela o porque. Ela não podia admitir que isso só confirmava algumas misteriosas sensações que ela teve por anos, discussões que ela tivera com seu pai sobre o porquê de não haverem fotos da mãe na casa, e o motivo de o pai nunca ter lhe contado exatamente como ou por quê sua mãe havia deixado-os. Mas principalmente, o sonho havia alertado-a que isso estava vindo. Logo eles a encontrarão, semideusa, aquela voz ressou. Quando eles lhe encontrarem, siga nossas instruções. Colabore, e seu pai poderá viver.
Piper tomou fôlego.
— Acho que depois dessa manhã, é um pouco mais fácil de acreditar. Então, quem é minha mãe?
— Devemos saber logo — Annabeth disse. — Você tem o que... quinze anos? Os deuses deviam ter te reclamado quando tinha treze. Esse foi o acordo.
— Acordo?
— Eles fizeram uma promessa no último verão... bem, é uma longa historia... mas eles prometeram não ignorar seus filhos semideuses, não mais, e reclamá-los na hora em que fizessem treze anos. Às vezes demora um pouco, mas você viu como foi rápido para Leo ser reclamado quando chegou aqui. Deve acontecer com você em breve. De noite, na fogueira, aposto que teremos um sinal.
Piper queria saber se ela teria um grande martelo flamejante sobre a cabeça ou, com sua sorte, algo até mais embaraçoso. Um golfinho flamejante, talvez. Quem quer que fosse sua mãe, Piper não tinha razão para pensar que ela estaria orgulhosa de reclamar uma filha cleptomaníaca com tantos problemas.
— Por que treze anos?
— Quanto mais velhos vocês ficam — Annabeth disse — mais facilmente são notados pelos monstros, que vão tentar matá-los. Por volta dos treze anos geralmente isso começa. É por isso que mandamos protetores nas escolas, para encontrá-los e trazê-los ao acampamento antes que seja tarde demais.
— Como o treinador Hedge?
Annabeth fez que sim.
— Ele... ele é um sátiro: meio homem, meio bode. Sátiros trabalham para o acampamento, encontrando semideuses, protegendo-os, trazendo-os enquanto ainda há tempo.
Piper não tinha problemas para acreditar que o treinador Hedge era metade bode. Ela vira-o comer. Nunca gostou muito do treinador, mas não podia acreditar que ele se sacrificara para salvá-los.
— O que aconteceu com ele? — ela perguntou. — Quando subimos nas nuvens, ele... ele se foi para sempre?
— Difícil dizer. — A expressão de Annabeth estava aflita. — Espíritos da tempestade... são difíceis de combater. Mesmo nossas melhores armas, de bronze celestial, passam através deles, a não ser que você consiga pegá-los de surpresa.
— A espada de Jason transformou-os em pó — Piper lembrou.
— Ele teve sorte, então. Se você acerta em cheio um monstro, você pode dissolvê-los, enviar a sua essência de volta ao Tártaro.
— Tártaro?
— Um abismo imenso no Mundo Inferior de onde os piores monstros vem. Um tipo de buraco de maldade sem fundo. De qualquer jeito, quando um monstro é desintegrado, geralmente leva meses, anos até que possa se reformar. Mas desde que esse espírito da tempestade, Dylan, escapou... bem, eu não sei por que ele manteria Hedge vivo. Hedge era um protetor, entretanto. Ele conhecia os riscos. Sátiros não tem almas mortais. Ele irá reencarnar como uma árvore, flor ou alguma coisa assim.
Piper tentou imaginar o treinador Hedge como uma moita irritada de amor-perfeito. Aquilo a fez sentir-se pior ainda.
Ela olhou fixamente para os chalés abaixo, e uma sensação preocupante a tomou. Hedge morrera para trazê-la aqui em segurança. O chalé da sua mãe estava em algum lugar ali embaixo, o que significava que ela tinha irmãos e irmas, mais pessoas a quem ela trairia.
Faça o que dissermos, a voz tinha dito. Ou as consequências serão dolorosas.
Ela fechou as mãos em punhos sob os braços cruzados, tentando fazê-las parar de tremer.
— Vai ficar tudo bem — Annabeth prometeu. — Você tem amigos aqui. Todos nós temos vivido coisas esquisitas. Sabemos o que você está passando.
Duvido, Piper pensou.
— Eu fui expulsa de cinco escolas diferentes nesses últimos cinco anos — ela disse. — Meu pai não sabe mais onde me matricular.
— Só cinco? — Annabeth não soava como se estivesse provocando. — Piper, todos aqui somos encrenqueiros qualificados. Eu fugi de casa quando tinha sete anos.
— Sério?
— Ah, sim. A maior parte de nós e diagnosticada com transtorno de déficit de atenção ou dislexia, ou ambos...
— Leo tem TDAH — Piper disse.
— Certo. É porque somos preparados para a batalha. Agitados, impulsivos... não nos saímos bem entre as crianças normais. Você devia ouvir quantas encrencas Percy... — seu rosto ficou sério. — De qualquer jeito, semideuses conseguem uma má reputação. Como você arrumou encrenca?
Normalmente quando alguém fazia aquela pergunta, Piper começava uma briga, ou mudava de assunto, ou causava algum tipo de distração. Mas por algum motivo ela achou-se falando a verdade.
— Eu roubo coisas — ela disse. — Bem, não exatamente roubo...
— Sua família é pobre?
Piper riu amargamente.
— Não mesmo. Eu fazia isso... não sei por quê. Para chamar atenção, acho. Meu pai nunca tinha tempo para mim a menos que eu estivesse em apuros.
Annabeth assentiu.
— Eu posso entender. Mas você disse que não roubava exatamente. O que você quis dizer?
— Bem... ninguém nunca acredita em mim. A polícia, professores... até as pessoas de quem eu roubava: elas ficavam constrangidas, negavam tudo. Mas a verdade é que eu não roubo nada. Eu apenas peço coisas para as pessoas. E eles me dão. Até uma BMW conversivel. Eu só pedi. E o revendedor disse “Certo. Leve.” Depois, ele percebeu o que fez, acho. Então a policia veio atrás de mim.
Piper esperou. Ela estava costumada as pessoas chamando-a de mentirosa, mas quando ergueu os olhos, Annabeth apenas assentiu.
— Interessante. Se seu pai fosse o deus, eu diria que você é uma criança de Hermes, deus dos ladrões. Ele pode ser bastante persuasivo. Mas seu pai é mortal...
— Muito — Piper concordou.
Annabeth sacudiu a cabeça, aparentemente iludida.
— Eu não sei, então. Com sorte, sua mãe irá lhe reclamar ainda esta noite.
Piper quase esperou que isso não acontecesse. Se sua mãe fosse uma deusa, ela saberia sobre aquele sonho? Ela saberia o que Piper fora pedida para fazer? Piper queria saber se deuses olimpianos alguma vez detonaram seus filhos com raios por serem maus ou os mandaram para o Mundo Inferior.
Annabeth a estudava. Piper decidiu que teria de ser cuidadosa com o que diria agora. Annabeth era obviamente bastante esperta. Se alguém descobrisse seu segredo...
— Vamos lá — Annabeth disse finalmente. — Há uma coisa a mais que eu preciso checar.
Elas andaram um pouco mais até que alcançaram uma caverna perto do topo da colina. Ossos e espadas velhas espalhavam-se no chão. Tochas ladeavam a entrada, que estava coberta com uma cortina de veludo enfeitada com cobras. Parecia o cenário para algum tipo de show de marionetes.
— O que tem ai? — Piper perguntou.
Annabeth deu uma espiada, então suspirou e fechou as cortinas.
— Agora, nada. O lugar é de uma amiga. Estive esperando-a por alguns dias, mas até agora, nada.
— Sua amiga mora numa caverna?
Annabeth quase sorriu.
— Na verdade, a família dela tem um condomínio de luxo no Queens, e ela frequenta uma escola de moças em Connecticut. Mas quando ela está aqui no acampamento, sim, ela mora na caverna. Ela é nosso oráculo, prevê o futuro. Eu estava esperando que ela pudesse me ajudar...
— A encontrar Percy — Piper supôs.
Toda a energia drenou-se de Annabeth, como se ela estivesse segurando-a o máximo que podia. Ela sentou numa rocha, e sua expressão estava tão cheia de dor, que Piper sentiu-se mal por estar ali olhando.
Ela forçou-se a olhar para outro lado. Seus olhos flutuaram para o topo da colina, onde um pinheiro solitário dominava o horizonte. Algo brilhava no seu galho mais baixo – como um tapete felpudo e dourado. Não... Não um tapete. Era uma pele de carneiro.
Ok, Piper pensou. Acampamento grego. Eles tinham uma réplica do Velocino de Ouro.
Então ela notou a base da árvore. No começo ela pensou que a árvore estava enrolada numa pilha de cabos roxos. Mas os cabos tinham escamas reptilianas, patas com garras, e uma cabeça parecida com a de uma cobra com olhos amarelos e narinas fumegantes.
— Aquilo é... um dragão — ela gaguejou. — Aquele é o Velocino de Ouro verdadeiro?
Annabeth assentiu, mas estava claro que ela não estava realmente ouvindo. Seus ombros abaixaram. Ela esfregou o rosto e respirou fundo.
— Desculpe. Estou um pouco cansada.
— Você parece a ponto de desmoronar — Piper disse. — Há quanto tempo está procurando pelo seu namorado?
— Três dias, seis horas, e aproximadamente vinte minutos.
— E você não tem ideia do que aconteceu com ele?
Annabeth balançou a cabeça miseravelmente.
— Estávamos tão animados porque nossas férias de verão tinham começado mais cedo. Nós nos encontraríamos no acampamento na terça-feira, calculamos que tínhamos três semanas juntos. Seria incrível. Então, depois da fogueira, ele... me deu um beijo de boa noite, voltou para o seu chalé, e na manhã seguinte, havia sumido. Procuramos pelo acampamento inteiro. Contatamos sua mãe. Tentamos alcançá-lo de todas as maneiras que sabemos. Nada. Ele simplesmente desapareceu.
Piper estava pensando: Três dias atrás. A mesma noite que ela tivera seu sonho.
— Há quanto tempo vocês dois estão juntos?
— Desde agosto — Annabeth disse. — Dezoito de agosto.
— Quase a mesma época quando conheci Jason — Piper disse. — Mas só ficamos juntos por algumas semanas.
Annabeth estremeceu.
— Piper... sobre isso. Talvez você devesse sentar-se.
Piper sabia onde isso ia dar. Pânico começou a crescer dentro dela, como se os pulmões estivessem cheios d’água.
— Olhe, eu sei que Jason pensa... ele pensa que simplesmente apareceu na nossa escola hoje. Mas não é verdade. Eu o conheço há quatro meses.
— Piper — Annabeth disse tristemente. — É a Névoa.
— O quê?
— N-é-v-o-a. É um tipo de véu que separa o mundo mortal do mundo mágico. Mentes mortais... elas não podem processar coisas estranhas como deuses e monstros, então a Névoa distorce a realidade. Faz mortais verem coisas de um modo que eles possam entender... é como se os olhos deles simplesmente não notassem esse vale, ou eles pudessem olhar para aquele dragão e ver uma pilha de cabos.
Piper engoliu em seco.
— Não. Você mesma disse que eu não sou uma mortal comum. Eu sou uma semideusa.
— Até mesmo semideuses podem ser afetados. Eu vi isso várias vezes. Monstros infiltram-se em lugares como escolas, passam-se por humanos, e todos acham que lembram daquela pessoa. Eles acreditam que ela sempre esteve por perto. A Névoa pode manipular memórias, até mesmo criar lembranças de coisas que nunca aconteceram...
— Mas Jason não é um monstro! — Piper insistiu. — Ele é um humano, ou semideus, ou como você quiser chamá-lo. Minhas memórias não são falsas. Elas são muito reais. O dia em que nós colocamos fogo nas calças do Treinador Hedge. A vez que Jason e eu assistimos uma chuva de meteoros no telhado do dormitório e eu finalmente consegui fazer com que o bobo me beijasse...
Ela encontrou-se falando, contando para Annabeth sobre todo o seu semestre na Escola da Vida Selvagem. Ela havia gostado de Jason desde a primeira semana que se encontraram. Ele era tão bondoso com ela, tão paciente, conseguia até aturar o hiperativo Leo e suas estúpidas brincadeiras. Ele havia aceitado-a por ser ela mesma e não a julgou por causa das besteiras que ela fizera. Eles gastaram horas conversando, olhando para as estrelas, e... finalmente... dado as mãos. Tudo aquilo não podia ser mentira.
Annabeth franziu os lábios.
— Piper, suas memórias são mais detalhadas que a maioria. Vou admitir isso e não sei por que. Mas se você o conhece tão bem...
— Eu conheço!
— Então de onde ele é?
Piper sentiu-se como se fosse atingida entre os olhos.
— Ele deve ter me dito, mas...
— Você já havia notado a tatuagem dele? Ele já lhe disse alguma coisa sobre seus pais, ou seus amigos, ou sua última escola?
— Eu... eu não sei, mas...
— Piper, qual é o sobrenome dele?
Sua mente ficou vazia. Ela não sabia o sobrenome de Jason. Como era possível?
Ela começou a chorar. Ela se sentiu uma completa tola, mas sentou-se na rocha do lado de Annabeth e sentiu-se quebrada em pedaços. Era muito. Tudo que era bom na sua vida estúpida e miserável tinha que ser tirado?
Sim, o sonho lhe havia dito. Sim, a menos que você faça exatamente o que dissermos.
— Hey — Annabeth disse. — Vamos descobrir. Jason está aqui agora. Quem sabe? Talvez vocês se resolvam realmente.
Não é provável, Piper pensou. Não se o sonho for verdade. Mas ela não podia falar isso.
Ela limpou uma lágrima da bochecha.
— Você me trouxe aqui para que ninguém me visse chorando, não é?
Annabeth deu de ombros.
— Pensei que seria difícil para você. Eu sei como é perder um namorado.
— Mas eu ainda não posso acreditar... Eu sei que tivemos algo. E agora simplesmente se foi, ele nem me reconhece. Se ele realmente só apareceu hoje, então por quê? Como ele chegou aqui? Por que ele não pode se lembrar de nada?
— Boas perguntas — Annabeth disse. — Esperamos que Quíron possa compreender isso. Mas agora, precisamos deixar você arrumada. Está pronta para voltar lá pra baixo?
Piper fitou o louco agrupamento de chalés no vale. Sua nova casa, uma família que, supostamente, a entendia – mas em breve eles seriam apenas mais um grupo de pessoas que ela desapontaria, mais um lugar de onde ela seria expulsa.
Você irá traí-los por nós, a voz lhe alertara. Ou você perderá tudo. Ela não tinha escolha.
— Sim — ela mentiu. — Estou pronta.

No campo central, um grupo de campistas estava jogando basquete. Eles eram jogadores incríveis  Nenhum errava o aro. Cestas de três pontos entravam automaticamente.
— Chalé de Apolo — Annabeth explicou. — Adoram se exibir com projéteis, flechas, bolas de basquete.
Elas passaram por um pátio que ficava no meio de tudo, onde dois rapazes lutavam com espadas.
— Lâminas reais? — Piper notou. — Não é perigoso?
— Corta essa... — Annabeth disse. — Ah, desculpe. Trocadilho ruim. Aquele é o meu chalé. Número 6.
Ela indicou uma construção cinza com uma coruja esculpida sobre a porta. Através da entrada aberta, Piper pode ver prateleiras de livros, um mostruário de armas e uma daquelas lousas digitais que se tem em salas de aula. Duas garotas estavam desenhando um mapa que parecia com um diagrama de batalha.
— Falando em lâminas — Annabeth continuou — venha aqui.
Ela levou Piper para o lado do chalé, para um grande abrigo de metal que parecia que fora feito para instrumentos de jardinagem. Annabeth destrancou-o, e dentro não havia nenhum instrumento de jardinagem, a menos que alguém quisesse fazer uma guerra em suas plantações de tomate. O abrigo estava alinhado com todos os tipos de armas – de espadas e arpões a tacos como o do treinador Hedge.
— Todo semideus precisa de uma arma. Hefesto faz as melhores, mas temos uma boa seleção, também. Atena é sinônimo de estratégia: encontrar a arma perfeita para a pessoa certa. Vamos ver...
Piper não estava muito no clima para uma tarde de compras de apetrechos mortíferos, mas ela sabia que Annabeth estava tentando fazer algo bondoso para ela. Annabeth lhe ofereceu uma pesada espada, que Piper dificilmente conseguiria levantar.
— Não — ambas disseram ao mesmo tempo.
Annabeth procurou um pouco mais longe no galpão e trouxe outra coisa.
— Uma espingarda? — Piper perguntou.
— Mossberg 500 — Annabeth engatilhou a arma como se aquilo não fosse nada demais. — Não se preocupe. Não fere humanos. Foi modificada para atirar bronze Celestial, então só mata monstros.
— Hã, eu não acho que seja meu estilo — Piper disse.
— Hum, sim — Annabeth concordou. — Muito espalhafatosa.
Ela colocou a espingarda de volta e começou a remexer em uma prateleira de bestas quando algo no canto do galpão chamou a atenção de Piper.
— O que é aquilo? — ela disse. — Uma faca?
Annabeth tirou-a e assoprou a poeira da bainha. Parecia não ter visto a luz do dia por séculos.
— Não sei, Piper — Annabeth soou inquieta. — Não acho que você queira essa. Espadas geralmente são melhores.
— Você usa uma faca — Piper apontou para a faca presa no cinto de Annabeth.
— Sim, mas... — Annabeth deu de ombros. — Bem, dê uma olhada se quiser.
A bainha usada era de couro e preta, atada em bronze. Nada extravagante e superficial. O cabo de madeira polida cabia perfeitamente na mão de Piper. Quando ela desembainhou, encontrou uma lâmina triangular de quarenta e cinco centímetros, e o bronze cintilava como se tivesse sido polido ontem. As pontas eram mortalmente afiadas. Seu reflexo na lâmina pegou-a de surpresa. Ela parecia mais velha, mais séria, e não tão assustada quanto se sentia.
— Ela é perfeita para você — Annabeth admitiu. — Esse tipo de adaga chama-se parazônio. Era sobretudo cerimonial, carregada por oficiais de auto-nível nos exércitos gregos. Denotava poder e riqueza. Numa luta, pode protegê-la bem.
— Eu gosto — Piper disse. — Por que você achou que não seria bom?
Annabeth suspirou.
— Essa arma tem uma longa história. A maioria das pessoas teria medo de ficar com ela. Sua primeira dona... bem, as coisas não foram muito bem para ela. Seu nome era Helena.
Piper engasgou.
— Espere, você quer dizer aquela Helena? Helena de Troia?
Annabeth assentiu.
Subitamente, Piper sentiu que devia estar segurando o punhal com luvas cirúrgicas.
— E isso está simplesmente acomodado no seu galpão de ferramentas?
— Estamos rodeados por coisas da Grécia Antiga — Annabeth disse. — Isso não é um museu. Armas como essa foram feitas para serem usadas. Elas são nossa herança como semideuses. Esse foi um presente de casamento de Menelau, primeiro marido de Helena. Ela nomeou a adaga como Katoptris.
— E o que significa?
— Espelho — Annabeth disse. — Vidro em que se olhar. Provavelmente, por que foi a única coisa para que Helena a usou. Não acho que esta lâmina tenha visto alguma batalha.
Piper olhou para a lâmina novamente. Por um momento, sua própria imagem olhou para ela, mas então o reflexo mudou. Ela viu chamas, e uma face grotesca como algo esculpido de um leito de rocha. Ela ouviu a mesma risada como no sonho. Viu seu pai numa prisão, amarrando a um poste de frente para uma fogueira estrondosa.
Ela deixou a lâmina cair.
— Piper? — Annabeth gritou para as crianças de Apolo no campo. — Médico! Preciso de ajuda aqui!
— Não, está... está tudo bem — Piper controlou-se.
— Tem certeza?
— Sim. Eu só... — Ela tinha que se controlar. Com os dedos trêmulos, ela levantou a adaga. — Eu só fiquei um pouco tonta. Muitos acontecimentos hoje. Mas... eu quero ficar com a adaga, se estiver tudo bem.
Annabeth hesitou. Então acenou para que o pessoal de Apolo fosse embora.
— Ok, se é isso o que quer... Você ficou realmente pálida. Pensei que estivesse tendo uma convulsão ou algo assim.
— Estou legal — Piper prometeu, embora seu coração ainda estivesse acelerado. — Tem... hã, um celular no acampamento? Eu posso ligar pro meu pai?
Os olhos cinzentos de Annabeth estavam quase tão perturbadores quanto a lâmina da adaga. Ela parecia estar calculando um milhão de possibilidades, tentando ler os pensamentos de Piper.
— Não permitimos celulares — ela respondeu. — Para a maioria dos semideuses, usar um celular é como mandar um sinal, deixando os monstros saberem onde você está. Mas... eu tenho um. — Ela tirou-o rapidamente do bolso. — É meio contra as regras, mas se puder ser nosso segredo...
Piper pegou o aparelho, agradecida, tentando não deixar suas mãos tremerem. Ela distanciou-se de Annabeth e virou para encarar o campo central. Ela ligou para a linha privada do pai, mesmo sabendo o que iria acontecer.
Caixa postal. Ela esteve tentando por três dias, desde seu sonho. A Escola da Vida Selvagem só permitia o privilégio de usar o telefone uma vez por dia, mas ela ligou todas as manhãs, e não chegou a lugar nenhum.
Com relutância, ela discou o outro número. A assistente pessoal de seu pai respondeu imediatamente.
— Escritório do Sr. McLean.
— Jane — Piper disse, rangendo os dentes. — Onde está meu pai?
Jane ficou em silêncio por um momento, provavelmente pensando se ela poderia escapar se desligasse.
— Piper, achei que você não devia ligar da escola.
— Talvez eu não esteja na escola — Piper disse. — Talvez eu tenha fugido para viver entre criaturas selvagens.
— Hum — Jane não soava preocupada. — Bem, eu vou dizer que você ligou.
— Onde ele está?
— Saiu.
— Você não sabe onde ela está, sabe? — Piper diminuiu a voz, pensando que Annabeth poderia estar escutando. — Quando você vai ligar para a polícia, Jane? Ele pode estar com problemas.
— Piper, não vamos transformar isso num circo para a mídia. Tenho certeza de que ele está bem. Ele sai ocasionalmente. Mas ele sempre volta.
— Então é verdade. Você não sabe...
— Eu tenho que ir, Piper — Jane vociferou. — Divirta-se na escola.
A linha ficou muda. Piper xingou. Ela voltou para Annabeth e devolveu o celular.
— Sem sorte? — Annabeth perguntou.
Piper não respondeu. Ela não confiava em si mesma no momento, de que não iria chorar de novo.
Annabeth olhou para a tela do telefone e hesitou.
— Seu sobrenome é McLean? Desculpe, sei que não é da minha conta, mas me parece realmente familiar...
— É um nome comum.
— Sim, suponho. O que seu pai faz?
— Ele é formado em artes — Piper disse automaticamente. — É um artista Cherokee.
Sua resposta-padrão. Não uma mentira, mas também não a verdade completa. A maioria das pessoas, quando ouvia isso, entendia que seu pai vendia souvenires indígenas numa banquinha ao lado da estrada numa reserva. Bonequinhos de touros que mexem a cabeça, colares de contas... esse tipo de coisa.
— Ah — Annabeth não parecia convencida, mas ela guardou o telefone. — Você está se sentindo bem? Quer continuar?
Piper prendeu sua nova adaga no cinto e prometeu a si mesma que depois, quando estivesse sozinha, ela entenderia como aquilo funcionava.
— Claro. Eu quero ver tudo.

Todos os chalés eram legais, mas Piper não se identificou com nenhum deles. Nenhum sinal de fogo – um golfinho ou qualquer outra coisa – aparecia sobre sua cabeça. O Chalé Oito era inteiramente de prata e brilhava como a luz da lua.
— Ártemis? — Piper deduziu.
— Você conhece a mitologia grega? — Annabeth perguntou.
— Eu li um pouco quando meu pai estava trabalhando num projeto ano passado.
— Pensei que ele trabalhasse com arte Cherokee.
Piper refreou um palavrão.
— Ah, certo. Mas... você sabe, ele faz outras coisas também.
Piper pensou que tinha entregado tudo: McLean, mitologia grega. Felizmente, Annabeth não pareceu fazer a conexão.
— De qualquer jeito — Annabeth continuou — Ártemis é deusa da lua e da caça. Mas ali não tem campistas. Ela é uma eterna donzela, não tem filhos.
— Ah.
Piper ficou desapontada. Ela sempre gostou das histórias de Ártemis, e pensou que ela seria uma boa mãe.
— Bem, há as Caçadoras de Ártemis — Annabeth corrigiu. — Elas nos visitam às vezes. Elas não são filhas da deusa, são suas servas... um bando de garotas imortais que se aventuram juntas por aí, caçando monstros e coisas assim.
Piper animou-se.
— Parece legal. Elas são imortais?
— A menos que morram em combate, ou quebrem seus juramentos. Mencionei que elas tem que se afastar dos garotos? Nada de namoro... nunca. Por toda a eternidade.
— Ah — Piper disse. — Deixa pra lá.
Annabeth riu. Por um momento ela pareceu quase feliz, e Piper imaginou que ela seria uma boa amiga em tempos melhores.
Esqueça, Piper lembrou-se. Você não vai fazer amigos aqui. Não quando eles descobrirem tudo.
Elas passaram pelo próximo chalé, o número 10, que estava decorado como uma casa da Barbie: cortinas com laços, porta rosa, vasos de cravos nas janelas.
Elas passaram pela entrada e o cheiro de perfume quase fez Piper vomitar.
— Nossa, é pra cá que as supermodelos vem quando morrem?
Annabeth sorriu.
— Chalé de Afrodite. Deusa do amor. Drew é a conselheira.
— Percebe-se — Piper rosnou.
— Elas não são todas más — Annabeth disse. — A última conselheira que tivemos era incrível.
— O que aconteceu com ela?
A expressão de Annabeth escureceu.
— Devíamos continuar andando.
Elas olharam para os outros chalés, mas Piper só ficou mais deprimida. Ela queria saber se podia ser a filha de Deméter, a deusa da colheita. Não, Piper matara todas as plantas que tocara. Atena era legal. Ou talvez Hécate, a deusa da magia. Mas isso realmente não importava. Até aqui, onde todos deviam encontrar um parente perdido, ela sabia que ainda acabaria sendo a criança indesejável. Ela não estava ansiosa pela fogueira hoje a noite.
— Nós começamos com os doze olimpianos — Annabeth explicou. — Deuses do sexo masculino na esquerda, do sexo feminino à direita. Então ano passado, acrescentamos um novo grupo de chalés para os outros deuses que não tinham tronos no Olimpo... Hécate, Hades, Íris...
— De quem são os dois maiores, no final? — Piper perguntou.
Annabeth franziu a testa.
— Zeus e Hera. Rei e rainha dos deuses.
Piper seguiu naquela direção, e Annabeth foi atrás, embora ela não parecesse muito animada. O chalé de Zeus fazia Piper se lembrar de um banco. Mármore branco com grandes colunas na frente e portas de bronze polido decoradas com raios.
O chalé de Hera era menor, mas feito no mesmo estilo, exceto que as portas eram esculpidas com desenhos de penas de pavão, brilhando em diferentes cores. Diferente dos outros chalés, que eram todos barulhentos, abertos e cheios de atividade, os chalés de Zeus e Hera pareciam fechados e em silêncio.
— Estão vazios? — Piper perguntou.
Annabeth assentiu.
— Zeus ficou um bom tempo sem ter filhos. Na verdade, foi quase isso. Zeus, Poseidon e Hades, os irmãos mais velhos entre os deuses, são chamados de Os Três Grandes. Seus filhos são realmente poderosos e perigosos. Pelos últimos setenta anos aproximadamente, eles tentaram evitar ter filhos semideuses.
— Tentaram evitar?
— Algumas vezes eles... hã, trapacearam. Eu tenho uma amiga, Thalia Grace, que é filha de Zeus. Mas ela desistiu da vida de campista e se tornou uma Caçadora de Ártemis. Meu namorado, Percy, ele é um filho de Poseidon. E há um garoto que aparece as vezes, Nico... filho de Hades. Exceto por eles, não há outros semideuses filhos dos Três Grandes. Pelo menos, não que saibamos.
— E Hera? — Piper olhou para as portas decoradas de pavão. O chalé a incomodava, embora ela não soubesse por quê.
— Deusa do casamento. — O tom de Annabeth estava cuidadosamente controlado, como se ela estivesse tentando evitar xingar. — Ela não tem filhos com ninguém a não ser Zeus. Assim, sem semideuses. É um chalé honorário.
— Você não gosta dela — Piper notou.
— É uma longa história — Annabeth admitiu. — Eu achei que teríamos paz, mas quando Percy desapareceu... eu tive uma visão esquisita na qual ela apareceu.
— Dizendo para você ir nos buscar — Piper disse. — Mas você pensou que Percy estaria ali.
— Provavelmente é melhor que eu não fale sobre isso — Annabeth disse. — Eu não tenho nada de bom para falar sobre Hera agora.
Piper olhou a base das portas.
— Então quem vem aqui?
— Ninguém. O é chalé honorário, como eu disse. Ninguém vem aqui.
— Alguém veio, sim — Piper apontou para uma pegada na soleira empoeirada da porta.
Por instinto, ela empurrou as portas e elas abriram facilmente. Annabeth recuou.
— Hã, Piper, não acho que deveríamos...
— Estamos aqui para fazer coisas perigosas, certo?
E Piper entrou.

O chalé de Hera não era um lugar onde Piper iria querer morar. Era tão frio quanto um freezer, com um círculo de colunas brancas ao redor de uma estátua central da deusa, de três metros de altura, sentada num trono em um fluído manto dourado. Piper sempre pensou em estátuas gregas como brancas e de olhos vazios, mas essa estava lustrosamente pintada de forma que parecia quase humana – exceto por ser imensa. Os olhos penetrantes de Hera pareciam seguir Piper.
Aos pés da deusa, uma chama queimava em um braseiro de bronze. Piper queria saber quem cuidava dali se o chalé estava sempre vazio. Havia um falcão de pedra no ombro de Hera, e na sua mão havia um cajado com uma flor de lótus no topo. O cabelo da deusa estava preso em tranças negras. Seu rosto sorria, mas os olhos eram frios e sagazes, como se dissessem: A mãe é quem melhor sabe. Não se ponha em meu caminho ou terei que pisar em você.
Não havia mais nada no chalé – sem camas, móveis, banheiros, janelas, nada que realmente alguém pudesse usar para viver. Para uma deusa do lar e do casamento, o lugar de Hera fazia Piper se lembrar de uma tumba.
Não, essa não era sua mãe. Pelo menos Piper tinha certeza daquilo. Ela não entrara ali porque sentira uma boa conexão, mas porque seu sentido de medo era mais forte aqui. Seu sonho – aquele horrível ultimato que ela recebeu – tinha alguma relação com esse chalé.
Ela congelou. Elas não estavam sozinhas. Atrás da estátua, num pequeno altar, estava uma figura coberta por um xale escuro. Somente suas mãos eram visíveis, as palmas para cima. Ela parecia estar cantando um feitiço ou rezando.
Annabeth ofegou.
— Rachel?
A outra garota virou. Ela baixou o xale, revelando um cabelo ondulado e ruivo e um rosto sardento que não combinava com a seriedade do chalé ou do xale preto. Ela parecia ter uns dezessete anos, uma adolescente totalmente normal numa blusa verde e jeans surrados rabiscados de marca-texto. Apesar do chão frio, ela estava descalça.
— Hey! — Ela correu para dar um abraço em Annabeth. — Mil desculpas! Eu vim o mais rápido que pude.
Elas conversaram por alguns minutos sobre o namorado de Annabeth e como não havia noticias, etc., até finalmente Annabeth lembrar-se de Piper, que estava parada ali sentindo-se desconfortável.
— Estou sendo rude — Annabeth desculpou-se. — Rachel, essa é Piper, uma dos meio-sangues que resgatamos hoje. Piper, essa e Rachel Elizabeth Dare, nosso oráculo.
— A amiga que mora na caverna — Piper supôs.
Rachel sorriu.
— Sou eu.
— Então, você é um oráculo? — Piper perguntou. — Você pode prever o futuro?
— É mais como se o futuro viesse ao meu encontro de vez em quando — Rachel disse. — Eu faço profecias. O espírito do oráculo me sequestra vez ou outra e fala coisas importas que não fazem sentido para ninguém. Mas sim, as profecias contam o futuro.
— Ah — Piper mudou o apoio de um pé ao outro. — Legal.
Rachel riu.
— Não se preocupe. Todos acham isso um pouco assustador. Até eu. Mas geralmente sou inofensiva.
— Você é uma semideusa?
— Não — Rachel disse. — Apenas mortal.
— Então o que você... — Piper indicou com a mão ao redor da sala.
O sorriso de Rachel esvaiu. Ela olhou para Annabeth, então voltou para Piper.
— Só uma intuição. Algo sobre esse chalé e o desaparecimento de Percy. Eles estão conectados de algum jeito. Eu aprendi a seguir minhas intuições, especialmente no mês passado, desde que os deuses se silenciaram.
— Silenciaram? — Piper perguntou.
Rachel franziu a testa para Annabeth.
— Você ainda não contou para ela?
— Eu estava chegando lá — Annabeth disse. — Piper, no último mês... Bem, é normal para os deuses não conversarem muito com os filhos, mas geralmente podemos contar com algumas mensagens uma hora ou outra. Alguns de nós podem até visitar o Olimpo. Eu passei praticamente todo o semestre no Edifício Empire State.
— Desculpe?
— É onde fica a entrada para o Monte Olimpo hoje em dia.
— Ah — Piper disse. — Certo, por que não?
— Annabeth estava redesenhando o Olimpo depois que foi destruído na Guerra dos Titãs — Rachel explicou. — Ela é uma arquiteta incrível. Você devia ver o bufê de saladas...
— Resumindo — Annabeth interrompeu — há um mês, o Olimpo caiu em silêncio. A entrada foi fechada, e ninguém pode entrar. Ninguém sabe o porquê. É como se os deuses tivessem se fechado. Até minha mãe não responde mais minhas preces, e nosso diretor do acampamento, Dioniso, foi chamado de volta.
— O diretor do acampamento de vocês era o deus do... vinho?
— Sim, é uma...
— Longa história — Piper supôs. — Certo. Continue.
— É isso, realmente. Semideuses ainda são reclamados, porém nada mais. Sem mensagens. Sem visitas. Nenhum sinal que os deuses possam estar nos ouvindo. É como se algo tivesse acontecido, algo realmente ruim. Então Percy desapareceu.
— E Jason apareceu na nossa excursão de campo — Piper completou. — Sem memória.
— Quem é Jason? — Perguntou Rachel.
— Meu... — Piper parou antes que pudesse dizer “namorado,” mas o efeito fez seu peito doer. — Meu amigo. Mas Annabeth, você disse que Hera lhe mandou uma visão?
— Isso — Annabeth disse. — A primeira comunicação de um deus num mês, e justo Hera, a deusa menos útil, e ela faz contato comigo, sua semideusa menos favorita. Ela me disse que eu descobriria o que aconteceu com Percy se eu fosse para o Grand Canyon e encontrasse um garoto com um sapato só. Ao invés de Percy, eu encontro vocês, e o garoto do sapato é Jason. Não faz sentido.
— Algo ruim está acontecendo — Rachel concordou.
Ela olhou para Piper, e Piper sentiu um desejo esmagador de contar a elas sobre seu sonho, confessar que ela sabia o que estava acontecendo – pelo menos, parte da história. E as coisas ruins estavam apenas começando.
— Gente — ela disse. — Eu... eu preciso...
Antes que ela pudesse continuar, o corpo de Rachel endureceu. Seus olhos começaram a brilhar com uma luz esverdeada, e ela agarrou Piper pelos ombros.
Piper tentou recuar, mas as mãos eram como aço.
Liberte-me, ela disse. Mas não era a voz de Rachel. Soava como uma mulher mais velha, falando de algum lugar muito longe, muito abaixo, ecoando num tubo. Liberte-me, Piper McLean, ou a terra irá nos engolir. Faça isso no solstício.
A sala começou a girar, Annabeth tentou separar Piper de Rachel, mas não adiantou. Fumaça verde a envolveu, e Piper não estava mais certa se ela estava acordada ou sonhando. A estátua gigante da deusa parecia levantar do trono. Inclinou-se para Piper, seu olhar atravessando-a. A boca da estátua abriu, sua respiração com um perfume horrivelmente denso. Ela falou na mesma voz ecoada: Nossos inimigos se agitam. O flamejante é apenas o primeiro. Curve-se ao seu desejo, e o rei deles irá se erguer, condenando todos nós. LIBERTE-ME!
Os joelhos de Piper dobraram, e tudo ficou preto.

Capitulo III - Piper






APÓS UMA MANHÃ COM ESPÍRITOS DE TEMPESTADE, homens-bode e namorados voadores, Piper deveria estar perdendo a cabeça. Ao invés disso, tudo que ela sentia era medo.Está começando, pensou. Assim como no sonho.Ela ficou na parte de trás da biga com Leo e Jason, enquanto o garoto careca, Butch, controlava as rédeas, e a garota loira, Annabeth, ajustava um aparelho de navegação feito de bronze. Eles decolaram do Grand Canyon e rumaram para o leste, o vento frio passando direto pelo casaco de Piper. Atrás deles, mais nuvens de tempestade estavam se formando.A biga balançou e deu um solavanco. Não havia cintos de segurança, e a parte de trás era aberta. Piper imaginou se Jason poderia pegá-la novamente se ela caísse. Aquilo fora a parte mais perturbadora da manhã – não que Jason pudesse voar, mas que ele a havia segurado nos braços e ainda assim não sabia quem ela era.Durante todo o semestre ela trabalhara no relacionamento, tentando fazer Jason perceber que ela era mais que uma amiga. Finalmente ela havia conseguido a grande vitória de beijá-lo. As últimas semanas foram as melhores de sua vida. E então, três noites atrás, o sonho havia arruinado tudo – aquela voz horrível, dando-lhe horríveis noticias. Ela não tinha contado para ninguém, nem mesmo a Jason.Agora ela nem mesmo tinha ele. Era como se alguém tivesse apagado a memória dele, e ela estava presa no pior replay de todos os tempos. Ela queria gritar.Jason estava de pé ao seu lado direito: aqueles olhos da cor do céu, o cabelo loiro cortado curto, a pequena e bonita cicatriz em seu lábio superior. Seu rosto era bondoso e gentil, mas sempre um pouco triste. E ele só olhava para o horizonte, nem mesmo notando-a.Entretanto, Leo estava sendo chato, como de costume.— Isso é tão legal! — Ele cuspiu uma pena de pégaso da boca. — Para onde estamos indo?— Para um lugar seguro — Annabeth disse. — O único lugar seguro para pessoas como nós. O Acampamento Meio-Sangue.— Meio-Sangue? — Piper estava imediatamente atenta. Ela odiava aquela palavra. Ela fora chamada de meio-sangue várias vezes – meio índia, meio branca – e nunca era um elogio. — Esse é algum tipo de brincadeira sem-graça?— Ela quer dizer que somos semideuses — Jason disse. — Meio deuses, meio mortais.Annabeth olhou para trás.— Você parece saber muito, Jason. Mas, sim, semideuses. Minha mãe é Atena, deusa da sabedoria. O Butch aqui é filho de Íris, a deusa do arco-iris.Leo engasgou.— Sua mãe é a deusa do arco-iris?— Tem algum problema com isso? — Butch disse.— Não, não — Leo disse. — Arco-íris. Muito macho.— Butch é nosso melhor cavaleiro — Annabeth disse. — Ele se dá bem com os pégasos.— Arco-íris, pôneis — Leo murmurou.— Eu vou te jogar dessa biga... — Butch alertou.— Semideuses — Piper disse. — Você quer dizer que acha que é... você acha que nós somos...Um raio cortou o céu. A carruagem estremeceu, e Jason gritou:— A roda direita está pegando fogo!Piper recuou. Sem dúvida, a roda estava queimando, chamas brancas subiam pela lateral da carruagem.O vento zuniu. Piper olhou para trás e viu formas escuras formando-se nas nuvens, mais espíritos da tempestade espiralando para a biga – exceto que esses pareciam mais cavalos que anjos.Ela começou a perguntar:— Por que esses são...— Os anemoi vem em diferentes formas — Annabeth disse. — Às vezes como humanos, às vezes garanhões  dependendo de quão caóticos eles são. Segure-se. Isso vai ficar feio.Butch chicoteou as rédeas. Os pégasos aumentaram a velocidade com uma explosão, e a carruagem ficou indistinta. O estômago de Piper se revirou. Sua visão escureceu e, quando voltou ao normal, eles estavam num lugar totalmente diferente.Um oceano cinza e frio estendia-se à esquerda. Campos cobertos de neve, estradas, e florestas expandiam-se na direita. Diretamente abaixo deles havia um vale verde, como uma ilha de primavera, cercada por colinas nevadas e pela água, ao norte. Piper viu construções como os templos da Grécia Antiga, uma grande mansão azul, complexos esportivos, um lago e uma parede de alpinismo que parecia estar em chamas. Mas, antes que ela realmente pudesse processar tudo que estava vendo, as rodas deles se soltaram e a biga despencou do céu.Annabeth e Butch tentaram manter o controle. Os pégasos trabalharam para segurar a biga no voo, mas eles pareciam exaustos da explosão de velocidade, e carregar o peso de cinco pessoas era simplesmente demais.— O lago! — Annabeth gritou. — Mire no lago!Piper se lembrou de algo que seu pai havia contado uma vez para ela, sobre cair na água de grandes alturas ser tão ruim quanto cair no concreto.E então – BUM!O maior choque foi o frio. Ela estava submersa, tão desorientada que não sabia qual caminho levava para cima. Ela só conseguia pensar: Esse seria um jeito estúpido de morrer.Então rostos apareceram na escuridão verde – garotas com longos cabelos negros e olhos amarelos brilhantes, que sorriram para ela, pegaram seus ombros e a puxaram.Elas lançaram-na para cima, ofegando e tremendo de frio, para a praia. Próximo a ela, Butch estava no lago cortando as armaduras naufragadas dos pégasos. Felizmente, os cavalos pareciam bem, mas eles estavam batendo as asas e espirrando água para todo lado. Jason, Leo e Annabeth já estavam na praia, rodeados por garotos dando-lhes cobertores e fazendo perguntas. Alguém pegou Piper pelos braços e a ajudou a ficar em pé. Aparentemente, as pessoas caiam no lago com frequência, pela razão de que alguns dos campistas correram para cima dela com folhas grandes de bronze parecendo sopradores e jogaram ar quente em Piper, o que fez com que em aproximadamente dois segundos suas roupas estivessem secas.Havia pelo menos vinte campistas ao redor – o mais novo com talvez nove anos, o mais velho em nível de faculdade, dezoito ou dezenove – e todos eles tinham camisetas laranja como a de Annabeth.Piper olhou novamente para a água e viu aquelas estranhas garotas um pouco abaixo da superfície, seus cabelos flutuando na correnteza. Elas acenaram com adeusinho e desapareceram nas profundezas. Um segundo depois, destroços da biga foram atirados do lago e caíram ali perto, fazendo um ruido de coisa molhada.— Annabeth! — Um cara com um arco e aljava nas costas abriu caminho através da multidão. — Eu disse que você poderia pegar emprestada a biga, e não destruí-la!— Will, me desculpe — Annabeth suspirou. — Eu vou consertá-la, prometo.Will olhou zangado para sua carruagem destruída. Então ele olhou Piper, Leo e Jason.— São esses? Eles tem bem mais que treze anos. Por que ainda não foram reclamados?— Reclamados? — Leo perguntou.Antes que Annabeth pudesse responder, Will disse:— Algum sinal de Percy?— Não — Annabeth admitiu.Os campistas murmuraram. Piper não tinha ideia de quem esse cara, Percy, era, mas seu desaparecimento parecia ser algo consideravelmente grande.Outra garota avançou – alta, asiática, o cabelo negro em cachos, várias jóias e maquiagem perfeita. De algum jeito, ela conseguia fazer jeans e uma camiseta laranja parecerem deslumbrantes. Ela olhou para Leo, fixou os olhos em Jason como se ele merecesse sua atenção, então torceu os lábios para Piper como se ela fosse um burrito velho que havia sido tirado de uma lixeira. Piper conhecia esse tipo de garota. Já lidara com muitas assim na Escola da Vida Selvagem e em todas as outras estúpidas escolas que seu pai havia mandado-a. Piper soube instantaneamente que elas seriam inimigas.— Bem — a garota disse — espero que eles valham o problema.Leo bufou.— Nossa, obrigado. O que nós somos, seus novos mascotes?— Sem brincadeiras — Jason disse. — Quem sabe algumas respostas antes de vocês começarem a nos julgar? Tipo, o que é esse lugar, porque estamos aqui, quanto tempo temos que ficar?Piper tinha as mesmas perguntas, mas uma onda de ansiedade passou sobre ela.Valham o problema. Se eles ao menos soubessem sobre seu sonho. Eles não tinham ideia...— Jason — Annabeth disse — prometo que vamos responder suas perguntas. E Drew — ela franziu o cenho para a garota bonita — todos os semideuses valem a pena. Mas vou admitir que a viagem não foi como eu esperava.— Ei — Piper disse — nós não pedimos para sermos trazidos aqui.Drew fungou.— E ninguém quer vocês. Seu cabelo sempre parece um texugo morto?Piper avançou pronta para bater nela, mas Annabeth disse:— Piper, pare.Piper parou. Ela não estava nem um pouco amedrontada com Drew, mas Annabeth não parecia com alguém que ela iria querer como inimiga.— Precisamos fazer nossos recém-chegados sentirem-se em casa — Annabeth disse, com outro olhar afiado para Drew. — Vamos designar um guia para cada, dar um passeio no acampamento. Esperançosamente, na fogueira dessa noite, eles serão reclamados.— Alguém vai me dizer o que significa reclamados? — Piper perguntou.Subitamente houve um ofego coletivo. Os campistas cederam. Primeiro Piper pensou que fez algo errado. Então ela percebeu que seus rostos estavam banhados numa estranha luz vermelha, como se alguém tivesse acendido uma tocha atrás dela. Ela se virou e quase esqueceu como respirar.Flutuando sobre a cabeça de Leo estava uma imagem holográfica em chamas – um martelo de fogo.— Isso — Annabeth disse — é ser reclamado.— O que eu fiz? — Leo voltou para o lago. Então ele olhou para cima e gritou: — Meu cabelo está queimando?Ele se abaixou, mas o símbolo o seguiu, subindo e descendo de forma que parecia que ele estava tentando escrever algo em chamas com a cabeça.— Isso não deve ser bom — Butch murmurou. — A maldição...— Butch, cale-se — Annabeth disse. — Leo, você acabou de ser reclamado...— Por um deus — Jason interrompeu. — Esse é o simbolo do Vulcano, não é?Todos os olhos viraram para ele.— Jason — Annabeth disse cuidadosamente — como você sabe disso?— Não sei.— Vulcano? — Leo perguntou. — Eu nem GOSTO de Star Trek. Sobre o que vocês estão falando?— Vulcano é o nome romano para Hefesto — Annabeth disse — o deus dos ferreiros e do fogo.O martelo de fogo enfraqueceu, mas Leo continuou agitando o ar como se tivesse medo que aquilo estivesse lhe seguindo.— O deus do quê? Quem?Annabeth virou para o cara com o arco.— Will, você poderia ficar com Leo, dar um passeio? Apresente-o aos seus companheiros no Chalé 9.— Claro, Annabeth.— O que é Chalé 9? — Leo perguntou. — E eu não sou um Vulcano!— Vamos lá, Sr. Spock, eu vou explicar tudo — Will colocou uma mão no ombro dele e desviou-o em direção aos chalés.Annabeth voltou sua atenção para Jason. Geralmente, Piper não gostava quando outras garotas olhavam seu namorado, mas Annabeth não parecia se importar de que ele fosse um cara bonito. Ela estudou-o mais como se ele fosse um projeto arquitetônico complicado. Finalmente ela disse:— Mostre seu braço.Piper viu o que ela estava vendo, e seus olhos arregalaram-se.Jason tinha tirado seu casaco depois do mergulho no lago, deixando os braços nus, e na parte interna do antebraço direito havia uma tatuagem. Como Piper nunca havia notado antes? Ela olhara para os braços de Jason um milhão de vezes. A tatuagem não poderia ter simplesmente aparecido, mas estavam gravadas com uma cor escura, impossível de errar: uma dúzia de linhas retas como um código de barras, e acima delas, uma águia com as letras SPQR.— Eu nunca vi marcas como essas — Annabeth disse. — Onde você as conseguiu?Jason sacudiu a cabeça.— Eu realmente estou cansado de dizer isso, eu não sei.Os outros campistas empurraram-se para frente, tentando dar uma olhada na tatuagem de Jason. As marcas pareciam aborrecê-los muito – quase como uma declaração de guerra.— Elas parecem queimadas na sua pele — Annabeth notou.— Elas foram — Jason disse. Então ele estremeceu como se sua cabeça estivesse doendo. — Quero dizer... Eu acho que foram. Eu não lembro.Ninguém disse nada. Estava claro que os campistas viam Annabeth como a líder. Eles estavam esperando por seu veredicto.— Ele precisa ir direto para Quíron — Annabeth decidiu. — Drew, você poderia...— Claro — Drew atou seu braço ao de Jason. — Desse jeito, querido. Eu vou lhe apresentar ao nosso diretor. Ele é... um cara interessante. — Ela deu a Piper um olhar presunçoso e virou Jason em direção a grande casa azul na colina.A multidão começou a dispersar, até sobrar somente Annabeth e Piper.— Quem é Quíron? — Piper perguntou. — Jason está em algum tipo de encrenca?Annabeth hesitou.— Boa pergunta, Piper. Vamos lá, vamos dar uma volta. Precisamos conversar.