quinta-feira, 17 de outubro de 2013

XLV - Percy






PERCY JÁ ESTAVA CANSADO DE ÁGUA.
Se ele tivesse dito isso em voz alta, provavelmente teria sido expulso dos Batedores Marinhos Juniores de Poseidon, mas ele não se importava.
Depois de quase morrer ao nynphaeum, ele queria voltar para a superfície. Queria estar seco e sentar-se à morna luz do sol por um bom tempo – preferencialmente com Annabeth.
Infelizmente, ele não sabia onde Annabeth estava. Frank, Hazel e Leo estavam desaparecidos em ação. Ele ainda tinha que salvar Nico di Angelo, isso se o cara já não estivesse morto. E ainda tinha a questão dos gigantes destruindo Roma, acordando Gaia e assumindo o controle do mundo.
Sério, esses monstros e deuses tinham centenas de anos. Será que eles não podiam folgar algumas décadas e deixar Percy viver sua vida? Aparentemente não.
Percy foi à frente enquanto eles engatinhavam nos canos de drenagem. Depois de nove metros, os canos se abriram em um túnel mais largo. À esquerda deles, em algum lugar ao longe, Percy ouviu um estrondo e um rangido, como uma grande máquina que precisava ser lubrificada. Ele não tinha absolutamente desejo algum de descobrir o que estava fazendo aquele barulho, então calculou que aquele deveria ser o caminho.
Algumas centenas de metros depois, eles alcançaram uma curva no túnel. Percy levantou a mão, sinalizando para que Jason e Piper esperassem. Ele espreitou pela curva.
O corredor se abria em um vasto aposento com seis metros de altura e fileiras de colunas de suporte. Parecia com a mesma área do tipo garagem que Percy havia visto em seus sonhos, mas agora muito mais cheio de coisas.
Os estrondos e rangidos vinham de enormes engrenagens e sistemas de polias que levantavam e desciam seções do piso por nenhum motivo aparente. Água fluía por trincheiras abertas (ah, ótimo, mais água), dando força para rodas hidráulicas que eram responsáveis pela energia de alguns equipamentos. Outras máquinas estavam ligadas a imensas rodas de hamster, só que com um cão infernal dentro.
Percy não pôde evitar pensar na Sra O‘Leary e o quanto ela detestaria ficar presa numa roda dessas. Suspensos no teto, estavam jaulas de animais vivos – um leão, várias zebras, um bando inteiro de hienas e até mesmo uma hidra de oito cabeças. Transportadores feitos de bronze antigo e couro giravam ao longo de pilhas de armas e armaduras, assim como no depósito das Amazonas em Seattle, a não ser pelo fato de que esse lugar era muito mais antigo e nem tão bem organizado.
Leo teria adorado o lugar, Percy pensou. O aposento todo era como uma imensa, assustadora, instável máquina.
— O que foi? — Piper sussurrou.
Percy não tinha certeza de como responder. Ele não viu os gigantes, então fez o gesto para que seus amigos seguissem em frente e dessem uma olhada.
A aproximadamente 6 metros do vão da porta, uma espada de gladiador de madeira em tamanho real saiu do piso. Ela estalou e zumbiu através das cordas transportadoras, ficou presa em uma fita e subiu em direção a uma fissura no teto.
Jason murmurou:
— Que diabos foi isso?
Eles adentraram o local. Percy examinou o aposento. Havia centenas de coisas para se olhar, a maioria delas em movimento, mas um lado bom de ser um semideus com TDAH era que Percy estava confortável com o caos. A cerca de uma centena de metros de distância, ele avistou um trono elevado como duas cadeiras de pretores grandes demais e vazias. Entre as duas cadeiras se encontrava um jarro de bronze grande o suficiente para conter uma pessoa.
— Vejam — ele mostrou a seus amigos.
Piper franziu o rosto.
— Está fácil demais.
— É claro — Percy concordou.
— Mas não temos alternativas — disse Jason. — Temos que salvar o Nico.
— Sim — Percy começou a cruzar o aposento, escolhendo seu caminho pelos cintos transportadores e plataformas móveis.
Os cães infernais nas rodas de hamsters não lhe deram atenção alguma. Eles estavam ocupados demais correndo e arquejando, seus olhos vermelhos brilhando como faróis. Os animais nas outras jaulas lhe lançaram olhares tediosos, como se dissessem: eu os mataria, mas isso iria gastar muita energia.
Percy buscou se atentar às armadilhas, mas tudo ali parecia com uma armadilha. Ele se lembrou de quantas vezes quase morreu no labirinto alguns anos atrás. Ele realmente desejava que Hazel estivesse ali com eles para que ela pudesse ajudá-los com sua habilidade subterrânea (e, é claro, para que pudesse se reunir com seu irmão).
Eles pularam sobre uma trincheira de água e passaram por baixo de uma matilha de lobos enjaulados. Percorreram metade do caminho até o jarro de bronze quando o teto se abriu sobre eles. Uma plataforma se abaixou. Em cima dela, como se fosse um ator, com uma mão levantada e sua cabeça abaixada, estava o gigante de cabelo roxo Efialtes.
Assim como Percy tinha visto em seus sonhos, o Grande Efi era pequeno para padrões de gigantes – aproximadamente quatro metros – mas ele tinha tentado compensar isso com sua vestimenta espalhafatosa. Ele havia tirado sua armadura de gladiador e agora estava vestindo uma camisa havaiana que até mesmo Dioniso teria achado vulgar. Ela tinha uma estampa chamativa de heróis moribundos, torturas horríveis e leões comendo escravos no Coliseu. O cabelo do gigante estava enfeitado com moedas de ouro e prata. Ele tinha uma lança de três metros presa em suas costas, o que não combinava muito com a camisa. Vestia calça jeans bem brancas e sandálias de couro em seus... Bem, não eram pés, mas cabeças de cobras curvas. As cobras agitaram suas línguas para fora e silvaram como se não gostassem de aguentar o peso de um gigante.
Efialtes sorriu para os semideuses como se ele estivesse muito, muito encantado em vê-los.
— Finalmente! — ele berrou. — Estou tão feliz! Sinceramente, não achei que vocês passariam pelas ninfas, mas é tão melhor que vocês tenham conseguido. Muito mais interessante. Vocês chegaram bem a tempo para o evento principal!
Jason e Piper se aproximaram de Percy, um de cada lado. Tê-los ali o fazia se sentir um pouco melhor. Esse gigante era menor do que muitos dos monstros que ele havia enfrentado, mas alguma coisa nele fez Percy arrepiar-se. Os olhos de Efialtes dançavam com uma luz alucinante.
— Estamos aqui — Percy disse, o que soou um pouco óbvio depois. — Deixe nosso amigo ir.
— Claro! — Efialtes concordou. — No entanto, temo que ele já tenha passado um pouco da data de validade. Oto, cadê você?
Uma pedra foi jogada longe, o piso se abriu e outro gigante subia em uma plataforma.
— Oto, finalmente! — Seu irmão exclamou contente. — Você não está vestido da mesma forma que eu! Você está... — a expressão de Efialtes mudou para de horror. — O que você está vestindo?
Oto parecia o maior e mais irritável bailarino do mundo. Ele usava um collant azul bem coladinho que Percy realmente desejou que deixasse mais a imaginar. As pontas das suas sapatilhas imensas foram cortadas para que suas cobras pudessem sair. Uma tiara de diamantes (Percy decidiu ser generoso e pensar nela como se fosse uma coroa de rei) estava aninhada em seus cabelos verdes e trançados. Ele parecia mal-humorado e tristemente desconfortável, mas conseguiu dar um giro de ballet, o que não deve ter sido fácil com pés de cobra e uma enorme lança nas costas.
— Deuses e titãs! — Efialtes gritou. — Está hora do show! O que você estava pensando?
— Eu não queria usar as vestes de gladiador — Oto reclamou. — Ainda acho que um ballet seria perfeito, você sabe, enquanto o Armagedon está rolando — ele levantou suas sobrancelhas esperançosamente para os semideuses. — Eu tenho fantasias extras...
— Não! — Efialtes vociferou, e por uma vez, Percy estava de acordo.
O gigante de cabelo roxo encarou Percy. Ele sorria tão dolorosamente que parecia que estava sendo eletrocutado.
— Por favor, perdoe meu irmão — ele disse. — Sua presença de palco é horrível e ele não tem nenhum senso de estilo.
— Certo — Percy decidiu não comentar a camisa havaiana. — Agora, sobre o nosso amigo...
— Ah, ele — Efialtes zombou. — Nós íamos deixá-lo terminar de morrer em público, mas isso não tem valor algum de entretenimento. Ele passa dias curvado e dormindo. Que tipo de espetáculo é esse? Oto, tombe o jarro.
Oto arrastou-se para o trono, parando ocasionalmente para fazer um plié. Ele derrubou o jarro, a tampa desprendeu e Nico di Angelo foi jogado para fora. A visão de sua face mortalmente pálida e corpo demasiadamente magro fez o coração de Percy parar. Percy não saberia dizer se o garoto estava vivo ou morto. Ele queria correr para seu encontro e checar, mas Efialtes estava em seu caminho.
— Agora temos de nos apressar — disse o Grande Efi. — Devemos passar suas instruções de palco. O hipogeu está todo pronto!
Percy estava pronto para cortar esse gigante pela metade e sair dali, mas Oto estava próximo de Nico. Se uma batalha se iniciasse, Nico não estava em condições de se defender. Percy precisava lhe arranjar um tempo para se recuperar.
Jason levantou seu gládio de ouro.
— Não vamos fazer parte de nenhum espetáculo — ele disse. — E o que é um hipo... o que você falou?
— Hipogeu! Você é um semideus romano, não é? Deveria saber! Ah, mas eu acho que se fizermos nosso trabalho direito aqui no subterrâneo, você realmente não saberia que o hipogeu existe.
— Eu conheço essa palavra — Piper falou. — É a área abaixo do coliseu. Ela abrigava todas as partes do cenário e o maquinário usado para criar efeitos especiais.
Efialtes bateu palmas entusiasticamente.
— Exatamente! Você é uma estudante de teatro, minha garota?
— Uh... Meu pai é ator.
— Maravilhoso! — Efialtes se virou para seu irmão. — Ouviu isso, Oto?
— Ator — Oto murmurou. — Todo mundo é ator. Nenhum consegue dançar.
— Seja bonzinho! — Efialtes o repreendeu. — De qualquer jeito, minha garota, você está absolutamente correta, mas esse hipogeu é muito mais do que depósito de palco para um coliseu. Você já ouviu falar que antigamente alguns gigantes foram presos embaixo da terra e que de tempos em tempos eles causavam terremotos quando tentavam escapar? Bem, nós fizemos muito melhor! Oto e eu fomos aprisionados embaixo de Roma por éons, mas continuamos ocupados construindo nosso próprio hipogeu. Agora estamos prontos para criar o maior espetáculo que Roma já viu... e o último!
Aos pés de Oto, Nico se mexeu. Percy sentiu como se uma roda de hamster movida por um cão infernal em algum lugar do seu peito tivesse começado a se mover de novo. Pelo menos Nico estava vivo. Agora eles apenas tinham que derrotar os gigantes, preferencialmente sem destruir a cidade de Roma e sair dali para achar seus amigos.
— Então! — Percy gritou, esperando chamar a atenção do gigante para si. — Instruções de palco, você disse?
— Sim! — Efialtes disse. — Agora, eu sei que a recompensa diz que você e a garota Annabeth devem ser mantidos vivos se possível, mas francamente, a garota já está condenada, então espero que você não se importe se desviarmos do plano.
A boca de Percy tinha gosto de água de ninfas más.
— Já está condenada. Você não quer dizer que ela está...
— Morta? — o gigante perguntou. — Não. Ainda não. Mas não se preocupe! Nós temos seus outros amigos presos, sabe.
Piper fez um som estrangulado.
— Leo? Hazel e Frank?
— Esses aí — Efialtes concordou. — Logo, se podemos usar eles para o sacrifício, podemos deixar a garota de Atena morrer. O que agradaria a Sua Senhoria. E nós podemos usar vocês três para o espetáculo! Gaia ficará um pouco desapontada, mas realmente só temos a ganhar. Suas mortes serão bem mais divertidas.
Jason rosnou.
— Você quer diversão? Vou te dar diversão.
Piper deu um passo a frente. De alguma forma, ela conseguiu sorrir docilmente.
— Tenho uma ideia melhor — ela disse aos gigantes. — Por que não nos deixa ir? Isso seria uma incrível reviravolta. Grau de diversão maravilhoso e provaria para o mundo o quão legal você é.
Nico agitou-se. Oto olhou para ele. Seu pé de cobra agitou suas línguas sobre a cabeça dele.
— E mais! — Piper acrescentou rapidamente — Além disso, nós podemos fazer uns movimentos de dança enquanto escapamos. Talvez um número de balé!
Oto esqueceu totalmente de Nico. Ele se arrastou, aproximando-se e sacudiu os dedos para Efialtes.
— Está vendo? É disso que eu estava te falando! Seria incrível!
Por um segundo, Percy achou que Piper iria conseguir. Oto olhou para o seu irmão, implorando. Efialtes pôs a mão em seu queixo como se considerasse a ideia.
Finalmente, ele abanou a cabeça.
— Não... Não, eu temo que não. Veja bem, minha garota, eu sou o anti-Dioniso. Tenho uma reputação a sustentar. Dioniso acha que conhece festas? Ele está errado! Suas festas não têm diversão comparado com o que eu posso fazer. Aquela velha façanha que fizemos, por um instante, enquanto empilhávamos montanhas para chegar ao Olimpo...
— Eu te disse que nunca iria funcionar — Oto resmungou.
— E quando meu irmão se cobriu de carne e correu por um percurso de obstáculos de drakons...
— Você disse que a TV-Hefesto iria transmitir durante o horário nobre — Oto disse. — Ninguém chegou a me ver.
— Bem, esse espetáculo será ainda melhor — Efialtes prometeu. — Os romanos sempre quiseram o pão e circo: comida e diversão! Enquanto destruímos a cidade deles, ofereceremos ambos. Excelente show!
Alguma coisa caiu do teto e pousou aos pés de Percy: uma fatia de pão de sanduiche enrolado em um plástico branco com pontinhos vermelhos e amarelos.
Percy o pegou.
— Pão de forma?
— Magnífico, não é? — os olhos de Efialtes dançaram loucamente de excitação. — Você pode ficar com esse pão. Eu pretendo distribuir milhões para o povo de Roma enquanto eu os destruo.
— Pão de forma é bom — Oto admitiu. — No entanto, os romanos deveriam ter que dançar por eles.
Percy deu uma olhada para Nico, que estava começando a se mover. Percy queria que pelo menos ele estivesse consciente o suficiente para engatinhar para fora do caminho quando a batalha começasse. E Percy precisava de mais informações dos gigantes sobre Annabeth e de onde seus outros amigos estavam sendo presos.
— Talvez — Percy se aventurou — vocês devessem trazer nossos amigos aqui. Vocês sabem, mortes espetaculares... Quanto mais melhor, certo?
— Hmm — Efialtes brincou com o botão de sua camisa havaiana — não. Já é realmente muito tarde para mudar a coreografia. Mas não temam. O circo será maravilhoso! Ah... Não me refiro ao tipo moderno de circo, lembrem-se. Isso requereria palhaços e eu odeio palhaços.
— Todo mundo odeia palhaços — Oto concordou. — Até outros palhaços odeiam palhaços.
— Exatamente — seu irmão confirmou. — Mas nós temos um entretenimento muito melhor preparado! Vocês três irão morrer em agonia, lá em cima, onde todos os deuses e mortais poderão assistir. Mas essa é apenas a cerimônia de abertura! Nos tempos antigos, os jogos duravam dias ou semanas. Nosso espetáculo... a destruição de Roma... vai durar um mês, até o despertar de Gaia.
— Peraí — Jason interrompeu — um mês e Gaia vai acordar?
Efialtes fez um aceno como se afastasse a pergunta.
— Sim, sim. Alguma coisa sobre primeiro de agosto ser a melhor data para destruir a humanidade. Nada importante! Com sua sabedoria infinita, a Mãe Terra concordou que Roma poderia ser destruída primeiro, devagar e espetacularmente. Nada mais apropriado!
— Então... — Percy não acreditava que estava falando sobre o fim do mundo com um pedaço de pão em sua mão. — Vocês são o ato de aquecimento de Gaia.
A face de Efialtes ficou obscura.
— Isso não é nenhum aquecimento, semideus! Nós iremos soltar animais selvagens e monstros nas ruas. Nosso departamento de efeitos especiais irá produzir fogos e terremotos. Crateras e vulcões aparecerão ao acaso e do nada. Fantasmas correrão furiosos.
— O negócio dos fantasmas não vai funcionar — Oto disse. — Nosso grupo de controle disse que não vai ter valor algum.
— Duvidosos! — Efialtes discordou. — O hipogeu pode fazer qualquer coisa dar certo!
Efialtes rumou raivosamente para uma grande mesa coberta com um lençol. Ele puxou o lençol, revelando um conjunto de alavancas e botões que quase pareciam tão complicados quanto o painel de controle de Leo no Argo II.
— Esse botão? — Efialtes anunciou — esse vai liberar uma dúzia de lobos enfurecidos no Fórum. E esse irá chamar gladiadores autômatos para lutar com os turistas na Fontana di Trevi. Esse vai fazer com que o Tibre se alague para que possamos reencenar a batalha naval aqui mesmo, na Piazza Navona! Percy Jackson, você deverá apreciar isso, como filho de Poseidon!
— Uh... Eu ainda acho que a ideia de nos deixar ir é melhor — Percy discordou.
— Ele tem razão — Piper tentou de novo — ou então nós entraremos em toda essa coisa de confronto. Vocês lutam contra a gente. Nós lutamos contra vocês. Nós arruinamos seus planos. Você sabe, nós derrotamos muitos gigantes ultimamente. Eu odiaria que as coisas ficassem fora de controle.
Efialtes afirmou com a cabeça pensativamente.
— Você está certa.
Piper piscou.
— Eu estou?
— Não podemos deixar as coisas saírem de controle — o gigante concordou. — Tudo deve ser perfeitamente sincronizado. Mas não se preocupem. Eu coreografei suas mortes. Vocês irão adorar.
Nico começou a se afastar, engatinhando e gemendo. Percy queria que ele se movesse mais rapidamente e gemesse menos. Ele até pensou em jogar seu pão de forma nele.
Jason trocou a espada de mão.
— E se recusarmos cooperar com seu espetáculo?
— Bem, vocês não podem nos matar — Efialtes riu, como se a ideia fosse ridícula. — Vocês não têm nenhum deus e essa é a única maneira que vocês poderiam ter esperança de triunfar. Então, realmente, seria muito mais sensato morrer dolorosamente. Desculpa, mas o show não pode parar.
Esse gigante era ainda pior do que aquele deus do mar Fórcis, lá em Atlanta, Percy percebeu. Efialtes não era bem o Anti-Dioniso. Ele era o Dioniso que abusou loucamente de anabolizantes. Claro, Dioniso era o deus da folia e festas fora de controle. Mas Efialtes era todo ligado à destruição e ruínas por prazer.
Percy olhou para seus amigos.
— Estou ficando cansado da camisa desse cara.
— Hora da luta? — Piper agarrou sua cornucópia.
— Eu odeio pão de forma — Jason disse.
Juntos, eles se preparam.

XLIV - Piper






O LOCAL ONDE ELES ESTAVAM ENCHIA COM UMA VELOCIDADE ALARMANTE. Piper, Jason e Percy batiam nas paredes procurando por uma saída, mas não encontraram nada. Eles subiram em cima das alcovas para ganhar alguma altura, mas com água saindo de todos os nichos, era como tentar se equilibrar na beira de uma cachoeira. Mesmo que Piper estivesse sobre um desses nichos, a água já estava passando dos seus joelhos. Era provável que o líquido já estivesse com 3 metros de profundidade e subindo rápido.
— Eu poderia tentar usar raios — disse Jason — talvez explodir um buraco no teto?
— Isso poderia derrubar todo o telhado e nos atingir — Piper replicou.
— Ou nos eletrocutar — completou Percy.
— Sem muitas opções — falou Jason.
— Me deixe pesquisar o fundo — disse Percy. — Se este lugar foi construído como uma fonte, tem de existir uma forma de drenar a água. Vocês, procurem nos nichos por saídas secretas. Talvez as conchas sejam botões, ou alguma coisa assim.
Era uma ideia desesperada, mas Piper estava satisfeita por ter alguma coisa para fazer. Percy pulou na água. Jason e Piper subiram de nicho por nicho chutando, batendo e balançando as conchas grudadas nas rochas, mas eles não tiveram sorte.
Mais rápido do que Piper esperava, Percy voltou à superfície, se debatendo e ofegante. Ela ofereceu sua mão e ele quase a derrubou na água antes que ela pudesse ajudá-lo a subir.
— Não posso respirar — ele relatou com a voz alterada — a água... Não é normal. Muito difícil de voltar.
A força vital das ninfas... pensou Piper. A água estava tão envenenada e cheia de malícia, que nem mesmo um filho do deus dos mares poderia controlá-la. À medida que a água subia ao seu redor, Piper sentia que estava sendo afetada também.
Seus músculos da perna tremiam como se ela tivesse corrido por quilômetros. Suas mãos estavam enrugadas e secas, apesar de ela estar no meio de uma fonte. Os garotos se moviam lentamente. O rosto de Jason estava pálido e ele demonstrava estar tendo problemas para segurar sua espada. Percy estava encharcado e tremendo, seu cabelo não parecia tão escuro, era como se a cor estivesse indo embora.
— Elas estão pegando nosso poder — disse Piper — nos drenando.
— Jason — Percy tossiu. — Faça raios.
Jason levantou sua espada, o cômodo retumbou, mas sem raios. O teto não quebrou. Ao invés disso, uma miniatura de tempestade de raios se formou no topo da câmera. Chovendo, enchendo o espaço mais rapidamente, mas não era uma chuva normal. A substância era escura como a da água no poço. Cada gota picando a pele de Piper.
— Não era o que eu queria — Jason falou.
A água estava pouco acima de seus pescoços agora. Piper sentia suas forças enfraquecendo. A história do vovô Tom sobre água canibal era verdade. As ninfas más iam roubar sua vida.
— Nós sobreviveremos — murmurou para si mesma, mas seu charme não a tiraria desta situação.
Logo a água envenenada estaria sobre a cabeça deles. Eles teriam que nadar, mas esta substância estava os paralisando. Iriam se afogar da mesma forma como ela havia visto em suas visões.
Percy começou a empurrar a água para longe com as costas da suas mãos, como se estivesse espantando um cão mau.
— Não consigo... Não consigo controlar isso!
Você terá de me sacrificar, o cão esqueleto havia dito na história. Você deve me jogar na água.
Piper se sentiu como se alguém tivesse agarrado sua nuca e exposto seus ossos. Ela apertou sua cornucópia.
— Nós não podemos lutar com isto — ela disse — se resistirmos, apenas nos tornará mais fracos.
— O que você quer dizer? — gritou Jason através da chuva.
A água estava acima do queixo, alguns centímetros a mais e eles teriam que nadar, mas a água estava a meio caminho para o teto. Piper esperava que isso significasse que eles ainda tivessem tempo.
— O chifre da abundância — ela disse — nós temos de suprir completamente as ninfas com água fresca, dar a elas mais do que elas possam usar. Se nós pudermos diluir essa substância envenenada...
— O chifre pode fazer isso?
Percy estava lutando para manter sua cabeça acima da água, o que obviamente era uma nova experiência para ele. Ele parecia descontroladamente assustado.
— Somente com a sua ajuda.
Piper estava começando a entender como o chifre funcionava. As coisas boas produzidas não vieram do nada. Ela só foi capaz de enterrar Hércules em comidas quando se concentrou em todas as suas experiências positivas com Jason.
Para criar água limpa e fresca suficiente para encher essa sala, precisava ir mais fundo ainda, usar ainda mais suas emoções. Infelizmente, ela estava perdendo a habilidade de concentrar-se.
— Eu preciso de vocês dois para canalizar tudo que vocês têm na cornucópia — ela disse — Percy, pense sobre o mar.
— Água salgada?
— Não importa! Contanto que seja limpa. Jason, pense sobre chuvas com raios... muito mais chuva. Vocês segurem a cornucópia.
Piper tentou lembrar-se das lições de salvamento que seu pai havia dado para ela quando eles começaram a surfar. Para ajudar alguém que está afogando, passe os seus braços ao redor dele e chute as suas pernas na sua frente, movendo para trás como se estivesse fazendo nado de costas. Ela não estava certa se a mesma estratégia poderia funcionar com duas outras pessoas, mas colocou um braço ao redor de cada garoto e tentou mantê-los flutuando com a cornucópia ao redor deles.
Nada aconteceu. A chuva descia ainda escura e ácida.
As pernas de Piper pareciam chumbo. A água subia em redemoinho, ameaçando puxá-la. Ele podia sentir sua força diminuindo.
— Nada bom — Jason gritou cuspindo água.
— Não estamos indo a lugar nenhum — concordou Percy.
— Nós temos que trabalhar juntos — choramingou Piper, esperançosa de que estivesse certa — vocês dois pensem em água limpa, uma tempestade d‘água. Não escondam nada, imaginem todo seu poder, toda a sua força deixando vocês.
— Isso não é difícil — Percy observou.
— Mas force isso — ela disse — ofereça tudo, como se você já estivesse morto e a sua única finalidade fosse ajudar as ninfas. Isto tem de ser um presente... Um sacrifício.
Eles ficaram quietos nessa palavra.
— Vamos tentar novamente — disse Jason — juntos.
Nesta hora, Piper dobrou sua concentração para o chifre da abundância. As ninfas queriam sua juventude, sua vida, sua voz? Certo. Ela desistiu disto tudo voluntariamente e imaginou todo seu poder inundando para fora dela.
Eu já estou morta, ela disse a si mesma, tão calma quanto o cão esqueleto. Este é o único jeito.
Água limpa saiu do chifre com tanta força, que os jogou contra a parede. A chuva mudou para uma torrente branca, tão limpa e gélida, que fez Piper suspirar.
— Está funcionando! — Jason choramingou.
— Bem demais — disse Percy — nós estamos enchendo a sala ainda mais rápido!
Ele estava certo, a água subiu tão rápido que agora o teto estava a apenas alguns centímetros. Piper poderia estender as mãos e tocar nas nuvens de miniatura.
— Não parem! — ela recomendou — Nós temos que diluir o veneno até que as ninfas estejam purificadas.
— E se elas não puderem ser purificadas? — perguntou Jason — Elas tem ficado aqui embaixo fazendo o mal por milhares de anos.
— Apenas não se segure — disse Piper — dê tudo. Mesmo que nós fiquemos abaixo...
Sua cabeça bateu no teto. As nuvens de chuva se dissiparam e derreteram dentro d‘água. O chifre da abundância continuava liberando água limpa.
Piper puxou Jason para perto e o beijou.
— Eu te amo — ela disse.
As palavras apenas saíram dela, assim como a água da cornucópia. Ela não poderia dizer qual foi a reação dele, porque agora eles estavam debaixo d‘água.
Ela segurou sua respiração. A corrente de água rugia em seus ouvidos. Bolhas giravam ao redor dela. Luz percorreu a sala e Piper ficou surpresa que pudesse vê-la. Estava a água ficando mais clara?
Seus pulmões estavam prestes a explodir, mas Piper concentrou suas últimas energias na cornucópia. Água continuava a sair, mesmo que não houvesse mais espaço. Será que as paredes romperiam por causa da pressão?
A visão de Piper escureceu.
Ela pensou que o ruído em seus ouvidos fosse seu batimento cardíaco morrendo. Então se deu conta de que a sala estava tremendo. A água movia-se mais rápido. Piper se sentiu afundando.
Com sua última força, ela chutou para cima. Sua cabeça rompeu até a superfície e ela conseguiu respirar. A cornucópia parou. A água estava esvaziando quase tão rápido quanto havia enchido a sala.
Com alarme, percebeu que os rostos de Percy e Jason ainda estavam debaixo d‘água. Ela os ergueu. Instantaneamente, Percy engoliu em seco e começou a se debater, mas Jason estava tão sem vida quanto uma boneca de pano.
Piper se agarrou a ele, gritou seu nome, sacudiu-o e deu um tapa em sua cara. Ela mal percebeu que toda a água havia escoado e deixado o chão úmido.
— Jason — ela tentou desesperadamente pensar.
Deveria virá-lo de lado? Dar tapas nas suas costas?
— Piper — Percy chamou — eu posso ajudar.
Ele se ajoelhou ao lado dela e tocou a testa de Jason. Água jorrou da boca de Jason. Seus olhos se abriram e um trovão jogou Percy e Piper para trás.
Quando a visão de Piper clareou, ela viu Jason sentado, ainda ofegando profundamente, mas seu rosto já estava voltando a ficar corado.
— Desculpe — ele tossiu — não foi minha intenção.
Piper o atacou com um abraço. Ela o teria beijado, mas não queria sufocá-lo.
— Caso você esteja pensando, era água limpa em seus pulmões. Eu pude fazer sair sem o menor problema — Percy sorriu.
— Obrigado, cara — Jason apertou sua mão sem muita força — mas acho que Piper é a real heroína. Ela salvou todos nós.
Sim, ela salvou. Ecoou uma voz pela câmara.
Os nichos brilhavam. Nove figuras apareceram, mas elas não eram mais criaturas murchas. Elas eram jovens, lindas ninfas em vestidos cintilantes azuis. Seus brilhantes cachos negros estavam presos com presilhas de ouro e prata. Seus olhos com suaves tons de azul e verde.
Enquanto Piper assistia, oito das ninfas se dissolveram em vapor e flutuaram para cima. Apenas a ninfa no centro ficou.
— Hagno? — perguntou Piper.
— Sim, minha querida. Eu não achava que altruísmo existisse em mortais... Especialmente em semideuses — riu a ninfa.
Percy chamou a atenção.
— Como poderíamos nos ofender? Você tentou nos afogar e sugar nossas vidas.
Hagno estremeceu.
— Me desculpe por isso. Não era eu mesma. Mas vocês me lembraram do sol e da chuva, das correntes nas campinas. Percy e Jason, graças a vocês, eu me lembrei do mar e do céu. Estou limpa. Mas, principalmente, graças a Piper. Ela compartilhou algo melhor do que água corrente limpa — Hagno se virou para Piper — você tem uma boa natureza, Piper. Eu sou um espírito da natureza. Sei do que estou falando.
Hagno apontou para o outro lado da sala. As escadas para a superfície reapareceram. Diretamente para baixo, uma abertura circular brilhava, como um cano de esgoto, largo o suficiente para que eles pudessem rastejar por ele. Piper suspeitou que assim que a água foi drenada.
— Vocês podem retornar a superfície — disse Hagno — ou, se vocês insistem, podem seguir o caminho das águas até os gigantes. Mas escolham rápido, porque as duas portas vão desaparecer quando eu me for. Este tubo conecta a linha do aqueduto antigo, que alimenta este nymphaeum e o hipogeu que os gigantes chamam de lar.
— Ugh — Percy apertou suas têmporas — sem mais palavras complicadas.
— Oh, lar não é uma palavra complicada — Hagno parecia completamente sincera — eu achava que era, mas agora vocês nos desligaram deste lugar. Minhas irmãs se foram para procurar por novos lares... Córregos nas montanhas, talvez, ou um lago em um prado. Eu vou segui-las, não posso esperar para ver florestas e pastagens novamente e águas claras correndo.
— Uh — Percy falou nervosamente — as coisas mudaram nos últimos milhares de anos.
— Isso não faz sentido — disse Hagno — o quão ruim isso poderia ser? Pã não permitiria que a natureza se tornasse podre. Eu não posso esperar para vê-lo, na verdade.
Percy aparentou que gostaria de dizer algo, mas ele se calou.
— Boa sorte, Hagno — Piper agradeceu — e obrigada.
Então a ninfa sorriu uma última vez e se vaporizou.
Resumidamente, a ninfa brilhava com uma luz mais suave, como uma lua cheia. Piper sentia o cheiro de especiarias exóticas e rosas florescendo. Ela ouviu música distante e vozes felizes conversando e rindo. Achou que estava ouvindo centenas de anos de festas e celebrações que foram realizadas neste santuário em épocas ancestrais, como se as lembranças tivesse sido liberadas junto com os espíritos.
— O que é isto? — Jason perguntou nervosamente.
Piper colocou suas mãos nas dele.
— Os fantasmas estão dançando. Vamos. É melhor irmos conhecer os gigantes.

XLIII - Piper






PIPER PRECISAVA DE UM MILAGRE, não uma história para dormir. Mas logo em seguida, ficando em estado de choque com a água preta derramada em torno de suas pernas, ela lembrou da lenda que Aqueloo tinha mencionado – a história da inundação.
Não a história de Noé, mas a versão Cherokee que seu pai costumava contar-lhe, com os fantasmas da dança e cães-esqueleto.
Quando ela era pequena, se aconchegou ao lado de seu pai em sua grande cadeira. Ela olhou para fora, nas janelas no litoral de Malibu e seu pai lhe disse a história que ele ouvira do vovô Tom na volta da reserva em Oklahoma.
— Este homem tinha um cachorro — seu pai sempre dizia.
— Você não pode começar uma história assim! — Piper protestou. — Você tem que dizer era uma vez.
Seu pai riu.
— Mas esta é uma história Cherokee. Elas são bastante simples. Então, de qualquer maneira, este homem tinha um cachorro. A cada dia, o homem levava seu cachorro para a beira do lago para pegar água e o cão latia furiosamente para o lago, como se estivesse bravo com ele.
— Ele estava?
— Seja paciente, querida. Finalmente, o homem se irritou com seu cão por latir muito: “Cão mau! Pare de latir para a água. É só água!” Para sua surpresa, o cão olhou bem para ele e começou a falar.
— Nosso cão podia dizer “Obrigado” — Piper ofereceu. — E ele podia latir fora.
— Mais ou menos — seu pai concordou. — Mas este cão falava frases inteiras. O cão disse: “Um dia, em breve, as tempestades virão. As águas vão subir e todo mundo vai se afogar. Você pode salvar a si mesmo e sua família através da construção de uma jangada, mas primeiro você terá de me sacrificar. Você deve me jogar na água.”
— Isso é terrível! — Piper disse. — Eu nunca iria afogar meu cão!
— O homem provavelmente disse a mesma coisa. Ele pensou que o cão estava mentindo... quero dizer, uma vez que tinha saído do choque ao saber que seu cachorro pudesse falar. Quando ele protestou, o cão disse: “Se você não acredita em mim, olhe para a minha nuca. Eu já estou morto.
— Isso é triste! — Piper protestou. — Por que você está me contando isso?
— Porque você me pediu — o pai lembrou.
E, de fato, algo sobre a história havia fascinado Piper. Ela tinha ouvido dezenas de vezes, mas continuava pensando sobre isso.
— De qualquer forma, o homem pegou o cachorro pela nuca e viu que a sua pele e pelos já estavam caindo. Debaixo não havia nada além de ossos. Era um cão-esqueleto.
— Grosseiro.
— Eu concordo. Então, com lágrimas nos olhos, o homem disse adeus a seu cachorro-esqueleto irritante e jogou-o na água, onde rapidamente afundou. O homem construiu uma jangada e quando veio o dilúvio, ele e sua família sobreviveram.
— Sem o cachorro — ela acrescentou.
— Sim. Sem o cão. Quando as chuvas diminuíram e a balsa parou em terra firme, o homem e sua família eram os únicos vivos. O homem ouviu sons vindos do outro lado de uma colina, como milhares de pessoas rindo e dançando, mas quando ele correu para o alto, infelizmente, abaixo dele não havia nada exceto ossos espalhados no chão, milhares de esqueletos de todas as pessoas que morreram na inundação. Ele percebeu que os fantasmas dos mortos estavam dançando. Esse era o som que ouvia.
Piper esperou.
— E?
— E nada. O fim.
— Você não pode terminar assim! Por que os fantasmas dançavam?
— Eu não sei — disse o pai. — Seu avô nunca sentiu a necessidade de explicar. Talvez os fantasmas estivessem felizes que uma família havia sobrevivido. Talvez estivessem desfrutando da vida após a morte. Eles são fantasmas. Quem pode dizer?
Piper estava muito insatisfeita com isso. Ela tinha tantas perguntas sem resposta. Será que a família encontrou outro cão? Obviamente, nem todos os cães se afogaram, porque ela mesma tinha um cachorro. Ela não conseguia se livrar da história. Nunca olhou para os cães da mesma forma, se perguntando se um deles poderia ser um cão-esqueleto. E não entendia por que a família teve que sacrificar o seu cão para sobreviver. Sacrificar-se para salvar sua família parecia uma coisa tipicamente nobre – tipicamente de um cachorro.
Agora, no nymphaeum em Roma, com a água escura em sua cintura, Piper se perguntou por que o deus do rio Aqueloo havia mencionado essa história. Ela desejou ter uma jangada, mas temia que sua situação fosse como a do cão-esqueleto. Ela já estava morta.

XLII - Piper






ENCONTRAR O LUGAR FOI FÁCIL. Percy os levou diretamente a ele, em um trecho abandonado de encosta com vista para as ruínas do Fórum.
Entrar foi fácil também. A espada de ouro de Jason pôde cortar o cadeado e o portão de metal se abriu. Nenhum dos mortais viu. Nenhum alarme disparou. Degraus de pedra desciam em espirais para dentro do escuridão.
— Eu vou primeiro — disse Jason.
— Não! — Piper graniu.
Os dois garotos se viraram para ela.
— Pipes, o que é? — Jason perguntou. — Essa imagem na lâmina... Você já viu isso antes, não foi?
Ela assentiu com a cabeça, com os olhos lacrimejando.
— Eu não sei como lhe dizer. Eu vi a sala lá em baixo encher-se com água. Eu vi nós três nos afogando.
Tanto Jason quanto Percy franziram a testa.
— Eu não posso me afogar — Percy disse, embora soasse como se estivesse fazendo uma pergunta.
— Talvez o futuro tenha mudado — Jason especulou. — Na imagem que você acabou de nos mostrar, não havia água.
Piper desejou que ele estivesse certo, mas ela suspeitava que não teriam tanta sorte.
— Olha — Percy sugeriu. — Eu vou dar uma olhada primeiro. Está tudo bem. Volto já.
Antes que Piper pudesse protestar, ele desapareceu pela escada.
Ela contou em silêncio enquanto esperava pela sua volta. Quando estava em torno do número 35, ouviu seus passos e ele apareceu no topo, parecendo mais confuso do que aliviado.
— Boa notícia: sem água. Má notícia: não vejo nenhuma saída lá em baixo. E, uh, notícia estranha: bem, vocês deviam ver isso...
Desceram cautelosamente. Percy assumiu a liderança, com Contracorrente empunhada. Piper seguiu e Jason caminhou atrás dela, protegendo sua retaguarda. A escada parecia um saca-rolhas estreito de alvenaria, com no máximo seis metros de diâmetro. Mesmo que Percy tivesse informado que estava tudo limpo, Piper manteve os olhos abertos para armadilhas. A cada volta da escada ela esperava uma emboscada. Ela não tinha nenhuma arma, apenas a cornucópia em um cordão de couro por cima do ombro. Se as coisas ficassem feias, as espadas dos meninos não adiantariam muito em um espaço tão apertado.
Talvez Piper pudesse disparar em seus inimigos presuntos defumados em alta velocidade. Enquanto eles abriam seu caminho através do subterrâneo, Piper viu velhas pichações entalhadas nas pedras: números romanos, nomes e frases em italiano, o que significava que outras pessoas tinham estado aqui mais recentemente que o Império Romano, mas isso não tranquilizou Piper. Se existiam monstros aqui embaixo, eles ignorariam os mortais, esperando por alguns semideuses suculentos passar.
Finalmente, eles chegaram ao fundo.
Percy virou.
— Vejam este último pedaço.
Ele saltou para o chão da sala cilíndrica, que estava a cinco metros abaixo do fim da escada. Por que alguém iria projetar um conjunto de escadas como esse? Piper não tinha ideia. Talvez o quarto e a escada houvessem sido construídas durante diferentes períodos de tempo.
Ela queria virar e sair, mas não poderia fazer isso com Jason atrás dela e não podia deixar Percy lá. Ela foi para baixo e Jason a seguiu.
O cômodo era como ela tinha visto na lâmina da Katoptris, exceto que não havia água. As paredes curvas que antes tinham sido pintadas com afrescos agora estavam desbotadas como a casca de um ovo branco com apenas manchas da cor original. A abóbada estava a cerca de quinze metros acima.
Do outro lado da sala, opostas à escada, nove alcovas foram esculpidas na parede. Cada nicho tinha cerca de cinco metros à partir do chão e era grande o suficiente para uma estátua de tamanho humano, mas todas estavam vazias.
O ar estava frio e seco. Como Percy tinha dito, não havia outra saída.
— Tudo bem — Percy ergueu as sobrancelhas. — Aqui está a parte estranha. Vejam.
Ele deu um passo para o meio da sala.
Imediatamente, uma luz verde e azul ondulou através das paredes. Piper ouviu o som de uma fonte, mas não havia água. Não parecia haver nenhuma fonte de luz, exceto as lâminas de Percy e Jason.
— Vocês sentem o cheiro do oceano? — Percy perguntou.
Piper não tinha notado em primeiro lugar. Ela estava de pé ao lado de Percy e ele sempre cheirava a mar. Mas ele estava certo. O cheiro de água salgada e tempestade estava ficando mais forte, como um furacão de verão se aproximando.
— Uma ilusão? — ela perguntou. De repente, ela se sentiu estranhamente sedenta.
— Eu não sei — Percy respondeu. — Sinto que deveria existir água aqui, muita água. Mas não há nada. Eu nunca estive em um lugar como este.
Jason caminhou para a linha de nichos. Ele tocou a prateleira inferior do mais próximo, que estava ao nível dos olhos.
— Esta pedra... É incrustada com conchas. Isto é um nymphaeum.
A boca de Piper estava definitivamente ficando mais seca.
— Uma o quê?
— Nós temos um no Acampamento Júpiter — Jason disse — em Temple Hill. É um santuário para as ninfas.
Piper passou a mão ao longo da parte inferior de outro nicho. Jason estava certo. A alcova estava cravejada com caracóis, conchas e moluscos. As conchas do mar pareciam dançar na luz aquosa. Eram geladas ao toque.
Piper sempre tinha pensado em ninfas como espíritos amigáveis – bobas e namoradeiras, geralmente inofensivas. Elas se davam bem com os filhos de Afrodite. Amavam compartilhar fofocas e dicas de beleza. Este lugar, no entanto, não parecia a parte de trás do lago de canoagem no Acampamento Meio-Sangue ou os córregos na mata onde Piper normalmente encontrava ninfas. Este lugar parecia não natural, hostil e muito seco.
Jason recuou e examinou a fileira de alcovas.
— Santuários como este estavam em todo o lugar na Roma Antiga. As pessoas ricas ficavam do lado de fora de suas casas para homenagear ninfas para certificar-se de que a água local ficasse sempre fresca. Alguns santuários foram construídos em torno de nascentes naturais, mas a maioria foi feita pelo homem.
— Então... Não existem ninfas vivendo atualmente aqui? — Piper perguntou esperançosamente.
— Não tenho certeza — disse Jason. — Este lugar onde estamos teria sido uma piscina com uma fonte. Muitas vezes, se o nymphaeum pertencia a um semideus, ele ou ela convidava as ninfas para viver lá. Se os espíritos fixassem residência, era considerado boa sorte.
— Para o proprietário — Percy adivinhou. — Mas também vincularia as ninfas à nova fonte de água, o que seria ótimo se a fonte estivesse em um parque agradavelmente ensolarado com água bombeada no meio da aquedutos...
— Mas este lugar está debaixo da terra há séculos — Piper adivinhou. — Seco e enterrado. O que aconteceu com as ninfas?
O som da água mudou para um coro de assobios, como cobras fantasmagóricas. A luz que ondulava mudou o tom de azul e verde mar para um limão e roxo doentio. Acima deles, os nove nichos brilhavam. Não estavam mais vazios.
De pé estava uma mulher velha e murcha, tão seca e frágil que lembrava a Piper um múmia, exceto que múmias normalmente não se moviam. Seus olhos eram de um tom roxo escuro, como se água azul clara de sua fonte de vida tivesse condensado e engrossado dentro deles. Seus finos vestidos de seda agora estavam esfarrapados e desbotados. Seu cabelo já tinha sido em cachos, combinado com joias ao estilo de romanos nobres, mas agora seus cabelos estavam desgrenhados e secos como palha. Se canibais aquáticos realmente existissem, Piper pensou, teriam essa aparência.
— O que aconteceu com as ninfas? — repetiu a criatura no nicho central.
Ela estava em situação ainda pior do que as outras. Sua costa estava curvada como o cabo de uma jarra. Suas mãos esqueléticas tinham apenas a mais fina camada de pele, semelhante a papel. Na cabeça, uma surrada coroa de louros de ouro brilhava em seu cabelo bagunçado.
Ela fixou os olhos roxos em Piper.
— Que pergunta interessante, minha querida. Talvez as ninfas ainda estejam aqui, sofrendo, esperando por vingança.
Da próxima vez que tivesse uma chance, Piper jurou que iria derreter Katoptris e iria vendê-la como sucata de metal. A faca estúpida nunca lhe mostrava toda a história. Claro, ela tinha visto a si mesma se afogando. Mas se soubesse que nove ninfas zumbis e dissecadas estariam esperando por ela, nunca teria vindo até aqui.
Ela considerou correr para as escadas, mas quando se virou, a porta tinha desaparecido. Naturalmente. Não havia nada lá a não ser uma parede branca. Piper suspeitou que não era apenas uma ilusão. Além disso, nunca chegaria ao lado oposto da sala antes que as ninfas zumbis saltassem sobre eles.
Jason e Percy se posicionaram em cada um dos lados dela, as espadas prontas. Piper estava contente por tê-los por perto, mas suspeitava suas armas não adiantariam nada. Ela tinha visto o que iria acontecer neste quarto. De alguma forma, essas coisas iriam derrotá-los.
— Quem são vocês? — Percy exigiu.
A ninfa do meio virou a cabeça.
— Ah... Nomes. Nós já tivemos nomes. Eu era Hagno, a primeira das nove!
Piper pensou que era uma piada cruel que uma bruxa como ela fosse nomeada Hagno, como a palavra em inglês para bruxa, mocreia, mas decidiu não comentar.
— As nove — Jason repetiu. — As ninfas deste santuário. Havia sempre nove nichos.
— É claro — Hagno mostrou os dentes em um sorriso cruel. — Mas somos as nove originais, Jason Grace, as que presenciaram o nascimento de seu pai.
A espada de Jason baixou.
— Você quer dizer Júpiter? Você estava lá quando ele nasceu?
— Zeus, como então era chamado — Hagno disse. — Era um bebê barulhento. Participamos do trabalho de parto de Reia. Quando o bebê nasceu, nós o escondemos de seu pai, Cronos, para que não o comesse. Ah, tinha pulmões fortes, este bebê! Fizemos tudo o que podíamos para abafar o barulho para Cronos não encontrá-lo. Quando Zeus cresceu, nos foi prometida honras eternas. Mas isso foi no velho país, na Grécia.
As outras ninfas choravam e arranharam seus nichos. Elas pareciam estar presas neles, Piper percebeu, como se seus pés estivessem grudados na pedra junto com as conchas decorativas.
— Quando Roma subiu ao poder, fomos convidadas para cá — disse Hagno. — Um filho de Júpiter nos tentou com favores. Uma nova casa, ele prometeu. Maior e melhor! Não há necessidade de pagamento, um excelente bairro. Roma vai durar para sempre.
— Para sempre — as outras assobiaram.
— Nós cedemos à tentação — disse Hagno. — Deixamos nossas simples nascentes e fontes no Monte Liceu e mudamos para cá. Durante séculos, nossas vidas foram maravilhosas! Festas, sacrifícios em nossa honra, vestidos e joias novas a cada semana. Todos os semideuses de Roma flertavam conosco e nos honravam.
As ninfas gemeram e suspiraram.
— Mas Roma não durou — Hagno rosnou. — Os aquedutos foram desviados. A vila de nosso mestre foi abandonada e destruída. Fomos esquecidas, enterradas sob a terra, mas não conseguimos sair. Nossas fontes de vida estão confinadas a este lugar. Nosso velho mestre nunca sentiu-se apto para nos libertar. Durante séculos, temos murchado aqui na escuridão, com sede... Muita sede — as outras arranhavam suas bocas.
Piper sentiu sua própria garganta fechando.
— Eu sinto muito por vocês — disse ela, tentando usar o charme. — Isso deve ter sido terrível. Mas nós não somos seus inimigos. Se nós pudermos ajudar...
— Oh, uma voz tão doce! — Hagno chorou. — Características tão bonitas. Eu já fui jovem como você. Minha voz era tão suave como um córrego de montanha. Mas você sabe o que acontece com a mente de uma ninfa quando ela está presa no escuro, sem nada para se alimentar, apenas o ódio, nada para beber, a não ser pensamentos violentos? Sim, minha cara. Você pode nos ajudar.
Percy levantou a mão.
— Uh... Eu sou um filho de Poseidon. Talvez eu possa convocar uma nova fonte de água.
— Há! — Hagno gritou e as outras oito repetiram: — Há! Há!
— De fato, filho de Poseidon — Hagno disse. — Eu conheço seu pai também. Efialtes e Oto prometeram que você viria.
Piper colocou a mão no braço de Jason para se equilibrar.
— Os gigantes — disse ela. — Você está trabalhando para eles?
— Eles são nossos vizinhos — Hagno sorriu. — As câmaras estão além deste lugar, onde o aqueduto de água foi desviada para os jogos. Assim que lidarmos com vocês... Quando você tiverem nos ajudado... Os gêmeos prometeram que nós nunca sofreremos de novo.
Hagno virou-se para Jason.
— Você, filho de Júpiter... pela horrível traição de seu antecessor que nos trouxe aqui, você deve pagar. Eu sei quais são os poderes do deus do céu. Eu o criei quando era um bebê! Antes, nós ninfas controlávamos a chuva acima de nossas fontes e nascentes. Quando eu lidar com você, teremos este poder novamente. E Percy Jackson, filho do deus do mar... De você tomaremos a água, uma fonte infinita de água.
— Infinita? — Os olhos de Percy vagaram de uma ninfa para a outra. — Uh... Olha, eu não sei sobre infinita. Mas talvez eu possa arranjar alguns litros.
— E você, Piper McLean — os olhos roxos Hagno brilharam. — Tão jovem, tão linda, tão talentosa com sua voz doce. De você, vamos recuperar nossa beleza. Nós conservamos a nossa força de vida para este dia. Estamos com muita sede. De vocês três, vamos beber!
Todos os nove nichos brilharam. As ninfas desapareceram e água jorrou de suas alcovas, água de um escuro doentio, como o petróleo.

XLI - Piper






PIPER TENTOU TIRAR O MELHOR DA SITUAÇÃO.
Uma vez que ela e Jason tinham se cansado de andar pelo convés, ouvindo o treinador Hedge cantar “Velho MacDonald” (com armas em vez de animais), eles decidiram fazer um piquenique no parque.
Hedge concordou a contragosto.
— Fiquem onde eu possa vê-los.
— O que nós somos, crianças? — Jason perguntou.
Hedge bufou.
— Crianças são cabritinhos. São bonitos e eles têm um grande valor social. Vocês definitivamente não são crianças.
Eles estenderam seu cobertor debaixo de um salgueiro ao lado de uma lagoa. Piper virou sua cornucópia e derramou uma refeição completa de sanduíches embrulhados ordenadamente, bebidas enlatadas, frutas frescas e (por alguma razão) um bolo de aniversário com cobertura roxa e velas já acesas.
Ela franziu o cenho.
— É o aniversário de alguém?
Jason fez uma careta.
— Eu não ia dizer nada.
— Jason!
— Há muita coisa acontecendo. E sinceramente... Antes do mês passado eu nem sabia quando era meu aniversário. Thalia me disse na última vez que ela esteve no acampamento.
Piper se perguntou como seria aquilo... nem mesmo saber o dia em que nasceu. Jason tinha sido dado à Lupa, a loba, quando tinha apenas dois anos de idade. Ele nunca tinha conhecido sua mãe mortal. Só reuniu-se com sua irmã no último inverno.
— Primeiro de julho — disse Piper. — O Calendas de Julho.
— Sim — Jason sorriu. — Os romanos tinham de achar aquilo auspicioso... o primeiro dia do mês nomeado para Júlio César. Dia sagrado de Juno. Êee.
Piper não queria pressioná-lo ou fazer uma festa se ele não tinha vontade de celebrar.
— Dezesseis? — ela perguntou.
Ele acenou com a cabeça.
— Oh, eu posso tirar minha carteira de motorista.
Piper riu. Jason havia matado tantos monstros e salvou o mundo tantas vezes que a ideia de ele suar em um teste de condução parecia ridículo. Imaginou-o ao volante de algum Lincoln velho com um sinal de MOTORISTA ESTUDANTE no topo e um professor mal humorado no banco do passageiro com um pedal de freio de emergência.
— Bem — ela insistiu. — Quer soprar as velas?
Jason soprou. Piper se perguntou se ele havia feito um desejo, esperando que ele e Piper fossem sobreviver a essa missão e ficar juntos para sempre. Ela decidiu não perguntar. Não queria azarar aquele desejo e definitivamente não queria descobrir se ele desejava algo diferente.
Desde que deixaram as Colunas de Hércules na noite anterior, Jason parecia distraído. Piper não podia culpá-lo. Hércules tinha sido uma decepção muito grande como irmão mais velho e o velho deus do rio, Aqueloo, tinha dito algumas coisas pouco gentis sobre os filhos de Júpiter.
Piper olhou para a cornucópia. Ela se perguntou se Aqueloo estava se acostumando a não ter chifres. Esperava que sim. Claro, ele tinha tentado matá-los, mas Piper ainda se sentia mal pelo velho deus. Não entendia como tal espírito, solitário e deprimido poderia produzir um corno da abundância que derrama abacaxis e bolos de aniversário. Será que a cornucópia drenou toda a bondade dele? Talvez agora que o chifre se foi, Aqueloo seria capaz de encher-se com um pouco de felicidade e mantê-la para si mesmo.
Ela também estava pensando no conselho de Aqueloo: Se vocês tivessem chegado em Roma, a história da inundação teria lhe servido melhor. Ela sabia de que história ele estava falando. Ela só não entendia como poderia ajudar.
Jason pegou uma vela apagada de seu bolo.
— Eu estive pensando.
O que trouxe Piper volta ao presente num estalo. Vindo de seu namorado a frase, Eu estive pensando era um tipo de código assustador.
— Sobre? — ela perguntou.
— Acampamento Júpiter. Todos os anos que eu treinei lá. Estávamos sempre pressionando o trabalho em equipe, a trabalhar como uma unidade. Eu pensei que entendia o que aquilo significava. Mas... honestamente? Eu era sempre o líder. Mesmo quando era mais jovem...
— O filho de Júpiter — disse Piper. — O garoto mais poderoso da legião. Você era a estrela.
Jason parecia desconfortável, mas ele não o negou.
— Estar neste grupo de sete... Eu não tenho certeza do que fazer. Não estou acostumado a ser um de muitos... bem... iguais. Sinto que estou falhando.
Piper pegou sua mão.
— Você não está falhando.
— Com certeza me senti assim quando Crisaor atacou — Jason disse. — Passei a maior parte dessa viagem nocauteado e indefeso.
— Vamos — ela repreendeu. — Ser um herói não significa que você é invencível. Significa apenas que você é corajoso o suficiente para se levantar e fazer o que é necessário.
— E se eu não souber o que é necessário?
— É para isso que seus amigos estão com você. Todos nós temos pontos fortes diferentes. Juntos, nós vamos descobrir.
Jason a estudou. Piper não tinha certeza de que ele havia engolido o que ela estava dizendo, mas estava feliz por ele poder confiar nela. Ela gostava que ele tivesse um pouco de dúvida sobre si mesmo. Ele não teve sucesso o tempo todo. Não achava que o universo lhe devia um pedido de desculpas sempre que algo dava errado, ao contrário de um outro filho do deus dos céus que ela recentemente encontrou.
— Hércules era um idiota — disse ele, como se lesse seus pensamentos. — Eu nunca quero ser assim. Mas eu não teria tido a coragem de enfrentá-lo sem você assumir a liderança. Você foi a heroína daquela vez.
— Nós podemos revezar — sugeriu.
— Eu não te mereço.
— Você não está autorizado a dizer isso.
— Por que não?
— É a linha limite para a separação. A menos que você esteja terminando...
Jason inclinou-se e beijou-a. As cores da tarde romana de repente pareceram mais nítidas, como se o mundo tivesse mudado para a alta definição.
— Sem rompimentos — ele prometeu. — Eu posso ter arrebentado minha cabeça algumas vezes, mas eu não sou tão estúpido.
— Bom. Agora, sobre o bolo...
Sua voz vacilou. Percy Jackson estava correndo na direção deles e Piper podia dizer pela sua expressão que ele trazia más notícias. Eles se reuniram no convés para que o treinador Hedge pudesse ouvir a história. Quando Percy terminou, Piper ainda não podia acreditar.
— Então Annabeth foi sequestrada em uma scooter — ela resumiu — por Gregory Peck e Audrey Hepburn.
— Não sequestrada, exatamente — Percy disse. — Mas eu tenho uma sensação ruim... — Ele respirou fundo, como se estivesse tentando não pirar. — De qualquer forma, ela... ela se foi. Talvez eu não devesse tê-la deixado ir, mas...
— Você tinha que deixá-la — Piper interrompeu. — Você sabia que ela tinha de ir sozinha. Além disso, Annabeth é durona e inteligente. Ela vai ficar bem.
Piper colocou um pouco de charme em sua voz, o que talvez não fosse legal, mas Percy precisava ser capaz de se concentrar. Se eles fossem para a batalha, Annabeth não iria querer que ele se machucasse por estar distraído demais com ela.
Seus ombros relaxaram um pouco.
— Talvez você esteja certa. Enfim, Gregory... quero dizer Tiberino... disse que tínhamos menos tempo para resgatar Nico do que pensávamos. Hazel e os caras não estão de volta ainda?
Piper verificou o tempo no controle do leme. Ela não tinha percebido como estava ficando tarde.
— São duas da tarde. Dissemos três horas para um encontro.
— No mais tardar — disse Jason.
Percy apontou para adaga de Piper.
— Tiberino disse que você poderia encontrar a localização de Nico... você sabe, com isso.
Piper mordeu o lábio. A última coisa que queria fazer era verificar Katoptris para mais imagens assustadoras.
— Eu tentei. A adaga nem sempre mostra o que eu quero ver. Na verdade, ela quase nunca mostra.
— Por favor — Percy insistiu. — Tente outra vez.
Ele implorou com aqueles olhos verde-mar, como um filhote de foca bonitinho que precisava de ajuda. Piper se perguntou como Annabeth já ganhara uma discussão com esse cara.
— Tudo bem... — ela suspirou e tirou sua adaga.
— Enquanto você faz isso — disse o treinador Hedge — veja se pode obter os últimos resultados de beisebol. Os italianos não cobrem beisebol, feijãozinho.
— Shh
Piper estudou a lâmina de bronze. A luz brilhou. Ela viu um loft cheio de semideuses romanos. Uma dúzia deles ficou em torno de uma mesa de jantar, Octavian falou e apontou para um grande mapa. Reyna andou ao lado da janela, olhando para baixo no Central Park.
— Isso não é bom — Jason murmurou. — Eles já criaram uma base avançada em Manhattan.
— E esse mapa mostra Long Island — Percy acrescentou.
— Eles estão sondando o território — Jason adivinhou. — Discutindo rotas de invasão.
Piper não queria ver isso. Ela se concentrou mais. Luz ondulou através da lâmina. Ela viu ruínas – algumas paredes em ruínas, uma única coluna, um chão de pedra coberto de musgo e videiras mortas, tudo agrupado em uma encosta gramada pontilhada de pinheiros.
— Eu estive lá — disse Percy. — É no velho Fórum.
A visão ampliou. De um lado do piso de pedra, um conjunto de escadas tinha sido escavado, levando até um moderno portão de ferro, com um cadeado. A imagem da lâmina se ampliou diretamente através da porta, descendo uma escada espiral e em uma câmara escura, cilíndrica como o interior de um silo de grãos.
Piper soltou a lâmina.
— O que há de errado? — Jason perguntou. — Ela estava nos mostrando algo.
Piper sentiu como se o barco estivesse de volta ao oceano, balançando sob seus pés.
— Nós não podemos ir para lá.
Percy franziu a testa.
— Piper, Nico está morrendo. Nós temos que encontrá-lo. Sem mencionar que Roma está prestes a ser destruída.
A voz dela não queria sair. Ela manteve essa visão da sala circular para si por tanto tempo, que agora era impossível falar sobre ela. Tinha uma sensação horrível de que explicar para Percy e Jason não mudaria nada. Ela não podia parar o que estava para acontecer.
Ela pegou a faca novamente. Seu cabo parecia mais frio do que o habitual. Obrigou-se a olhar para a lâmina. Ela viu dois gigantes em armaduras de gladiador sentados em cadeiras de pretores superdimensionadas. Os gigantes brindavam com taças de ouro, como se tivessem acabado de ganhar uma luta importante. Entre eles estava um grande jarro de bronze.
A visão ampliou novamente. Dentro do frasco, Nico di Angelo estava enrolado em uma bola, não mais em movimento, todas as sementes de romã comidas.
— Nós estamos atrasados — disse Jason.
— Não — Percy discordou. — Não, eu não posso acreditar nisso. Talvez ele tenha entrado em um transe profundo para ganhar tempo. Temos que nos apressar.
A superfície da lâmina ficou escura. Piper colocou-a de volta em sua bainha, tentando manter suas mãos firmes. Ela esperava que Percy estivesse certo e Nico ainda estivesse vivo. Por outro lado, não via como aquela imagem estava ligada com a visão da sala de afogamento. Talvez os gigantes estivessem brindando porque ela, Percy e Jason estivessem mortos.
— Devemos esperar pelos outros — ela lembrou — Hazel, Frank e Leo devem estar de volta em breve.
— Nós não podemos esperar — Percy insistiu.
O Treinador Hedge grunhiu.
— São apenas dois gigantes. Se vocês quiserem, eu posso cuidar deles.
— Uh, treinador — Jason disse — isso é uma grande oferta, mas nós precisamos de você para ser o homem no navio... ou cabra no navio. Que seja.
Hedge fez uma careta.
— E deixar vocês três com toda a diversão?
Percy agarrou o braço do sátiro.
— Hazel e os outros precisam de você aqui. Quando eles voltarem, vão precisar de sua liderança. Você é a rocha deles.
— Sim — Jason conseguiu manter uma cara séria. — Leo sempre diz que você é a sua rocha. Pode dizer-lhes onde fomos e trazer o navio de volta para nos encontrar no Fórum.
— E tome — Piper desamarrou Katoptris e colocou-a nas mãos do treinador Hedge.
Os olhos do sátiro se alargaram. Um semideus nunca deveria deixar sua arma para trás, mas Piper estava farta de visões malignas. Ela preferia enfrentar a morte sem mais nenhuma prévia.
— Fique de olho em nós, com a lâmina — sugeriu. — E você pode verificar os placares do basebol.
Aquilo selou o acordo. Hedge assentiu sombriamente, preparado para fazer a sua parte da missão.
— Tudo bem. Mas se algum gigante vier por aqui...
— Sinta-se livre para explodi-los — disse Jason.
— E quanto a turistas irritantes?
— Não — todos disseram em uníssono.
— Bah. Ok. Só não demorem muito ou eu vou atrás de vocês com balistas flamejantes.