quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Capitulo LI - Percy






A FESTA DA FORTUNA NÃO TINHA NADA a ver com tuna, o que estava bom para Percy.
Campistas, Amazonas e lares lotaram o refeitório para um jantar de luxo. Até os faunos foram convidados, tendo ajudado a colocar bandagens nos feridos depois da batalha. Ninfas do vento zuniam pela sala entregando pedidos de pizza, hambúrgueres, bifes, saladas, comida chinesa e burritos, sempre voando em velocidade extrema.
Apesar da batalha exaustiva, todos estavam com bom espírito. As baixas tinham sido leves, e alguns campistas tinham morrido e voltado à vida, como Gwen, não tinham sido levados ao Mundo Inferior. Talvez Tânatos tivesse feito vista grossa. Ou talvez Plutão tivesse dado a essa gente um passe, como tinha feito com Hazel. Seja lá qual era o caso, ninguém reclamou.
Estandartes coloridos das Amazonas e dos romanos estavam pendurados lado a lado nas vigas. A águia dourada que fora restaurada estava orgulhosamente atrás da mesa do pretor, e as paredes estavam decoradas com cornucópias – chifres mágicos de fartura que derramavam frutas, chocolate e biscoitos recém saídos do forno em cachoeiras contínuas.
As Coortes se misturaram livremente com as Amazonas, pulando de divã em divã à vontade, e pela primeira vez os soldados da Quinta eram bem-vindos em todo lugar. Percy mudou de assento tantas vezes que perdeu sinal de seu jantar.
Havia muitos flertes e lutas greco-romanas – que parecia ser a mesma das Amazonas. Em certo ponto Percy ficou encurralado por Kinzie, a Amazona que o tinha desarmado em Seattle. Ele teve que explicar que já tinha namorada. Felizmente, Kinzie levou na boa. Ela contou o que havia acontecido depois de saírem de Seattle – como Hylla derrotou sua adversária Otrera em dois duelos consecutivos até a morte, então as Amazonas a chamam agora de Rainha Hylla, a que matou duas vezes.
— Otrera continuou morta da segunda vez — Kinzie disse, piscando. — Temos que agradecer vocês por isso. Se precisar de uma nova namorada um dia desses... bem, acho que você fica ótimo de colar prata e macacão laranja.
Percy não sabia dizer se ela estava brincando ou não. Ele a agradeceu educadamente e trocou de assento.
Assim que todos tinham comido e os pratos pararam de voar, Reyna fez um pequeno discurso. Ela formalmente deu as boas-vindas às Amazonas, agradecendo pela ajuda. Então abraçou sua irmã e todos aplaudiram.
Reyna ergueu as mãos pedindo silêncio.
— Minha irmã e eu nem sempre nos vimos cara-a-cara...
Hylla riu.
— Foi um desentendimento.
— Ela entrou para as Amazonas — Reyna continuou. — Entrei para o Acampamento Júpiter. Mas olhando por essa sala, acho que nós duas fizemos boas escolhas. Estranhamente, nossos destinos foram possivelmente selados por um herói que todos nós acabamos de eleger para pretor no campo de batalha – Percy Jackson.
Mais aplausos. As irmãs ergueram suas taças para Percy e acenaram para ele vir à frente.
Todos pediram por um discurso, mas Percy não sabia o que dizer. Ele protestou dizendo que não era realmente o melhor para pretor, mas os campistas o afogaram em aplausos. Reyna tirou seu colar prateado do probatio.
Octavian lançou-lhe um olhar feio, se virou para o povo e sorriu como se tudo fosse ideia dele. Ele rasgou um ursinho de pelúcia e pronunciou bons presságios para o ano que viria – Fortuna estaria abençoando-os!  – Ele passou sua mão sobre o braço de Percy e gritou:
— Percy Jackson, filho de Netuno, primeiro ano de serviço!
Os símbolos romanos queimaram no braço de Percy: um tridente, SPQR, e uma faixa. Pareceu que alguém estava pressionando ferro quente na sua pele, mas Percy tentou não gritar.
Octavian o abraçou e sussurrou:
— Espero que tenha doído.
Então Reyna deu a ele uma medalha de águia e um manto roxo, símbolos do pretor.
— Você merece, Percy.
A rainha Hylla deu tapinhas nas costas.
— E decidi não te matar.
— Hã, valeu — Percy respondeu.
Ele rodou pelo refeitório mais uma vez, porque todos os campistas o queriam na sua mesa. Vitellius, o lar, seguiu, tropeçando na toga roxa brilhante e reajustando a espada, dizendo a todos como ele havia previsto a grandiosidade da ascensão de Percy.
— Exigi que ele entrasse para a Quinta Coorte! — o fantasma disse orgulhoso. — Direcionei seu talento no caminho certo!
Don, o fauno, apareceu em um chapéu de enfermagem e uma pilha de biscoitos em cada mão.
— Cara, parabéns e tudo de bom! Incrível! Ei, você tem algum trocado?
Toda aquela atenção deixava Percy com vergonha, mas ele estava feliz de ver o quão bem Hazel e Frank estavam sendo tratados. Todos os chamavam de “os salvadores de Roma”, e eles mereciam isso. Haviam até mesmo falado sobre reestabelecer o bisavô de Frank, Shen Lun, à lista de honra da legião. Aparentemente, ele não tinha causado o terremoto de 1906.
Percy se sentou por um momento com Tyson e Ella, que eram convidados de honra na mesa de Dakota. Tyson ficou pedindo por sanduíches de manteiga de amendoim, comendo tão rápido que as ninfas mal acreditavam. Ella empoleirou no ombro divã e mordiscava furiosamente alguns rolos de canela.
— Rolos de canela são bons para harpias — ela disse. — Vinte e quatro de junho é um bom dia. Aniversário de Roy Disney, a Festa da Fortuna e o Dia da Independência do Zanzibar. E Tyson.
Ela olhou para Tyson, corou e desviou o olhar.
Depois do jantar, a legião inteira tirou a noite de folga. Percy e seus amigos foram para a cidade, que não tinha se recuperado da batalha, mas os incêndios já tinham sido apagados, a maioria dos detritos varridos, e os cidadãos estavam dispostos a comemorar.
Na Linha Pomeriana, a estátua de Términus vestia um chapéu de festa de papel.
— Bem-vindo, pretor! — ele cumprimentou. — Se precisar de algumas caras esmagadas de gigantes enquanto estiver na cidade, me deixe saber.
— Obrigado, Términus — Percy disse. — Vou pensar nisso.
— É, bom. Sua capa de pretor está dois centímetros curta demais na esquerda. Aqui... assim está melhor. Onde está minha assistente? Julia!
A garotinha saiu correndo de trás do pedestal. Estava usando um vestido verde aquela noite, e seu cabelo ainda estava trançado. Quando ela sorriu, Percy viu que seus dentes da frente estavam começando a nascer. Ela ergueu uma caixa cheia de chapéus de festa. Percy tentou recusar, mas Julia usou seus grandes olhos adoráveis.
— Ah, claro — ele disse. — Vou levar a coroa azul.
Ela ofereceu um chapéu de pirata dourado para Hazel.
— Vou ser como Percy Jackson quando eu crescer — ela disse a Hazel solenemente.
Hazel sorriu e bagunçou seu cabelo.
— É uma coisa boa para ser, Julia.
— Apesar disso — Frank disse, pegando um chapéu em forma de cabeça de urso polar — Frank Zhang também seria bom.
— Frank! — Hazel disse.
Eles colocaram seus chapéus e continuaram andando até o fórum, que estava repleto de lanternas multicoloridas. As fontes brilhavam em roxo. As lojas de café estavam fazendo um negócio rápido, e os músicos das ruas enchiam o ar com sons de guitarra, lira, flautas de Pã e barulhos de sovaco. (Percy não tinha certeza do último. Talvez fosse uma antiga tradição musical romana.)
A deusa Íris devia estar em alguma festa também. Enquanto Percy e seus amigos caminharam até a danificada Casa do Senado, um arco-íris deslumbrante apareceu no céu à noite. Infelizmente a deusa mandou outra bênção, também – uma chuva suave com gosto de bolinhos da A.C.O.E.V. sem glúten, que fez Percy se perguntar o que seria mais difícil: limpar aquilo ou reconstruir a cidade. Os bolinhos fariam ótimos tijolos.
Por um momento, Percy vagou pelas ruas com Hazel e Frank, que ficaram ombro a ombro. Finalmente ele disse:
— Estou um pouco cansado, pessoal. Podem ir em frente.
Hazel e Frank protestaram, mas Percy podia dizer que eles queriam algum tempo sozinhos.
Enquanto voltava para o acampamento, ele viu a Sra. O’Leary brincando com Hannibal no Campo de Marte. Finalmente ela tinha achado um parceiro com que pudesse fazer bagunça. Eles brincavam, batendo um no outro, quebrando fortificações e se divertindo muito.
Nos portões, Percy parou e olhou o vale. Pareceu fazer muito tempo desde que estivera ali com Hazel, tendo sua primeira boa vista do acampamento. Agora ele estava mais interessado em ver o horizonte oeste.
Amanhã, talvez no próximo dia, seus amigos do Acampamento Meio-Sangue chegariam. Mesmo com ele preocupado com o Acampamento Júpiter, não podia esperar para ver Annabeth de novo. Ele ansiava pela sua antiga vida – Nova York e Acampamento Meio-Sangue – mas algo dizia que ia levar um tempo antes de voltar para casa. Gaia e os gigantes não parariam de causar problemas – não por um muito tempo.
Reyna tinha dado a ele a segunda casa de pretor na Via Principalis, mas assim que Percy olhou para dentro, soube que não podia ficar ali. Era legal, mas estava cheio de coisas do Jason Grace.
Percy já se sentia desconfortável pegando o título de pretor de Jason. Ele não queria tomar a casa do cara, também. As coisas já seriam estranhas o bastante quando Jason voltasse – e Percy tinha certeza que seria em um navio de guerra com a cabeça de um dragão.
Percy rumou para os quartéis da Quinta Coorte e subiu no beliche. Ele caiu no sono na hora.

Ele sonhou que estava carregando Juno pelo Pequeno Tibre. Ela estava disfarçada como uma senhora maluca, sorrindo e cantando uma antiga canção de ninar grega enquanto passava as mãos pelo colar de Percy.
— Ainda quer me bater, querido? — ela perguntou.
Percy parou no córrego. Ele jogou a deusa no rio.
Assim que atingiu a água, ela desapareceu e reapareceu na margem.
— Oh, o que é isso — ela gargalhou — isso não foi muito heroico, mesmo em um sonho!
— Oito meses — Percy disse. — Você roubou oito meses da minha vida para uma missão que levou uma semana. Por quê?
Juno resmungou desaprovando.
— Vocês mortais e suas vidinhas. Oito meses não são nada, meu querido. Perdi oito séculos uma vez, esquecida pela maioria do Império Bizantino.
Percy invocou o poder do rio. Girou ao seu redor, em uma corrente de águas bravas.
— Calma, calma — Juno disse. — Não fique irritado. Se vamos derrotar Gaia, nossos planos devem estar perfeitamente combinados. Primeiro, precisava que Jason e seus amigos me libertassem da prisão...
— Da prisão? Você estava presa e te deixaram sair?
— Não soe tão surpreso, querido! Sou uma doce senhora. De qualquer maneira, você não era preciso no Acampamento Júpiter até agora, para salvar os romanos de seu momento de crise. Entre esses oito meses... bem, eu tive outros planos sendo preparados, meu garoto. Guardando-o de Gaia, trabalhando pelas costas de Júpiter, protegendo seus amigos – é um trabalho completo! Se eu tivesse que te guardar dos monstros de Gaia e fazer esquemas ao mesmo tempo, e ainda te deixar escondido de seus amigos no oeste o tempo todo... não, era melhor te manter a salvo. Você teria sido uma distração... um canhão solto.
— Uma distração — Percy sentiu a água subindo com sua fúria, girando mais rápido a seu redor. — Um canhão solto.
— Exatamente. Estou orgulhosa que tenha entendido.
Percy mandou uma onda na direção da senhora, mas Juno simplesmente desapareceu e se materializou mais longe da margem.
— Oh — ela disse — está de mau humor. Mas você sabe que estou certa. Seu timing aqui foi perfeito. Eles acreditam em você agora. Você é um herói de Roma. E enquanto estava adormecido, Jason Grace aprendeu a confiar nos gregos. Eles tiveram tempo para construir o Argo II. Juntos, você e Jason unirão os acampamentos.
— Por que eu? — Percy exigiu. — Você e eu nunca nos demos bem. Por que você iria querer um canhão solto no seu time?
— Porque eu te conheço, Percy Jackson. De vários jeitos, você é impulsivo, mas quando está com seus amigos, fica tão constante quando uma agulha de bússola. Você tem uma lealdade inabalável e inspira lealdade. Você é a cola que vai unir os sete.
— Ótimo — Percy disse. — Sempre quis ser uma cola.
Juno atou os dedos tortos.
— Os heróis do Olimpo devem se unir! Depois de sua vitória sobre Cronos em Manhattan... bem, temo que feriu a autoestima de Júpiter.
— Porque eu estava certo — Percy disse. — E ele estava errado.
A velha encolheu os ombros.
— Ele deveria estar acostumado a isso, depois de tantos éons casado comigo, mas que nada! Meu orgulhoso e teimoso marido se recusa a pedir ajuda a meros semideuses de novo. Ele acredita que pode lutar contra os gigantes sem vocês, e Gaia pode ser forçada a voltar a seu sono. Mas eu o conheço. Contudo você deve se provar. Só navegando para as antigas terras e chegando mais perto das Portas da Morte vocês convencerão Júpiter de que são dignos de lutar lado a lado dos deuses. Será a maior missão desde que Enéias navegou de Tróia!
— E se falharmos? — Percy perguntou. — E se os romanos e gregos não se derem bem?
— Então Gaia já terá ganhado. Vou te dizer, Percy Jackson. A única que vai te causar mais problemas é a que está mais próxima de você... a que mais me odeia.
— Annabeth? — Percy sentiu sua fúria aumentando de novo. — Você nunca gostou dela. Agora está chamando-a de problemática? Você não a conhece completamente. Ela é a pessoa que eu mais quero por perto.
A deusa sorriu secamente.
— Você verá, jovem herói. Ela tem uma tarefa difícil à frente quando chegar a Roma. Se ela está à altura... não sei.
Percy invocou um punho de água e esmagou a senhora.
Quando a onda desapareceu, ela tinha ido embora. O rio saiu do controle de Percy. Ele afundou na escuridão do redemoinho de água.