quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Capitulo XX - Hazel






POR UMA BATIDA DO CORAÇÃO, Hazel ficou tão atordoada quanto os karpoi. Então Frank e Percy irromperam em campo aberto e começaram a massacrar cada fonte de fibra que puderam encontrar. Frank atirou uma flecha que atravessou Cevada, despedaçando-o em sementes. Percy cortou Sorgo e investiu em direção a Milhete e Aveia. Hazel pulou para baixo e se juntou à luta.
Em minutos, os karpoi foram reduzidos a montanhas de sementes e cereais para o café da manhã. Trigo começou a se reformar, mas Percy puxou um isqueiro da sua mochila e acendeu uma chama.
— Tente — ele avisou — e eu incendeio todo este campo. Fique morto. Fique longe de nós, ou a grama queimará!
Frank estremeceu como se a chama o aterrorizasse. Hazel não entendeu porque, mas gritou para as pilhas de sementes mesmo assim:
— Ele vai fazer isso! Ele é maluco!
Os restos dos karpoi se espalharam ao vento. Frank escalou a pedra e os observou partirem. Percy extinguiu a chama e sorriu para Hazel.
— Obrigado por gritar, não teríamos te encontrado de outra forma. Como os deteve por tanto tempo?
Ela apontou para a rocha.
— Uma grande pilha de xisto.
— Como?
— Pessoal — Frank chamou de cima da rocha. — Vocês precisam ver isso.
Percy e Hazel escalaram e se juntaram a ele. No momento em que Hazel viu o que ele estava olhando, ela inalou rispidamente.
— Percy, sem luz! Guarde a sua espada!
— Droga!
Ele tocou a ponta da espada, e Contracorrente voltou a ser uma caneta.
Embaixo deles, um exército estava em movimento.
O campo terminava em uma ribanceira rasa, onde uma estrada gasta ia de norte a sul. Do lado oposto da estrada, colinas verdes se estendiam ao horizonte, vazias de civilização, com exceção de uma loja de conveniência escurecida no topo mais próximo.
Toda a ravina estava cheia de monstros – fileira atrás de fileira marchando para o sul, tantos e tão perto. Hazel estava surpreendida que eles não a tivessem ouvido gritar.
Ela, Percy e Frank se encolheram atrás da rocha. Assistiram desacreditados enquanto dúzias de humanóides grandes e cabeludos passavam, vestidos em pedaços maltrapilhos de armadura e peles de animais. As criaturas tinham seis braços cada, três saindo de cada lado, de forma que pareciam homens das cavernas que evoluíram de insetos.
— Gegenes — sussurrou Hazel. — Os Nascidos da Terra.
— Você lutou com eles antes? — perguntou Percy.
Ela negou com a cabeça.
— Só ouvi sobre eles nas aulas de monstros no acampamento.
Ela nunca gostou da aula de monstros, lendo Plínio, o Velho e todos os outros autores mofados descrevendo monstros lendários dos arredores do Império Romano. Hazel acreditava em monstros, mas algumas descrições eram tão selvagens que ela pensou que seriam somente rumores ridículos.
Só que agora, todo um exército daqueles rumores ridículos estavam marchando ao seu lado.
— Os Nascidos da Terra enfrentaram os Argonautas — ela murmurou. — E aquelas coisas atrás deles...
— Centauros — disse Percy. — Mas isso não está certo... Centauros são caras bons.
Frank fez um barulho sufocado.
— Isso não é o que nos foi ensinado no acampamento. Centauros são loucos, sempre ficam bêbados e matam heróis.
Hazel via enquanto os homens-cavalo passavam galopando. Eles eram homens da cintura pra cima, cavalos da cintura pra baixo. Estavam vestidos com uma armadura bárbara de pele e bronze, armados com lanças e estilingues. A princípio, Hazel pensou que eles estavam usando capacetes Vikings. Então percebeu que eles tinham verdadeiros chifres saindo dos seus cabelos desgrenhados.
— Era esperado que eles tivessem chifres de touro? — ela perguntou.
— Talvez eles sejam de uma espécie especial — disse Frank. — Não vamos perguntar a eles, certo?
Percy contemplou mais ao longe na estrada e seu rosto ganhou uma expressão estranha.
— Meus deuses... Ciclopes.
Certamente, andando pesadamente atrás dos centauros havia um batalhão de ogros de um só olho, machos e fêmeas com cerca de três metros, vestindo armaduras feitas com metais de ferro-velho. Seis dos monstros estavam atrelados como bois, puxando uma torre de assalto de dois andares com uma balista escorpião gigante.
Percy pressionou os lados de sua cabeça.
— Ciclopes. Centauros. Isto está errado. Tudo errado.
O exército de monstros era o suficiente para fazer qualquer um se desesperar, mas Hazel percebeu que algo a mais estava acontecendo com Percy. Ele parecia pálido e doente sob a luz da lua, como se as suas memórias estivessem tentando voltar, embaralhando a sua mente no processo.
Ela olhou para Frank.
— Temos que levá-lo de volta ao barco. O mar vai fazer com que se sinta melhor.
— Sem chance — disse Frank. — Têm muitos deles. O acampamento... Temos que avisar o acampamento.
— Eles sabem — grunhiu Percy — Reyna sabe.
Um nó se formou na garganta de Hazel. Não havia forma de a legião enfrentar tantos. Se eles só estavam à algumas centenas de quilômetros ao norte do Acampamento Júpiter, então a missão já estava condenada. Eles nunca chegariam ao Alasca a tempo.
— Venha — ela pediu. — Vamos...
Então ela viu o gigante.
Quando ele apareceu sobre o cume, Hazel não podia acreditar em seus olhos. Ele era mais alto que a torre de assalto – nove metros, no mínimo – com pernas escamosas de réptil, como um Dragão de Komodo da cintura pra baixo e uma armadura verde-azulada da cintura pra cima. Seu peitoral tinha a forma de fileiras de monstros famintos, suas bocas abertas pareciam demandar comida. Seu rosto era humano, mas o cabelo era verde e selvagem, como um esfregão de algas. Enquanto girava a sua cabeça de um lado ao outro, cobras caiam da sua cabeça.
Caspa de víboras – nojento.
Ele estava armado com um tridente imenso e uma rede pesada. Somente a visão daquelas armas fez o estômago de Hazel encolher. Ela enfrentou aquele tipo de lutador muitas vezes no treinamento de gladiadores. Era o mais complicado, esguio e o pior combate que conhecia. Este gigante era um retiarius extra grande.
— Quem é ele? — A voz de Frank tremeu. — Esse não é...
— Não é Alcioneu — disse Hazel fracamente. — Um dos seus irmãos, eu acho. Aquele que Términus mencionou. Os espíritos dos grãos também o mencionaram. Esse é Polybotes.
Ela não estava certa de como sabia, mas podia sentir a aura de poder do gigante mesmo dali. Se lembrava desse sentimento por causa do Coração da Terra enquanto erguia Alcioneu – como se estivesse parada perto de um imã gigante, e todo o ferro do seu corpo estivesse sendo atraído para ele. Esse gigante era outro filho de Gaia – uma criatura da terra tão má e poderosa, que tinha o seu próprio campo gravitacional.
Hazel sabia que eles tinham que ir embora. O seu esconderijo no topo da rocha estaria visível se uma criatura tão alta decidisse olhar na sua direção. Mas sentiu que algo importante estava para acontecer. Ela e os seus amigos rastejaram um pouco mais para baixo no xisto e continuaram assistindo.
Assim que o gigante se aproximou, uma mulher ciclope quebrou a formação e correu para o fundo para falar com ele. Ela era enorme, gorda e horrivelmente feia, usava um vestido de malha de corrente como um vestido havaiano – mas perto de um gigante ela parecia uma criança. Ela apontou para a loja de conveniência fechada no topo da colina mais próxima e murmurou algo sobre comida. O gigante respondeu bruscamente, como se estivesse aborrecido. A ciclope fêmea rosnou uma ordem para os da sua raça e três deles a acompanharam colina acima.
Quando estavam a meio caminho da loja, uma luz cegante transformou a noite em dia. Hazel ficou sem enxergar nada. Abaixo dela, o exército inimigo se dissolveu em caos, monstros gritando de dor e raiva. Hazel apertou os olhos. Ela sentiu como se acabasse de sair de um teatro escuro para uma tarde de sol.
— Bonito demais! — gritaram os ciclopes. — Queima nosso olho!
A loja na colina estava envolta em um arco-íris, mais perto e brilhante que qualquer outro que Hazel já tinha visto. A luz estava ancorada na loja, apontando para o céu, banhando o campo em um estranho brilho caleidoscópico.
A mulher ciclope elevou a sua maça e avançou para a loja. Assim que atingiu o arco-íris, todo o seu corpo começou a fumegar. Ela gemeu em agonia, e deixou sua maça cair, recuando com bolhas multicolorias nos seus braços e rosto.
— Deusas horríveis! — ela berrou para a loja. — Nos deem aperitivos!
Os outros monstros enlouqueceram, avançando contra a loja de conveniência, depois correndo quando o arco-íris os queimava. Alguns jogaram pedras, lanças, espadas e ainda peças das suas armaduras, tudo queimou em chamas de cores bonitas.
Finalmente o líder gigante percebeu que suas tropas estavam jogando fora equipamentos perfeitamente bons.
— Parem! — ele rugiu.
Com alguma dificuldade, ele conseguiu gritar, puxar e surrar as suas tropas para submissão. Quando eles se calaram, ele se aproximou da loja com escudo-de-arco-íris e caminhou em volta da luz.
— Deusa! — ele gritou. — Saia e renda-se!
Nenhuma resposta da loja. O arco-íris continuou com a luz trêmula.
O gigante elevou o seu tridente e rede.
— Eu sou Polybotes! Ajoelhe-se perante mim e assim poderei destruir-te rapidamente!
Aparentemente, ninguém na loja estava impressionado. Um pequeno objeto escuro saiu navegando pela janela e pousou aos pés do gigante. Polybotes gritou:
— Granada!
Ele cobriu seu rosto. As suas tropas se jogaram ao chão.
Quando a coisa não explodiu, Polybotes se agachou e a agarrou cuidadosamente.
Ele rugiu em raiva.
— Um Ding Dong? Você ousa me insultar com um Ding Dong? — Ele atirou o bolo de volta para a loja e este evaporou na luz.
Os monstros ficaram de pé. Vários murmuraram:
— Ding Dong? Onde estão os Ding Dongs?
— Vamos atacar — disse a mulher ciclope. — Estou com fome. Os meus garotos querem aperitivos!
— Não! — disse Polybotes. — Nós já estamos atrasados. Alcioneu nos quer no acampamento em quatro dias. Vocês, ciclopes, se movem indesculpavelmente devagar. Nós não temos tempo para deusas menores.
Ele mirou o seu último comentário à loja, mas não teve resposta.
A mulher ciclope grunhiu.
— O acampamento, sim. Vingança! Os laranjas e roxos destruíram a minha casa. Agora Ma Gasket vai destruir a deles! Vocês me escutaram, Leo? Jason? Piper? Eu venho para aniquilar vocês!
Os outros ciclopes berraram em aprovação. Os outros monstros se juntaram.
Todo o corpo de Hazel formigou. Ela olhou para os seus amigos.
— Jason — ela sussurrou. — Ela lutou com Jason. Ele pode ainda estar vivo.
Frank assentiu.
— Os outros nomes significam algo para você?
Hazel negou. Ela não conheceu nenhum Leo ou Piper no acampamento. Percy ainda parecia doente e atordoado. Se os nomes significavam alguma coisa para ele, ele não demonstrou.
Hazel ponderou o que a ciclope havia dito: Laranjas e roxos. Roxo – obviamente a cor do Acampamento Júpiter. Mas laranja... Percy havia aparecido com uma camisa laranja destruída. Isso não poderia ser uma coincidência.
Abaixo deles, o exército voltou a marchar para sul, mas o gigante Polybotes se afastou para um lado, franzindo a testa e farejando o ar.
— Deus do mar — ele murmurou. Para o horror de Hazel ele se virou em sua direção. — Eu cheiro deus do mar.
Percy estava tremendo. Hazel colocou a mão no seu ombro e tentou pressioná-lo contra a rocha.
A mulher ciclope, Ma Gasket, rosnou.
— É claro que você cheira deus do mar! O mar está bem ali!
— Mais do que isso — Polybotes insistiu. — Eu nasci para destruir Netuno. Eu posso sentir... — Ele franziu a testa, girando a sua cabeça e balançando-a algumas vezes mais.
— Marchamos ou farejamos o ar? — repreendeu Ma Gasket. — Eu não ganho Ding Dong, você não ganha deus do mar!
Polybotes grunhiu.
— Muito bem. Marchem! Marchem! — Ele olhou mais uma vez para a loja com o escudo de arco-íris, então passou seus dedos pelo seu cabelo. Ele tirou três cobras que pareciam maiores que as outras, com marcas brancas ao redor dos seus pescoços. — Um presente, deusa! O meu nome, Polybotes, significa “Muitos-para-Alimentar!” Aqui há algumas bocas para ti. Veja se a sua loja terá muitos clientes com essas sentinelas do lado de fora.
Ele riu perversamente e atirou as cobras na grama ao lado da colina. Então marchou ao sul, suas pesadas pernas de Komodo balançando a terra. Gradativamente, a última fileira de monstros passou pelas colinas e desapareceu na noite.
Quando haviam ido embora, o arco-íris cegante se apagou como um holofote.
Hazel, Frank e Percy foram deixados sozinhos na noite olhando através da estrada para uma loja de conveniência fechada.
— Isso foi diferente — murmurou Frank.
Percy se estremeceu violentamente. Hazel sabia que ele precisava de ajuda, descanso ou alguma coisa. Ver aquele exército deve ter desencadeado algum tipo de memória, deixando-o em estado de choque. Eles deveriam levá-lo de volta ao barco.
Por outro lado, uma campina extensa se encontrava entre eles e a praia. Hazel tinha a sensação de que os karpoi não ficariam longe para sempre. Ela não gostava da ideia de eles três fazendo o seu caminho de volta ao barco no meio da noite. E ela não podia deixar a terrível sensação de que se não tivesse invocado o xisto, seria prisioneira de um gigante a essa hora.
— Vamos para a loja — ela disse. — Se há uma deusa lá dentro, talvez ela possa nos ajudar.
— Exceto que um monte de cobras está guardando a colina agora — Frank replicou. — E aquele arco-íris abrasador pode voltar...
Ambos olharam para Percy que estava tremendo como se tivesse hipotermia.
— Temos que tentar — disse Hazel.
Frank assentiu sombriamente.
— Bem... qualquer deusa que atira um Ding Dong em um gigante não pode ser tão ruim. Vamos.