quinta-feira, 17 de outubro de 2013

VIII - Leo






LEO SE EMPOLGOU PARA UMA MUDANÇA EXTREMA. Ele pegou algumas pastilhas de hortelã e um par de óculos para marceneiros do seu cinto de ferramentas. Os óculos não eram exatamente óculos de sol, mas teriam de servir. Ele arregaçou as mangas de sua camisa, usou um pouco de óleo de máquina para arrumar o cabelo, enfiou uma chave inglesa no bolso de trás (o porquê exatamente, ele não tinha certeza) e fez Hazel desenhar com um marcador uma tatuagem em seu bíceps: COISA GOSTOSA, com uma caveira sobre ossos cruzados.
— No que você esta pensando? — ela parecia muito nervosa.
— Eu tento não pensar — Leo admitiu. — Isso interfere em ser louco. Se preocupe somente e m mover o Bronze Celestial. Eco, você está pronta?
— Pronta — ela disse.
Leo respirou fundo. Ele andou em direção ao lago, esperando que ele parecesse incrível e não como se tivesse um problema nervoso.
— Leo é o mais legal — ele gritou.
— Leo é o mais legal! — Eco gritou de volta.
— Yeah, baby, olha pra mim!
— Olha pra mim! — Eco disse.
— Abram caminho para o rei!
— O rei!
— Narciso é fraco!
— Fraco!
O grupo de ninfas se espalhou em surpresa. Leo afastou as ninfas como se elas estivessem o incomodando.
— Sem autógrafos, meninas. Eu sei que vocês querem um pouco de tempo do Leo, mas eu sou legal demais! É melhor se apenas ficarem atrás desse perdedor do Narciso. Ele é patético!
— Patético! — Eco disse com entusiasmo.
As ninfas resmungaram com raiva.
— O que você está falando? — Uma exigiu.
— Você é patético — disse outra
Leo ajeitou os óculos e sorriu. Ele flexionou os bíceps, embora ele não tivesse muito o que flexionar e exibiu sua tatuagem COISA GOSTOSA. Ele tinha a atenção das ninfas, mesmo porque elas estavam atordoadas, mas Narciso ainda estava olhando seu próprio reflexo.
— Vocês sabem o quão feio Narciso é? — Leo perguntou ao grupo. — Ele é tão feio, que quando ele nasceu, sua mãe pensou que ele era um centauro ao contrário: com uma bunda de cavalo na cara.
Algumas ninfas ofegaram. Narciso franziu o cenho, como se estivesse vagamente consciente de um mosquito zumbindo em torno de sua cabeça.
— Vocês sabem o porquê de seu arco ter teias de aranha? — Leo continuou. — Ele o usa para caçar encontros, mas não consegue encontrar um!
Uma das ninfas riu. As outras rapidamente deram cotoveladas para silenciá-la. Narciso virou-se e fez uma careta para Leo.
— Quem é você?
— Eu sou o Grande McShizzle, cara! — Leo disse. — Eu sou Leo Valdez, o supremo bad boy. E as garotas amam um bad boy.
— Amam um bad boy! — Eco disse, em tom convincente.
Leo pegou uma caneta e autografou o braço de uma das ninfas.
— Narciso é um perdedor! Ele é tão fraco, que não consegue levantar um lenço de papel. Ele é tão patético, que quando você procura patético no Wikipédia tem uma foto dele lá, só que a foto é tão feia que ninguém olha.
Narciso uniu as incríveis sobrancelhas. Sua face estava mudando de bronze para rosa salmão. No momento, ele tinha esquecido totalmente a lagoa, Leo podia ver a camada de bronze afundando na areia.
— Do que é que você está falando? — exigiu Narciso. — Eu sou incrível. Todo mundo sabe disso.
— Incrível em ser um chato — Leo replicou. — Se eu fosse um chato como você, eu me afogaria. Ah, espera, você já fez isso.
Outra ninfa riu, em seguida outra. Narciso rosnou, o que o fez parecer um pouco menos bonito. Enquanto isso, Leo sorriu e levantou as sobrancelhas sobre seus óculos e estendeu as mãos, pedindo aplausos.
— Isso mesmo! — disse. — Time Leo para vencedor!
— Time Leo para vencedor! — Eco gritou.
Ela se movia sinuosamente entre as ninfas, e como era tão difícil de ver, as ninfas, aparentemente, pensaram que a voz era de uma delas.
— Ah meu Deus, eu sou tão incrível! — Leo gritou.
— Tão incrível! — Eco gritou de volta.
— Ele é engraçado — uma ninfa se aventurou.
— E bonito, para um magrelo — disse outra.
— Magrelo? — Leo perguntou. — Baby, eu inventei o magrelo, esquelético é a nova sensação. E eu TENHO magreza. Narciso? Ele é um perdedor, nem o Mundo dos Mortos o queria. Ele não conseguia nem fazer as fantasmas saírem com ele para um encontro.
— Eca. — disse uma ninfa.
— Eca! — concordou Eco.
— Pare — Narciso levantou. — Isso não está certo. Essa pessoa obviamente não é incrível, então ele deve estar... — ele procurou pelas palavras certas. Provavelmente faz um bom tempo desde que falou de qualquer coisa a não ser ele mesmo. — Ele deve estar enganando a gente.
Aparentemente, Narciso não era completamente estúpido. O entendimento apareceu em seu rosto. Ele voltou-se para a lagoa.
— O espelho de bronze se foi! Meu reflexo! Devolva.
— Time Leo! — Uma das ninfas disse. Mas as outros voltaram a atenção para Narciso.
— Eu sou o bonito — insistiu Narciso — Ele roubou meu espelho e eu vou embora, a menos que nós o obtenhamos de volta!
As meninas ofegaram. Uma apontou.
— Ali!
Hazel estava no topo da cratera, correndo o mais rápido que podia, enquanto carregava uma grande chapa de bronze.
— Recuperem — gritou uma ninfa.
Provavelmente contra sua vontade, Eco murmurou:
— Recuperem.
— Sim! — Narciso despendurou seu arco e pegou uma flecha de sua aljava empoeirada. — A primeira que pegar esse espelho, vou gostar dela quase tanto quanto gosto de mim mesmo. Eu poderia até te beijar, logo depois de eu beijar meu reflexo!
— Ah meus deuses! — As ninfas gritaram.
— E matem esses semideuses! — Narciso acrescentou, olhando generosamente para Leo. — Eles não são tão legais quanto eu!
Leo podia correr muito rápido quando alguém estava tentando matá-lo. Infelizmente, ele tinha muita prática. Ele ultrapassou Hazel, o que foi fácil, já que ela estava lutando com cinquenta quilos de Bronze Celestial. Ele pegou um lado da chapa de metal e olhou para trás. Narciso estava posicionando uma flecha, mas essa era tão velha e frágil, que se quebrou em pedaços.
— Ai! — Ele gritou de forma muito atraente. — Minha unha!
Normalmente ninfas eram rápidas – pelo menos as do Acampamento Meio-Sangue eram – mas estas estavam sobrecarregadas com pôsteres  camisetas, e outras mercadorias Narciso™. As ninfas também não eram boas em trabalho em equipe. Elas continuavam tropeçando umas nas outras e se empurrando. Eco piorou as coisas correndo entre elas, fazendo-as tropeçar e combatendo tantas quantas podia.
Ainda assim, elas estavam chegando perto rapidamente.
— Chame Arion! — Leo arfou.
— Já chamei! — disse Hazel.
Eles correram para a praia. Chegaram até a beira da água e podiam ver o Argo II, mas não havia maneira de chegar lá. Era longe demais para nadar, mesmo que não estivessem carregando a folha de bronze.
Leo virou. O grupo estava vindo sobre as dunas, Narciso na liderança, segurando seu arco como uma batuta de um maestro. As ninfas tinham conjurado variados tipos de armas. Algumas seguravam pedras. Outras tinham bastões de madeira envolvidos em flores. Algumas náiades tinham arminhas de água, o que não parecia assustador – mas seus olhares ainda eram assassinos.
— Ah, cara — Leo murmurou, convocou fogo em sua mão livre. — Sinceramente, lutar não é pra mim.
— Segure o Bronze Celestial. — Hazel pegou sua espada. — Fique atrás de mim!
— Fique atrás de mim! — Eco repetiu.
A garota camuflada estava correndo a frente do grupo agora.
Ela parou na frente de Leo e virou, levantou os braços como se quisesse protegê-lo pessoalmente.
— Eco? — Leo mal podia falar com o nó na garganta. — Você é uma ninfa corajosa.
— Ninfa corajosa? — Seu tom era de pergunta.
— Tenho orgulho de ter você no Time Leo. — disse ele. — Se sobrevivermos a isso, você deve esquecer Narciso.
— Esquecer Narciso — ela disse incerta.
— Você é boa demais para ele.
As ninfas os cercaram em um semicírculo.
— Impostores — disse Narciso — eles não me amam, garotas! Todos nós me amam, não é?
— Sim! — as garotas gritaram, exceto por uma ninfa confusa com um vestido amarelo que murmurou "Time Leo".
— Matem eles — ordenou Narciso.
As ninfas avançaram, mas a areia a frente delas explodiu. Arion veio correndo de lugar nenhum, circulando o grupo tão rapidamente que criou uma tempestade de areia, dando um banho de cal em seus olhos.
— Eu amo esse cavalo — Leo comentou.
As ninfas caíram, engasgando e tossindo. Narciso tropeçava cegamente, balançando seu arco como se tentando acertar uma piñata.
Hazel subiu na sela, ergueu o bronze e ofereceu uma mão a Leo.
— Não podemos deixar Eco! — Leo disse.
— Deixar Eco! — repetiu a ninfa.
Ela sorriu e pela primeira vez Leo pode ver claramente seu rosto. Ela era realmente bonita. Seus olhos eram mais azuis do que tinha imaginado. Como ele não tinha reparado nisso?
— Por quê? — Leo perguntou. — Você não acha que ainda pode salvar Narciso...
— Salvar Narciso... — ela disse confiante.
E mesmo que fosse só um eco, Leo pôde perceber que era exatamente isso o que ela queria. Ela havia ganhado uma segunda chance na vida e estava determinada a usá-la para salvar o cara que ela amava, mesmo ele sendo (embora muito bonito) um caso perdido.
Leo queria protestar, mas Eco se inclinou e o beijou no rosto e gentilmente o empurrou para longe.
— Leo, vamos — Hazel chamou.
As outras ninfas começavam a se recuperar. Elas limparam o da cal de seus olhos, que agora estavam verdes e brilhando de raiva. Leo olhou para Eco novamente, mas ela já tinha se dissolvido no cenário.
— Sim — ele disse, com a garganta seca. — Sim, está bem.
Ele subiu, ficando atrás de Hazel. Arion correu através da água, as ninfas gritavam atrás deles, e Narciso exclamando:
— Devolvam, devolvam!
Enquanto Arion corria de volta ao Argo II, Leo se lembrou sobre o que Nêmesis havia dito sobre Eco e Narciso: Talvez eles te ensinem uma lição.
Leo havia pensado que havia falado de Narciso, mas agora se perguntava se a verdadeira lição para ele era Eco – invisível para suas irmãs, amaldiçoada a amar alguém que não se importava com ela. A sétima roda. Ele tentou esquecer esse pensamento, e agarrou a chapa de bronze como se fosse um escudo.
Estava determinado a não esquecer o rosto de Eco. Ela merecia pelo menos uma pessoa que a viu e sabia o quão bom ela era. Leo fechou os olhos, mas a memória de seu sorriso já estava desaparecendo.