quinta-feira, 17 de outubro de 2013

XV - Percy






PERCY ESCALOU O CONVÉS E DISSE:
— Uau.
Eles pousaram próximo ao cume de uma colina arborizada. Um complexo de prédios brancos, como um museu ou uma universidade, estava situado em um bosque de pinheiros à esquerda. Abaixo disso se espalhava a cidade de Atlanta – um conjunto de arranha-céus marrom e prata no centro da cidade há dois quilômetros dali, crescia o que parecia ser uma explosão de rodovias, ferrovias, casas e faixas verdes da floresta.
— Lugar adorável — Hedge inalou o ar da manhã. — Boa escolha, Valdez.
Leo encolheu os ombros.
— Eu só escolhi uma colina alta. Essa é a biblioteca presidencial ou algo assim. Ao menos foi o que Festus disse.
— Eu não sei sobre isso! — Hedge rosnou. — Mas você percebe o que aconteceu nessa colina? Frank Zhang, você deveria saber!
Frank se encolheu.
— Deveria?
— Um filho de Ares esteve aqui! — Hedge chorou, indignado.
— Eu sou romano... Então Marte, na verdade.
— Que seja! Foi um lugar famoso na Guerra Civil Americana!
— Eu sou canadense, na verdade.
— Que seja! General Sherman, líder da União. Ele esteve aqui nessa colina, assistindo a cidade de Atlanta queimar. Deixou um rastro de destruição daqui até o mar. Queimadas, saques, pilhagens – aquilo que era semideus!
Frank se afastou do sátiro.
— Uh, certo.
Percy não se importava muito com a história, mas se perguntava se pousar ali era um mau presságio. Ouviu que a maioria das guerras civis humanas começou com lutas entre gregos e romanos. Agora eles estavam parados no lugar de uma dessas batalhas. A cidade inteira abaixo deles foi destruída por um filho de Ares.
Percy conseguia imaginar algumas crianças do Acampamento Meio-Sangue dando ordens. Clarisse la Rue, por exemplo, não hesitaria. Mas ele não conseguia imaginar Frank sendo tão duro.
— De qualquer maneira — Percy disse — vamos tentar não queimar a cidade dessa vez.
O Treinador pareceu desapontado.
— Certo. Mas para onde?
Percy apontou em direção ao centro da cidade.
— Quando em dúvida, comece pelo meio.

Pegar carona foi bem mais fácil do que eles pensaram. Os três se dirigiram até a biblioteca presidencial – o que acabou sendo o Carter Center – e perguntaram à equipe se poderiam chamar um táxi ou mostrar direções para a parada de ônibus mais próxima. Percy poderia ter convocado Blackjack, mas estava relutante em pedir ajuda ao pégaso tão cedo depois do último desastre.
Frank não podia se transformar em nada. Além disso, Percy estava meio que esperando viajar como um mortal normal para variar.
Uma das bibliotecárias, cujo nome era Esther, insistiu em dirigir até lá pessoalmente. Ela foi tão gentil sobre o assunto que Percy pensou que poderia ser um monstro disfarçado; mas Hedge o chamou de lado e assegurou que Esther cheirava como um humano normal.
— Com uma pitada de potpourri — ele disse. — Roupas, pétalas de rosas. Delicioso!
Eles se amontoaram dentro do grande Cadilac preto de Esther e foram até o centro da cidade. Esther era tão pequena que nem conseguia ver direito acima do volante; mas isso não parecia incomodá-la. Ela conduzia seu carro através do tráfego, entretendo-os com histórias sobre famílias loucas de Atlanta – os velhos donos da plantação, os fundadores da Coca-Cola, as estrelas do esporte, e as novidades da CNN.
Ela parecia tão experiente que Percy decidiu tentar a sorte.
— Então, Esther — ele disse — Aqui vai uma pergunta difícil para você. Água salgada em Atlanta. Qual a primeira coisa que vem à mente?
A velha senhora riu.
— Ah, querido. Essa é fácil. Os tubarões-baleia!
— Tubarões-baleia? — Frank perguntou, nervoso. — Vocês têm isso em Atlanta?
— No aquário, querido — Esther disse. — Muito famoso! Logo no centro da cidade. É para lá que vocês querem ir?
Um aquário. Percy considerou isso. Ele não sabia o que um deus do mar da Grécia Antiga estaria fazendo em um aquário na Géorgia, mas ele não tinha ideias melhores.
— Sim — Percy respondeu. — É onde estamos indo.
Esther os deixou na porta da entrada, onde uma fila já se formava. Ela insistiu em deixar o número de celular para emergências, dinheiro para o táxi de volta ao Carter Center e uma jarra de pêssegos em conserva feita em casa, que por algum motivo, ela guardava numa caixa dentro de um baú. Frank guardou a jarra na mochila e agradeceu Esther, que já tinha trocado chamá-lo de querido para filho.
Quando ela foi embora, Frank disse:
— Todas as pessoas em Atlanta são legais?
Hedge resmungou.
— Espero que não. Não posso lutar com elas se forem legais. Vamos bater em alguns tubarões-baleias. Eles parecem perigosos!
Não ocorreu a Percy que talvez eles precisassem pagar entrada ou esperar na fila atrás de famílias e crianças de acampamentos de verão.
Ao olhar para os estudantes do primário com camisetas coloridas de vários acampamentos, Percy sentiu uma pontada de tristeza. Ele deveria estar no Acampamento Meio-Sangue agora, dormindo num chalé durante o verão, ensinando lições de esgrima na arena, planejando pegadinhas para os outros conselheiros. Aquelas crianças não faziam ideia do quão louco um acampamento de verão podia ser.
Ele suspirou.
— Bem, concordo que devemos esperar na fila. Alguém tem dinheiro?
Frank checou os bolsos.
— Três denários do Acampamento Júpiter. Cinco dólares canadenses.
Hedge afagou seu uniforme e tirou de lá o que encontrou.
— Três moedas de vinte e cinco e duas de dez centavos, uma faixa de borracha e... isso! Um pedaço de aipo.
Ele começou a mastigar o aipo, de olho nas moedas e na faixa de borracha como se pudessem ser os próximos.
— Ótimo — Percy disse.
Seus próprios bolsos estavam vazios, exceto sua caneta/espada, Contracorrente. Ele estava ponderando sobre como poderiam entrar quando uma mulher de camiseta azul e verde do Georgia Aquarium veio a eles, sorrindo.
— Ah, visitantes VIP!
Ela tinha covinha e bochechas rosadas, óculos de armação grossa, aparelho ortopédico e cabelos crespos puxados para os lados em tranças, então ela provavelmente estava no final dos seus vinte anos, parecia uma nerd do colegial – meio fofa, mas estranha. Junto com a camiseta do Georgia Aquarium, ela usava uma calça escura e tênis preto. Ela saltou como simplesmente não conseguisse conter a energia. O crachá dizia KATE.
— Você tem o pagamento, eu vejo — ela disse. — Excelente!
— O quê? — Percy perguntou.
Kate recolheu os três denários da mão de Frank.
— Sim, é o suficiente. Por esse caminho!
Ela se virou e correu em direção à entrada principal.
Percy olhou para o Hedge e Frank.
— Uma armadilha?
— Provavelmente — Frank disse.
— Ela não é mortal — Hedge disse, farejando o ar. — Provavelmente algum tipo de demônio comedora de cabra ou destruidora-de-semideuses do Tártaro.
— Sem dúvida — Percy concordou.
— Demais — Hedge sorriu. — Vamos.
Kate passou o bilhete deles pela fila do aquário sem problemas.
— Por esse lado — Kate sorriu para Percy. — É uma exibição maravilhosa. Você não ficará desapontado. É tão raro VIPs nos visitarem.
— Você quer dizer semideuses? — Frank perguntou.
Kate piscou maliciosamente e pôs um dedo na boca dele.
— Então, por aqui é a exposição de água fria, com pinguins e baleias beluga e outros enfeites. E ali... Bem, aqueles são peixes, obviamente.
Para uma funcionária de um aquário, ela não parecia saber ou se importar muito sobre peixes.
Eles passaram por um tanque enorme cheios de espécies tropicais e quando Frank apontou para um peixe em particular e perguntou o que era, Kate disse:
— Ah, aqueles são os amarelos.
Eles passaram pela loja de presentes. Frank diminuiu o passou para checar a mesa de descanso com roupas e brinquedos.
— Pegue o que quiser — Kate disse a ele.
Frank piscou.
— Sério?
— Claro! Você é um VIP!
Frank hesitou. Então enfiou algumas camisetas na mochila.
— Cara — Percy disse — o que você está fazendo?
— Ela disse que eu podia — Frank sussurrou. — Além disso, preciso de mais roupas. Não fiz a mala para viagens longas!
Ele adicionou um globo de neve à sua mochila, que não parecia ter roupas para Percy. Então Frank pegou um cilindro trançado do tamanho de uma barra de chocolate.
Ele olhou para aquilo.
— O que... ?
— Algemas chinesas — Percy disse.
Frank, que era chinês e canadense, olhou ofendido.
— Como isso é chinês?
— Eu não sei — Percy respondeu. — É só o nome.. Como uma piada de mau gosto.
— Venham, garotos! — Kate chamou do olho lado do corredor.
— Eu mostrarei a você depois — Percy prometeu.
Frank guardou as algemas na mochila e continuou andando. Eles passaram através de um túnel de acrílico. Peixes nadavam acima da cabeça deles e Percy sentiu um medo irracional invadindo sua garganta.
Isso é idiotice, ele disse a si mesmo. Estive embaixo da água um milhão de vezes. E nem estou na água. A ameaça real era Kate, ele lembrou a si mesmo. Hedge já tinha detectado que ela não era humana. Ela poderia se transformar em alguma criatura horrível e atacá-los a qualquer momento.
Infelizmente, Percy não via muita escolha a não ser ir com ela a esse tour VIP até encontrarem o deus do mar, Fórcis, até que eles estivessem mais fundo dentro da armadilha. Eles emergiram numa sala de exibição inundada com luz azul. Do outro lado da parede de vidro estava o maior tanque de aquário que Percy já havia visto. Cruzando em círculos estavam doze peixes enormes, incluindo dois tubarões manchados, cada um o dobro do tamanho de Percy. Eles eram gordos e lentos, com bocas abertas e sem dentes.
— Tubarões-baleia — o treinador Hedge rosnou. — Agora nós devemos batalhar até a morte!
Kate riu.
— Sátiro bobo. Tubarões-baleia são tranquilos. Eles só comem plâncton.
Percy franziu o cenho. Ele se perguntou como Kate sabia que o treinador era um sátiro. Hedge estava vestindo calça e sapatos feitos especialmente para os cascos dele, já que sátiros geralmente se misturavam com mortais. O boné de beisebol dele cobria seus chifres.
Quanto mais Kate sorria e agia amigavelmente, menos Percy gostava dela; mas o Treinador Hedge não pareceu perturbado.
— Tubarões tranquilos? — O treinador disse com desgosto. — Qual a razão disso?
Frank leu a placa próxima ao tanque.
— Os únicos tubarões-baleia do mundo em cativeiro — ele ponderou. — Isso é legal.
— Sim e esses são pequenos — Kate disse. — Você deveria ver alguns dos meus outros bebês na natureza.
— Seus bebês? — Frank perguntou.
Julgando pelo brilho nos olhos de Kate, Percy estava bem certo que não queria encontrar os bebês dela. Decidiu que era hora de chegar ao assunto. Ele não queria ir mais longe nesse aquário e ter que fazer isso.
— Então, Kate — ele disse. — Estamos procurando por um cara... Quero dizer, um deus chamado Fórcis. Talvez você o conheça?
Kate bufou.
— Conhecer ele? É meu irmão. É para onde estamos indo, bobos. A exibição verdadeira está logo aqui.
Ela sinalizou a parede distante. A sólida superfície preta ondulou e outro túnel apareceu, levando através de um luminoso tanque roxo.
Kate caminhou para dentro. A última coisa que Percy queria fazer era segui-la, mas se Fórcis realmente estava do outro lado e se tivesse a informação que os ajudaria nessa missão... Percy respirou fundo e seguiu seus amigos para dentro do túnel.
Logo que entrou, o Treinador Hedge assobiu.
— Isto é interessante.
Deslizando acima deles estavam águas-vivas multicoloridas do tamanho de latas de lixo, cada uma com centenas de tentáculos que pareciam arame farpado sedoso. Uma água-viva tinha paralisado um peixe-espada de 10 metros. Ela lentamente envolvia mais e mais seus tentáculos em torno da presa. Kate sorriu para o Treinador Hedge.
— Você vê? Esqueça os tubarões-baleia! E lá tem muito mais.
Kate os levou para dentro de uma câmara ainda maior, forrada por mais aquários. Em uma parede, um sinal vermelho brilhante proclamava: MORTE NOS MARES PROFUNDOS! Patrocinado por Donuts Monstro.
Percy teve que ler duas vezes por causa de sua dislexia e duas vezes mais para deixar a mensagem afundar.
— Donuts Monstro?
— Ah, sim — Kate disse. — Um dos nossos patrocinadores.
Percy engoliu em seco. A última experiência dele com Donuts Monstro não tinha sido boa.
Envolveu serpentes que cuspiam ácido, muitos gritos e um canhão. Em um aquário, uma dúzia de hipocampos – cavalos com rabos de peixe – nadavam sem rumo. Percy viu muitos hipocampos na natureza. Tinha visto alguns; mas nunca em um aquário. Tentou falar com eles, mas eles só flutuaram ao redor, ocasionalmente batendo contra o vidro. Suas mentes pareciam confusas.
— Isso não está certo — Percy murmurou.
Ele se virou e viu algo ainda pior. No fundo do tanque menor, duas Nereidas – espíritos femininos do mar – estavam sentadas de pernas cruzadas, olhando uma para outra, jogando um jogo de Go Fish. Pareciam com muito tédio. O longo cabelo verde delas flutuava distraidamente ao redor de seus rostos. Seus olhos estavam meio fechados.
Percy se sentiu tão zangado que não conseguiu nem respirar. Ele encarou Kate.
— Como você pode mantê-los aqui?
— Eu sei — Kate assentiu. — Eles não são muito interessantes. Nós tentamos ensiná-los alguns truques, mas sem sorte, receio eu. Acho que você irá gostar muito mais desse tanque logo aqui.
Percy a encarou em protesto, mas Kate já tinha se mexido.
— Santa mãe das cabras! — chorou o Treinador Hedge. — Olhe para essas belezas!
Ele olhava boquiaberto olhando para duas serpentes do mar – monstros brilhantes com escamas azuis de trinta metros de comprimentos com presas que poderiam dividir um tubarão ao meio. Em outro tanque, espreitando de uma caverna de cimento, estava uma lula do tamanho de um caminhão de dezoito rodas, com um bico parecido com um alicate gigante. Um terceiro tanque continha uma dúzia de humanoides com corpos lustrosos selados, caras de cachorro e mãos humanas. Eles estavam sentados na areia ao fundo do tanque, construindo coisas com Legos, porém pareciam criaturas tão atordoadas quanto as Nereidas.
— Eles são...? — Percy lutou para formular a pergunta.
— Telquines? — Kate disse. — Sim! Os únicos em cativeiro.
— Mas eles lutaram por Cronos na última guerra! — Percy disse. — São perigosos!
Kate rolou os olhos.
— Bem, não poderíamos chamar “Morte nos mares profundos” se essas exibições não fossem perigosas. Não se preocupe. Nós os mantemos sedados.
— Sedados? — Frank perguntou. — Isso é legal?
Kate pareceu não ter ouvido. Ela continuou andando, apontando outras exibições. Percy olhou de volta para os Telquines. Um era obviamente jovem. Estava tentando fazer uma espada de Lego, mas parecia muito grogue para colocar peças juntas. Percy nunca tinha gostado de demônios do mar, mas agora se sentia mal por eles.
— E esses monstros do mar — Kate narrou mais à frente — crescem há centenas de metros de profundidade no oceano. Eles têm milhares de dentes. E esses? Sua comida favorita é semideus.
— Semideus? — Frank gritou.
— Mas eles comerão baleias ou embarcações menores também — Kate se voltou para Percy e corou. — Desculpe... Eu sou tão monstruosamente nerd! Tenho certeza que você sabe tudo isso, sendo o filho de Poseidon e tudo mais.
As orelhas de Percy soavam sinos de alarme. Ele não gostava muito que Kate soubesse dele. Não gostava do jeito com que ela casualmente falou sobre drogar criaturas ou quais dos bebês dela gostavam de devorar semideuses.
— Quem é você? — ele exigiu. — Kate representa algo?
— Kate? — Ela olhou momentaneamente confusa. Então ela olhou para o crachá com seu nome. — Oh... — Ela riu. — Não, é...
— Olá — disse uma nova voz, se expandindo pelo aquário.
Um pequeno homem corria para fora da escuridão. Ele andava com pernas arqueadas, como um caranguejo, suas costas arqueadas, os braços levantados de lado como se segurando pratos invisíveis. Usava um terno molhado com horríveis tons de verde. Palavras impressas em glitter diziam: LOUCURAS DE PORKY. Um microfone estava fixado em seu fino e gorduroso cabelo. Seus olhos eram de um azul leitoso, um maior que o outro e embora sorrisse, não parecia amigável – mais como se seu rosto estivesse sendo puxado para trás pelo vento.
— Visitantes! — o homem disse, a palavra trovejando através do microfone. Ele tinha uma voz de DJ, profunda e ressonante, o que não combinava com sua aparência. — Bem vindos às Loucuras de Fórcis!
Ele apontou os braços em uma direção, como se direcionasse sua atenção à explosão. Nada aconteceu.
— Maldição — o homem resmungou. — Telquines, essa é sua deixa! Eu aceno minhas mãos e vocês saltam energicamente em seu tanque, fazem um pulo sincronizado duplo e aterrissam na formação de uma pirâmide. Nós praticamos isso!
Os demônios não prestaram atenção.
O Treinador Hedge seguiu até o homem caranguejo e cheirou o brilhoso terno molhado.
— Bonita roupa.
Ele não soava como se estivesse brincando. Claro, o sátiro usava uniformes de ginásio por divertimento.
— Obrigado! — o homem sorriu. — Eu sou Fórcis.
Frank mudou seu peso de um pé para o outro.
— Por que você usa um terno que diz Porkys?
Fórcis rosnou.
— Companhia de uniformes estúpida! Eles não conseguiram fazer direito.
Kate tapou sua etiqueta com o nome.
— Eu disse a eles que meu nome era Ceto. Eles soletraram como Kate. Meu irmão... Bem, agora ele é Porky.
— Não sou! — O homem retrucou. — Nem um porquinho eu sou. O nome não combina com loucuras, também. Que tipo de show é chamado Loucuras de Porky? Mas vocês não querem nos ouvir reclamar. Contemplem, a maravilha majestosa lula gigante assassina!
Ele gesticulou dramaticamente para o tanque da lula. Dessa vez, fogos de artifício pularam na frente do vidro certo de acordo com a deixa, enviando gêiseres de brilhos dourados para cima. Música saia dos alto-falantes. As luzes brilhavam e revelavam a majestade de um tanque vazio.
A lula aparentemente tinha se esquivado para dentro da caverna.
— Maldição! — Fórcis gritou de novo. Ele virou para a irmã. — Ceto, treinar a lula era seu trabalho. Malabarismo, eu disse. Talvez cortar um pouco de carne no final. É muito para se pedir?
— Ela é tímida — Ceto disse defensivamente. — Além disso, cada um de seus tentáculos tem farpas que devem ser afiadas diariamente. — Ela se voltou para Frank. — Você sabia que a lula monstruosa é a única besta conhecida por comer um semideus inteiro, armado e tudo, sem ficar com indigestão? É verdade!
Frank tropeçou para longe dela, abraçando sua barriga como se para ter certeza de que ele estava inteiro.
— Ceto! — Porky estalou – literalmente, desde que ele estalou os polegares como garras de caranguejo. — Você vai aborrecer nossos convidados com tanta informação. Menos educação, mais entretenimento! Nós discutimos isso.
— Mas...
— Sem mas! Nós estamos aqui para apresentar “Morte nos mares profundos!”
As últimas palavras reverberaram através da sala com o eco extra. Luzes brilharam. Nuvens de fumaça subiam do chão em forma de anéis, cheirando como donuts verdadeiros.
— Disponível na loja de lembrancinhas — Fórcis avisou. — Mas você gastou seus denários para conseguir o tour VIP, como deveria! Venha comigo!
— Espere — Percy disse.
O sorriso de Fórcis derreteu em um jeito feio.
— Sim?
— Você é um deus do mar, não é? — Percy perguntou. — Filho de Gaia?
O homem caranguejo assentiu.
— Cinco mil anos e eu ainda sou conhecido como o garotinho de Gaia. Nem lembram que eu sou o deus do mar mais antigo. Mais velho que seu arrogante pai, aliás. Eu sou o deus dos abismos escondidos! Senhor dos terrores aquáticos! Pai de milhares de monstros! Mas, não... Ninguém me conhece. Cometo um pequeno engano, apoiando o lado dos Titãs e sou exilado do oceano – para Atlanta, entre todos os lugares.
— Nós pensávamos que os Olimpianos haviam dito Atlantis — Ceto explicou. — Essa é a ideia de uma piada eu acho, nos enviar para cá ao invés disso.
Percy estreitou os olhos.
— E você é uma deusa?
— Ceto, sim! — ela sorriu feliz. — Deusa dos monstros marinhos, naturalmente! Baleias, tubarões, lulas e outros seres vivos gigantes do mar, mas meu coração sempre pertenceu aos monstros. Você sabia que jovens serpentes do mar podem regurgitar a carne das vítimas e se manter alimentadas por seis anos da mesma refeição? É verdade!
Frank ainda estava agarrando o estômago como se estivesse doente.
O Treinador Hedge assobiou.
— Seis anos? Isso é fascinante.
— Eu sei! — Ceto sorriu.
— E como exatamente uma lula assassina despedaça a carne de suas vitimas? — Hedge perguntou. — Eu amo a natureza.
— Oh, bem...
— Pare! — Fórcis exigia. — Você está arruinando o show! Agora, testemunhe nossas Nereidas gladiadoras lutarem até a morte!
Um disco espelhado desceu até as Nereidas, fazendo a água dançar em uma luz multicolorida. Duas espadas caíram ao fundo, com uma pancada na areia. As Nereidas as ignoraram e continuaram jogando Go Fish.
— Maldição! — Fórcis pisoteou lateralmente.
Ceto fez uma careta para o Treinador Hedge.
— Não se preocupe com Porky. Ele é tão tagarela. Venha comigo, meu caro sátiro. Eu mostrarei a você o diagrama colorido completo dos hábitos de caça dos monstros.
— Excelente!
Antes que Percy pudesse protestar, Ceto levou o Treinador Hedge através do labirinto de aquários, deixando Frank e ele sozinhos com o deus do mar ranzinza. Uma gota de suor viajou o caminho do pescoço de Percy. Ele trocou um olhar nervoso com Frank. Isso parecia uma estratégia de dividir e conquistar. Ele não via meio de encontrar uma saída que acabasse bem. Parte dele queria atacar Fórcis agora – ao menos daria a eles o elemento surpresa – mas não tinha escontrado nenhuma informação útil ainda. Percy não tinha certeza se poderia encontrar o Treinador Hedge de novo. Nem tinha certeza se podia encontrar a saída.
Fórcis deve ter lido sua expressão.
— Está tudo bem! — o deus assegurou. — Ceto pode ser um pouco entediante, mas ela cuidará bem de seu amigo. E honestamente, a melhor parte do tour ainda está por vir!
Percy tentou pensar, mas estava iniciando uma dor de cabeça. Não tinha certeza se foi o machucado do dia anterior, os efeitos especiais de Fórcis ou as palavras de sua irmã sobre fatos de monstros marinhos.
— Então... — ele tentou. — Dionísio nos enviou aqui.
— Baco — Frank corrigiu.
— Certo — Percy tentou não se irritar. Ele mal podia lembrar um nome de cada deus. Dois era pedir demais. — O deus do vinho. Que seja. — Ele olhou para Fórcis. — Baco disse que você talvez soubesse o que sua mãe Gaia está fazendo e aqueles seus irmãos gigantes... Efíates e Oto. E se você sabe alguma coisa sobre a Marca de Atena...
— Baco pensou que eu ajudaria vocês? — Fórcis perguntou
— Bem, sim — Percy disse. — Quero dizer, você é Fórcis. Todos falam sobre você.
Fórcis inclinou a cabeça e seus olhos desiguais quase se alinharam.
— Eles falam?
— Claro. Não falam, Frank?
— Ah... Claro! — Frank disse. — Pessoas falam de você o tempo todo.
— O que eles dizem? — o deus perguntou.
Frank olhou desconfortável.
— Bem, você é um grande piromante. E tem uma boa voz de locutor. E, hum, uma bola de discoteca...
— É verdade! — Fórcis estalou os dedos e polegares animadamente. — Eu também tenho a maior coleção no mundo de monstros marinhos em cativeiro!
— E você conhece coisas — Percy adicionou. — Como o que os gêmeos estão tramando.
— Os gêmeos! — Fórcis fez um eco de sua voz. Fagulhas ganharam vida na frente do tanque das serpentes marinhas. — Sim, eu sei tudo sobre Efíates e Oto. Aqueles presunçosos! Nunca se enturmaram com os outros gigantes. Muito fracos... e com aquelas cobras nos pés.
— Cobras nos pés? — Percy lembrou dos sapatos longos e enrolados que os gêmeos usavam no sonho.
— Sim, sim. — Fórcis disse impaciente. — Eles sabiam que não conseguiriam pela força, então decidiram usar um pouco de drama – ilusões, pegadinhas, esse tipo de coisa. Vocês sabem, Gaia criou seus filhos gigantes com inimigos específicos em mente. Cada gigante nasceu para matar um certo deus. Efíates e Oto... Bem, juntos, eles são um tipo de anti-Dionisio.
Percy tentou entender melhor essa ideia.
— Então... Eles querem substituir todo o vinho com suco de amora ou algo assim?
O deus marinho bufou.
— Nada disso! Efíates e Oto sempre quiseram ser melhores que os outros, mais brilhantes, mais espetaculares! Claro que querem matar Dionisio. Mas primeiro querem humilhá-lo fazendo suas festanças parecerem medíocres!
Frank olhou as fagulhas.
— Usando coisas como fogos de artifício e bolas de discoteca?
A boca de Porky se contorceu em um sorriso como um túnel de vento.
— Exato! Eu ensinei aos gêmeos tudo que eles sabem, ou ao menos tentei. Eles nunca me ouviram. A primeira grande travessura deles? Tentaram alcançar o Olimpo empilhando montanhas uma em cima da outra. Foi só uma ilusão, claro. Eu disse a eles que foi ridículo. “Vocês têm que começar pequeno” eu disse. “Serrar o outro ao meio, tirar górgonas do chapéu. Esse tipo de coisa. E combinando as roupas. Gêmeos precisam disso!”
— Boa dica — Percy concordou. — E como os gêmeos estão agora?
— Oh, se preparando para a apresentação no dia do juízo final deles em Roma — zombou Fórcis. — É uma das ideias bobas da mãe. Eles estão mantendo um prisioneiro dentro de uma grande jarra de bronze — ele se voltou para Frank. — Você é um filho de Ares, não é? Você têm aquele cheiro. Os gêmeos prenderam seu pai do mesmo jeito, uma vez.
— Filho de Marte — Frank corrigiu. — Espere... Esses gigantes prenderam meu pai em uma jarra de bronze?
— Sim, outra façanha estúpida — disse o deus marinho. — Como você pode mostrar o prisioneiro se ele está numa jarra de bronze? Sem divertimento. Nada como meus adoráveis espécimes!
Ele gesticulou para o hipocampo, que estava batendo a cabeça apaticamente contra o vidro.
Percy tentou pensar. Ele sentia como se a confusão das criaturas marinhas estivesse começando a afetá-lo.
— Você disse que esse... show do juízo final foi uma ideia de Gaia?
— Bem... Os planos da mãe sempre têm várias fases — ele riu. — A terra tem fases! Suponho que faça sentido!
— Ahã — Percy concordou. — Então o plano dela...
— Ah, ela colocou uma recompensa em um grupo de semideuses. — Fórcis disse. — Realmente não importa quem os mate, contanto que sejam mortos. Bem... Eu retiro isso. Ela quer que dois sejam poupados. Um garoto e uma garota. Só o Tártaro sabe porquê. A qualquer preço, os gêmeos planejaram o showzinho deles, esperando atrair esses semideuses até Roma. Suponho que o prisioneiro na jarra seja amigo deles ou algo assim. Ou talvez pensem que esse grupo de semideuses seja burro o suficiente para voltar no território deles procurando pela Marca de Atena — Fórcis deu uma cotovelada em Frank. — Há! Boa sorte com isso, não é?
Frank riu nervosamente.
— Sim. Haha. Isso seria realmente burrice porque, hum...
Fórcis estreitou os olhos.
Percy deslizou a mão até o bolso. Ele fechou os dedos ao redor de Contracorrente. Até mesmo esse velho deus do mar deve ser esperto o suficiente para perceber que eles eram os semideus com a cabeça à prêmio.
Mas Fórcis só sorriu e deu outra cotovelada em Frank.
— Há! Boa, filho de Marte. Suponho que você esteja certo. Sem motivo para falar disso. Até mesmo se semideuses encontrariam aquele mapa em Charleston, nunca conseguiriam ir vivos a Roma.
— Sim, o MAPA DE CHARLESTON — Frank disse em voz alta, dando à Percy um olhar arregalado para ter certeza de que ele não perdeu a informação. Ele não podia ser mais óbvio se tivesse feito um grande sinal escrito PISTA!!!!
— Mas já chega de coisas educacionais chatas! — Fórcis disse. — Vocês pagaram por um tratamento VIP. Me deixem terminar o tour, por favor? Os três denários de entrada não são reembolsáveis, sabe.
Percy não estava animado por mais fogos de artifício, fumaça com cheiro de donut ou criaturas do mar depressivas em cativeiro. Mas olhou para Frank e decidiu melhorar o humor do velho deus ranzinza, ao menos até eles encontrassem o Treinador Hedge e fossem em segurança para a saída. Além disso, talvez conseguissem mais informação de Fórcis.
— Depois — Percy disse — podemos fazer perguntas?
— Claro! Eu direi tudo que vocês precisem saber — Fórcis bateu palmas duas vezes.
Na parede, sobre o brilhante sinal vermelho, um novo túnel apareceu, levando a outro tanque.
— Marchando! — Fórcis literalmente afundou através do túnel.
Frank coçou a cabeça.
— Nós temos que...? — Ele se virou para o lado.
— É só um jeito de falar, cara. — Percy disse. — Venha.