quinta-feira, 17 de outubro de 2013

XXXIX - Leo






LEO CONCORDAVA COM NÊMESIS EM UMA COISA: a boa sorte era uma farsa. Pelo menos quando se tratava da sorte de Leo.
No último inverno, ele assistiu horrorizado enquanto uma família de ciclopes se preparava para assar Jason e Piper com molho picante. Pensou em um jeito de se livrar dessa e salvou seus amigos por conta própria, mas pelo menos teve tempo para pensar.
Agora, nem tanto. Hazel e Frank foram nocauteados pelas gavinhas de uma bola futurista de boliche possuída. Duas armaduras mal comportadas estavam prestes a matá-lo. Leo não podia destruí-las com fogo. As armaduras não seriam danificadas por isso. Além disso, Hazel e Frank estavam perto demais. Ele não queria queimá-los ou acidentalmente acertar o pedaço de madeira que controlava a vida de Frank.
À direita de Leo, a armadura com um elmo de leão rangeu e fitou Hazel e Frank, que continuavam deitados inconscientes.
— Um semideus e uma semideusa — disse o Cabeça de Leão. — Estes irão servir, se os outros morrerem — a máscara oca se virou para Leo. — Nós não precisamos de você, Leo Valdez.
— Ei! — Leo experimentou um sorriso vitorioso. — Vocês sempre vão precisar de Leo Valdez!
Ele abriu as mãos e esperou estar parecendo confiante e útil, não desesperado e aterrorizado. Ele se perguntou se seria tarde demais para escrever TIME LEO em sua camisa.
Infelizmente, as armaduras não eram seduzidas tão facilmente quanto o Fã Clube de Narciso. A armadura com o elmo de lobo rosnou:
— Eu estive na sua mente, Leo. Eu te ajudei a começar a guerra.
O sorriso de Leo desmoronou. Ele deu um passo pra trás.
— Era você?
Agora ele entendia porque aqueles turistas o incomodaram imediatamente e porque a voz daquela coisa soara tão familiar. Já tinha ouvido ela em sua mente.
— Você me fez disparar a balista? — Leo interrogou. — Você chama isso de ajudar?
— Eu conheço o seu jeito de pensar — disse o Cabeça de Lobo. — Conheço seus limites. Você é pequeno e solitário. Precisa de amigos para protegê-lo. Sem eles, é incapaz de resistir a mim. Eu jurei não te possuir novamente, mas ainda posso matá-lo.
Os caras de armadura avançaram. A ponta de suas espadas estava a poucos centímetros da cara de Leo.
O medo de Leo repentinamente deu espaço a muita raiva. Aquele fantasma com o elmo de lobo tinha envergonhado ele, o controlado e o feito atacar a Nova Roma. Ele tinha posto seus amigos em perigo e estragado a sua missão.
Leo olhou para as esferas inativas nas mesas de trabalho. Considerou seu cinto de ferramentas. Pensou na sala atrás dele – a área que parecia uma cabine de som. Pronto: a Operação Pilha de Sucata nasceu.
— Primeiro: você não me conhece — ele disse ao Cabeça de Lobo. — E segundo: tchau.
Ele se precipitou para as escadas e pulou para o topo. As armaduras eram assustadoras, mas não rápidas. Como Leo havia suspeitado, a sala tinha portas em ambos os lados, portões dobráveis de metal. Os operários iriam querer proteção no caso de perder o controle de suas criações... Como agora. Leo bateu os dois portões, fechando-os, e convocou fogo em suas mãos, fundindo as fechaduras.
As armaduras estavam trancadas pelos dois lados. Elas sacudiram os portões, golpeando-os com suas espadas.
— Isso é tolice — disse o Cabeça de Leão. — Está apenas atrasando a sua morte.
— Atrasar a morte é um dos meus passatempos favoritos — Leo explorou sua nova casa.
A oficina se baseava em apenas uma mesa como um painel de controle. Estava cheia de velharias, mas a maioria Leo descartou imediatamente: um diagrama para uma catapulta humana que nunca funcionaria; uma estranha espada negra (Leo não era bom com espadas); um grande espelho de bronze (o reflexo de Leo estava terrível); e um conjunto de ferramentas que alguém tinha quebrado, por frustração ou falta de jeito.
Ele se focou no projeto principal. No centro da mesa, alguém tinha desmontado uma esfera de Arquimedes. Engrenagens, fios, alavancas e hastes estavam espalhadas em volta dela. Todos os cabos de Bronze Celestial que iam para a sala abaixo estavam conectados a uma placa de metal embaixo da esfera. Leo podia sentir o Bronze Celestial correndo pela oficina como as artérias de um coração – pronto para conduzir energia mágica deste local.
— Uma bola de basquete para a todos governar — Leo murmurou.
Esta esfera era um regulador mestre. Ele estava diante do controle de missão dos romanos antigos.
— Leo Valdez! — o espírito uivou. — Abra este portão ou eu te matarei!
— Uma oferta justa e generosa! — disse Leo, seus olhos ainda na esfera. — Só me deixe terminar isso. Um último desejo, tudo bem?
Aquilo deve ter confundido os fantasmas, porque eles pararam de atacar as grades por um momento. As mãos de Leo voaram para a esfera, remontando as peças que faltavam. Porque os estúpidos romanos tinham que desmontar uma máquina tão bonita? Eles mataram Arquimedes, roubaram suas coisas e então bagunçaram as peças de um equipamento que nunca entenderiam. Por outro lado, pelo menos se deram ao trabalho de trancá-la por dois mil anos, então Leo poderia consertá-la.
Os fantasmas começaram a golpear os portões novamente.
— Quem é? — gritou Leo.
— Valdez! — berrou o Cabeça de Lobo.
— Valdez quem? — Leo perguntou.
Eventualmente, os fantasmas iam perceber que não poderiam entrar. Então, se o Cabeça de Lobo realmente conhecia a mente de Leo, decidiria que existiam outros modos de fazê-lo cooperar. Leo precisava trabalhar mais rápido.
Ele conectou as engrenagens, encaixou uma errada e teve que recomeçar. Pelas granadas de Hefesto, aquilo era difícil!
Finalmente colocou o último fio no lugar. Os desajeitados romanos quase arruinaram o ajuste de tensão, mas Leo tirou um conjunto de ferramentas do seu cinto e fez alguns ajustes finais. Arquimedes era um gênio – assumindo que aquilo tenha realmente funcionado.
Ele ativou a bobina de partida. As engrenagens começaram a girar. Leo fechou o topo da esfera e estudou seus círculos concêntricos – similares aos que estavam na porta da oficina.
— Valdez! — Cabeça de Lobo socou o portão. — Nosso terceiro camarada vai matar seus amigos!
Leo amaldiçoou sob sua respiração. Nosso terceiro camarada. Ele olhou para a bola que tinha nocauteado Hazel e Frank. Tinha imaginado que o fantasma número três estava escondido dentro dela. Mas Leo ainda tinha que deduzir a sequência certa pra ativar aquela esfera de controle.
— Sim, certo — ele gritou. — Você me pegou. Só... só um segundo.
— Sem mais segundos! — gritou o Cabeça de Lobo. — Abra este portão agora ou eles morrem.
A bola possuída atacou com seus fios e eletrocutou Hazel e Frank novamente. Seus corpos inconscientes se encolheram. Um choque como aquele deve ter parado seus corações.
Leo segurou as lágrimas. Aquilo era difícil demais. Ele não podia fazer aquilo.
Ele olhou para a esfera – sete anéis, cada um marcado com pequenas letras, números e signos do zodíaco grego. A resposta não seria Pi. Arquimedes nunca faria a mesma coisa duas vezes. Além disso, apenas colocando a mão na esfera Leo pôde sentir a sequência sendo gerada aleatoriamente. Era algo que apenas Arquimedes saberia.
Supostamente, as últimas palavras de Arquimedes tinham sido: Não perturbe meus círculos. Ninguém conhecia o significado, mas Leo podia aplicar isso a esta esfera. O código era muito complicado. Talvez se Leo tivesse alguns anos, ele poderia decifrar as marcas e descobrir a combinação certa, mas ele não tinha nem alguns segundos.
Ele estava sem tempo. Sem sorte. E seus amigos iam morrer.
Um problema que não poderá resolver, disse uma voz em sua cabeça.
Nêmesis... Ela disse-lhe para esperar por esse momento. Leo colocou a mão no bolso e tirou o biscoito da sorte. A deusa tinha avisado a ele sobre um grande preço pela ajuda – tão grande quanto perder um olho. Mas se ele não tentasse, seus amigos morreriam.
— Eu preciso do código de acesso dessa esfera — ele disse.
E então abriu o biscoito.