quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Capitulo XXVII - Percy






— VAMOS PRECISAR DE UM POUCO DO SEU ALIMENTO.
Percy abriu caminho com os ombros em torno do velho e arrancou coisas da mesa de piquenique – uma tigela coberta de macarrão tailandês com molho mac-and-cheese e uma massa tubular que parecia uma combinação de burrito e pão de canela.
Antes que ele pudesse perder o controle e esmagar a burrito na cara de Fineu, Percy disse:
— Vamos, pessoal.
Ele levou seus amigos para fora do estacionamento.
Eles pararam na rua. Percy respirou fundo, tentando se acalmar. A chuva tinha abrandado para uma garoa indiferente. A névoa fria dava uma sensação boa no seu rosto.
— Aquele homem... — Hazel bateu ao lado de um banco de uma parada de ônibus. — Ele precisa morrer. Novamente.
Era difícil dizer na chuva, mas ela parecia estar piscando as lágrimas. Seus longos cabelos encaracolados estavam emplastrados dos lados de seu rosto. Na luz cinzenta, com seus olhos dourados, parecia mais como estanho.
Percy se lembrava de como ela agiu confiante quando se conheceram, assumindo o controle da situação com as górgonas e conduzindo-o para a segurança. Ela o confortou no santuário de Netuno e o fez se sentir bem-vindo ao acampamento.
Agora ele queria retribuir o favor, mas não sabia como. Ela parecia perdida, suja e completamente deprimida.
Percy não estava surpreso que ela tivesse voltado do Mundo Inferior. Tinha suspeitado disso por um tempo – a maneira como ela evitava falar sobre seu passado, a forma como Nico di Angelo tinha sido tão reservado e cauteloso. Mas isso não mudava a forma como Percy a via. Ela parecia... bem, viva, como uma criança normal com um coração bom, que merecia crescer e ter um futuro. Ela não era uma carniceira como Fineu.
— Nós vamos ganhá-lo — Percy prometeu. — Ele não é nada como você, Hazel. Eu não me importo com o que ele diz.
Ela balançou a cabeça.
— Você não conhece a história toda. Eu deveria ter sido enviada para os Campos de Punição. Eu... eu sou tão ruim...
— Não, você não é! — Frank cerrou os punhos. Ele olhou ao redor como se estivesse procurando alguém que pudesse discordar dele – inimigos em quem ele pudesse bater por causa de Hazel. — Ela é uma boa pessoa! — Ele gritou para o outro lado da rua.
As poucas harpias gritaram nas árvores, mas ninguém mais deu-lhe qualquer atenção.
Hazel olhou para Frank. Ela estendeu a mão timidamente, como se quisesse pegar a mão dele, mas tivesse medo que ele evaporasse.
— Frank... — ela gaguejou. — Eu... eu não...
Infelizmente, Frank parecia envolto em seus próprios pensamentos. Ele tirou sua lança de suas costas e agarrou-a inquieto.
— Eu poderia intimidar aquele velho — ele ofereceu — talvez assustá-lo.
— Frank, está tudo bem — disse Percy. — Vamos manter isso como um plano B, mas não acho que Fineu pode ser assustado para cooperar. Além disso, você só tem mais dois usos da lança, certo?
Frank fez uma careta para a ponta de dente de dragão, que tinha crescido para fora completamente durante a noite.
— Sim. Eu acho...
Percy não estava certo sobre o que o velho vidente quis dizer sobre a história da família de Frank – sobre seu bisavó ter destruído o acampamento, seu antepassado Argonauta, e o pouco sobre um pedaço de pau queimado controlando a vida de Frank. Mas isso tinha claramente o abalado. Percy decidiu não pedir explicações. Ele não queria o grandalhão reduzido às lágrimas, especialmente na frente de Hazel.
— Eu tenho uma ideia — Percy apontou para a rua. — A harpia de penas vermelhas foi por esse caminho. Vamos ver se podemos fazê-la falar com a gente.
Hazel olhou para o alimento em suas mãos.
— Você vai usar isso como isca?
— Mais como uma oferta de paz. Vamos lá. Apenas tentem evitar que as outras harpias roubem essas coisas, ok?
Percy descobriu o macarrão tailandês e desembrulhou o burrito de canela. Vapor perfumado flutuava no ar. Desceram a rua, Hazel e Frank com suas armas para fora. As harpias voaram atrás deles, empoleirando nas árvores, caixas de correio e mastros de bandeiras, seguindo o cheiro da comida.
Percy quis saber o que os mortais viam, através da Névoa. Talvez pensassem que as harpias eram pombos e as armas fossem bastões de hóquei ou algo assim. Talvez apenas pensassem que o macarrão com queijo tailandês fosse tão bom que precisasse de uma escolta armada.
Percy segurou firme os alimentos. Ele tinha visto a rapidez com que as harpias poderiam roubar as coisas. Não queria perder a sua oferta de paz antes que ele encontrasse a harpia de penas vermelhas.
Finalmente, ele a viu, circulando acima de um trecho do parque que corria por vários quarteirões entre as fileiras de edifícios de pedra antiga. O caminho era esticado através do parque sob árvores enormes, bordos e olmos, esculturas antigas, playgrounds e bancos na sombra. O lugar lembrava a Percy de... algum outro parque. Talvez em sua cidade natal? Ele não conseguia se lembrar, mas o fez sentir saudades de casa.
Atravessaram a rua e encontraram um banco para sentar, ao lado de uma grande escultura de bronze de um elefante.
— Parece Hannibal — disse Hazel.
— Exceto que chinês — disse Frank. — Minha avó tem um desses. — Ele se encolheu. — Quero dizer, o dela não tinha três metros e meio de altura. Mas ela importava coisas... da China. Somos chineses. — Ele olhou para Hazel e Percy, que estavam se esforçando para não rir. — Eu poderia simplesmente morrer de vergonha agora?
— Não se preocupe com isso, cara — disse Percy. — Vamos ver se podemos fazer amizade com a harpia.
Ele levantou o macarrão tailandês e espalhou para cima o cheiro – pimenta picante e queijo excelente. A harpia vermelha circulou mais baixo.
— Nós não vamos machucá-la — Percy chamou em voz normal. — Nós só queremos conversar. Macarrão tailandês por uma chance de conversar, ok?
A harpia raiou para baixo em um lampejo de vermelho e caiu sobre a estátua de elefante.
Ela estava extremamente magra. Suas pernas eram como varas de penas. Seu rosto teria sido bonito, se não fosse pelas bochechas afundadas. Ela se moveu em uma brusca contração de pássaro, seus olhos marrom-café correndo sem descanso, os dedos agarrando sua plumagem, seu lóbulos das orelhas, o cabelo vermelho desgrenhado.
— Queijo — ela murmurou, olhando para os lados. — Ella não gosta de queijo.
Percy hesitou.
— Seu nome é Ella?
— Ella. Aella. “Harpia”. Em português. Em latim. Ella não gosta de queijo.
Ela disse tudo isso sem tomar fôlego ou fazer contato visual. Suas mãos arrancaram seu cabelo, seu vestido de aniagem, as gotas de chuva, o que quer que se movesse. Mais rápido do que Percy pudesse piscar, ela pulou, agarrou o burrito de canela, e apareceu em cima do elefante novamente.
— Deuses, ela é rápida! — Hazel disse.
— E muito cafeinada — Frank adivinhou.
Ella cheirou o burrito. Ela mordiscou a borda e estremeceu da cabeça aos pés, grasnando como se estivesse morrendo.
— Canela é bom — ela pronunciou. — Bom para harpias. Humm.
Ela começou a comer, mas a maior das harpias desceu. Antes que Percy pudesse reagir, várias harpias começaram esmurrar Ella com suas asas, pegando o burrito.
— Nnnnnnãooo — Ella tentou esconder debaixo das suas asas quando suas irmãs a encurralaram, arranhando com suas garras. — NÃÃO — ela gaguejou. — N-n-não!
— Parem com isso! — Percy gritou.
Ele e seus amigos correram para ajudar, mas já era tarde demais. A grande harpia amarela agarrou o burrito e todo o grupo dispersou, deixando Ella encolhida e tremendo em cima do elefante.
Hazel tocou o pé da harpia.
— Eu sinto muito. Você está bem?
Ella enfiou a cabeça para fora de suas asas. Ainda estava tremendo. Com os ombros curvados, Percy podia ver a ferida sangrando nas costas, onde Fineu tinha batido com o cortador de grama. Ela bicou suas penas, arrancando tufos de plumagem.
— P-pequena Ella — ela gaguejou, irritada. — P-pequena Ella. Sem canela para Ella. Só queijo.
Frank olhou para o outro lado da rua, onde as outras harpias estavam sentadas em uma árvore de bordo, rasgando o burrito em pedaços.
— Nós vamos pegar mais alguma coisa para você — prometeu.
Percy colocou o macarrão tailandês de lado. Ele percebeu que Ella era diferente, mesmo para uma harpia. Mas depois de vê-la convalescer, tinha certeza de uma coisa: o que quer que acontecesse, ele iria ajudá-la.
— Ella — disse ele — nós queremos ser seus amigos. Podemos te dar mais alimentos, mas...
— “Friends” — disse Ella. — “Dez temporadas. 1994 a 2004.”
Ela olhou de soslaio para Percy, depois olhou para o ar e começou a recitar para as nuvens.
— “Um meio-sangue dos deuses antigos filho, chegará aos dezesseis apesar de empecilhos.” Dezesseis. Você tem dezesseis anos. Página dezesseis de Mastering, a Arte da Culinária Francesa . “Ingredientes: Bacon, Manteiga...”
Os ouvidos de Percy estavam retumbando. Sentiu-se tonto, como se tivesse acabado de mergulhar de uma centena de metros de profundidade e voltado novamente.
— Ella... o que foi que você disse?
— Bacon — ela pegou uma gota de chuva no ar. — Manteiga.
— Não, antes disso. Esses versos... Eu conheço esses versos.
Ao lado dele, Hazel estremeceu.
— Soa familiar, como... eu não sei, como uma profecia. Talvez seja algo que ela ouviu Fineu dizer?
Ao nome Fineu, Ella gritou em terror e voou para longe.
— Espere! — Hazel chamou. — Eu não quis dizer... Oh, deuses, como sou estúpida.
— Está tudo bem. — Frank apontou. — Olha.
Ella não estava se movendo tão rapidamente agora. Ela fez seu caminho até o topo de um edifício de tijolos vermelhos de três andares e correu fora de vista sobre o telhado. Uma única pena vermelha voou para a rua.
— Você acha que é seu ninho? — Frank olhou de soslaio para a placa do edifício. — Biblioteca Multnomah County?
Percy assentiu.
— Vamos ver se está aberta.
Eles correram para o outro lado da rua e no saguão.

A biblioteca não teria sido a primeira escolha de Percy para algum lugar para se visitar. Com sua dislexia, ele teve bastante dificuldade em ler as placas. Um edifício cheio de livros? Isso soava tão divertido quanto tortura chinesa da água ou extração de dentes.
À medida que corriam pelo saguão, Percy imaginou que Annabeth gostaria deste lugar. Era espaçoso e bem iluminado, com grandes janelas abobadadas. Livros e arquitetura, que era definitivamente o que ela...
Ele congelou no meio do caminho.
— Percy? — Frank perguntou. — O que há de errado?
Percy tentou desesperadamente se concentrar. De onde esses pensamentos vieram? Arquitetura, livros... Annabeth tinha levado-o para a biblioteca uma vez, de volta para casa na... na... memória desbotada. Percy bateu com o punho do lado de uma estante.
— Percy? — Hazel perguntou gentilmente.
Ele estava tão irritado, tão frustrado com suas memórias em falta que queria dar um soco em outra estante, mas seus amigos com faces preocupadas o trouxeram de volta para o presente.
— Estou... estou bem — ele mentiu. — Só tive tonturas por um segundo. Vamos encontrar um caminho para o telhado.
Levou um tempo, mas eles finalmente encontraram uma escada com acesso ao telhado. No topo estava uma porta com um alarme manual, mas alguém tinha o apoiado aberto com uma cópia de Guerra e Paz.
Lá fora, Ella, a harpia, estava encolhida em um ninho de livros debaixo de um abrigo improvisado de papelão. Percy e seus amigos avançaram lentamente, tentando não assustá-la. Ella não deu-lhes qualquer atenção. Ela limpava suas penas e murmurava baixinho, como se estivesse praticando linhas para uma peça.
Percy se aproximou um metro e meio e ajoelhou-se.
— Oi. Nos desculpe por te assustar. Olha, eu não tenho muita comida, mas...
Ele pegou um pouco do charque macrobiótico do bolso. Ella deu um bote e arrebatou-o imediatamente. Ela se encolheu de volta em seu ninho, farejando o charque, mas suspirou e jogou fora.
— N-não de sua mesa. Ella não pode comer. Triste. Charque seria bom para harpias.
— Não de sua... Oh, certo — Percy disse. — Isso é parte da maldição. Você só pode comer o alimento dele.
— Tem que haver uma maneira — disse Hazel.
— “Fotossíntese” — Ella murmurou. — “Substantivo. Biologia. A síntese de materiais orgânicos complexos, foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos, era a idade da sabedoria, era a idade da insensatez...”
— O que ela está dizendo? — Frank sussurrou.
Percy olhou para o monte de livros ao seu redor. Todos pareciam velhos e mofados. Alguns tinham preços escritos no marcador nas capas, como se a biblioteca tivesse se livrado deles em uma liquidação.
— Ela está citando livros — Percy adivinhou.
— “Almanaque do Fazendeiro de 1965” — Ella disse. — “Comece com animais reprodutores, janeiro vigésimo sexto.”
— Ella — disse ele — você já leu tudo isso?
Ela piscou.
— Mais. Mais no andar inferior. Palavras. Palavras acalmam Ella. Palavras, palavras, palavras.”
Percy pegou um livro ao acaso, uma cópia esfarrapada de A História da Corrida de Cavalos.
— Ella, você se lembra do, hum, terceiro parágrafo na página 62...
— “Secretariat” — disse Ella instantaneamente — “favorecido em três para um no Derby de 1973 em Kentucky, terminou no histórico permanente de um e dois quintos.”
Percy fechou o livro. Suas mãos tremiam.
— Palavra por palavra.
— Isso é incrível — disse Hazel.
— Essa é uma galinha gênio — Frank concordou.
Percy se sentia desconfortável. Ele estava começando a formar uma ideia terrível sobre o porquê de Fineu querer capturar Ella, e não era porque ela tinha arranhado ele. Percy lembrou da linha que ela recitou, Um meio-sangue dos deuses antigos filho. Ele tinha certeza que era sobre ele.
— Ella — disse ele — vamos encontrar uma maneira de quebrar a maldição. Gostaria disso?
— “É impossível” — disse ela. — “Gravado em Inglês por Perry Como, de 1970”.
— Nada é impossível — disse Percy. — Agora, olha, eu vou dizer o nome dele. Você não tem que fugir. Vamos salvá-la da maldição. Só precisamos descobrir uma maneira de vencer... Fineu.
Ele esperou que ela fugisse, mas ela apenas balançou a cabeça vigorosamente.
— N-n-não! Não Fineu. Ella é rápida. Muito rápida para ele. M-mas ele quer p-prender Ella. Ele machuca Ella.
Ela tentou chegar ao corte em suas costas.
— Frank — disse Percy — você tem suprimentos de primeiros socorros?
— Aqui.
Frank trouxe uma garrafa térmica cheia de néctar e explicou suas propriedades curativas para Ella. Quando chegou mais perto, ela recuou e começou a gritar. Em seguida, Hazel tentou e Ella deixou-a passar um pouco de néctar nas costas. A ferida começou a fechar.
Hazel sorriu.
— Vê? Assim é melhor.
— Fineu é ruim — Ella insistiu. — E cortadores de grama. E queijo.
— Absolutamente — Percy concordou. — Nós não vamos deixá-lo ferir você novamente. Precisamos descobrir como enganá-lo, no entanto. Vocês, harpias, devem conhecê-lo melhor do que ninguém. Existe alguma maneira de podermos enganá-lo?
— N-não — disse Ella. — “Os truques são para crianças. 50 truques para ensinar seu cão, por Sophie Collins, ligue para o número 6-3-6...”
— Ok, Ella — Hazel falou com uma voz suave, como se ela estivesse tentando acalmar um cavalo. — Mas será que Fineu tem pontos fracos?
— Cego. Ele é cego.
Frank revirou os olhos, mas Hazel continuou pacientemente:
— Certo. Além disso?
— “Probabilidade” — disse ela. — “Jogos de azar. Dois para um. Probabilidades ruins. Pagar ou desistir.”
O entusiasmo de Percy aumentou.
— Você quer dizer que ele é um jogador?
— Fineu v-vê coisas grandes. Profecias. Fatos. Coisas de deuses. Não pequenas coisas. Aleatórias. Emocionantes. E ele é cego.
Frank coçou o queixo.
— Qualquer ideia do que isso significa?
Percy assistiu a harpia bicar seu vestido de aniagem. Ele sentiu pena dela, mas também estava começando a perceber o quão inteligente ela era.
— Acho que entendi. Fineu vê o futuro. Ele sabe de toneladas de eventos importantes. Mas não pode ver as coisas, como pequenas ocorrências aleatórias, jogos espontâneos do acaso. O que torna o jogo emocionante para ele. Se nós pudermos tentá-lo a fazer uma aposta...
Hazel balançou a cabeça lentamente.
— Você quer dizer que se ele perder, ele tem que nos dizer onde está Tânatos. Mas o que temos para apostar? Que tipo de jogo que nós jogamos?
— Algo simples, com altos riscos — disse Percy. — Como duas escolhas. Uma você vive, outra você morre. E o prêmio tem que ser algo que Fineu quer... Quer dizer, além de Ella. Isso está fora do jogo.
— Visão — Ella murmurou. — A visão é boa para os homens cegos. Cura... não, não. Gaia não vai fazer isso por Fineu. Gaia mantém Fineu c-cego, dependente de Gaia. Sim.
Frank e Percy trocaram um olhar significativo.
— Sangue de Górgona — disseram eles ao mesmo tempo.
— O quê? — Hazel perguntou.
Frank mostrou os dois frascos de cerâmica que ele tinha recuperado do Pequeno Tibre.
— Ella é um gênio — ele falou. — A não ser que a gente morra.
— Não se preocupe com isso — disse Percy. — Eu tenho um plano.