quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Capitulo XVII - Hazel






HAZEL ODIAVA BARCOS.
Ela ficava enjoada tão facilmente, que parecia mais como uma praga do oceano. Ela não tinha mencionado isso para Percy. Não queria atrapalhar a missão, mas se lembrou de quão horrível sua vida tinha sido quando ela e sua mãe tinham se mudado para o Alasca – que não tinha uma estrada sequer. Para onde quer que elas fossem, tinham que pegar um trem ou um barco.
Esperava que sua condição tivesse melhorado desde que ela voltou a viver. Obviamente não melhorou. E esse pequeno barco, o Pax, parecia muito com um barco que elas tinham no Alasca. E isso lhe trazia más lembranças...
Assim que deixaram as docas, o estômago de Hazel começou a se embrulhar. Pelo tempo que passaram no píer em São Francisco, ela se sentiu tão tonta que pensou que estava tendo alucinações.
Eles passaram rapidamente por alguns leões-marinhos descansando no cais, e ela jurou que viu um velho mendigo sentado entre eles. Do outro lado da água, o homem apontou um dedo ossudo para Percy e movimentou a boca como se dissesse algo como “Nem sequer pense nisso”.
— Você viu aquilo? — Hazel perguntou.
O rosto de Percy estava vermelho ao pôr do sol.
— Sim... Eu estive aqui antes. Eu... eu não sei. Acho que estava procurando a minha namorada.
— Annabeth — Frank disse. — Você quer dizer, no seu caminho até o Acampamento Júpiter?
Percy franziu a testa.
— Não. Antes disso.
Ele verificou a cidade como se estivesse à procura de Annabeth enquanto passavam pela ponte Golden Gate e viravam para o norte.
Hazel tentou acalmar seu estômago pensando em coisas agradáveis – a euforia que ela sentiu quando tinha ganhado os jogos de guerra na noite passada, cavalgando Hannibal debaixo do nariz do inimigo, a transformação repentina de Frank em um líder. Ele parecia uma pessoa diferente quando escalava paredes, convocando a Quinta Coorte para atacar. O jeito com que ele varreu os defensores da muralha... Hazel nunca o tinha visto assim antes.
Ela ficou tão orgulhosa em colocar a insígnia de centurião em sua camisa. Então seus pensamentos se voltaram para Nico. Antes de eles partirem, o irmão dela tinha puxado-a para um canto para desejar-lhe sorte.
Hazel esperava que ele ficasse no Acampamento Júpiter para defendê-lo, mas ele disse que estaria partindo hoje – de volta ao Mundo Inferior.
— Papai precisa de toda ajuda que ele puder conseguir — ele disse. — Parece que ocorreu uma rebelião nos Campos Asfódelos. As Fúrias mal conseguem manter a ordem. Além disso... vou tentar rastrear algumas das almas que fugiram. Talvez eu possa encontrar as Portas da Morte do outro lado.
— Tenha cuidado — disse Hazel. — Se Gaia está guardando essas portas...
— Não se preocupe — Nico sorriu. — Eu sei como ficar escondido. Apenas se cuide. Quanto mais perto você chegar do Alasca... Eu não tenho certeza se isso vai tornar os apagões melhores ou piores.
Me cuidar, Hazel pensou amargamente. Como se tivesse algum jeito de isso terminar bem para ela.
— Se nós libertarmos Tânatos — Hazel disse a Nico — pode ser que eu nunca veja você novamente. Tânatos vai me mandar de volta para o Mundo Inferior...
Nico segurou a mão dela. Seus dedos eram tão pálidos, que era difícil acreditar que Hazel e ele compartilhavam o mesmo pai divino.
— Eu queria lhe dar uma chance nos Elísios. É o melhor que eu podia fazer por você. Mas agora, eu gostaria que houvesse outra maneira. Não quero perder a minha irmã.
Ele não disse a palavra novamente, mas Hazel sabia que ele estava pensando nisso. Pela primeira vez, ela não sentia ciúmes de Bianca di Angelo. Ela só queria ter mais tempo com Nico e seus amigos no acampamento. Não queria morrer pela segunda vez.
— Boa sorte, Hazel — ele despediu-se.
Então ele se misturou às sombras, exatamente como seu pai tinha feito 70 anos antes.
O barco estremeceu, sacudindo Hazel de volta para o presente. Entraram nas correntes do Pacífico e contornaram a costa rochosa do Condado de Marin. Frank colocou o saco de esqui em seu colo. O saco passou por cima dos joelhos de Hazel como uma barra de segurança em um parque de diversões, o que a fez pensar no tempo em que Sammy a tinha levado ao carnaval durante o Mardi Gras... Ela rapidamente deixou a memória de lado. Não podia correr o risco de apagar.
— Você está bem? — Frank perguntou. — Parece que está enjoada.
— Fico enjoada no mar — confessou. — Eu não achei que ficaria tão mal.
Frank fez beicinho como se fosse de alguma forma sua culpa. Ele começou a cavar em sua mochila.
— Eu tenho algum néctar. E alguns biscoitos. Hum, minha avó diz que gengibre ajuda... Não tenho nada disso, mas...
— Está tudo bem — Hazel reuniu um sorriso. — Que bom que você se preocupa comigo, no entanto.
Frank tirou um biscoito de água e sal da mochila. Ele agarrou com seus dedos grandes, e migalhas explodiram por toda parte.
Hazel riu.
— Deuses, Frank... desculpe. Eu não deveria rir.
— Uh, não tem problema — disse ele timidamente. — Acho que você não vai querer.
Percy não estava prestando muita atenção. Ele manteve os olhos fixos na costa. Ao passarem pela praia Stinson, ele apontou para o interior, onde uma única montanha subia acima das colinas verdes.
— Isso parece familiar.
— Monte Tam — disse Frank. — As crianças no acampamento estão sempre falando sobre isso. Uma grande batalha aconteceu no cume, a base de um antigo Titã.
Percy franziu a testa.
— Algum de vocês esteve por lá?
— Não — disse Hazel. — Isso foi em agosto, antes de eu, hum, antes de eu chegar ao acampamento. Jason me contou sobre ela. A legião destruiu o palácio do inimigo e cerca de um milhão de monstros. Jason teve que batalhar com Crio... um combate corpo a corpo com um titã, se você puder imaginar.
— Eu posso imaginar — Percy murmurou.
Hazel não tinha certeza do que ele quis dizer, mas Percy a fez lembrar-se de Jason, ainda que eles não fossem nada parecidos. Eles tinham a mesma aura de poder tranquilo, além de uma espécie de tristeza, como se tivessem visto o seu destino e sabiam que era apenas uma questão de tempo antes que encontrassem um monstro que não poderiam vencer.
Hazel sabia como era se sentir assim. Ela assistiu o pôr do sol no oceano, e sabia que tinha menos de uma semana de vida. Tendo sucesso ou não, sua jornada acabaria na Festa da Fortuna.
Ela pensou na sua primeira morte, e os meses que a antecederam – sua casa em Seward, os seis meses que passou no Alasca, pegando o pequeno barco até a Baía da Ressurreição à noite para visitar a ilha amaldiçoada.
Percebeu seu erro tarde demais. Sua visão escureceu, e ela caiu, voltando no tempo.

Sua casa de férias era uma caixa suspensa em estacas sobre a baía. Quando o trem de Anchorage passava perto, os móveis tremiam e as fotos sacudiam nas paredes. À noite, Hazel adormecia ao som da água gelada gotejando nas rochas sob o assoalho. O vento fazia a construção ranger e gemer.
Elas tinham uma sala, com um aquecedor e uma geladeira como cozinha. Um canto estava preparado com cortinas para Hazel, onde ela mantinha seu colchão. Ela fixou desenhos e fotos antigas de Nova Orleans nas paredes, mas apenas fizeram piorar a saudade.
Sua mãe raramente estava em casa. Ela não era mais a Rainha Marie. Era apenas Marie, a ajudante contratada. Ela cozinhava e fazia a limpeza todos os dias no restaurante da Terceira Avenida, para pescadores, trabalhadores ferroviários e a tripulação ocasional de homens da Marinha.  Chegava em casa cheirando a pinho e peixe frito.
À noite, Marie Levesque se transformava. A Voz assumia, dando ordens a Hazel, colocando-a para trabalhar em seu projeto horrível. No inverno ficou pior. A Voz ficou mais constante por causa da escuridão. O frio era tão intenso que Hazel pensou que nunca estaria quente novamente.
Quando chegou o verão, Hazel não pôde tomar sol o bastante. Todos os dias das férias de verão, ela ficou longe de casa o máximo possível, mas não podia andar pela cidade. Era uma pequena comunidade. As outras crianças espalhavam boatos sobre ela, a filha da bruxa que morava no velho barraco nas docas. Se chegasse muito perto, as crianças zombavam dela ou atiravam garrafas e pedras. Os adultos não eram muito melhores que isso.
Hazel poderia ter tornado suas vidas miseráveis. Ela poderia ter-lhes dado diamantes, pérolas ou ouro. Aqui no Alasca, o ouro era fácil. Havia tanto nas colinas, Hazel poderia ter escavado a cidade em pouquíssimo tempo. Mas não os odiava tanto assim para tirá-los do seu caminho. Ela não podia culpá-los.
Passou o dia andando pelas colinas. Ela atraiu corvos. Eles grasnavam das árvores e esperavam as coisas brilhantes que apareciam embaixo de seus passos. A maldição nunca pareceu incomodá-los. Ela viu ursos marrons, também, mas eles mantiveram distância. Quando Hazel ficou com sede, encontrou uma cachoeira de neve derretida e bebeu água gelada e limpa até sua garganta doer. Subiu o mais alto que pôde para deixar o sol aquecer o seu rosto.
Não era uma maneira ruim de passar o tempo, mas sabia que eventualmente, teria que ir para casa.
Às vezes, ela pensava em seu pai, o estranho homem pálido no terno prata-e-preto. Hazel desejava que ele voltasse e a protegesse de sua mãe, talvez usar os seus poderes para se livrar da voz horrível. Se ele era um deus, ele devia ser capaz de fazer isso.
Ela olhou para os corvos e imaginou que eram seus emissários. Seus olhos eram escuros e maníacos, como os dele. Ela se perguntava se eles relatavam seus movimentos para o seu pai.
Mas Plutão tinha advertido sua mãe sobre o Alasca. Era uma terra além dos deuses. Ele não podia protegê-las aqui. Se estava observando Hazel, ele não falava com ela. Muitas vezes ela se perguntava se não o teria imaginado. Sua antiga vida parecia tão distante como os programas de rádio que ouvia ou o Presidente Roosevelt falando sobre a guerra.
Ocasionalmente, os moradores iam discutir sobre os japoneses e alguns combates nas ilhas que compunham o Alasca, mas mesmo parecendo distante, era quase tão assustador quanto o problema de Hazel.
Um dia em pleno verão, ela ficou mais tempo fora do que o comum, perseguindo um cavalo. Tinha-o visto primeiro quando ouviu um som de mastigação atrás dela. Ao se virar, viu um maravilhoso garanhão de crina negra – exatamente como o que ela tinha montado em seu último dia em Nova Orleans, quando Sammy a tinha levado aos estábulos. Poderia ter sido o mesmo cavalo, no entanto, era impossível. Ele estava comendo algo fora da trilha, e por um segundo, Hazel teve a louca impressão de que ele estava mastigando uma das jazidas de ouro que sempre apareciam em seu caminho.
— Ei, camarada — ela chamou.
O cavalo olhou para ela com cautela.
Hazel imaginou que ele deveria pertencer a alguém. Estava muito bem tratado, o seu pelo muito elegante para um cavalo selvagem. Se ela pudesse chegar perto o suficiente... O quê? Poderia encontrar seu dono? Devolvê-lo?
Não, ela pensou. Eu só quero cavalgar novamente.
Ela deu dez passos, e o cavalo fugiu. Passou o resto da tarde tentando pegá-lo ficando irritantemente perto antes que ele fugisse novamente.
Perdeu a noção do tempo, o que era fácil de fazer com o sol de verão constante durante tanto tempo. Finalmente, parou em um riacho para tomar água e olhou para o céu, pensando que devia ser por volta das três da tarde. Então ouviu um apito de trem no vale abaixo. Percebeu que ele estava indo para Anchorage, o que significava que eram dez da noite.
Ela olhou para o cavalo pastando, de forma pacífica em volta do riacho.
— Você está tentando me deixar em apuros?
O cavalo relinchou. Então... Hazel devia ter imaginado isso. O cavalo fugiu em um borrão de preto e castanho, mais rápido do que um relâmpago – quase rápido demais para seus olhos registrarem.
Hazel não entendia como, mas o cavalo tinha definitivamente desaparecido.
Ela olhou para o local onde o cavalo estava. Vapor saia do solo.
O apito do trem ecoou através das montanhas de novo, e ela percebeu o quão encrencada estava. Ela correu para casa. Sua mãe não estava lá. Por um segundo, Hazel se sentiu aliviada. Talvez a mãe dela tivesse trabalhado até tarde. Talvez hoje elas não tivessem que fazer a viagem.
Então viu os escombros. A cortina de Hazel estava puxada para baixo. O guarda-roupa estava aberto e suas roupas espalhadas pelo chão. Seu colchão havia sido picado como se um leão o tivesse atacado. O pior de tudo, seu bloco de desenho foi rasgado em pedaços. Seus lápis de cor foram todos quebrados. O presente de aniversário de Plutão, o único luxo de Hazel, tinha sido destruído. Pregada na parede estava uma nota em vermelho no último pedaço de papel de desenho, algo que não era de sua mãe:
Menina malvada . Estou te esperando na ilha. Não me desaponte.
Hazel soluçava em desespero. Ela queria ignorar a intimação. Queria fugir, mas não havia para onde ir. Além disso, sua mãe tinha sido aprisionada. A Voz tinha dito que elas estavam quase acabando com a sua tarefa. Se Hazel se mantivesse ajudando, sua mãe seria libertada.
Hazel não confiava na Voz, mas ela não via qualquer outra opção. Ela pegou o barco a remo – um barquinho que a mãe tinha comprado com alguns fragmentos de ouro de um pescador – que teve um acidente trágico com suas redes no dia seguinte. Tinham apenas um barco, mas a mãe de Hazel parecia capaz, de vez em quando, de chegar à ilha sem qualquer transporte. Hazel aprendeu que não era bom perguntar sobre isso.
Mesmo em pleno verão, pedaços de gelo giravam na Baía da Ressurreição. Focas deslizavam pelo seu barco, olhando para Hazel esperançosamente, farejando em busca de restos de peixe. No meio da baía, as costas brilhantes de uma baleia apareceram na superfície.
Como sempre, o balanço do barco fez seu estômago girar. Ela parou uma vez para vomitar do outro lado. O sol estava finalmente se pondo, transformando o céu em um vermelho-sangue.
Ela remou em direção à boca da baía. Depois de alguns minutos, se virou e olhou para a frente. Bem na frente dela, fora do nevoeiro, a ilha se materializou – um hectare de pinheiros, rochas e neve, com uma praia de areia negra.
Se a ilha tinha um nome, ela não sabia. Uma vez Hazel tinha cometido o erro de perguntar ao povo da cidade, mas eles a tinham olhado como se ela estivesse louca.
— Não existe nenhuma ilha aqui — disse o peixeiro — ou senão meu barco teria passado por lá muitas vezes.
Hazel estava a cerca de cinquenta metros da costa quando um corvo pousou na popa do barco. Era um pássaro preto oleoso quase tão grande quanto uma águia, com um bico irregular como uma faca de obsidiana. Seus olhos brilhavam com inteligência, por isso Hazel não ficou muito surpresa quando ele falou.
— Esta noite — ele resmungou. — A última noite.
Hazel deixou o remo cair. Tentou decidir se o corvo estava tentando alertá-la, ou aconselhá-la, ou fazendo uma promessa.
— Você é do meu pai? — perguntou ela.
O corvo inclinou sua cabeça.
— A última noite. Hoje à noite.
Ele bicou a proa do barco e voou em direção à ilha.
A última noite, Hazel disse a si mesma. Ela decidiu tomar como uma promessa. Não importa o que ele me disse, vou fazer disso a última noite.
O que lhe deu força suficiente para remar adiante. O barco deslizou na ilha, rachando através de uma fina camada de gelo e lodo preto.
Ao longo dos meses, Hazel e sua mãe haviam usado um caminho da praia para a floresta. Ela caminhou para o interior, com o cuidado de ficar na trilha. A ilha estava cheia de perigos, tanto os naturais quanto os mágicos.
Os ursos farfalhavam na vegetação rasteira. Espíritos incandescentes brancos, vagamente humanos, deslizavam por entre as árvores. Hazel não sabia o que eram, mas sabia que eles estavam olhando para ela, esperando que ela se perdesse em suas garras.
No centro da ilha, dois enormes pedregulhos negros formaram a entrada de um túnel. Hazel entrou na caverna que ela chamava de o Coração da Terra. Era o único lugar realmente quente que Hazel tinha encontrado desde que se mudou para o Alasca. O ar cheirava a terra recém-molhada. O calor, úmido e doce fez Hazel se sentir sonolenta, mas ela lutou para ficar acordada. Imaginava que, se dormisse aqui, seu corpo se afundaria na terra do chão e ficaria coberto de folhas.
A gruta era tão grande como um santuário de uma igreja, como a catedral de St. Louis em sua antiga casa na Jackson Square. As paredes brilhavam com musgos luminescentes – verdes, vermelhos e roxos. A câmara toda zumbia com energia, ecoando um boom, boom, boom, que lembrava a Hazel batidas de coração. Talvez fossem apenas ondas do mar golpeando a ilha, mas Hazel não pensava assim. Este lugar estava vivo. A terra estava dormindo, mas pulsava com o poder. Seus sonhos eram tão mal-intencionados, tão intermitentes, que Hazel sentiu que estava perdendo a noção da realidade.
Gaia queria consumir a sua identidade, assim como tinha dominado a mãe de Hazel. Ela queria consumir todo ser humano, deus e semideus que se atrevesse a andar pela sua superfície.
Vocês todos me pertencem, murmurou Gaia como uma canção de ninar. Rendam-se. Voltem para a terra.
Não, Hazel pensou. Eu sou Hazel Levesque. Você não pode me possuir.
Marie Levesque estava sobre o poço. Em seis meses, seu cabelo tinha se tornado cinza como palha de aço. Ela tinha perdido peso. Suas mãos estavam nodosas pelo trabalho duro. Ela usava botas de neve impermeáveis e uma camisa branca manchada do restaurante. Nunca teria sido confundida com uma rainha.
— É tarde demais. — A voz frágil de sua mãe ecoou pela caverna.
Hazel percebeu com um choque que era a voz dela – não de Gaia.
— Mãe?
Marie se virou. Seus olhos estavam abertos. Ela estava acordada e consciente. O que deveria ter deixado Hazel aliviada, a deixou nervosa. A Voz nunca renunciou ao controle enquanto elas estavam na ilha.
— O que eu fiz? — sua mãe perguntou desesperadamente. — Ah, Hazel, o que eu te fiz?
Ela olhou com horror para a coisa no poço. Durante meses elas estavam vindo para cá, quatro ou cinco noites por semana assim como a Voz pedia. Hazel tinha chorado, entrou em colapso com a exaustão, implorou, tinha se dado ao desespero. Mas a voz que controlava sua mãe exortou-a implacavelmente.
Traga objetos de valor da terra. Use seus poderes, criança. Traga meu bem mais precioso para mim.
No começo, seus esforços trouxeram apenas desprezo. A fissura na terra tinha sido preenchida com ouro e pedras preciosas, borbulhando em uma sopa espessa de petróleo. Parecia que o tesouro de um dragão tinha sido despejado em um poço de piche. Então, lentamente, um cone de pedra começou a crescer como um bulbo enorme de uma tulipa. Ele surgiu de forma gradual, noite após noite e Hazel teve problemas para calcular o seu progresso. Muitas vezes se concentrava toda a noite na elevação, até que sua mente e alma ficavam esgotadas, mas ela não notava qualquer diferença.
No entanto, o cone cresceu. Hazel agora podia ver o quanto tinha feito. A coisa tinha dois andares de altura, um redemoinho de gavinhas rochosas saliente como uma ponta de lança do pântano de óleos. No interior, algo brilhava com o calor. Hazel não podia vê-lo claramente, mas sabia o que estava acontecendo. Um corpo estava se formando com a prata e o ouro, o petróleo era como sangue e o diamante puro, o coração. Hazel estava ressuscitando o filho de Gaia. Ele estava quase pronto para despertar.
A mãe dela caiu de joelhos e começou a chorar.
— Sinto muito, Hazel. Desculpe.
Ela parecia desamparada e sozinha, terrivelmente triste.
Hazel deveria ter ficado furiosa. Desculpe? Ela vivia com medo de sua mãe há anos. Tinha sido repreendida e culpada por causa da vida desafortunada de sua mãe. Havia sido tratada como uma aberração, arrastada de sua casa em Nova Orleans para este deserto gélido e trabalhado como uma escrava para uma deusa impiedosa do mal. Um simples desculpe não suprimia isso. Ela deveria ter desprezado sua mãe. Mas não conseguia fazer a si mesma ficar com raiva.
Hazel se ajoelhou e colocou o braço em torno de sua mãe. Não havia quase nada sobrando dela – só pele, ossos e roupas de trabalho manchadas. Mesmo na caverna quente, ela estava tremendo.
— O que podemos fazer? — Hazel disse. — Diga-me como impedir.
Sua mãe balançou a cabeça.
— Ela me deixou ir. Ela sabe que é tarde demais. Não há nada que possamos fazer.
— Ela... A Voz?
Hazel receava lhe dar esperanças, mas se sua mãe estava realmente livre, então nada mais importava. Elas poderiam sair daqui. Elas poderiam fugir, de volta para Nova Orleans.
— Ela se foi?
Sua mãe olhou temerosamente ao redor da caverna.
— Não, ela está aqui. Há apenas mais uma coisa que ela precisa de mim. Para isso, ela precisa do meu livre-arbítrio.
Hazel não gostou de como isso soava.
— Vamos sair daqui — ela insistiu. — Essa coisa na pedra... Vai eclodir.
— Em breve — a mãe concordou.
Ela olhou para Hazel tão ternamente... Hazel não conseguia se lembrar da última vez que tinha visto esse tipo de afeto nos olhos de sua mãe. Sentiu um soluço em seu peito.
— Plutão me avisou — disse sua mãe. — Ele disse que o meu desejo era muito perigoso.
— O seu... Seu desejo?
— De ter toda a riqueza debaixo da terra — disse ela. — Ele controlava isso. Eu queria. Estava tão cansada de ser pobre, Hazel. Tão cansada. Primeiro eu o convoquei... Só para saber se poderia. Nunca pensei que um velho feitiço indígena iria funcionar com um deus. Mas ele cortejou-me, me disse que eu era corajosa e bonita...
Ela olhou para suas mãos calejadas.
— Quando você nasceu ele ficou tão satisfeito e orgulhoso. Prometeu que me daria qualquer coisa. Ele jurou pelo rio Estige. Pedi todas as riquezas que ele tinha. Ele me avisou que quanto mais grandiosos fossem os desejos, causariam os maiores sofrimentos. Mas insisti. Imaginava viver como uma rainha – a esposa de um deus! E você... Você foi amaldiçoada.
Hazel se sentiu como se estivesse quase a ponto de explodir, tal como o cone no poço. Sua infelicidade logo se tornaria grande demais para conter, e sua pele iria se partir.
— É por isso que posso encontrar coisas que estão debaixo da terra?
— E por que elas te trazem apenas tristeza — sua mãe fez um gesto com indiferença em torno da caverna. — Foi assim que ela me achou, e por isso foi capaz de me controlar. Eu estava com raiva de seu pai. Eu o culpava por meus problemas. Eu culpei você. Estava tão amarga, ouvi a voz de Gaia. Fui uma tola.
— Tem que ter algo que possamos fazer — disse Hazel. — Diga-me como pará-la.
O chão tremeu. A voz desencarnada de Gaia ecoou pela caverna.
Meu filho mais velho ascende, disse ela, a coisa mais preciosa na terra... e você o trouxe das profundezas, Hazel Levesque. Você fez-lhe um novo ser. Seu despertar não pode ser interrompido. Só uma coisa permanece.
Hazel cerrou os punhos. Ela estava apavorada, mas agora que sua mãe estava livre, sentiu como se pudesse enfrentar seu inimigo afinal. Esta criatura, esta deusa do mal, havia arruinado suas vidas. Hazel não ia deixá-la vencer.
— Eu não vou mais te ajudar! — ela gritou.
Mas eu terminei com a sua ajuda, menina. Eu a trouxe aqui por uma única razão. Sua mãe exigiu... como um incentivo.
A garganta de Hazel estava apertada.
— Mãe?
— Sinto muito, Hazel. Se você puder me perdoar, por favor... saiba que foi só porque eu te amo. Ela prometeu deixá-la viver se...
— Se você se sacrificar — disse Hazel, percebendo a verdade. — Ela precisa de você para dar a sua vida de bom grado para erguer aquela... Aquela coisa.
Alcioneu, Gaia disse, o mais velho dos gigantes. Ele deve subir primeiro, e esta será sua nova pátria, longe dos deuses. Ele vai andar por estas montanhas e florestas geladas. Vai erguer um exército de monstros. Enquanto os deuses estão divididos, lutando uns contra os outros nesta Guerra Mundial mortal, ele enviará os seus exércitos para destruir o Olimpo.
Os sonhos da deusa da Terra eram tão poderosos, que eles se projetaram em sombras nas paredes da caverna – medonhas imagens de deslocamento de exércitos nazistas em fúria por toda a Europa, aviões japoneses destruindo cidades americanas. Hazel finalmente compreendeu.
Os deuses do Olimpo tomariam partido na batalha como sempre fizeram em guerras humanas. Enquanto os deuses lutavam entre si em um impasse sangrento, um exército de monstros se levantaria no norte. Alcioneu reviveria seus irmãos gigantes e iria enviá-los para conquistar o mundo. Os deuses enfraquecidos cairiam. O conflito mortal seria raivoso por décadas até que toda a civilização fosse varrida, e a deusa da terra despertasse totalmente. Gaia governaria para sempre.
Tudo isto, a deusa sussurrou, porque sua mãe era gananciosa e amaldiçoou-a com o dom de encontrar riquezas. No meu estado de sono, eu precisaria de mais décadas, talvez séculos, antes que encontrasse o poder de ressuscitar Alcioneu sozinha. Mas agora ele vai acordar, e logo, eu serei a próxima!
Com uma certeza terrível, Hazel soube o que iria acontecer a seguir. A única coisa que Gaia precisava era de um sacrifício – uma alma disposta a ser consumida para Alcioneu despertar. Sua mãe iria entrar na fissura e tocar no horrível cone – e ela seria absorvida.
— Hazel, vá. — A mãe dela se levantou cambaleando. — Ela vai deixá-la viver, mas você deve se apressar.
Hazel acreditava. Essa era a coisa mais horrível. Gaia honraria o negócio e deixaria Hazel viva. Hazel sobreviveria para ver o fim do mundo, sabendo que ela o causou.
— Não — Hazel tomou sua decisão. — Eu não vou viver. Não por isso.
Ela alcançou as profundezas de sua alma. Chamou seu pai, o Senhor do Mundo Inferior, e convocou todas as riquezas que dormiam em seu vasto reino. A caverna tremeu. Ao redor da torre de Alcioneu, bolhas de óleo se agitaram e então explodiram como um caldeirão fervente.
Não seja tola, Gaia disse, mas Hazel detectou preocupação no seu tom de voz, talvez até mesmo medo. Você vai destruir a si mesma por nada! Sua mãe ainda vai morrer!
Hazel quase vacilou. Lembrou-se da promessa de seu pai: um dia a sua maldição seria removida, um descendente de Netuno traria a sua paz. Ele mesmo disse que ela poderia encontrar um cavalo por conta própria. Talvez esse garanhão estranho nas montanhas fosse para ela. Mas nada disso aconteceria se ela morresse agora. Ela nunca iria ver Sammy novamente, ou retornaria a Nova Orleans. Sua vida seria de treze curtos anos, anos amargos com um final infeliz.
Ela encontrou os olhos de sua mãe. Pela primeira vez, sua mãe não parecia triste ou com raiva. Seus olhos brilhavam com orgulho.
— Você foi meu presente Hazel — disse ela. — Meu presente mais precioso. Eu fui tola em pensar que precisava de mais alguma coisa.
Ela beijou a testa de Hazel e abraçou-a. Seu calor deu a Hazel a coragem para continuar. Elas morreriam, mas não como sacrifícios para Gaia. Hazel instintivamente sabia que seu ato final rejeitaria o poder de Gaia. Suas almas iriam para o Mundo Inferior, e Alcioneu não se ergueria, pelo menos não ainda.
Hazel convocou o último de seus poderes. O ar tornou-se muito quente. O cone começou a afundar. Joias e pedaços de ouro dispararam da fissura com tal força, que as paredes da caverna racharam e estilhaços voaram, a pele de Hazel foi atingida através da jaqueta.
Pare com isso! Gaia exigia. Você não pode impedir sua ascensão. Na melhor das hipóteses, você vai atrasá-lo... algumas décadas. Meio século. Vocês trocariam suas vidas por isso?
Hazel deu-lhe uma resposta.
A última noite, o corvo tinha dito.
A fissura explodiu. O telhado ruiu. Hazel afundou nos braços de sua mãe, na escuridão, enquanto o óleo enchia os seus pulmões e a ilha entrou em colapso na baía.