quinta-feira, 17 de outubro de 2013

XX - Annabeth






A NOVA GUERRA CIVIL TINHA COMEÇADO.
Leo tinha de alguma forma escapado ileso da queda. Annabeth o viu se esquivando de pórtico para pórtico, explodindo fogo nas águias gigantes que desciam sobre ele. Semideuses romanos tentaram persegui-lo, tropeçando sobre pilhas de balas de canhão e esquivando-se de turistas, que gritavam e corriam em círculos.
Guias turísticos gritavam:
— É apenas uma encenação! — Apesar de não soarem seguros. A névoa só mudava um pouco o que os mortais viam.
No meio do pátio, um elefante adulto – poderia ser Frank? – causava tumultos em torno dos mastros, dispersando guerreiros romanos. Jason estava a cerca de 50 metros de distância, numa luta de espadas com um centurião atarracado cujos lábios estava manchados de vermelho-cereja, como sangue. Um falso vampiro ou talvez uma aberração Kool-Aid?
Enquanto Annabeth assistia, Jason gritou:
— Desculpe por isso, Dakota!
Ele saltou em linha reta sobre a cabeça do centurião como um acrobata e bateu o punho de seu gládio na parte de trás da cabeça do romano. Dakota dobrou-se.
— Jason! — Annabeth chamou.
Ele examinou o campo de batalha até que a viu. Ela apontou para onde o Argo II foi ancorado.
— Mande os outros a bordo! Recue!
— E você? — ele chamou.
— Não espere por mim!
Annabeth fugiu antes que ele pudesse protestar.
Foi um pouco difícil para manobrar através das multidões de turistas. Por que tantas pessoas queriam ver Fort Sumter em um dia de verão escaldante? Mas Annabeth rapidamente percebeu que as multidões estavam salvando suas vidas. Sem o caos de todos esses mortais em pânico, os romanos já teriam cercado a sua equipe em inferioridade numérica.
Annabeth se enfiou em uma pequena sala que deve ter sido parte da guarnição. Ela tentou normalizar a respiração. Imaginou como seria um soldado da União nesta ilha em 1861. Cercado por inimigos. Alimentos e suprimentos cada vez mais escassos, sem reforços chegando.
Alguns dos defensores da União tinham sido filhos de Atena. Eles tinham escondido um mapa importante aqui, algo que não queriam que caísse em mãos inimigas. Se Annabeth tivesse sido um daqueles semideuses, onde ela o teria colocado?
De repente, as paredes brilharam. O ar tornou-se quente. Annabeth perguntou se ela estava tendo alucinações. Estava prestes a correr para a saída quando a porta se fechou. A argamassa entre as pedras empolou. As bolhas estouraram e milhares de pequenas aranhas negras surgiram adiante.
Annabeth não conseguia se mover. Seu coração parecia ter parado. As aranhas cobriram as paredes, rastejando umas sobre as outras, espalhando-se pelo chão e gradualmente em torno dela. Isso era impossível. Não podia ser real.
O terror mergulhou-a em memórias. Ela tinha sete anos de novo, sozinha em seu quarto em Richmond, Virginia. As aranhas vieram à noite. Elas rastejaram em ondas saindo de seu armário e esperaram nas sombras. Ela gritou por seu pai, mas o pai estava fora para o trabalho. Parecia estar sempre longe no trabalho.
Sua madrasta entrou em seu lugar.
Eu não me importo de ser a policial má, ela disse uma vez para o pai de Annabeth, quando não achava que Annabeth pudesse ouvir. É apenas a sua imaginação, sua madrasta disse sobre as aranhas. Você está assustando seus irmãozinhos.
Eles não são meus irmãos, argumentou Annabeth, o que fez a expressão de sua madrasta endurecer. Seus olhos eram quase tão assustadores como as aranhas.
Vá dormir agora, sua madrasta insistiu. Sem mais gritos.
As aranhas voltaram assim que a madrasta saiu do quarto. Annabeth tentou se esconder debaixo das cobertas, mas não fazia nenhum bem. Eventualmente, ela dormia de exaustão. Ela acordava de manhã, sardenta com mordidas, teias de aranha cobrindo seus olhos, boca e nariz.
As mordidas desapareciam antes mesmo de ela se vestir, então ela não tinha nada para mostrar a sua madrasta exceto teias de aranha, o que sua madrasta pensava ser algum tipo de truque.
Sem mais conversa sobre aranhas, a madrasta disse com firmeza. Você é uma menina grande agora.
Na segunda noite, as aranhas vieram novamente. Sua madrasta continuou a ser a policial má.
Annabeth não tinha permissão para chamar seu pai e incomodá-lo com este absurdo.
Não, ele não iria chegar em casa cedo.
Na terceira noite, Annabeth fugiu de casa.
Mais tarde, no Acampamento Meio-Sangue, aprendeu que todas as crianças de Atena temiam aranhas. Há muito tempo, Atena tinha ensinado à tecelã mortal Aracne uma lição difícil, amaldiçoando-lhe por causa de seu orgulho, transformando-a na primeira aranha. Desde então, as aranhas odiavam os filhos de Atena.
Mas isso não fez o seu medo ser mais fácil de lidar. Uma vez, ela quase matou Connor Stoll no acampamento por colocar uma tarântula em sua cama. Anos mais tarde, teve um ataque de pânico em um parque aquático em Denver, quando Percy e ela foram atacados por aranhas mecânicas. E nestas últimas semanas, Annabeth tinha sonhado com aranhas quase todas as noites, rastejando sobre ela, sufocando-a, envolvendo-a em teias.
Agora, de pé no quartel de Fort Sumter, estava cercada. Seus pesadelos viraram realidade. Uma voz sonolenta murmurou em sua cabeça: Em breve, minha querida, você vai conhecer a tecelã, em breve.
— Gaia? — Annabeth murmurou. Ela temia a resposta, mas ela perguntou: — Quem... quem é a tecelã?
As aranhas ficaram animadas, fervilhando sobre as paredes, girando em torno dos pés de Annabeth como uma hidromassagem negra. Somente a esperança de que poderia ser uma ilusão segurava Annabeth de desmaiar de medo.
Eu espero que você sobreviva, criança, a voz da mulher disse. Prefiro você como meu sacrifício. Mas devemos deixar que a tecelã se vingue...
A voz de Gaia desapareceu. Na parede do fundo, no centro do grupo de aranhas, um símbolo vermelho surgiu: a figura de uma coruja como a do dracma de prata, olhando diretamente para Annabeth. Então, assim como em seus pesadelos, a Marca de Atena queimou nas paredes, incinerando as aranhas até que a sala estava vazia, exceto pelo doce cheiro de cinzas doentio.
Vá, disse uma nova voz – a mãe de Annabeth. Vingue-me. Siga a Marca.
O símbolo ardente da coruja desapareceu. A porta da guarnição abriu-se. Annabeth ficou atordoada no meio da sala, sem saber se tinha visto algo real ou apenas uma visão. Uma explosão sacudiu o edifício. Annabeth lembrou-se que seus amigos ainda estavam em perigo. Ela ficou ali muito tempo.
Forçou-se a se mover. Ainda tremendo, tropeçou para fora. O ar do oceano ajudou a clarear a sua mente. Ela observou o pátio – turistas passando em pânico e semideuses guerreando –  e a borda das ameias, onde um grande morteiro apontava para o mar.
Poderia ter sido imaginação de Annabeth, mas a velha peça de artilharia parecia estar brilhando vermelha. Ela correu em direção a ela. Uma águia voou em sua direção, mas ela se abaixou e continuou a correr. Nada poderia assustá-la mais que aquelas aranhas.
Semideuses romanos formaram fileiras e foram avançando para o Argo II, mas uma tempestade em miniatura se reuniu sobre suas cabeças. Embora o dia estivesse claro ao redor deles, um trovão retumbou e relâmpagos brilharam acima dos romanos. Chuva e vento empurraram eles para trás.
Annabeth não parou para pensar sobre isso. Chegou ao morteiro e colocou a mão sobre a boca da arma. Na ficha que bloqueava a abertura, a Marca de Atena começou a esboçar o brilho vermelho de uma coruja.
— No morteiro — disse ela. — É claro.
Ela puxou a tampa com os dedos. Sem sorte. Amaldiçoando, tirou sua adaga. Logo que o Bronze Celestial tocou a tampa, ela encolheu-se e soltou-se. Annabeth arrancou-a e enfiou a mão dentro do canhão.
Seus dedos tocaram algo frio, suave de metal. Ela tirou um pequeno disco de bronze do tamanho de um pires de chá, gravado com letras delicadas e ilustrações. Decidiu examiná-lo mais tarde. Ela colocou em sua mochila e se virou.
— Com pressa? — Reyna perguntou.
A pretora estava a dez metros de distância, com armadura de batalha completa, segurando uma lança de ouro. Seus dois galgos de metal rosnaram ao lado dela.
Annabeth esquadrinhou a área. Estava mais ou menos sozinha. A maior parte do combate tinha movido para as docas. Esperava que seus amigos tivessem embarcado, mas eles teriam que zarpar imediatamente ou teriam risco de serem invadidos. Annabeth precisava se apressar.
— Reyna — ela disse — o que aconteceu no Acampamento Júpiter foi culpa de Gaia. Eidolons, espíritos de possessão...
— Guarde suas explicações — disse Reyna. — Você vai precisar delas para o julgamento.
Os cães rosnaram e avançaram para frente. Desta vez, eles não pareceram se importar que Annabeth estivesse dizendo a verdade. Ela tentou pensar em um plano de fuga. Duvidava que pudesse aguentar Reyna em combate corpo-a-corpo. Com esses cães de metal, ela não tinha chance alguma.
— Se você deixar Gaia separar nossos acampamentos — Annabeth argumentou — os gigantes ganharão. Eles vão destruir os romanos, os gregos, os deuses, todo o mundo mortal.
— Você não acha que eu sei disso? — a voz de Reyna estava dura como ferro. — Que escolha você me deixou? Octavian quer sangue. Ele induziu a legião em um frenesi e eu não posso parar. Renda-se a mim. Eu vou trazer você de volta para Nova Roma para julgamento. Não será justo. Você vai ser dolorosamente executada. Mas pode ser suficiente para impedir mais violência. Octavian não estará satisfeito, é claro, mas acho que posso convencer os outros a se retirar.
— Não fui eu!
— Não importa! — Reyna estalou. — Alguém tem que pagar pelo que aconteceu. Que seja você. É a melhor opção.
A pele de Annabeth estava quente.
— Melhor que o quê?
— Use aquela sua sabedoria — disse Reyna. — Se você sair hoje, não iremos lhe seguir. Eu disse a você – nem mesmo um louco iria atravessar o mar para as terras antigas. Se Octavian não puder ter vingança em seu navio, ele vai voltar sua atenção para o Acampamento Meio-Sangue. A legião marchará em seu território. Iremos destruí-lo e salgar a terra.
Mate os romanos, ela ouviu a mãe pedindo. Eles nunca serão seus aliados.
Annabeth queria chorar. O Acampamento Meio-Sangue era o único lar verdadeiro que já tinha conhecido e em um lance de amizade, disse a Reyna exatamente onde encontrá-lo. Ela não podia deixá-lo a mercê dos romanos e viajar para o outro lado do mundo.
Mas a sua missão e tudo o que ela sofreu para ter Percy de volta... Se não fosse para as terras antigas, tudo não significaria nada. Além disso, a Marca de Atena não tem que levar a vingança. Se eu pudesse encontrar o caminho, sua mãe tinha dito, o caminho de casa...
Como você vai usar a sua recompensa? Afrodite tinha perguntado. Para a guerra ou paz?
Não havia uma resposta. A Marca de Atena poderia levar ela lá, se sobrevivesse.
— Eu vou — ela disse a Reyna. — Eu vou seguir a Marca de Atena até Roma.
A pretora balançou a cabeça.
— Você não tem ideia do que espera por você.
— Sim, eu tenho — disse Annabeth. — Este rancor entre os nossos acampamentos... Eu posso corrigi-lo.
— Nosso rancor é de milhares de anos. Como uma pessoa pode corrigi-lo?
Annabeth desejou que pudesse dar uma resposta convincente, mostrar a Reyna um diagrama 3D ou um esquema brilhante, mas não podia. Só sabia que tinha que tentar. Ela lembrou aquele olhar perdido no rosto da mãe: Devo voltar para casa.
— A missão tem que ser um sucesso — disse ela. — Você pode tentar me parar, caso em que nós vamos ter de lutar até a morte. Ou você pode me deixar ir e eu tentarei salvar os nossos acampamentos. Se marcharem para o Acampamento Meio-Sangue, você poderá, pelo menos, tentar atrasar. Retarde Otavian.
Os olhos de Reyna se estreitaram.
— De uma filha de uma deusa da guerra para outra, eu respeito a sua ousadia. Mas se você sair agora, irá condenar seu acampamento à destruição.
— Não subestime o Acampamento Meio-Sangue — Annabeth avisou.
— Você nunca viu a legião em guerra — rebateu Reyna.
Ao longo do cais, uma voz familiar gritou sobre o vento:
— Mate-os! Mate todos eles!
Octavian tinha sobrevivido ao seu mergulho no porto. Ele se agachou atrás de seus guardas, gritando incentivos para os outros semideuses romanos, enquanto eles lutavam contra o navio, erguendo seus escudos como se isso fosse desviar a tempestade furiosa ao redor deles.
No convés do Argo II, Percy e Jason estavam juntos, as espadas cruzadas. Annabeth teve um formigamento em sua espinha quando percebeu que os meninos estavam trabalhando como um, convocando o céu e o mar para fazer sua vontade. A água e o vento agitavam juntos. Ondas levantavam contra as muralhas e relâmpagos brilhavam. Águias gigantes foram expulsas do céu. Destroços da carruagem alada queimavam na água e o Treinador Hedge balançou um arco montado, mirando para as aves dos romanos enquanto estes sobrevoavam.
— Você vê? — Reyna disse amargamente. — A lança foi atirada. Nosso povo está em guerra.
— Não, se eu tiver sucesso — disse Annabeth.
A expressão de Reyna era mesma que tinha no Acampamento Júpiter quando percebeu que Jason tinha encontrado outra garota. A pretora estava sozinha, muito amarga e traída para acreditar que qualquer coisa poderia dar certo para ela. Annabeth esperou que ela atacasse. Em vez disso, Reyna sacudiu sua mão. Os cães de metal recuaram.
— Annabeth Chase — ela disse — quando nos encontrarmos novamente, seremos inimigas no campo de batalha.
A pretora virou-se e atravessou as muralhas, seus galgos atrás dela.
Annabeth temeu que pudesse ser algum tipo de truque, mas não teve tempo para pensar. Ela correu para o navio. Os ventos que golpearam os romanos não parecem afetar a ela.
Annabeth correu através de suas linhas. Octavian gritou:
— Parem ela!
Uma lança passou por sua orelha. O Argo II já estava se afastando do cais. Piper estava na prancha de desembarque, com a mão estendida. Annabeth pulou e agarrou a mão de Piper. A prancha caiu no mar e as duas meninas caíram no convés.
— Vai! — Annabeth gritou. — Vai, vai, vai!
Os motores retumbaram em baixo dela. Os remos bateram. Jason mudou o curso do vento e Percy chamou uma onda enorme, que levantou o navio mais alto do que as paredes do forte e lançou-os para o mar. Quando o Argo II chegou à velocidade máxima, Fort Sumter era apenas uma mancha na distância e eles estavam correndo sobre as ondas em direção às terras antigas.