quinta-feira, 17 de outubro de 2013

XXXI - Percy






NADA COMO O FRACASSO TOTAL PARA GERAR ÓTIMAS IDÉIAS.
Enquanto Percy estava ali, desarmado e derrotado, o plano se formou em sua cabeça. Estava tão acostumado com Annabeth lhe provendo informações de lendas gregas que estava meio atordoado por se lembrar de algo realmente útil, mas ele tinha que agir rápido. Não podia deixar que algo acontecesse aos seus amigos. Não iria perder Annabeth – não de novo.
Crisaor não podia ser derrotado. Pelo menos, não em um único combate. Mas sem sua tripulação... Talvez então pudesse derrotá-lo se o número suficiente de semideuses o atacasse de uma vez só.
Como lidar com a tripulação do Crisaor? Percy juntou as peças: os piratas haviam sido transformados em homens-golfinhos há milênios, quando sequestraram a pessoa errada. Percy sabia da história. Diabos, a pessoa errada em questão, ameaçou transformá-lo em golfinho. E quando Crisaor disse que a tripulação não tinha medo de nada, um dos golfinhos o corrigiu nervosamente. Sim, Crisaor disse. Mas ele não está aqui.
Percy olhou para a popa e viu Frank, em forma humana, espreitando atrás de uma balista, esperando. Percy resistiu ao impulso de sorrir. O grandalhão alegava ser desajeitado e inútil, mas ele sempre parecia estar no lugar certo quando Percy precisava dele.
As meninas... Frank... A caixa de gelo...
Era uma ideia maluca. Como de costume, era tudo o que Percy tinha.
— Tudo bem! — Percy gritou tão alto que ele conseguiu a atenção de todos. — Leve-nos, se nosso capitão deixar.
Crisaor virou sua máscara de ouro.
— Que capitão? Meus homens procuraram o navio. Não há ninguém mais.
Percy elevou as mãos dramaticamente.
— O deus aparece apenas quando deseja. Mas ele é o nosso líder. Ele dirige o nosso acampamento de semideuses. Não é, Annabeth?
Annabeth foi rápida.
— Sim! — ela acenou entusiasticamente. — Sr. D! O maravilhoso Dionísio!
Uma onda de inquietação passou pelos homens-golfinhos. Um deixou sua espada cair.
— Fiquem firmes! — Crisaor berrou. — Não há nenhum deus nesse navio. Eles estão tentando assustar vocês.
— Vocês deveriam ficar assustados! — Percy olhou para a tripulação de piratas com simpatia — Dionísio ficará extremamente irritado com vocês, por terem atrasado nossa viagem. Ele irá punir todos vocês. Não perceberam as meninas caírem na loucura do deus do vinho?
Hazel e Piper tinham parado os ataques trêmulos. Elas estavam sentadas no convés, encarando Percy, mas quando ele olhou para elas incisivamente, começaram novamente, tremendo e se debatendo como peixes. Os homens-golfinhos se apertaram para distanciarem-se de suas cativas.
— Falsos! — Crisaor rugiu. — Cale-se, Percy Jackson. Seu diretor de acampamento não está aqui. Ele foi convocado ao Olimpo. Isto é de conhecimento comum.
— Então você assume que Dionísio é nosso diretor!
— Ele era — Crisaor corrigiu — todo mundo sabe disso.
Percy apontou para o guerreiro de ouro, como se ele tivesse se traído.
— Vocês veem? Nós estamos condenados! Se não acreditam em mim, vamos verificar a caixa de gelo!
Percy atacou o resfriador mágico. Ninguém tentou impedi-lo. Ele abriu a tampa e vasculhou o gelo. Tinha de ter uma. Por favor. Ele foi premiado com uma lata de refrigerante vermelha e prata. Ele a brandiu nos golfinhos guerreiros como se os pulverizasse com um repelente de insetos.
— Eis aqui! — Percy gritou — a bebida escolhida do deus. Tremam diante do horror da Diet Coke!
Os homens-golfinhos começaram a entrar em pânico. Eles estavam prestes a fugir. Percy podia sentir isso.
— O deus irá tomar o seu navio — Percy avisou. — Ele completará as suas transformações para golfinhos, ou irá deixá-los loucos ou vai transformá-los em golfinhos loucos! A única esperança para vocês é nadar rapidamente para longe, agora!
— Ridículo! — a voz de Crisaor ficou estridente. Ele não parecia certo para onde apontar a espada – para Percy ou para a sua tripulação.
— Salvem-se! — Percy advertiu — É tarde demais para nós!
Então ele arquejou e apontou para o lugar onde Frank estava se escondendo.
— Oh, não! Frank está se transformando em um golfinho maluco!
Nada aconteceu.
— Eu disse — Percy repetiu — Frank está se transformando em um golfinho maluco!
Frank tropeçou de lugar nenhum, fazendo um grande show ao agarrar a sua garganta.
— Oh, não — ele disse, como se estivesse lendo um roteiro. — Estou me transformando em um golfinho louco!
Ele começou a mudar, seu nariz se alongou para um focinho, sua pele se tornou lustrosa e cinza. Ele caiu no convés como um golfinho, sua cauda golpeando as tábuas.
A tripulação pirata debandou em terror, gritando e estalando, enquanto largavam as armas, esqueciam os prisioneiros, ignoravam as ordens de Crisaor e saltavam no mar. Na confusão, Annabeth agiu rapidamente e cortou as cordas de Hazel, Piper e do treinador Hedge.
Em segundos, Crisaor estava sozinho e cercado. Percy e seus amigos não possuíam armas, com exceção da faca de Annabeth e os cascos de Hedge, mas os olhares assassinos em seus rostos evidentemente convenceram o guerreiro de ouro que ele estava condenado.
Ele apoiou-se na borda do corrimão.
— Isso não acabou, Jackson — Crisaor rosnou. — Eu terei a minha vingança...
Suas palavras foram interrompidas por Frank, que mudou de forma de novo. Um urso de 360 kg definitivamente pode terminar uma conversa. Ele atacou Crisaor e arrancou sua máscara de ouro do capacete. Crisaor gritou, instantaneamente cobriu seu rosto com os braços e caiu na água.
Eles correram para o corrimão. Crisaor havia desaparecido. Percy pensou em segui-lo, mas não conhecia essas águas e não queria enfrentar o cara sozinho de novo.
— Isso foi brilhante! — Annabeth o beijou, o que o fez se sentir um pouco melhor.
— Foi desesperado — Percy corrigiu. — E precisamos nos livrar desse trirreme pirata.
— Queimamos? — Annabeth perguntou.
Percy olhou para a Diet Coke em sua mão.
— Não. Eu tenho outra ideia.
Levou mais do tempo do que Percy esperava. Enquanto trabalhavam, ele se manteve olhando para o mar, esperando Crisaor e seus golfinhos piratas voltarem, mas eles não voltaram.
Leo voltou aos seus sentidos, graças a um pouco de néctar. Piper cuidava das feridas de Jason, mas ele não estava tão gravemente ferido como aparentava. Na maior parte, estava envergonhado por ter sido dominado de novo, algo com que Percy podia se identificar.
Eles retornaram todos os suprimentos para seus locais apropriados e os arrumaram enquanto o treinador Hedge teve um dia de campo no barco inimigo, quebrando tudo que conseguia encontrar com seu taco de beisebol. Quando ele acabou, Percy carregou as armas dos inimigos de volta ao navio pirata. A despensa estava cheia de tesouros, mas Percy insistiu que eles não tocassem em nada disso.
— Eu posso sentir cerca de seis milhões de dólares em ouro a bordo — Hazel disse. — Mais diamantes, rubis...
— Seis mi-milhões? — Frank gaguejou. — Em dólares canadenses ou americanos?
— Deixem — Percy disse. — É parte do tributo.
— Tributo? — Hazel perguntou.
— Oh! — Piper assentiu. — Kansas.
Jason sorriu. Ele também estava lá quando encontraram o deus do vinho.
— Louco. Mas eu gosto.
Finalmente, Percy foi a bordo do navio pirata e abriu as válvulas de inundação. Ele pediu a Leo para fazer alguns furos extras no fundo do casco com as suas poderosas ferramentas e Leo estava feliz por ajudar.
A tripulação do Argo II reuniu-se no corrimão e cortou as cordas que prendiam um navio ao outro. Piper trouxe seu novo chifre da abundância e na direção de Percy, desejou que saísse Diet Coke, que surgiu com a pressão de uma mangueira de incêndio, encharcando o convés inimigo. Percy pensou que iria levar horas, mas o navio afundou notavelmente rápido, se enchendo de Diet Coke e água do mar.
— Dionísio! — Percy chamou, segurando a mascara dourada de Crisaor. — Ou Baco... que seja. Você tornou esta vitória possível, mesmo que não esteja aqui. Seus inimigos estremeceram sobre o seu nome... Ou sua Diet Coke, ou algo assim. Então, yeah, obrigado.
As palavras eram difíceis de sair, mas Percy não conseguiu se segurar.
— Nós damos a você esse navio como tributo. Esperamos que goste.
— Seis milhões de dólares em ouro — Leo murmurou. — É melhor que ele goste.
— Shh — Hazel o repreendeu. — Metal precioso não é grande coisa. Acredite em mim.
Percy lançou a máscara de ouro no navio, que agora estava afundando mais rapidamente. Um líquido marrom efervescente expelia das ranhuras do trirreme e borbulhava no porão de carga, deixando o mar marrom cremoso.
Percy convocou uma onda e o navio inimigo foi inundado. Leo conduziu o Argo II para longe do navio pirata desaparecido abaixo d‘água.
— Isso não é poluição? — Piper perguntou.
— Eu não me preocuparia — Jason disse. — Se Baco gostar, o navio irá desaparecer.
Percy não sabia se isso iria acontecer, mas sentia que havia feito tudo que podia. Não tinha fé que Dionísio iria ouvi-los ou cuidar deles, muito menos ajudá-los na batalha contra os gigantes gêmeos, mas tinha que tentar.
Com o Argo II indo para leste no nevoeiro, Percy determinou que ao menos uma coisa boa tivesse saído de sua luta com Crisaor. Ele se sentia humilde – humilde o suficiente para pagar um tributo ao cara do vinho.
Depois da sua luta com os piratas, eles decidiram voar o resto do caminho para Roma. Jason insistiu que ele estava bem o suficiente para pegar o serviço de sentinela, junto com o treinador Hedge, que ainda estava tão carregado de adrenalina que em cada turbulência em que o navio passava, ele girava o bastão e gritava:
— Morra!
Eles teriam um par de horas até o amanhecer, então Jason sugeriu a Percy que tentasse ter algumas horas de sono.
— Está tudo ok, cara — disse Jason. — Dê a mais alguém a chance de salvar o navio, sim?
Percy concordou, embora uma vez em sua cabine, teve dificuldade de adormecer. Ele encarou a lanterna de bronze balançando no teto e pensou em quão fácil Crisaor o derrotou na esgrima. O guerreiro de ouro poderia matá-lo sem nem uma gota de suor. Ele só o manteve vivo porque alguém queria pagar o privilégio de matá-lo mais tarde.
Percy sentiu como se uma flecha houvesse deslizado através de uma fenda em sua armadura – como se ele ainda possuísse a benção de Aquiles e alguém tivesse encontrado o seu ponto fraco. Quanto mais velho ficava, mais tempo ele sobrevivia como meio-sangue, mais seus amigos o admiravam. Eles dependiam dele e contavam com seus poderes. Mesmo os romanos o haviam levantado em seus escudos e o fizeram pretor, e ele os conhecia havia apenas por alguns dias.
Mas Percy não se sentia poderoso. A coisa mais heroica que ele havia feito foi perceber o quão limitado ele era. Ele se sentiu uma fraude. Eu não sou tão bom como vocês pensam, queria avisar aos seus amigos. Suas falhas, como a desta noite, pareciam provar. Talvez fosse por isso que ele começou a temer se afogar. Não o afogamento em terra ou no mar, mas o sentimento de que ele estava naufragando em muitas expectativas, literalmente acima de si.
Uau... Quando ele começava a ter pensamentos como este, sabia que estava passando muito tempo com Annabeth.
Atena havia dito uma vez a Percy seu defeito fatal: ele era supostamente leal demais aos seus amigos. Ele não conseguia ver a situação toda. Salvaria um amigo, mesmo que isso significasse destruir o mundo.
Na época, Percy havia encolhido os ombros. Como poderia a lealdade ser uma coisa ruim? Além disso, as coisas se saíram muito bem contra os titãs. Ele havia salvado seus amigos e derrotado Cronos.
Agora, porém, começou a ponderar. Ficaria feliz em se jogar em qualquer monstro, deus ou gigante para manter seus amigos a salvo. Mas e se ele não estivesse à altura da tarefa? E se outro alguém tivesse de fazê-lo? Isso foi muito difícil para ele admitir. Ainda tinha problemas com coisas simples, como deixar Jason ter um tempo na vigília. Ele não queria confiar em alguém para protegê-lo, alguém que podia se machucar por ele.
A mãe de Percy havia feito isso por ele. Ela ficou em um mau relacionamento com um mortal bruto, porque pensou que poderia salvá-lo de monstros. Grover, seu melhor amigo, havia protegido Percy por quase um ano antes de Percy saber que era um semideus e Grover quase foi morto pelo minotauro.
Percy não era mais uma criança. Ele não queria ninguém que amasse assumindo riscos por ele. Tinha de ser forte o suficiente para se proteger. Mas agora ele deveria deixar Annabeth sair, por escolha dela, para seguir a Marca de Atena, sabendo que ela poderia morrer. Se ele tivesse que escolher – salvar Annabeth ou deixar a missão ser bem-sucedida... qual Percy realmente escolheria?
A exaustão finalmente o alcançou. Ele caiu no sono e em seu pesadelo, o estrondo do trovão se tornou a risada da deusa da terra, Gaia.
Percy sonhou que estava em pé na varanda da Casa Grande no Acampamento Meio-Sangue. O rosto adormecido de Gaia apareceu ao lado da Colina Meio-Sangue – suas feições enormes formadas a partir das sombras nas encostas verdejantes. Seus lábios não se moviam, mas sua voz ecoava por todo o vale.
Então essa é a sua casa, Gaia murmurou. Dê uma ultima olhada, Percy Jackson. Você deveria ter retornado para cá. Ao menos, você poderia ter morrido com seus companheiros quando os romanos invadirem. Agora o seu sangue será derramado distante de casa, sobre as pedras antigas, e eu vou ascender.
O chão tremeu. No topo da Colina Meio-Sangue, o pinheiro de Thalia explodiu em chamas. Uma perturbação percorreu o vale – grama se tornando areia, a floresta se desintegrando em pó. O rio e o lago de canoagem secaram. Os chalés e a Casa Grande em cinzas.
Quando o tremor parou, o Acampamento Meio-Sangue parecia um terreno baldio após uma explosão atômica. A única coisa que restava era a varanda em que Percy estava. Próximo a ele, a poeira girou e se solidificou na figura de uma mulher. Seus olhos estavam fechados, como se ela fosse sonâmbula. Suas roupas eram verde-floresta, manchada de ouro e branco como a luz solar se deslocando através dos ramos. Seu cabelo era tão negro quanto um solo lavrado. Seu rosto era bonito, mas mesmo com um sorriso sonhador em seus lábios, ela parecia fria e distante. Percy teve a impressão de que ela poderia ver semideuses morrerem ou cidades queimarem e o sorriso não vacilaria.
— Quando eu reivindicar a Terra — Gaia disse — deixarei este lugar estéril para sempre, para lembrar-me do seu tipo e quão impotentes eles eram para me parar. Não importa quando você vai cair, meu pequeno peão... diante de Fórcis, Crisaor ou meus gêmeos gigantes. O importante é que você irá cair e eu estarei lá para te devorar. Sua única escolha agora... Cair sozinho? Venha a mim de bom grado e traga a garota. Talvez eu poupe esse lugar que você ama. Senão...
Gaia abriu seus olhos. Eles agitavam-se em preto e verde, tão profundos quanto a crosta da Terra. Gaia via tudo. Sua paciência era infinita. Ela era lenta para acordar, mas uma vez de pé, seu poder era invencível.
A pele de Percy vibrou. Suas mãos ficaram dormentes. Ele baixou os olhos e se deu conta de que estava se desintegrando em pó, como todos os monstros que ele já havia derrotado.
— Aproveite o Tártaro, meu pequeno peão — Gaia murmurou.
Um metálico clang-clang-clang sacudiu Percy para fora de seu sonho. Seus olhos se abriram. Ele percebeu que o que tinha acabado de ouvir era o trem de pouso sendo baixado. Houve uma batida na porta e Jason colocou sua cabeça para dentro. Os hematomas em seu rosto haviam sumido. Seus olhos azuis brilhavam com animação.
— Ei, cara — ele disse. — Nós estamos descendo sobre Roma. Você realmente deveria ver isso.
O céu estava brilhante, como se a tempestade nunca tivesse existido. O sol amanheceu sobre as colinas distantes, então tudo abaixo deles brilhava e cintilava como se toda a cidade de Roma houvesse acabado de sair de um lava rápido.
Percy já tinha visto grandes cidades antes. Ele era de Nova York, antes de tudo. Mas a imensidão de Roma agarrou-o pela garganta e tornou-se difícil respirar. A cidade parecia não levar em conta as limitações da geografia. Espalhava-se através de montes e vales, saltava o Tibre com dezenas de pontes e se estendia pelo horizonte. Ruas e becos ziguezagueavam sem ritmo ou razão através de mantas de bairros. Havia edifícios comerciais de vidro ao lado de locais de escavação. A catedral estava ao lado de uma linha de colunas romanas, que estava ao lado de um estádio de futebol moderno. Em algumas vizinhanças, velhas vilas de estuque com os telhados vermelhos enchiam as ruas de paralelepípedos, de modo que se Percy se concentrasse apenas em algumas áreas, podia se imaginar de volta aos tempos antigos. Por todo lugar que ele olhava, havia largas praças e ruas congestionadas.
Parques cortavam toda a cidade com uma louca coleção de palmeiras, pinheiros, zimbros e oliveiras, como se Roma não conseguisse decidir de qual parte do mundo pertencia – ou talvez apenas acreditasse que todo o mundo pertencia a Roma. Era como se a cidade soubesse do sonho de Percy com Gaia. Ele sabia que a deusa da terra pretendia arrasar toda a civilização humana e esta cidade, que permaneceu por milhares de anos, estava dizendo para ela: Você quer dissolver essa cidade, Cara de Terra? Faça uma tentativa.
Em outras palavras, era o treinador Hedge das cidades mortais – apenas maior.
— Nós iremos ancorar naquele parque — Leo anunciou, apontando para um amplo espaço verde com palmeiras. — Vamos esperar que a Névoa nos faça parecer um pombo gordo ou algo assim.
Percy desejou que a irmã de Jason, Thalia, estivesse ali. Ela sempre teve um modo de manipular a Névoa para que vissem o que ela queria. Percy nunca foi muito bom nisso. Ele só continuava pensando: Não olhe para mim e esperava que os romanos abaixo falhassem em notar o trirreme gigante de bronze descendo em sua cidade no meio do rush matinal.
Parecia funcionar. Percy não notou nenhum carro desviando para fora da estrada ou romanos apontando para o céu e gritando “Alienígenas!”. O Argo II pousou no campo gramado e os remos se retraíram.
O barulho do tráfego estava ao redor deles, mas o parque em si era pacífico e deserto. À esquerda deles, um gramado verde inclinava-se em direção a uma linha de madeira. Uma antiga vila estava situada à sombra de alguns pinheiros estranhos, com seus troncos finos curvilíneos que tinham cerca de dez metros brotando em dosséis inchados. Elas lembravam Percy das árvores naqueles livros do Dr. Seuss que sua mãe costumava ler para ele quando era pequeno.
À direita, serpenteando ao longo do topo de uma colina, havia uma parede de tijolos com entalhes no topo  – dois arcanjos – talvez uma linha defensiva medieval, talvez da Antiga Roma. Percy não tinha certeza.
Para o norte, a cerca de um quilometro de distância através das dobras da cidade, o topo do Coliseu subia acima dos telhados, se erguendo como aquelas fotos de viagem. Foi quando as pernas de Percy começaram a tremer. Ele estava realmente ali. Pensou que sua viagem ao Alasca tinha sido bem exótica, mas agora estava no coração do antigo Império Romano, um território inimigo para um semideus grego. De certa forma, esse lugar havia moldado sua vida tanto quanto Nova York.
Jason apontou para a base na parede, onde degraus desciam em algum tipo de túnel.
— Eu acho que sei onde estamos — disse ele. — Esse é túmulo dos Scipio.
Percy franziu a testa.
— Scipio... O pégaso de Reyna?
— Não — Annabeth disse. — Eles eram uma família nobre romana... Uau, esse lugar é incrível.
Jason assentiu.
— Eu estudei mapas de Roma antes. Sempre quis vir aqui, mas...
Ninguém se preocupou em terminar a frase. Olhando para os rostos dos seus amigos, Percy poderia dizer que estavam tão admirados quanto ele. Eles fizeram isso. Eles desembarcaram em Roma – a Roma.
— Planos? — Hazel perguntou. — Nico tem até o por do sol... na melhor das hipóteses. E esta cidade inteira irá supostamente ser destruída hoje.
Percy saiu do torpor.
— Você está certa. Annabeth... Você marcou aquele ponto no seu mapa de bronze?
Seus olhos cinzentos viraram uma tempestade extra escura, o que Percy podia facilmente interpretar como: Lembre-se do que eu disse. Guarde o sonho para você.
— Sim — ela respondeu cuidadosamente. — É sobre o rio Tibre. Acho que posso encontrá-lo, mas eu deveria...
— Me levar junto — Percy concluiu. — Sim, você está certa.
Os olhos de Annabeth pareciam adagas.
— Isso não é...
— Seguro — ele completou — um semideus andando por Roma sozinho. Eu vou com você até o Tibre. Nós podemos usar a carta de apresentação, espero conhecer o deus do rio, Tiberino. Talvez ele possa lhe dar uma ajuda ou conselho. Então você pode ir sozinha de lá.
Eles tiveram um confronto de olhares silencioso, mas Percy não recuou. Quando ele e Annabeth começaram a sair, sua mãe enfiou em sua cabeça: são boas-maneiras acompanhar a sua namorada até a porta. Se isso era verdade, então eram boas-maneiras acompanhá-la até o inicio da sua jornada épica solitária  e mortífera.
— Ok — Annabeth murmurou. — Hazel, agora que estamos em Roma, você acha que pode identificar a localização de Nico?
Hazel piscou como se tivesse saído de um transe ao assistir o show Percy/Annabeth.
— Humm... Espero que sim, se eu chegar perto o suficiente. Vou ter que caminhar ao redor da cidade. Frank, você poderia vir comigo?
Frank sorriu.
— Absolutamente.
— E, uh, Leo... — Hazel acrescentou. — Pode ser uma boa ideia você vir também. Os centauros-peixe disseram que precisaríamos da sua ajuda como mecânico.
— Sim — Leo concordou. — Sem problemas.
O sorriso de Frank se tornou algo parecido com a máscara de Crisaor. Percy não era um gênio quando se falava sobre relacionamentos, mas mesmo ele podia sentir a tensão entre os três. Desde quando chegaram ao Atlântico, eles não agiam como eles mesmos. Não era apenas os dois garotos competindo por Hazel. Era como se os três tivessem sido presos juntos, agindo como se estivessem em algum tipo de mistério de assassinato, mas não tivessem descoberto ainda qual deles era a vitima.
Piper puxou sua faca e colocou sobre o corrimão.
— Jason e eu podemos cuidar do navio agora. Vou ver o que Katopris pode me mostrar. Mas, Hazel, se vocês encontrarem Nico, não vão lá sozinhos. Volte e nos pegue. Vai precisar de todos para lutar com os gigantes.
Ela não disse o óbvio: mesmo todos eles não seriam o suficiente, sem um deus do seu lado. Percy decidiu não trazer isso à tona.
— Boa ideia — Percy disse. — Que tal nós nos encontrarmos aqui às... O quê?
— Três da tarde? — Jason sugeriu. — provavelmente é o mais tarde que podemos nos encontrar, poder enfrentar os gigantes e salvar Nico. Se algo acontecer e mudar o plano, tentem enviar uma mensagem de Íris.
Os outros acenaram com a cabeça, mas Percy notou vários deles olhando para Annabeth. Outra coisa que ninguém queria dizer: Annabeth precisaria de outro horário. Ela poderia voltar às três, mais tarde, ou nunca. Mas ela precisava estar por conta própria, procurando pela Atena Partenos.
O treinador Hedge grunhiu.
— Isso vai me dar tempo para comer os cocos... digo, tirar os cocos do nosso casco. Percy, Annabeth... Eu não gosto de vocês dois irem sozinhos. Então lembrem-se: se comportem. Se eu ouvir sobre qualquer coisa engraçada, vou castigar vocês até o Estige congelar.
A ideia de ser castigado quando eles estavam prestes a arriscar suas vidas era tão ridícula que Percy não pôde deixar de sorrir.
— Estaremos de volta logo — ele prometeu. Ele olhou para seus amigos, tentando não se sentir como se fosse a última vez que eles iriam ficar juntos. — Boa sorte a todos.
Leo abaixou a prancha e Percy e Annabeth foram os primeiros a descer do navio.