quinta-feira, 17 de outubro de 2013

III - Annabeth






ANNABETH DESEJOU QUE TIVESSE APETITE, porque os romanos sabiam como comer.

Conjuntos de sofás e mesinhas foram carregados para o fórum até que ele se parecesse com uma mostra de móveis. Os romanos se sentavam em grupos de dez ou vinte, conversando e rindo enquanto espíritos do vento – aurae – giravam por cima de suas cabeças trazendo um sortimento de pizzas, sanduíches, batata frita, bebidas geladas e biscoitos recém-saídos do forno. Flutuando no meio da multidão havia fantasmas púrpura – lares – vestidos em togas e armaduras de legionários. Ao redor da festa, sátiros (não, faunos, Annabeth pensou) trotavam de mesa em mesa, mendigando comida ou algum trocado. Nos campos ao redor, o elefante de guerra brincava com a Sra. O‘Leary e crianças brincavam de pega-pega ao redor das estátuas de Términus que demarcavam os limites da cidade.
A cena inteira era tão familiar e ao mesmo tempo tão fora da realidade que causou vertigens em Annabeth.
Tudo o que queria era ficar com Percy – de preferência sozinhos, mas ela sabia que teria que esperar. Se a missão deles fosse bem sucedida, iriam precisar desses romanos, o que significava conhecê-los e criar algum tipo de amizade.
Reyna e alguns poucos oficiais (incluindo o garoto loiro Octavian, que tinha acabado de voltar da queima de alguns ursinhos de pelúcia para os deuses) se sentavam com Annabeth e sua tripulação. Percy se juntou a eles com seus dois novos amigos, Frank e Hazel.
Enquanto um tornado de pratos de comida se instalava na mesa, Percy se inclinou e sussurrou:
— Eu quero te mostrar Nova Roma. Só você e eu. O lugar é incrível.
Annabeth devia ter se sentindo emocionada. Só você e eu, era exatamente o que ela queria. Mas ao invés disso, um ressentimento engasgou em sua garganta. Como Percy podia falar com tanto entusiasmo sobre esse lugar? E quanto ao Acampamento Meio-Sangue – o acampamento deles, o lar deles?
Ela tentou não ficar olhando para as novas marcas no antebraço de Percy – uma tatuagem SPQR igual à de Jason. No Acampamento Meio-Sangue, os semideuses ganhavam contas em seu colar para comemorar os anos de treinamento. Aqui, os romanos queimavam uma tatuagem em sua carne, como se isso dissesse: Você nos pertence permanentemente. Ela engoliu de volta alguns comentários amargos.
— Okay. Claro.
— Eu estive pensando — ele disse nervosamente. — Eu tive essa ideia...
Ele parou quando Reyna pediu uma torrada a um colega. Depois de todas as apresentações, os romanos e a tripulação de Annabeth começaram a trocar histórias. Jason explicou como tinha chegado ao Acampamento Meio-Sangue sem sua memória e como tinha saído em uma missão com Piper e Leo para resgatar a deusa Hera (ou Juno, você escolhe, ela era igualmente irritante na forma grega ou na romana) de sua prisão na casa dos lobos no norte na Califórnia.
— Impossível! — Octavian interrompeu. — Aquele é o nosso local mais sagrado. Se os gigantes tivessem aprisionado uma deusa lá...
— Eles teriam a destruído — Piper completou — e colocado a culpa nos gregos, começando uma guerra entre os acampamentos. Agora fique quieto e deixe o Jason terminar.
Octavian abriu a boca, mas nenhum som saiu. Annabeth realmente adorava o charme de Piper. Ela percebeu que Reyna olhava de lá pra cá entre Jason e Piper, sua sobrancelha erguida, como se estivesse começando a perceber que aqueles dois eram um casal.
— Então — Jason continuou — foi assim que nós descobrimos sobre a deusa terra Gaia. Ela ainda está meio adormecida, mas é quem está libertando os monstros do Tártaro e revivendo os gigantes. Porfírion, o grande líder com quem nós lutamos na casa dos lobos, disse que estava recuando para as terras antigas – a Grécia. Ele planeja despertar Gaia e destruir os deuses... Como foi que ele disse? Arrancando suas raízes.
Percy concordou pensativo.
— Gaia esteve bem ocupada aqui também. Nós tivemos nosso próprio encontro com a Rainha Cara de Terra.
Percy contou seu lado da história. Ele falou sobre acordar na casa dos lobos sem se lembrar de nada exceto por um nome – Annabeth.
Quando ouviu isso, Annabeth teve que se esforçar muito pra tentar não chorar. Percy contou a eles como ele tinha viajado ao Alasca com Frank e Hazel – como tinham derrotado o gigante Alcioneu, libertado o deus da morte Tânatos e retornado com o estandarte da águia dourada desaparecido do Acampamento Romano para repelir um ataque do exército de gigantes.
Quando Percy terminou, Jason assoviou, apreciando a história.
— Não me admira que tenham te elegido Pretor.
Octavian bufou.
— O que quer dizer que agora nós temos três pretores! As regras estabelecem claramente que só podemos ter dois!
— O lado bom disso — Percy disse — é que nós dois, Jason e eu somos seus superiores, Octavian. Então ambos podemos te mandar calar a boca.
Octavian ficou tão roxo quanto uma camiseta romana. Jason bateu seu punho amigavelmente com o de Percy. Até mesmo Reyna esboçou um sorriso, embora seus olhos estivessem atormentados.
— Nós vamos ter que resolver o problema do pretor extra depois — ela disse. — No momento temos assuntos mais sérios para tratar.
— Eu cederei meu lugar ao Jason — Percy disse calmamente. — Não é grande coisa.
— Não é grande coisa? — Octavian guinchou. — O pretorado de Roma não é grande coisa?
Percy o ignorou e se virou para Jason.
— Você é o irmão de Thalia Grace, não é? Uau. Vocês dois não são nada parecidos.
— Sim, eu percebi — Jason disse. — De qualquer jeito, obrigado por ter ajudado meu acampamento enquanto eu estive fora. Você fez um trabalho incrível.
— Eu te digo o mesmo — Percy respondeu.
Annabeth chutou a canela dele. Ela odiou interromper o momento fraternal entre os rapazes, mas Reyna estava certa: Eles tinham coisas sérias para discutir.
— Nós devíamos falar sobre a grande profecia. Parece-me que os romanos estão cientes disso também?
Reyna concordou.
— Nós a chamamos de Profecia dos Sete. Octavian, você sabe recitar de cor?
— É claro — ele disse. — Mas Reyna...
— Recite, por favor, em português, não em latim.
Octavian suspirou.
— Sete semideuses responderão ao chamado, Em tempestade ou fogo, o mundo terá acabado...
— Um juramento a manter com um alento final — Annabeth continuou. — E inimigos com armas às Portas da Morte afinal.
Todos olharem fixamente para ela – exceto por Leo, que havia construído um cata-vento com as embalagens de tacos feitas de papel alumínio e o enfiando dentro dos espíritos do vento.
Annabeth não tinha certeza de porque ela disse abruptamente as linhas da profecia. Apenas havia se sentido compelida. O garoto grande, Frank, sentado de frente a ela, olhava fixamente para ela em fascinação, como se nela tivesse crescido um terceiro olho.
— É verdade que você é uma filha de Min... Quero dizer, Atena?
— Sim — ela disse, repentinamente se sentindo defensiva. — Porque isso é tão surpreendente?
Octavian zombou.
— Se você é verdadeiramente uma filha da deusa da sabedoria...
— Basta — Reyna interrompeu. — Annabeth é o que ela diz. Ela está aqui em paz. Além disso... — Ela deu um olhar de invejoso respeito. — Percy tem falado bastante de você.
O tom suave na voz de Reyna levou Annabeth a um momento de adivinhação. Percy olhou para baixo, repentinamente interessado em seu cheeseburger.
O rosto de Annabeth ficou quente. Oh, deuses... Reyna havia tentado namorar Percy. Isso explicava o tom de amargura, talvez até mesmo inveja, em suas palavras. Percy a havia rejeitado por Annabeth.
Nesse momento, Annabeth perdoou seu ridículo namorado por tudo o que ele já havia feito de errado. Ela queria atirar seus braços ao redor dele, mas controlou a si própria e permaneceu composta.
— Hã, obrigada — disse a Reyna. — De qualquer modo, uma parte da profecia está se tornando clara. Inimigos com armas às Portas da Morte... Isso quer dizer romanos e gregos. Nós temos que combinar forças para encontrar essas portas.
Hazel, a garota com o elmo de cavalaria e longo cabelo encaracolado, pegou algo próximo a seu prato. Parecia como um grande rubi; mas antes que Annabeth pudesse ter certeza, Hazel meteu-o no bolso da sua calça de brim.
— Meu irmão, Nico, foi procurar pelas portas — ela disse.
— Espere — Annabeth disse. — Nico di Angelo? Ele é seu irmão?
Hazel acenou com a cabeça como se isso fosse óbvio. Uma dúzia a mais de perguntas surgiram na cabeça de Annabeth, mas sua cabeça ainda estava girando como o cata-vento de Leo. Ela decidiu deixar o assunto de lado.
— Certo. Você estava dizendo...?
— Ele desapareceu — Hazel umedeceu seus lábios. — Estou com medo de que... Não tenho certeza, mas acho que algo aconteceu a ele.
— Procuraremos por ele — Percy prometeu. — Nós temos que encontrar as Portas da Morte de qualquer modo. Tânatos nos disse que encontraríamos ambas as respostas em Roma... tipo, a Roma original. É no caminho da Grécia, certo?
— Tânatos disse isso a vocês? — Annabeth tentou ocultar seu pensamento sobre essa ideia. — O deus da morte?
Ela havia conhecido muitos deuses. Havia até mesmo ido ao Mundo Inferior; mas a história de Percy sobre salvar a encarnação da própria morte realmente a assustava.
Percy mordeu um pedaço de seu hambúrguer.
— Agora que a morte está livre, os monstros vão se desintegrar e voltar para o Tártaro de novo como costumavam fazer. Mas enquanto as Portas da Morte estiverem abertas, eles vão continuar voltando.
Piper sacudiu a pena em seu cabelo.
— Como água vazando por uma represa — ela sugeriu.
— Sim — Percy sorriu. — Nós estamos com um buraco na represa.
— O quê? — Piper perguntou.
— Nada — ele disse. — Só uma piada. O importante é que nós temos que encontrar as portas e trancá-las antes que possamos ir para a Grécia. É o único jeito de nós termos uma chance de derrotar os gigantes e ter certeza de que vão continuar destruídos.
Reyna pegou uma maçã de uma bandeja de frutas que estava passando. Ela girou a maçã em seus dedos, estudando a superfície vermelho-escura.
— Você propõe uma expedição à Grécia em seu navio de guerra. Vocês percebem que as terras antigas – e o Mare Nostrum – são perigosos?
— Mary quem? — Leo perguntou.
— Mare Nostrum. — Jason explicou. — Nosso Mar. É como os antigos romanos chamavam o Mediterrâneo.
Reyna concordou.
— O território que já foi o Império Romano não é apenas o local de nascimento dos deuses. É também a terra ancestral de monstros, Titãs e gigantes... E coisas piores. Assim como é perigoso para semideuses viajarem aqui na América, lá isso seria dez vezes pior.
— Você disse que o Alasca seria ruim — Percy lembrou a ela. — E nós sobrevivemos.
Reyna sacudiu a cabeça. À medida que ela virava a maçã suas unhas rasgavam luas crescentes na superfície.
— Percy, viajar para o Mediterrâneo é um nível de perigo completamente diferente. Está fora dos limites para semideuses romanos há séculos. Nenhum herói em seu juízo perfeito iria para lá.
— Então é com a gente! — Leo sorriu por cima de seu cata-vento. — Porque nós somos todos doidos, certo? Além disso, o Argo II é um navio de guerra top de linha. Vai nos levar até lá.
— Vamos precisar correr — Jason acrescentou. — Eu não sei exatamente o que os gigantes estão planejando, mas Gaia está aumentando sua consciência a cada minuto. Ela está invadindo sonhos, aparecendo em lugares estranhos, invocando monstros cada vez mais poderosos. Nós temos que parar os gigantes antes que eles consigam despertá-la completamente.
Annabeth estremeceu. Ela tinha tido sua própria cota de pesadelos ultimamente.
— Sete meio-sangues responderão ao chamado — ela disse. — Precisa ser um misto de ambos os nossos acampamentos. Jason, Piper, Leo e eu. Somos quatro.
— E eu — Percy disse. — Com mais Frank e Hazel. São sete.
— O quê? — Octavian se levantou de um pulo. — Nós devemos apenas aceitar isso? Sem uma votação no Senado? Sem um debate apropriado? Sem...
— Percy! — Tyson, o Ciclope vinha na direção deles com a Sra. O‘Leary no seu encalço.
E nas costas do cão infernal sentava a mais magra harpia que Annabeth já tinha visto – uma garota com a aparência adoentada e o cabelo vermelho pegajoso, um vestido feito de saco de estopa e asas com penas avermelhadas.
Annabeth não sabia de onde a harpia tinha vindo, mas seu coração se aqueceu ao ver Tyson com sua camisa e flanela e seu jeans esfarrapado e com o estandarte SPQR cruzado em seu peito. Ela tinha tido experiências bem ruins com ciclopes, mas Tyson era um doce. Ele também era meio-irmão de Percy (longa história), o que o tornava praticamente da família.
Tyson parou perto do sofá deles, torcendo suas mãos carnudas. Seu grande olho castanho estava cheio de preocupação.
— Ella está assustada — ele disse.
— S-s-sem mais barcos — a harpia murmurou pra si mesma, alisando furiosamente em suas penas. — Titanic, Lusitânia, Pax... Barcos não são para harpias.
Leo apertou os olhos. Ele olhou para Hazel, que estava sentada perto dele.
— Aquela garota galinha acabou de comparar meu navio ao Titanic?
— Ela não é uma galinha — Hazel desviou os olhos, como se Leo a fizesse ficar nervosa. — Ella é uma harpia. Ela só está um pouco... Tensa demais.
— Ella é linda — Tyson disse — e assustada. Nós precisamos levá-la, mas ela não vai subir no navio.
— Sem navios — Ella repetiu. Ela olhou direto para Annabeth. — Má sorte. É o que ela é. A filha da sabedoria caminha solitária...
— Ella! — Frank ficou de pé de repente. — Talvez não seja a melhor hora...
— A Marca de Atena por toda a Roma é incendiário — Ella continuou, colocando as mãos sobre os ouvidos e levantando a voz. — Gêmeos ceifaram do anjo a vida, Que detém a chave para a morte infinita. A ruína dos gigantes se apresenta dourada e pálida, Conquistada através da dor de uma prisão tecida.
O efeito foi como se alguém jogasse uma granada de luz sobre a mesa. Todos encaravam a harpia. Ninguém disse uma palavra. O coração de Annabeth estava martelando. A Marca de Atena... Ela resistiu ao ímpeto de checar sua carteira, mas ela podia sentir a moeda de prata ficando mais quente – o presente maldito de sua mãe. Siga a Marca de Atena. Vingue-me.
Ao redor deles o som da festa continuava, mas emudecido e distante, como se aquele seu pequeno grupo de sofás tivesse deslizado para uma dimensão mais silenciosa.
Percy foi o primeiro a se recuperar. Ele ficou de pé e pegou no braço de Tyson.
— Eu sei! — ele disse com um falso entusiasmo. — Que tal levar Ella pra tomar um ar fresco? Você e a Sra. O‘Leary...
— Esperem — Octavian pegou um de seus ursos de pelúcia, estrangulando-o com suas mãos trêmulas. Os olhos dele fixos em Ella. — O que foi que ela disse? Isso parecia uma...
— Ella lê muito — Frank deixou escapar. — Nós a encontramos numa biblioteca.
— Sim! — Hazel disse. — Provavelmente foi alguma coisa que ela leu num livro.
— Livros — Ella murmurou prestativamente. — Ella gosta de livros.
Agora que ela tinha dito sua parte, a harpia parecia mais relaxada. Ela se sentou de pernas cruzadas nas costas da Sra. O‘Leary, alisando suas asas.
Annabeth deu um olhar curioso a Percy. Obviamente, ele, Frank e Hazel estavam escondendo alguma coisa. Assim como era óbvio, que Ella tinha recitado uma profecia – uma profecia que dizia respeito a ela.
A expressão de Percy dizia: Socorro.
— Isso foi uma profecia — Octavian insistiu. — Isso soou como uma profecia.
Ninguém respondeu.
Annabeth não sabia exatamente o que estava acontecendo, mas entendeu que Percy estava à beira de um grande problema. Ela forçou uma risada.
— Mesmo, Octavian? Talvez as harpias sejam diferentes aqui, do lado romano. As nossas só tem inteligência o suficiente para limpar os quartos e cozinhar. As suas geralmente preveem o futuro? Você as consulta nos seus agouros?
As palavras dela tiveram o efeito pretendido. Os oficiais romanos gargalharam nervosamente. Alguns avaliavam Ella, depois olhavam para Octavian e bufavam. A ideia de uma senhora galinha emitindo profecias era aparentemente tão ridícula para os romanos quanto era para os gregos.
— Eu, humm... — Octavian largou seu ursinho de pelúcia. — Não, mas...
— Ela está só recitando linhas de algum livro — Annabeth disse — como Hazel sugeriu. Além disso, nós já temos uma profecia real para nos preocupar.
Ela se virou para Tyson.
— Percy está certo. Porque você não leva Ella e a Sra. O‘Leary pra passear pelas sombras por enquanto? Está tudo bem para você, Ella?
— Cachorros grandes são legais — Ella disse. — Meu melhor companheiro, 1957, filmado por Fred Gipson e Willian Tunberg.
Annabeth não sabia ao certo o que fazer com aquela resposta, mas Percy sorriu como se o problema estivesse resolvido.
— Ótimo! — Percy falou. — Nós mandaremos uma mensagem de Íris quando terminarmos aqui e alcançamos vocês depois.
Os romanos olharam para Reyna, esperando por suas ordens. Annabeth segurou o fôlego.
Reyna tinha uma excelente cara de paisagem. Ela estudou Ella, mas Annabeth não conseguia adivinhar o que ela estava pensando.
— Bem — a pretora disse finalmente. — Vão.
— Uhu! — Tyson chegou perto do sofá e deu um grande abraço em todo mundo – até em Octavian, que não pareceu nada feliz com isso. Depois ele montou nas costas da Sra. O‘Leary com Ella, e o cão infernal partiu para o fórum. Eles seguiram direto para uma sombra na parede do Senado e desapareceram.
— Bem — Reyna pôs na mesa a maçã que não tinha comido. — Octavian está certo quanto a uma coisa. Nós precisamos receber a aprovação do Senado antes de deixarmos qualquer um de nossos legionários partir numa missão – especialmente uma tão perigosa quanto a que vocês estão sugerindo.
— Essa coisa toda me cheira a traição — Octavian murmurou. — Aquele trirreme não é um navio de paz!
— Suba a bordo, cara — Leo ofereceu. — Eu te levo num tour. Você pode conduzir o navio e se for bem mesmo eu te dou um chapeuzinho de papel de capitão pra você vestir.
As narinas de Octavian se alargaram.
— Como você ousa...
— É uma boa ideia — Reyna disse. — Octavian, vá com ele. Cheque o navio. Nós nos encontramos na reunião do Senado daqui a uma hora.
— Mas... — Octavian parou. Aparentemente, ele podia dizer pela expressão de Reyna que esticar aquela reclamação não seria muito bom pra saúde dele. — Está bem.
Leo se levantou. Ele se virou para Annabeth e o sorriso dele mudou. Aconteceu tão rápido que Annabeth pensou que tinha imaginado aquilo; mas só por um momento pareceu que uma outra pessoa estava de pé no lugar de Leo, sorrindo friamente com um brilho cruel em seus olhos. Então Annabeth piscou e Leo estava normal, o velho Leo novamente, com seu usual sorriso travesso.
— Eu volto logo — prometeu. — Isso vai ser épico.
Um calafrio horrível passou por ela. Enquanto Leo e Octavian se dirigiam para a escada de cordas, ela pensou em chamá-los de volta – mas como iria explicar isso? Dizer para todos que estava ficando louca, vendo coisas e sentindo calafrios?
Os espíritos do vento começaram a limpar os pratos.
— Hã, Reyna — Jason disse — Se você não se importa, eu gostaria de mostrar os arredores para Piper antes da reunião do Senado. Ela nunca viu Nova Roma.
A expressão de Reyna endureceu.
Annabeth pensou em como Jason podia ser tão tapado. Será possível que ele não entendia mesmo o quanto Reyna gostava dele? Isso era tão óbvio para Annabeth. Pedir para mostrar os arredores para sua nova namorada era como jogar sal na ferida.
— É claro — Reyna respondeu friamente.
Percy pegou a mão de Annabeth.
— É, eu também. Eu gostaria de mostrar para Annabeth...
— Não — Reyna disparou.
Percy arqueou as sobrancelhas.
— Desculpe?
— Eu gostaria de ter umas palavrinhas com Annabeth — Reyna disse. — A sós. Se você não se importar, meu colega pretor.
O tom dela deixava claro que ela não estava realmente pedindo permissão.
O calafrio se espalhou pelas costas de Annabeth. Ela imaginou o que Reyna estava fazendo. Talvez a pretora não gostasse da ideia dos dois caras que a rejeitaram fazendo turismo com suas namoradas pela cidade. Ou talvez houvesse alguma coisa que ela queria dizer em particular. De qualquer jeito, Annabeth estava relutante em ficar sozinha e desarmada com a líder romana.
— Venha, filha de Atena — Reyna se ergueu de seu sofá. — Caminhe comigo.