quinta-feira, 17 de outubro de 2013

XXXV - Annabeth






ANNABETH PENSOU QUE ELA CONHECIA A DOR. Ela tinha caído para fora da parede de lava no Acampamento Meio-Sangue. Foi esfaqueada no braço com uma lâmina envenenada na ponte de Williamsburg. Até segurou o peso do céu sobre os ombros. Mas isso não foi nada comparado ao pouso forçado em seu tornozelo.
Ela soube imediatamente que o tinha quebrado. A dor parecia como ser espetada por um cabo de aço incandescente através de sua perna até o quadril. O mundo diminuiu para apenas ela, seu tornozelo e a agonia.
Ela quase desmaiou. Sua cabeça girava. Sua respiração tornou-se curta e rápida.
Não, disse a si mesma. Você não pode entrar em choque.
Ela tentou respirar mais devagar. Ficou tão imóvel quanto possível até que a dor diminuiu de tortura absoluta para um latejar horrível. Parte dela queria gritar com o mundo por ser tão injusto. Todo esse caminho só para ser parada por algo tão comum quanto um tornozelo quebrado?
Ela forçou suas emoções a diminuírem. No acampamento, tinha sido treinada para sobreviver em todos os tipos de situações ruins, incluindo lesões como esta. Olhou ao seu redor. Sua adaga tinha deslizado a alguns metros de distância. Na luz fraca, conseguia distinguir as características do lugar. Ela estava deitada no chão frio de blocos de arenito. O teto estava a dois andares de altura. A porta pela qual ela tinha caído estava a dez metros do chão, agora completamente bloqueada com destroços que tinham entrado em cascata na sala, similar a um deslizamento de terra. Dispersos em volta dela havia peças antigas de madeira, algumas rachadas e desidratadas, outros quebrados em gravetos.
Estúpida, ela se repreendia. Ela pulou por aquela porta, assumindo que haveria um corredor de mesmo nível ou outra sala. Nunca tinha ocorrido a ela que estaria caindo no espaço. A madeira provavelmente tinha sido uma escada, que há muito tempo entrou em colapso.
Ela inspecionou o tornozelo. Seu pé não parecia estar dobrado de modo estranho. Podia sentir os dedos dos pés e não viu nenhum vestígio de sangue. Tudo isto era bom.
Ela estendeu a mão para um pedaço de madeira. Mesmo esse pequeno movimento a fez gritar. A placa se desintegrou em sua mão. A madeira podia ter séculos de idade ou mesmo milênios, não tinha como saber se este cômodo era mais velho do que o santuário de Mitra, ou se – semelhante ao labirinto – as salas eram misturas aleatórias acidentais de muitas eras juntando-se.
— Tudo bem — disse ela em voz alta, só para ouvir sua voz. — Pense, Annabeth. Prioridades.
Lembrou-se de um curso de sobrevivência selvagem bobo que Grover tinha ensinado no acampamento. Pelo menos, parecia bobo na época. Primeiro passo: Analise seus arredores para ameaças imediatas.
O espaço não parecia estar em perigo de desmoronar. O deslizamento de pedras tinha parado. As paredes eram de blocos sólidos de pedra, sem rachaduras grandes que ela podia ver. O teto não estava cedendo. Bom.
A única saída estava no canto da parede – uma entrada arqueada que levava para a escuridão. Entre ela e a porta, uma trincheira de pequenos tijolos atravessava o chão, deixando que o fluxo de água passasse da esquerda para a direita dentro da sala. Talvez o encanamento dos dias romanos? Se a água fosse potável, seria muito bom. Empilhados em um canto estavam alguns vasos quebrados de cerâmica, que derramavam pedaços murchos marrons que poderiam ter sido frutos. Eca. Em outro canto havia algumas caixas de madeira que pareciam intactas e algumas caixas de vime amarradas com tiras de couro.
— Então, não há perigo imediato — disse para si mesma. — A menos que alguma coisa venha perfurando esse túnel escuro.
Ela olhou para a porta, quase desafiando a sua sorte a piorar. Nada aconteceu.
— Tudo bem. Próximo passo: Faça um inventário.
O que ela poderia usar? Tinha uma garrafa de água e mais água naquela trincheira se ela pudesse alcançá-la. Tinha a faca. Sua mochila estava cheia de corda colorida (ebaa), com seu laptop, o mapa de bronze, alguns brinquedos e pedaços de ambrósia para emergências.
Ah... Sim. Isto se qualifica como uma emergência. Ela pegou a comida divina de sua mochila e devorou. Como de costume, tinha gosto de memórias reconfortantes. Desta vez, foi pipoca amanteigada – noite de cinema com papai em sua casa, em San Francisco, sem madrasta, sem meio-irmãos, apenas Annabeth e seu pai enrolados no sofá assistindo velhas comédias românticas.
A ambrósia aquecia todo o seu corpo. A dor em sua perna se tornou um pulsar maçante. Annabeth sabia que ela ainda estava com grandes problemas. Mesmo ambrósia não poderia curar ossos quebrados de imediato. Poderia acelerar o processo, mas com o melhor cenário possível, ela não seria capaz de colocar qualquer peso sobre o pé por um dia ou mais.
Tentou chegar até a sua faca, mas estava muito longe. Ela se arrastou naquela direção. A dor explodiu novamente, como se pregos estivessem perfurando seu pé. Seu rosto estava encharcado pelo suor, mas depois de arrastar-se mais, ela conseguiu chegar a adaga. Sentiu-se melhor ao segurá-la, não apenas pela luz e proteção, mas também porque era tão familiar.
Qual será o próximo passo? As aulas de sobrevivência de Grover mencionavam algo sobre ficar acomodado e esperar o resgate, mas isso não iria acontecer. Mesmo que Percy de alguma forma tenha conseguido rastrear seus passos, a caverna de Mitra tinha desmoronado. Ela poderia tentar entrar em contato com alguém com laptop de Dédalo, mas duvidava que pudesse obter um sinal aqui. Além disso, quem iria chamar? Não conseguiria passar uma mensagem para alguém que estivesse perto o suficiente para ajudar.
Semideuses nunca levavam celulares, porque os seus sinais atraiam muita atenção de monstros e nenhum de seus amigos estariam sentados verificando seus e-mails. Uma mensagem de Íris? Ela tinha água, mas duvidava que ela poderia fazer a luz suficiente para um arco-íris. A única moeda que tinha era o seu dracma de prata de Atena.
Não seria um grande tributo.
Havia outro problema em chamar ajuda: supostamente, esta era uma missão solo. Se Annabeth fosse resgatada, estaria admitindo a derrota. Algo lhe dizia que a Marca de Atena já não a guiaria. Ela podia passear por aqui eternamente e nunca encontrar a Atena Partenos.
Então... Não era bom ficar acomodada e esperar ajuda. O que significava que ela tinha que encontrar uma maneira de continuar sozinha.
Ela abriu a garrafa de água e bebeu. Não tinha percebido como estava com sede. Quando a garrafa estava vazia, ela se arrastou para a trincheira para enchê-la.
A água estava fria e se movendo rapidamente – sinal que poderia ser segura para beber. Ela encheu a garrafa, em seguida, pegou um pouco de água em suas mãos e jogou em seu rosto. Imediatamente, sentiu-se mais alerta. Ela lavou e limpou seus arranhões o melhor que pôde.
Annabeth sentou-se e olhou para o tornozelo.
— Você tinha que quebrar — ela repreendeu.
O tornozelo não respondeu.
Ela teria que imobilizá-lo em algum tipo de tala. Essa seria à única maneira de se mover. Hmm...
Ela levantou a adaga e inspecionou o quarto novamente com sua luz de bronze. Agora que estava mais perto da porta aberta, gostava menos ainda. Levava a um corredor escuro, silencioso. No ar, flutuava para fora do corredor um cheiro adocicado e de algum modo ruim. Infelizmente, Annabeth não viu outro caminho que poderia seguir.
Piscando repetidamente e arfando para conter as lágrimas, ela se arrastou até os destroços da escada. Descobriu duas tábuas que estavam em forma razoavelmente boa o suficiente para uma tala. Em seguida, foi até as caixas de vime e usou a faca para cortar as tiras de couro.
Enquanto estava imaginando como iria imobilizar o tornozelo, notou algumas palavras desbotadas em uma das caixas de madeira: HERMES EXPRESS.
Annabeth se arrastou animadamente em direção a caixa.
Ela não tinha ideia do que estava fazendo aqui, mas Hermes entrega todos os tipos de coisas úteis a deuses, espíritos e até mesmo semideuses. Talvez ele tivesse deixado cair esse pacote aqui anos atrás para ajudar semideuses como ela em sua missão. Ela abriu-a e tirou várias folhas de plástico bolha, mas o que havia dentro se foi.
— Hermes — ela protestou.
Ela olhou melancolicamente para o plástico bolha. Então sua mente engrenou e ela percebeu o embrulho era um presente.
— Ah... Isso é perfeito!
Annabeth cobriu o tornozelo quebrado em uma onda de plástico bolha. Colocou as talas de madeira e amarrou tudo isso junto com as tiras de couro. Antes, durante a prática de primeiros socorros, ela colocou a tala em uma perna quebrada falsa em outro campista, mas nunca imaginou que teria que fazer uma tala para si mesma.
Foi um trabalho duro, doloroso, mas finalmente foi feito. Ela procurou nos destroços da escada até que encontrou parte do corrimão – uma grade estreita de cerca de um metro e meio de comprimento que poderia servir como uma muleta. Ela colocou suas costas contra a parede, apoiou sua perna boa se preparou e puxou-se para cima.
— Whoa — pontos negros dançavam em seus olhos, mas ela ficou de pé. — Da próxima vez — ela murmurou para o quarto escuro — me deixe lutar contra um monstro. Será muito mais fácil.
Acima da porta aberta, a Marca de Atena brilhou com vida contra o arco.
A coruja de fogo parecia estar olhando para ela com expectativa, como quisesse falar: Já era tempo. Ah, você quer monstros? Por aqui!
Annabeth se perguntou se essa marca ardente foi baseada em uma coruja sagrada real. Se sim, quando ela saísse dali, iria achar a coruja e dar um soco na sua cara. Esse pensamento melhorou o seu estado de espírito. Ela passou através da trincheira e mancou para dentro do corredor.