quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Capitulo XIX - Hazel






HAZEL ERA EXPERT EM ESQUISITICES. Ela viu sua mãe ser possuída pela deusa da terra. Ela tinha criado um gigante de ouro. Destruiu uma ilha, morreu e voltou do mundo inferior.
Mas ser sequestrada por um campo de grama? Isso era novidade.
Ela se sentiu presa como em um funil tempestuoso de plantas. Tinha ouvido que cantores modernos se jogavam em um mar de fãs e passavam por cima de milhares de mãos. Ela imaginou que isso era similar – apenas estava se movendo mil vezes mais rápido, e as lâminas de grama não eram fãs apaixonados.
Ela não podia se sentar. Não podia tocar o chão. Sua espada ainda estava no seu saco de dormir, amarrada em suas costas, mas Hazel não conseguia alcançá-la. As plantas mantinham-na sem equilíbrio, atirando-a para todo o lado, cortando seu rosto e seus braços. Ela nem podia olhar as estrelas através do turbilhão verde, amarelo e preto.
Os gritos de Frank desapareceram na distância.
Era difícil pensar com clareza, mas Hazel sabia de uma coisa: estava se movendo rápido. Independente de onde fosse levada, em breve estaria muito longe para que seus amigos a encontrassem.
Fechou os olhos e tentou ignorar os solavancos e arremessos. Enviou seus pensamentos para a terra abaixo. Ouro, prata – se concentrou em qualquer coisa que pudesse atrapalhar seus sequestradores.
Não conseguiu sentir nada. Riquezas abaixo da terra – zero.
Estava prestes a se desesperar quando sentiu uma grande massa fria passar por baixo dela. Agarrou-a com todas as suas forças, lançou uma âncora mental. De repente, a terra retumbou. O redemoinho de plantas a libertou e ela foi lançada para cima como um projétil de catapulta.
Momentaneamente sem peso, ela abriu os olhos. Virou seu corpo no ar e viu o chão a cerca de 6 metros de distância. Então ela estava caindo. Com isso lembrou-se do seu treinamento de combate. Ela já havia praticado saltos de águias gigantes antes. Quando atingiu o chão, rolou, deu uma cambalhota e ficou em pé.
Desamarrou seu saco de dormir e sacou sua espada. Alguns metros a sua esquerda um afloramento de rochas se projetava do mar de grama. Hazel percebeu que era a sua âncora. Ela quem tinha feito aquela rocha aparecer.
A grama se mexeu ao redor dela. Vozes zangadas sibilaram contra a rocha maciça que havia interrompido seu avanço. Antes que pudessem se reagrupar, Hazel correu para a rocha e escalou até o topo.
A grama balançava e sussurrava ao seu redor como os tentáculos de uma gigantesca anêmona do mar. Hazel podia sentir a frustração de seus sequestradores.
— Não podem crescer nisso aqui, podem? — gritou ela. — Vão embora, bando de ervas daninhas! Deixem-me em paz!
— Xisto — disse uma voz irritada da grama.
Hazel levantou uma sobrancelha.
— Como é?
— Xisto! Uma grande pilha de xisto!
Uma freira na Academia St. Agnes tinha lavado a boca de Hazel com sabão uma vez por dizer algo parecido, ela não sabia muito bem como responder àquilo. Então todos os sequestradores que estavam ao redor de sua ilha de pedra começaram a se materializar da grama. À primeira vista, todos pareciam querubins, uma dúzia de cupidos bebê gordinhos. Então, ao caminharem para mais perto, Hazel percebeu que não eram nem bonitos nem angelicais.
Eles eram do tamanho de crianças, como bebês gordos, mas suas peles tinham uma estranha coloração esverdeada, como se clorofila corresse por suas veias. Tinham asas secas e frágeis como palha de milho e um cabelo branco como seda. Seus rostos eram salpicados com grãos de cereais, seus olhos eram de um verde sólido e seus dentes saiam das bocas como caninos.
A maior criatura se aproximou. Ele usava uma tanga amarela e seu cabelo estava espetado como as cerdas de um talo de trigo. Ele sibilou para Hazel e bamboleou para trás muito rapidamente, ela ficou com medo de que a tanga dele pudesse cair.
— Odeio este xisto! — A criatura se queixou. — O trigo não consegue crescer nele.
— O sorgo não pode crescer! — Outra começou a falar.
— Cevada! — Gritou uma terceira. — Cevada não pode crescer! Amaldiçoo este xisto!
Os joelhos de Hazel tremeram. As pequenas criaturas até pareceriam engraçadas se não a tivessem cercando e a encarando com os famintos olhos verdes e com dentes pontudos. Eles eram como cupidos-piranha.
— V-vocês querem dizer a rocha? — Ela conseguiu falar. — Esta rocha é chamada de xisto?
— Sim! Xisto! — A primeira criatura gritou. — Pedra desagradável!
Hazel começou a entender como ela convocou a rocha.
— É uma pedra preciosa. É valiosa?
— Bah! — Falou o primeiro em uma tanga amarela — Os nativos fazem joias com essa pedra, sim. Valiosa? Talvez. Não tão boa quanto o trigo!
— Ou sorgo!
— Ou cevada!
Os outros fizeram coro, anunciando os diferentes tipos de grãos.
Eles circundaram a pedra, não fazendo nenhum esforço para escalá-la, pelo menos ainda não. Se decidissem escalar a rocha, ela não iria conseguir se defender de todos.
— Vocês são servos de Gaia — ela adivinhou apenas para mantê-los falando.
Talvez Percy e Frank não estivessem tão longe. Talvez eles pudessem vê-la, em pé tão alto sobre o campo. Ela queria que sua espada brilhasse como a de Percy.
O cupido de tanga amarela rosnou:
— Nos somos os karpoi, espíritos do grão. Filhos da Mãe Terra, sim! Nós temos sido seus assistentes desde sempre. Antes que os humanos nojentos tivessem nos cultivado, nós éramos selvagens. E seremos novamente! O trigo irá destruir tudo!
— Não, o sorgo irá mandar!
— Cevada deverá dominar!
Os outros se juntaram aos gritos, cada karpoi falando por seu próprio grão.
— Certo — Hazel engoliu sua repulsa. — Então você é o trigo... você que está de, hum... calção amarelo.
— Hmmmm — falou Trigo. — Desça do seu xisto, semideusa. Nós devemos te carregar até o exército de nossa amada. Eles irão nos recompensar! Irão matá-la lentamente.
— Tentador — disse Hazel. — Mas não, obrigada.
— Eu irei lhe dar trigo! — Falou o karpoi, como se essa fosse uma oferta muito valiosa em troca de sua vida. — Muito trigo!
Hazel tentou pensar. O quão longe ela foi carregada? Quanto tempo seus amigos iriam demorar para encontrá-la? Os karpoi estavam ficando mais ousados a cada minuto, aproximando-se da rocha em duplas ou trios, arranhando o xisto para ver se isto os machucava.
— Antes que eu desça... — ela ergueu sua voz, esperando que ela atravessasse o campo. — Poderia me explicar uma coisa? Se vocês são os espíritos dos grãos, não deveriam estar do lado dos deuses? A deusa da agricultura não é Ceres...?
— Nome ruim! — Gemeu Cevada.
— Nos cultivou! — Sorgo cuspiu. — Nos fez crescer em linhas nojentas. Deixou que os humanos nos colhessem. Bah! Quando Gaia for a dama do mundo mais uma vez, nós iremos crescer selvagens, sim!
— Bom, naturalmente — Hazel concordou. — Então esse exército dela, é para onde vocês irão me levar em troca de trigo...
— Ou cevada — o karpoi da Cevada ofereceu.
— Isso — Hazel concordou. — Esse exército está aonde, neste momento?
— Justamente sobre o cume! — Sorgo bateu suas mãos excitado. — A Mãe Terra, Oh, sim! Ela nos disse: “Procure pela filha de Plutão que voltou à vida. Encontre-a e traga-a viva! Eu tenho muitas torturas planejadas para ela.” O gigante Polybotes irá nos recompensar por sua vida! Então, iremos marchar para o sul para destruir os romanos. Nós não podemos ser mortos, sabe, mas você pode, sim.
— Que incrível — Hazel tentou soar entusiasmada. Isso não foi tão fácil, sabendo que Gaia tinha torturas planejadas para ela. — Então você... você não pode ser morto porque Alcioneu capturou a morte, é isso?
— Exatamente! — Falou Cevada.
— E ele está mantendo-o preso no Alasca — Hazel falou. — Bem... vamos ver, qual o nome deste lugar?
Sorgo estava quase respondendo, mas Trigo voou até ele e o derrubou. Os karpoi começaram a lutar, se dissolvendo em nuvens de cereais. Hazel considerou começar a correr. Então Trigo se formou novamente segurando Sorgo com uma chave de pescoço.
— Parem! — ele gritou para os outros. — Cereais lutando não é permitido!
Os karpoi se solidificaram em gordos cupidos piranha mais uma vez. Trigo empurrou Sorgo para o lado.
— Oh, semideusa inteligente — ele falou. — Tentando nos enganar para lhe revelar segredos. Você nunca encontrará o covil de Alcioneu.
— Eu já sei onde ele está — ela falou com uma falsa confiança. — Ele está na ilha da baía da Ressurreição.
— Há! — Trigo zombou. — Esse lugar afundou sob as ondas há muito tempo. Você deve saber disso. Gaia odeia você por isso. Quando você frustrou seus planos ela foi forçada a dormir novamente. Décadas e décadas! Alcioneu não foi capaz de se reerguer até os tempos sombrios.
— Os anos oitenta — Cevada concordou. — Horrível! Horrível!
— Sim — falou Trigo. — E nossa mestra continua dormindo. Alcioneu foi forçado a esperar pelo momento certo, no norte, planejando. Somente agora Gaia começou a se agitar. Mas ela ainda lembra de você, assim como seu filho!
Sorgo gargalhou com alegria.
— Você nunca irá encontrar a prisão de Tânatos. Todo o Alasca é a casa do gigante. Ele poderia estar mantendo a Morte em qualquer lugar. Você levaria anos para encontrá-la, e o seu pobre acampamento só têm dias. É melhor você se render. Nós lhe daremos grãos. Muitos grãos.
Hazel sentiu a espada ficar pesada. Ela temia retornar ao Alasca, mas pelo menos tinha uma ideia de onde poderia começar a procurar por Tânatos. Assumiu que a ilha onde ela havia morrido não tinha sido destruída completamente ou possivelmente voltou à superfície novamente quando Alcioneu acordou, esperava que sua base estivesse lá. Mas se a ilha tivesse realmente ido embora, ela não tinha ideia de onde começar a procurar pelo gigante. O Alasca era enorme. Eles poderiam procurar por décadas e nunca encontrá-lo.
— Sim! — Trigo falou, sentindo sua angústia. — Desista.
Hazel agarrou sua sphata.
— Nunca! — Ela ergueu sua voz novamente, esperançosa de que de alguma maneira a voz chegaria a seus amigos. — Se eu tiver que destruir vocês todos, eu irei. Eu sou a filha de Plutão!
Os karpoi avançaram. Agarraram-se na rocha, e rosnaram como se ela estivesse escaldante, mesmo assim começaram a subir.
— Agora você irá morrer — prometeu Trigo, rangendo os dentes.
— Você irá sentir a ira dos grãos!
De repente, houve um som sibilante. Trigo repentinamente congelou. Olhou para baixo, para a flecha dourada que havia perfurado seu peito. Então ele dissolveu em pedaços.