quinta-feira, 17 de outubro de 2013

X - Piper






PIPER TEVE PROBLEMAS PARA DORMIR.
O treinador Hedge passou a primeira hora depois do toque de recolher fazendo seu dever noturno, andando para cima e para baixo pelo corredor gritando:
— Luzes apagadas! Para cama! Tentem escapar e eu irei mandá-los de volta para Long Island!
Ele batia seu taco de beisebol contra a porta de uma cabine toda vez que ouvia algum barulho, gritando a todos para que fossem dormir, o que tornava impossível para que qualquer um dormisse. Piper descobriu que aquela era a maior diversão que o sátiro teve desde que fingiu ser um professor de Educação Física na Escola da Vida Selvagem.
Ela olhou para as vigas de bronze no teto. Sua cabine era muito acolhedora. Leo tinha programado seus quartos para se ajustar automaticamente a temperatura preferida do ocupante, de modo que ali nunca era tão frio ou tão quente. Os cobertores e os travesseiros eram recheados com penas de Pégaso (nenhum Pégaso foi prejudicado na fabricação desses produtos, Leo a assegurou), então eles eram ultraconfortáveis. Uma lanterna de bronze pendia no teto, trazendo para Piper qualquer brilho que desejasse. Os lados da lanterna foram perfuradas, de modo que a noite, constelações cintilantes flutuavam pela parede.
Piper tinha tantas coisas em sua mente, pensou que nunca iria dormir. Mas havia algo de pacífico no balançar do barco e no zumbido dos remos aéreos enquanto eles escavavam pelo céu.
Finalmente suas pálpebras ficaram pesadas e ela adormeceu.
Pareceu que apenas alguns segundos se passaram quando ela acordou com o sino do café da manhã.
— Hey, Piper! — Leo bateu em sua porta. — Estamos desembarcando!
— Desembarcando?
Ela se sentou, grogue.
Leo abriu a porta e colocou sua cabeça para dentro. Ele estava com suas mãos na frente dos olhos, o que seria um gesto legal se ele não estivesse espiando por entre os dedos.
— Você está decente?
— Leo!
— Desculpe — ele sorriu. — Hey, pijama dos Power Rangers legal.
— Eles não são os Power Rangers! São águias Cherokees!
— Sim, claro. De qualquer modo, nós estamos nos instalando a poucos quilômetros fora de Topeka, como solicitado. E, hum... — ele olhou para fora do corredor e então inclinou-se de volta para dentro. — Obrigado por não me odiar sobre explodir os romanos ontem.
Piper revirou seus olhos. A festa na Nova Roma havia sido apenas ontem?
— Tudo bem, Leo. Você não estava no controle de si mesmo.
— Sim, mas mesmo assim... Você não tinha que me apoiar.
— Você está brincando? Você é como um irmão mais novo irritante que eu nunca tive. É claro que eu vou apoiar você.
— Hã... obrigado?
De cima, o treinador Hedge gritou:
— Lá ela sopra! Kansas, ahoy!
— Por Hefesto — Leo murmurou. — Ele realmente precisa trabalhar sua língua de marinheiro. Eu seria melhor em cima daquele convés.
Desde o tempo em que Piper tomou banho, trocou-se e pegou uma rosquinha no refeitório, ela podia ouvir o desembarque do navio e suas rodinhas se estendendo. Ela subiu na plataforma e se juntou aos outros enquanto o Argo II se estabelecia em meio a um campo de girassóis. Os remos se retraíram. A prancha se abaixou.
O ar da manhã cheirava a terra molhada e plantas. Não era um cheiro ruim. Lembrou Piper da casa do vovô Tom em Tahlequah, Oklahoma, de volta a reserva.
Percy foi o primeiro a notá-la. Ele sorriu em saudação, o que por algum motivo surpreendeu Piper. Ele estava usando jeans velhos e uma camiseta laranja do Acampamento Meio-Sangue, como se nunca tivesse se afastado do lado grego. As novas roupas provavelmente ajudaram em seu humor – e é claro o fato de ele estar de pé no parapeito com seu braço em volta de Annabeth.
Piper estava feliz em ver Annabeth com uma faísca nos olhos, porque nunca teve uma amiga melhor. Por meses, Annabeth esteve se atormentando, todos os seus momentos acordada foram consumados com a busca por Percy. Apesar da perigosa missão que estavam enfrentando, pelo menos ela tinha seu namorado de volta.
— Então! — Annabeth arrancou a rosquinha das mãos de Piper e deu uma mordida, mas isso não incomodou. No acampamento, eles tiveram uma rápida piada sobre o roubo do café da manhã um do outro. — Aqui estamos nós. Qual é o plano?
— Eu quero checar a rodovia — Piper disse. — Encontrar a placa que diz Topeka 51.
Leo girou seu controle de Wii em um círculo e então as velas se abaixaram.
— Nós não devemos estar longe — ele disse. — Festus e eu calculamos o desembarque o melhor que podíamos. O que você espera encontrar no marcador de quilometragem?
Piper explicou o que ela tinha visto na faca – o homem de roxo com uma taça. Ela permaneceu quieta sobre as outras imagens, como a visão de Percy, Jason e ela mesma se afogando. Não tinha certeza do que aquilo significava, de qualquer modo; e todos pareciam estar com espíritos melhores naquela manhã, não queria arruinar aquele humor.
— Camisa roxa? — Jason perguntou. — Vinhas em seu chapéu? Se parece com Baco.
— Dioniso — Percy murmurou. — Se nós pegamos todo esse caminho do Kansas para ver o Sr. D...
— Baco não é tão ruim — Jason disse. — Eu não gosto muito das suas seguidoras...
Piper estremeceu. Jason, Leo e ela tiveram um encontro com as maenads poucos meses atrás e quase haviam sido reduzidos a pedaços.
— Mas ele é um deus ok — Jason continuou. — Uma vez eu fiz um favor a ele no país do vinho.
Percy o olhou aterrorizado.
— Tanto faz, cara. Talvez ele seja melhor no lado romano. Mas por que estaria rondando no Kansas? Zeus não tinha ordenado os deuses para que eles cortassem todo o contato com os mortais?
Frank resmungou. O grandalhão estava vestindo um agasalho esportivo azul esta manhã, como se ele estivesse pronto para dar uma sacudida nos girassóis.
— Os deuses não têm sido muito bons em seguir essa ordem — ele notou. — Aliás, talvez os deuses estejam mesmo esquizofrênicos como Hazel disse.
— E Leo disse — adicionou Leo.
Frank lhe fez uma careta.
— Então quem sabe o que está acontecendo aos Olimpianos? Pode ser uma coisa bem ruim lá fora.
— Soa perigoso! — Leo concordou alegremente. — Bom... Vocês se divirtam. Eu tenho que terminar uns reparos no casco. O treinador Hedge vai trabalhar nas balistas quebradas. E, ah, Annabeth... eu poderia realmente usar sua ajuda. Você é a única outra pessoa que entende mesmo de engenharia.
Annabeth olhou para Percy como se estivesse pedindo desculpas.
— Ele está certo. Eu deveria ficar e ajudar.
— Eu voltarei para você — ele a beijou na bochecha. — Prometo.
Eles eram tão simples juntos, o que fez o coração de Piper doer. Jason era ótimo, é claro. Mas às vezes era tão distante, como noite passada, quando estava relutante para falar sobre aquela antiga lenda romana. Frequentemente parecia estar pensando sobre sua velha vida no Acampamento Júpiter. Piper imaginou se ele nunca seria capaz de quebrar essa barreira. A viagem para o Acampamento Júpiter, ver Reyna em pessoa, não ajudou. Nem o fato de que Jason havia escolhido uma camiseta roxa para vestir hoje – a cor dos romanos.
Frank deslizou seu arco para fora do ombro e apoiou-o contra o parapeito.
— Acho que eu deveria me transformar em um corvo ou algo assim e voar por aí, ficar de olho nas águias romanas.
— Porque um corvo? — Leo perguntou. — Cara, se você pode se transformar em um dragão, porque você não simplesmente se transforma em um dragão o tempo todo? Isso é mais legal.
O rosto de Frank pareceu estar sendo fundido com suco de fruta-do-monte.
— Isso é como perguntar pra você porque não levanta todo o seu peso toda vez que está malhando. Porque é difícil e você se machucaria. Se transformar em um dragão não é fácil.
— Ah — Leo fez um gesto com a cabeça. — Eu não saberia. Eu não levanto pesos.
— Sim. Talvez você devesse considerar isso, Sr...
Hazel colocou seu pé entre os dois.
— Eu te ajudo, Frank — ela disse, mandando para Leo um olhar maléfico. — Posso chamar Arion e vigiar lá em baixo.
— Claro — Frank respondeu, ainda olhando para Leo. — Sim, obrigado.
Piper imaginou o que estava acontecendo com esses três. Os meninos se mostrando para Hazel e implicando um com o outro – isso ela conseguia entender. Mas quase pareceu que Leo e Hazel tinham uma história. Ao que ela sabia, eles haviam se encontrado pela primeira vez apenas ontem. Imaginou se alguma outra coisa havia acontecido na viagem deles para Great Salt Lake – algo que não mencionaram.
Hazel se virou para Percy.
— Apenas tome cuidado quando você for para lá. Muitos campos, muitas colheitas. Pode haver karpoi a solta.
— Karpoi? — Piper perguntou.
— Espíritos dos grãos — Hazel disse. — Você não quer conhecê-los.
Piper não conseguiu entender porque um espírito do grão poderia ser tão ruim, mas o tom de Hazel a convenceu a não perguntar.
— Isso deixa três de nós para verificar o marcador de quilometragem — Percy disse. — Eu, Jason e Piper. Não estou empolgado em ver o Sr. D de novo. Aquele cara é uma dor. Mas, Jason, se você está em termos melhores com ele...
— Sim. Se nós o encontrarmos, falarei com ele. Piper, a visão é sua. Melhor você tomar a liderança.
Piper estremeceu. Ela havia visto eles três se afogando no poço escuro. Era no Kansas em que aquilo aconteceria? Isso não pareceu certo, mas ela não tinha certeza.
— É claro — disse ela, tentando soar otimista. — Vamos achar a rodovia.

Leo disse que eles estavam perto. Ele precisava trabalhar sua ideia de perto.
Depois de marchar meio quilômetro pelos campos abafados, sendo mordidos por mosquitos e arranhados no rosto por ásperos girassóis, eles finalmente atingiram a estrada. Um velho outdoor da Bubba‘s Gas ‘n‘ Grub indicava que eles ainda estavam a sessenta e quatro quilômetro da primeira saída de Topeka.
— Corrijam minha matemática — Percy disse. — Mas isso não significa que temos mais treze quilômetros para andar?
Jason olhou para os dois lados da estrada deserta. Ele parecia melhor hoje, graças a cura mágica do néctar e ambrósia. Sua cor estava de volta ao normal e a cicatriz em sua testa estava quase desaparecida. O gládio novo que Hera deu a ele no último inverno estava pendurado em seu cinto. A maioria dos caras pareceriam estranho andando por aí com uma bainha presa no seu jeans, mas Jason parecia perfeitamente natural.
— Nenhum carro... — disse. — Mas acho que não gostaria de pegar carona.
— Não — Piper concordou, olhando nervosamente pela rodovia. — Já passamos muito tempo indo por terra. A terra é um território de Gaia.
— Hmm... — Jason estalou os dedos. — Eu posso chamar um amigo para um passeio.
Percy levantou as sobrancelhas.
— Ah, é? Eu também. Vamos ver de quem será o amigo que chega aqui primeiro.
Jason assobiou. Piper sabia o que ele estava fazendo, mas tinha conseguido convocar Tempestade apenas três vezes desde que conheceram o espírito da tempestade na Casa do Lobo no último inverno. Hoje, o céu estava tão azul que Piper não viu como poderia dar certo.
Percy simplesmente fechou seus olhos e se concentrou.
Piper nunca o havia estudado de perto antes. Depois de ouvir tanto no Acampamento Meio-Sangue sobre Percy Jackson isso e Percy Jackson aquilo, pensou que ele parecia... Bem, inexpressivo, especialmente ao lado de Jason. Percy era mais magro, cerca de dois centímetros mais baixo, com um levemente longo cabelo muito preto.
Ele não era realmente o tipo de Piper. Se ela o tivesse visto no shopping em algum lugar, provavelmente teria pensado que ele era um skatista – fofo de um jeito mal vestido, um pouco no lado selvagem, definitivamente um encrenqueiro. Ela o teria evitado. Tinha problemas o suficiente em sua vida. Mas podia ver porque Annabeth gostava dele e podia definitivamente ver porque Percy precisava dela na sua vida. Se alguém podia manter um cara como aquele no controle, era Annabeth.
Um trovão estalou no céu.
Jason sorriu.
— Logo.
— Tarde demais — Percy apontou para o leste, onde um vulto negro alado fazia uma espiral em direção a eles.
Primeiro, Piper pensou que pudesse ser Frank em forma de corvo. Então percebeu que aquilo era muito grande para ser um pássaro.
— Um pégaso negro? — ela disse. — Nunca vi um assim.
O garanhão alado pousou. Ele trotou para Percy e acariciou seu rosto, então, virou a cabeça na direção de Jason e Piper de modo curioso.
— Blackjack — Percy disse — esses são Piper e Jason. São amigos.
O cavalo relinchou.
— Hum, talvez depois — Percy respondeu.
Piper ouviu dizer que Percy falava com cavalos, sendo filho do senhor dos cavalos Poseidon, mas nunca havia visto aquilo em ação.
— O que Blackjack quer? — ela perguntou.
— Donuts — Percy respondeu. — Sempre donuts. Ele pode transportar nós três se...
De repente o ar se tornou frio. Os ouvidos de Piper estalaram. A cerca de cinquenta metros de distância, uma miniatura de ciclone de três andares de altura rasgava através do topo dos girassóis como uma cena de O Mágico de Oz. Ele tocou o chão da estrada ao lado de Jason e tomou a forma de um cavalo – um enevoado corcel com raios piscando através de seu corpo.
— Tempestade — Jason disse, sorrindo amplamente. — Quanto tempo, meu amigo.
O espírito da tempestade empinou-se e relinchou. Blackjack recuou.
— Calma, garoto — Percy disse. — Ele também é um amigo. — Ele deu a Jason um olhar impressionado. — Carona legal, Grace.
Jason deu de ombros.
— Fiz amizade com ele durante a nossa luta na Casa do Lobo. Ele é um espírito livre, literalmente, mas de vez em quando concorda em me ajudar.
Percy e Jason subiram em seus respectivos cavalos. Piper nunca se sentiu confortável com Tempestade. Galopar uma besta que poderia vaporizar a qualquer momento a deixava um pouco nervosa. No entanto, aceitou a mão de Jason e montou no cavalo.
Tempestade correu pela estrada com Blackjack logo acima. Felizmente, eles não passaram por nenhum carro, ou poderiam ter causado problemas. Em pouquíssimo tempo, chegaram ao marcador de 51 quilômetros, que parecia exatamente com o que Piper havia visto em sua visão.
Blackjack pousou. Ambos os cavalos escavaram o asfalto. Não pareciam satisfeitos de terem parado tão de repente, no momento que encontraram seu ritmo.
Blackjack relinchou.
— Você está certo — Percy disse. — Nenhum sinal do cara do vinho.
— Me desculpe? — disse uma voz dos campos.
Tempestade se virou rapidamente e Piper quase caiu.
Os trigos se separaram e o homem da sua visão entrou em vista. Ele usava um chapéu de abas largas envolto em videiras, uma camiseta roxa de manga curta, shorts cáqui e papetes com meias brancas. Parecia ter talvez 30, com uma barriguinha leve, como um garoto da fraternidade que ainda não se tocou que a faculdade está acabada.
— Alguém acabou de me chamar de cara do vinho? — ele perguntou num sotaque preguiçoso. — É Baco, por favor. Ou Sr. Baco. Ou Lorde Baco. Ou, às vezes, Oh-Meus-Deuses-Não-Me-Mate, Lorde Baco.
Percy incitou Backjack a frente, embora o Pégaso não parecesse feliz com isso.
— Você está diferente — Percy disse ao deus. — Mais magro. Seu cabelo está maior. E sua camisa não é tão chamativa.
O deus do vinho olhou para ele.
— Do que diabos você está falando? Quem é você, e onde está Ceres?
— Uh... Que séries?
— Eu acho que ele quer dizer Ceres — Jason disse. — A deusa da agricultura. Você a chamaria de Deméter. — Ele fez um gesto com a cabeça respeitosamente para o deus. — Lorde Baco, você se lembra de mim? Eu o ajudei com aquele leopardo perdido em Sonoma.
Baco coçou o queixo áspero.
— Ah, sim... John Green.
— Jason Grace.
— Tanto faz — o deus disse. — Ceres lhe enviou, então?
— Não, Lorde Baco — Jason disse. — Estava esperando encontrá-la aqui?
O deus bufou.
— Bom, eu não vim para o Kansas para festejar, meu garoto. Ceres me pediu para vir até aqui para um conselho de guerra. Com Gaia se erguendo, a colheita está murchando. As secas estão se espalhando. Os karpoi estão de volta. Ceres queria uma frente unida na guerra das plantas.
— A guerra das plantas — Percy disse. — Você vai armar todas as uvas com rifles de assalto minúsculos?
O deus estreitou seus olhos.
— Nos conhecemos?
— No Acampamento Meio-Sangue — Percy disse — eu te conheço como Sr. D.... Dioniso.
— Argh!
Baco estremeceu e apertou as mãos nas têmporas. Por um momento, sua imagem tremeluziu. Por um momento, Piper viu uma pessoa diferente – mais gordo, atarracado, com uma camisa com estampa de leopardo. Então Baco se transformou em Baco novamente.
— Pare com isso! — ele exigiu. — Pare de pensar em mim na forma grega!
Percy piscou.
— Ah, mas...
— Você tem ideia do quanto é difícil se manter focado? Fortes dores de cabeça o tempo todo! Nunca sei o que estou fazendo ou onde estou indo! Constantemente mal-humorado!
— Isso soa perfeitamente normal para você — Percy comentou.
As narinas do deus queimaram. Uma das uvas de seu chapéu estourou em chamas.
— Se nós nos conhecemos do outro acampamento, é de se perguntar por que eu ainda não o transformei em um golfinho.
— Isso foi discutido — Percy o assegurou. — Eu acho que você é simplesmente muito preguiçoso para fazer isso.
Piper estava assistindo com fascinação horrorizada, do jeito que ela poderia assistir a um acidente de carro em progresso. Agora ela percebeu que Percy não estava tornando as coisas melhores e Annabeth não estava por perto para controlá-lo. Piper imaginou se sua amiga iria perdoá-la se ela trouxesse Percy de volta como um mamífero marinho.
— Lorde Baco! — ela se interrompeu, deslizando das costas de Tempestade.
— Piper, cuidado — Jason disse.
Ela lançou-lhe um olhar de advertência: deixa comigo.
— Desculpe-me incomodá-lo, meu senhor — ela disse ao deus — mas na verdade viemos até aqui para pegar seu conselho. Por favor, nós precisamos de sua sabedoria.
Ela usou seu tom mais agradável, derramando respeito em seu charme.
O deus franziu a testa, mas o brilho roxo desbotou em seus olhos.
— Você fala muito bem, garota. Conselho, hein? Muito bem. Eu evitaria um karaokê. Sério, festas temáticas em geral estão fora. Nesses tempos austeros, as pessoas procuram por uma simples, o caso discreto, com lanches orgânicos produzidos localmente e...
— Não sobre festas — Piper interrompeu. — Apesar de que é um conselho extremamente útil, Lorde Baco. Mas estávamos esperando que pudesse nos ajudar na nossa missão.
Ela explicou sobre o Argo II e a viagem para impedir os gigantes de despertar Gaia. Disse a ele o que Nêmesis havia dito: que em seis dias, Roma seria destruída. Descreveu a visão refletida na faca, onde Baco ofereceu a ela uma taça de ouro.
— Taça de ouro? — O deus não pareceu muito animado.
Ele pegou uma Pepsi Diet do nada e a abriu.
— Você bebe Coca Diet — Percy disse.
— Eu não sei do que você está falando — Baco estalou. — Quanto a essa visão da taça de ouro, jovem moça, eu não tenho nada para você beber a não ser uma Pepsi. Júpiter colocou-me sob ordens estritas para evitar dar vinho a menores. É meio incomodo. Quanto aos gigantes, eu os conheço bem. Eu lutei na primeira Guerra dos Gigantes, você sabe.
— Você pode lutar? — Percy perguntou.
Piper desejou que ele não soasse tão incrédulo.
Dioniso rosnou. Sua Pepsi Diet se transformou em um bastão de cinco metros envolto em planta de hera e com uma pinha no topo.
— Um tirso! — Piper disse, esperando distrair o deus antes que ele atingisse Percy na cabeça. Ela havia visto armas como aquela antes nas mãos de ninfas loucas e não ficou emocionada ao ver uma de novo, mas tentou soar impressionada. — Oh, que arma poderosa!
— De fato — Baco concordou. — Estou feliz que alguém no grupo é esperto. A pinha é uma temível ferramenta de destruição. Eu era um semideus na primeira Guerra dos Gigantes, você sabe. O filho de Júpiter!
Jason encolheu. Provavelmente não estava emocionado ao ser lembrado de que o cara do vinho era tecnicamente seu irmão mais velho.
Baco girou seu bastão pelo ar, embora sua barriguinha quase o tenha posto fora de equilíbrio.
— É claro que isso foi muito antes de eu ter inventado o vinho e me tornado imortal. Eu lutei lado a lado com os deuses e algum outro semideus... Harry Cleese, eu acho.
— Héracles? — Piper sugeriu educadamente.
— Tanto faz — Baco disse. — Enfim, eu matei o gigante Efialtes e seu irmão Oto. Horrivelmente grosseiros, aqueles dois. Pinha na cara deles dois!
Piper prendeu sua respiração. De repente, várias ideias vieram todas juntas em sua cabeça – as visões na faca, as linhas da profecia que haviam sido discutidas na noite anterior. Sentiu como quando costumava mergulhar com seu pai, quando ele limpava sua máscara subaquática para ela. De repente, tudo estava claro.
— Lorde Baco — ela disse, tentando controlar o nervosismo em sua voz. — Aqueles dois gigantes, Efialtes e Oto... Eles eram gêmeos?
— Hum? — O deus pareceu distraído com o balanço do tirso, mas assentiu. — Sim gêmeos. Está certo.
Piper se virou para Jason. Ela poderia dizer que ele seguia sua linha de pensamento: Gêmeos ceifaram do anjo a vida.
Na lâmina de Katoptris, ela tinha visto dois gigantes em mantos amarelos, levantando uma jarra de um poço profundo.
— É por isso que estamos aqui — Piper disse ao deus. — Você é parte da nossa missão!
Baco franziu a testa.
— Sinto muito, minha garota. Eu não sou mais um semideus. Não participo mais de missões.
— Mas gigantes só podem ser mortos por heróis e deuses lutando juntos — ela insistiu.
— Você é um deus agora e os dois gigantes com quem temos de lutar são Efialtes e Oto. Eu acho... acho que eles estão esperando por nós em Roma. Vão destruir a cidade de algum modo. A taça de ouro que eu vi na minha visão – talvez isso seja um símbolo para sua ajuda. Você tem que nos ajudar a matar os gigantes!
Baco olhou para ela e Piper percebeu que suas palavras foram insuficientes.
— Minha garota — Baco disse friamente — eu não tenho que fazer nada. Além disso, só ajudo aqueles que me dão um tributo adequado, o que ninguém conseguiu fazer há muitos, muitos séculos.
Blackjack relinchou, inquieto.
Piper não podia culpá-lo. Ela não gostava de como a palavra tributo soava. Lembrou-se das maenads, as seguidores enlouquecidos de Baco, que despedaçavam incrédulos com suas próprias mãos. E isso foi quando elas estavam de bom humor.
Percy fez a pergunta que ela estava com medo de fazer.
— Que tipo de tributo?
Baco acenou com a mão com desdém.
— Nada que você pudesse aguentar, grego insolente. Mas vou te dar um conselho de graça, já que essa garota tem algumas maneiras. Procure pelo filho de Gaia, Fórcis. Ele sempre odiou sua mãe, não que eu pudesse culpá-lo. Ele não tinha muita utilidade para seus irmãos gêmeos, também. Você irá encontrá-lo na cidade que eles nomearam depois daquela heroína – Atalanta.
Piper hesitou.
— Você quer dizer Atlanta?
— Essa mesma.
— Mas esse Fórcis — Jason disse. — Ele é um gigante? Um Titã?
Baco riu.
— Nenhum dos dois. Procure a água salgada.
— Água salgada... — Percy disse. — Em Atlanta?
— Sim — Baco disse. — Você está com dificuldade para ouvir? Se alguém pode lhe dar uma visão sobre Gaia e os gêmeos, é Fórcis. Apenas fique atento com ele.
— O que você quer dizer? — Jason perguntou.
O deus olhou para o sol, que estava quase subindo para o meio-dia.
— Não é do tipo de Ceres estar atrasada, a não ser que ela tenha sentido algo perigoso na área. Ou... — o rosto do deus de repente afrouxou — ou uma armadilha. Bem, eu preciso ir! E se eu fosse vocês, faria o mesmo!
— Lorde Baco, espere! — Jason protestou.
O deus tremeluziu e desapareceu com um som de latinha de refrigerante sendo aberta. O vento sussurrava através dos girassóis. Os cavalos andavam em agitação. Apesar do seco, quente dia, Piper estremeceu. Annabeth e Leo haviam ambos descrito uma sensação de frio...
— Baco está certo — ela disse. — Nós precisamos ir...
Tarde demais, disse uma voz sonolenta, cantarolando pelos campos ao redor deles e ressoantes no chão ao redor dos pés de Piper.
Percy e Jason sacaram suas espadas. Piper estava na estrada entre eles, congelada de medo. O poder de Gaia estava de repente em todos os lugares. Os girassóis se viraram para olhar para eles. Os trigos se dobraram para eles como se fossem um milhão de foices.
Bem vindos a minha festa, Gaia murmurou.
Sua voz lembrava a Piper de um campo de milho – estalos, assobios, quentes e persistentes ruídos que ela costumava ouvir na casa do vovô Tom naquelas noites de Oklahoma.
O que foi que Baco disse? A deusa ridicularizou. Uma simples e discreta festa com lanches orgânicos? Sim. Para o meu lanche, eu só preciso de duas coisas: sangue de um semideus e uma semideusa. Piper, minha querida, escolha qual herói morrerá com você.
— Gaia! — Jason gritou. — Pare de se esconder no trigo! Mostre-se!
Muito bravo, Gaia assobiou. Mas o outro, Percy Jackson, também tem certo atrativo. Escolha, Piper McLean ou eu irei.
O coração de Piper acelerou. Gaia estava prestes a matá-la. Ela não estava surpresa. Mas o que era aquilo de escolher um dos garotos? Porque Gaia deixaria qualquer um deles ir? Tinha que ser mais uma armadilha.
— Você é louca! — ela gritou. — Eu não vou escolher nada para você!
De repente, Jason engasgou. Ela endireitou-se em sua sela.
— Jason! — Piper chorou. — O que há de errado?
Ele olhou para ela, sua expressão mortalmente calma. Seus olhos não estavam mais azuis, brilhavam em ouro maciço.
— Percy, socorro! — Piper tropeçou afastando-se de Tempestade.
Mas Percy galopou para longe deles. Ele pairou a trinta metros acima da estrada e voou em volta. Levantou sua espada e apontou a ponta para Jason.
— Um irá morrer — Percy disse, mas a voz não era dele. Era profunda e oca, como alguém sussurrando de dentro do cano de um canhão.
— Eu vou escolher — Jason respondeu, na mesma voz oca.
— Não! — Piper gritou.
Ao redor dela, os campos crepitavam e sibilavam, rindo na voz de Gaia enquanto Percy e Jason desafiaram um ao outro, com as armas prontas.