quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Capitulo XLIII - Hazel






MONTANDO ARION, HAZEL SE SENTIA PODEROSA, absolutamente no controle – uma perfeita combinação de cavalo e humano. Ela se perguntou se era assim que os centauros se sentiam.
Os capitães do barco em Seward tinham avisado-a que eram 300 milhas náuticas até a Geleira Hubbard, uma viagem dura e perigosa, mas Arion não teve problemas. Ele corria pela água na velocidade do som, aquecendo tanto o ar em torno deles que Hazel nem sequer sentia o frio. A pé ela nunca teria se sentido tão corajosa. À cavalo ela mal podia esperar para uma batalha.
Frank e Percy não pareciam tão felizes. Quando Hazel olhou para trás, eles estavam de dentes cerrados e olhos saltados. As bochechas de Frank sacudiam com a força da gravidade. Percy estava sentado na traseira, segurando firme, desesperadamente tentando não escorregar do cavalo. Hazel esperava que isso não acontecesse. Pela maneira como Arion corria, ela não perceberia que ele caíra até terem se passado uns cinquenta ou sessenta quilômetros.
Eles correram através de estreitos de gelo, passando por fiordes azuis e penhascos com cachoeiras derramando no mar. Arion saltou sobre uma baleia jubarte e manteve o galope, um grupo de focas surpreendidas se desintegrou de um iceberg. Poucos minutos depois, eles corriam por uma baía estreita. A água voltara a uma consistência de gelo raspado, num azul consistente e pegajoso. Arion parou sobre uma placa turquesa congelada. A quase um quilômetro de distância, estava a Geleira Hubbard.
Mesmo Hazel, que já tinha visto geleiras antes, não conseguia processar o que via. Montanhas roxas cobertas de neve cobriam todo o horizonte, com nuvens flutuando em torno de seus vãos, como correias macias. Em um enorme vale entre dois picos, um muro irregular de gelo se erguia do mar, enchendo toda a garganta. A geleira era azul e branca listrada de preto, de modo que parecia uma cobertura de neve suja deixada para trás numa calçada, após um removedor de neve passar, só que quatro milhões de vezes maior.
Assim que Arion parou, Hazel sentiu a queda de temperatura. Todo aquele gelo enviava ondas de frio, transformando a baía no maior frigorífico do mundo. A coisa mais deslumbrante era o som de um trovão que rolava através da água.
— O que é isso? — Frank olhou para as nuvens acima da geleira. — Uma tempestade?
— Não — Hazel disse. — Gelo rachando e se deslocando. Milhões de toneladas de gelo.
— Você quer dizer que a coisa está quebrando? — Frank perguntou.
Como se fosse por causa de sua sugestão, uma camada de gelo silenciosa desgrudou da geleira e caiu no mar, pulverizando a água congelada e estilhaçando varias camadas. Um milésimo de segundo depois o som da batida chegou até eles – um BOOM quase tão chocante quanto Arion atingindo a barreira do som.
— Não podemos chegar perto daquela coisa! — Frank disse.
— Nós temos — Percy falou. — O gigante está lá no topo.
Arion relinchou.
— Droga, Hazel — Percy disse. — Diga para o seu cavalo maneirar na língua.
Hazel tentou não rir.
— O que ele disse?
— Sem o palavrão? Ele disse que pode nos levar ao topo.
Frank olhou incrédulo.
— Eu pensei que esse cavalo não podia voar!
Arion relinchou tão furiosamente, que até Hazel podia adivinhar que ele estava xingando.
— Cara — Percy apontou para o cavalo. — Eu fui suspenso por dizer menos do que isso. Hazel, ele prometeu que você verá o que ele pode fazer, assim que você disser.
— Hum, segurem-se então rapazes — Hazel falou nervosamente. — Arion, corra!
Arion disparou em direção à montanha como um foguete, embarricando em linha reta à lama, como se quisesse brincar com a montanha de gelo.
O ar ficou mais frio. O crepitar do gelo mais forte. Conforme Arion fechava a distância, a geleira se aproximava tão grande que Hazel ficou com vertigem, tentado apenas não vomitar. A lateral estava repleta de fendas e cavernas, enriquecidas com cristais irregulares, tais como lâminas de machado. Pedaços estavam constantemente se desintegrando – alguns não maiores do que bolas de neve, alguns do tamanho de casas. Quando estavam a 50 metros da base, um trovão sacudiu os ossos de Hazel, e uma cortina de gelo que teria coberto o Acampamento Júpiter facilmente veio na direção deles.
— Cuidado! — Frank gritou, o que parecia um pouco desnecessário para Hazel.
Arion estava muito a frente dela. Numa explosão de velocidade, ele ziguezagueou entre os escombros, pulando sobre pedaços de gelo e escalando a face da geleira.
Percy e Frank gritaram como cavalos, se segurando desesperadamente, enquanto Hazel colocava os braços ao redor de Arion. De alguma forma eles conseguiram não cair, com Arion pulando de ponto de apoio para ponto de apoio com uma velocidade e agilidade impossíveis. Foi como cair de uma montanha russa no sentido inverso.
Em alguns minutos tinha acabado. Arion estava orgulhosamente no topo de uma montanha que pairava sobre o vazio. O mar estava agora a 100 metros abaixo deles.
Arion relinchou um desafio que ecoou pelas montanhas. Percy não traduziu, mas Hazel tinha certeza que Arion estava dizendo para qualquer outro cavalo que poderia estar na baía: façam melhor que isso, otários!
Então ele correu por toda superfície da geleira, pulando um abismo de 15 metros de diâmetro.
— Lá! — Percy apontou.
O cavalo parou. A frente deles havia um acampamento romano congelado, como uma réplica gigante e medonha do Acampamento Júpiter. As muralhas de tijolos de neve encaravam o ofuscante branco das muralhas de gelo. Torres de vigilância, bandeiras de pano azul congeladas brilhavam no sol ártico.
Não havia nenhum sinal de vida. Os portões estavam abertos. Nenhuma sentinela andava no alto das paredes. Ainda assim, Hazel tinha um sentimento desconfortável em seu interior. Ela se lembrou da caverna na baía da ressurreição, onde havia trabalhado para levantar Alcioneu – o opressivo sentimento de malícia e o constante boom, boom, boom, como os batimentos cardíacos de Gaia. Esse lugar parecia familiar, como se a terra estivesse tentando acordar e consumir tudo, como se as montanhas de ambos os lados quisessem esmagá-los e fazer toda a geleira em pedaços.
Arion trotou com energia.
— Frank, que tal ir de a pé a partir daqui? — Percy sugeriu.
Frank suspirou de alivio.
— Pensei que você nunca fosse perguntar.
Eles desmontaram e experimentaram dar alguns passos. O gelo parecia estável, coberto com um tapete fino de neve e ele não estava muito escorregadio.
Hazel pediu para Arion ir em frente. Percy e Frank andaram em ambos os lados, com a espada e o arco prontos. Eles se aproximaram dos portões sem nenhum desafio. Hazel era treinada para localizar poços e todos os tipos de armadilhas que outras legiões romanas tinham enfrentado por eras em território inimigo, mas ela não viu nada, apenas as portas de gelo abertas. E o crepitar do vento nas bandeiras congeladas.
Ela podia ver diretamente abaixo a Via Praetoria. No cruzamento, em frente a Principia de tijolos de neve, uma figura alta em uma roupa escura estava presa em correntes de gelo.
— Tânatos — Hazel murmurou.
Ela sentiu como se sua alma estivesse sendo puxada para frente, atraída pela Morte como poeira em direção a um vácuo. Sua visão escureceu. Ela quase caiu de Arion, mas Frank a pegou em apoio.
— Nós estamos com você — ele prometeu. — Ninguém te levará embora.
Hazel segurou sua mão. Ela não queria ir. Ele era tão sólido, tão reconfortante, mas Frank não podia protegê-la da Morte. Sua própria vida era tão frágil quanto um pedaço queimado de madeira.
— Eu estou bem — ela mentiu.
Percy olhou ao redor inquieto.
— Não tem defensores? Nenhum gigante? Isso tem que ser uma armadilha.
— Óbvio — Frank disse. — Mas eu não acho que nós temos escolha.
Antes que Hazel pudesse mudar de ideia, ela guiou Arion através dos portões.
A planta parecia familiar – quartéis de Coortes, casa de banho, arsenal. Era uma réplica exata do Acampamento Júpiter, exceto que três vezes maior. Mesmo em cima do cavalo, Hazel se sentiu pequena e insignificante, como se estivesse se movendo por uma cidade modelo construída pelos deuses.
Eles pararam a 3 metros da figura vestida de negro.
Agora que ela estava aqui, Hazel sentia uma vontade imprudente de terminar a missão. Sabia que estava em maior perigo do que quando estava lutando contra as Amazonas, contra os grifos ou escalando o gelo nas costas de Arion. Instintivamente ela soube que se Tânatos simplesmente a tocasse, ela iria morrer. Mas também tinha um sentimento de que se ela não conseguisse terminar a missão, se ela não encarasse o seu destino de frente e com coragem, ainda iria morrer – na covardia e fracasso.
Os juízes dos mortos não seriam brandos uma segunda vez.
Arion galopou para frente e para trás, sentindo sua inquietação.
— Olá?— Hazel forçou a palavra par a fora. — Sr. Morte?
A figura encapuzada ergueu a cabeça. Imediatamente, todo o acampamento despertou para a vida.
Figuras romanas surgiram dos quartéis, da Principia, arsenal e da cantina, mas eles não eram humanos. Eram sombras – Hazel tinha vivido tagarelando com fantasmas nos Campos de Asfódelos. Seus corpos não eram mais do que fios pretos de vapor, mas eles conseguiam unir conjuntos de armaduras escamadas, perneiras e capacetes. Espadas cobertas de gelo estavam amarradas na cintura. Pilos e escudos amassados flutuavam em suas mãos esfumaçadas. As plumas do elmo estavam congeladas e esfarrapadas. A maioria das sombras estavam a pé, mas dois soldados irromperam dos estábulos em uma carruagem de ouro puxada por dois cavalos negros fantasmagóricos. Quando Arion viu os cavalos, ele bateu na terra em indignação.
Frank agarrou seu arco.
— Sim, aqui está a armadilha.