quinta-feira, 17 de outubro de 2013

XXVIII - Piper







A CORRENTE A AGARROU COMO UM PUNHO fechado e a puxou para o fundo. Ela lutava, mas era inútil. Estava presa e de boca fechada, obrigando-se a não respirar, mas mal podia evitar entrar em pânico. Piper não conseguia ver nada, a não ser um monte de bolhas. Só podia ouvir seu próprio coração e o rugido surdo das correntezas.
Ela tinha acabado de decidir que era assim que iria morrer: se afogando em um rio de uma ilha que não existia. Então, tão repentinamente como ela tinha sido puxada para baixo, ela foi empurrada para a superfície. Ela encontrou-se no centro de um redemoinho conseguindo respirar, mas incapaz de sair dali.
A poucos metros de distância, Jason chegou à superfície e ofegou, sua espada em uma das mãos. Ele balançou descontroladamente, mas não havia nada para atacar.
Vinte metros à direita de Piper, Aqueloo saiu da água.
— Eu realmente sinto muito por isso — disse.
Jason avançou em direção a ele convocando os ventos para levantá-lo fora do rio, mas Aqueloo foi mais rápido e mais poderoso. Uma onda de água bateu em Jason e enviou-o para o fundo mais uma vez.
— Pare com isso! — Piper gritou.
Usou seu charme, mas não foi fácil já que ela estava se debatendo em um redemoinho, porém chamou a atenção de Aqueloo.
— Temo que eu não possa parar — disse o deus do rio. — Eu não posso deixar Hércules ter meu chifre. Seria humilhante.
— Há outra maneira! — Piper disse. — Você não precisa nos matar!
Jason emergiu da superfície novamente. Uma nuvem de tempestade em miniatura se formando sobre sua cabeça. Trovões soaram.
— Nada disso, filho de Júpiter — Aqueloo repreendeu. — Se você chamar um raio, só vai eletrocutar sua namorada.
A água puxou Jason novamente.
— Deixe-o ir! — Piper colocou toda a persuasão que podia em sua voz. — Eu prometo que não vou deixar Hércules obter o chifre!
Aqueloo hesitou. Ele trotou até ela, inclinando sua cabeça para a esquerda.
— Eu não acredito no que você diz.
— Eu juro! — Piper disse — Hércules é desprezível. Mas, por favor, primeiro deixe meu amigo ir.
A água agitou onde Jason tinha sido puxado. Piper queria gritar. Quanto tempo mais ele poderia prender a respiração?
Aqueloo olhou para ela através de seus óculos bifocais. Sua expressão suavizou.
— Eu entendi. Você seria minha Dejanira. Você será minha noiva para compensar minha perda.
— O quê? — Piper não tinha certeza se ela tinha ouvido direito. O redemoinho estava literalmente fazendo a sua cabeça girar. — Hum, na verdade eu estava pensando...
— Ah, eu entendo — disse Aqueloo. — Você é muito modesta para sugerir isso na frente do seu namorado. Você está certa, é claro. Eu iria tratá-la muito melhor do que um filho de Zeus. Eu poderia fazer as coisas certas depois de todos esses séculos. Eu não pude salvar Dejanira, mas eu poderia salvar você.
Teria passado trinta segundos agora? Um minuto? Jason não poderia aguentar muito mais tempo.
— Você teria que deixar seus amigos morrerem — Aqueloo continuou. — Hércules ficaria zangado, mas eu poderia te proteger dele. Nós poderíamos ser muito felizes juntos. Vamos começar deixando seu companheiro Jason se afogar, hein?
Piper não conseguia se sentir bem, mas ela teve que se concentrar. Ela estava mascarando seu medo e sua raiva. Ela era uma criança de Afrodite. Tinha que usar as ferramentas que lhe foram dadas.
Ela sorriu o mais docemente que podia e levantou os braços.
— Levante-me, por favor.
O rosto de Aqueloo se iluminou. Ele agarrou as mãos de Piper e puxou-a para fora do redemoinho.
Ela nunca tinha montado em um touro antes, mas tinha praticado equitação com pégasos no Acampamento Meio-Sangue, então sabia o que fazer. Ela usou toda sua força, pondo sua perna em volta de Aqueloo. Em seguida, ela trancou seus tornozelos no pescoço dele, envolveu um braço ao redor de sua garganta e tirou a faca com a outra. Ela pressionou a lâmina sob o queixo do deus rio.
— Deixe. Jason. ir — ela colocou toda a sua força no comando. — Agora!
Piper percebeu que havia muitas falhas em seu plano. O deus do rio poderia simplesmente se dissolver em água. Ou ele poderia afundar e esperar ela se afogar. Mas, aparentemente, o charme dela funcionou. Ou talvez Aqueloo ficou muito surpreendido pra pensar melhor. Ele provavelmente não era acostumado com meninas bonitas ameaçando cortar sua garganta.
Jason foi atirado para fora da água como uma bala de canhão humana. Ele quebrou os galhos de uma oliveira e caiu sobre a grama. Isso não poderia ter feito bem, mas ele se esforçou pra ficar de pé, ofegante e tossindo. Ele levantou sua espada e as nuvens escuras sobre o rio engrossaram.
Piper lançou-lhe um olhar de advertência: Ainda não. Ela ainda tinha que sair deste rio sem se afogar ou ser eletrocutada.
Aqueloo arqueou as costas como se contemplasse um truque. Piper pressionou a faca com mais força contra sua garganta.
— Seja um bom touro — ela advertiu.
— Você prometeu — Aqueloo disse entre dentes — você prometeu que Hércules não iria ficar com meu chifre.
— E ele não vai — disse Piper. — Mas eu vou.
Ela levantou a faca e cortou fora o chifre do deus. O Bronze Celestial cortou como se fosse barro molhado. Aqueloo gritou de raiva. Antes que ele pudesse se recuperar, Piper se levantou em suas costas com o chifre em uma mão e a adaga na outra. Ela saltou de suas costas.
— Jason — ela gritou.
Graças aos deuses, ele entendeu. Uma rajada de vento a pegou e a levou em segurança até a terra. Piper caiu no chão, rolando com os cabelos presos em seu pescoço e se levantou. Um cheiro metálico encheu o ar. Ela virou-se para o rio a tempo de sua visão clarear.
BOOM! Um relâmpago agitou a água em um caldeirão fervente, cozinhando e sibilando com a eletricidade. Piper piscou havia manchas amarelas em seus olhos, o deus Aqueloo chorava e se dissolvia sob a superfície da água. Sua expressão de horror parecia estar se perguntando: Como você pôde?
— Jason, corra!
Ela ainda estava tonta e doente de medo, mas ela e Jason atravessaram a floresta.
Enquanto subiam a colina, ela mantinha o chifre do touro em seu peito. Piper percebeu que estava chorando, embora não soubesse se era de medo, alívio ou vergonha pelo que tinha feito para o velho deus do rio.
Eles não desaceleraram até chegar ao topo da colina.
Piper se sentia boba, mas continuou correndo e chorando e contou o que tinha acontecido a Jason enquanto ele estava lutando debaixo d'água.
— Piper, você não tinha escolha — ele colocou a mão em seu ombro. — Você salvou minha vida.
Ela enxugou os olhos e tentou se controlar. O sol estava quase no horizonte. Eles tinham que voltar a Hércules rapidamente ou os seus amigos iriam morrer.
— Aqueloo a obrigou — Jason continuou. — Além disso, eu duvido que o raio tenha matado ele. Ele é um deus antigo, você teria que destruir o seu rio para destruí-lo e ele pode viver sem um chifre. Se você teve que mentir sobre não dar a Hércules, bem...
— Eu não estava mentindo.
Jason olhou para ela.
— Pipes... não temos outra escolha. Hércules vai matar...
— Hércules não merece isso — Piper não sabia muito bem de onde essa raiva estava vindo, mas ela nunca tinha sentido tanta certeza em sua vida.
Hércules era um idiota, egoísta e amargo. Ele tinha machucado muitas pessoas e queria continuar machucando. Talvez tenha tido algumas experiências ruins. Talvez os deuses o tivessem chutado. Mas isso não o desculpava. Um herói não podia controlar os deuses, mas ele devia se controlar.
Jason nunca seria assim. Ele nunca iria culpar os outros por seus problemas ou deixar um rancor ser mais importante do que fazer a coisa certa. Piper não ia repetir a história de Dejanira. Ela não iria concordar com Hércules só porque ele era bonito, forte e assustador. Ele não podia conseguir o que queria desta vez – não depois de ameaçar suas vidas e enviá-los para fazer Aqueloo infeliz por causa de uma maldade de Hera. Hércules não merecia um chifre de abundância. Piper ficaria com ele em vez disso.
— Eu tenho um plano.
Ela disse a Jason o que fazer. Ela nem percebeu que estava usando charme até ver que seus olhos estavam vidrados.
— Faço tudo o que você disser — ele prometeu. Então ele piscou algumas vezes. — Nós vamos morrer, mas eu estou dentro.

Hércules esperava exatamente onde ele estava antes.
Ele estava olhando para o Argo II, ancorado entre os pilares com o pôr do sol por trás dele. O navio parecia bem, mas o plano de Piper estava começando a deixá-la louca.
Muito tarde para reconsiderar. Ela já tinha enviado uma mensagem de Íris para Leo. Jason estava preparado. E, ao ver Hércules, novamente, ela se sentia mais certa do que nunca que não podia dar a ele o que queria.
Hércules não se alegrou exatamente quando viu Piper trazendo o chifre do touro, mas sua expressão carrancuda suavizou.
— Bom — disse ele. — É isso aí. Nesse caso, você está livre para ir.
Piper olhou para Jason.
— Você ouviu. Ele nos deu permissão — ela virou-se para o deus. — Isso significa que o nosso navio será capaz de passar para o Mediterrâneo?
— Sim, sim — Hércules estalou os dedos. — Agora, o chifre.
— Não.
O deus franziu a testa.
— Desculpe-me?
Ela ergueu a cornucópia. Desde que tinha cortado da cabeça de Aqueloo, o chifre estava oco, tornando-se liso e escuro no interior. Não parecia mágico, mas Piper estava contando com seu poder.
— Aqueloo estava certo — disse ela. — Você é sua maldição tanto quanto ele é para você. Você é uma vergonha para um herói.
Hércules a olhou como se ela estivesse falando em japonês.
— Você percebe que eu poderia matá-la com um movimento do meu dedo? Eu poderia jogar a minha clava no seu navio e cortar diretamente através de seu casco. Eu poderia...
— Você poderia calar a boca — disse Jason. Ele sacou a espada. — Talvez Zeus seja diferente de Júpiter. Porque eu não iria tolerar um irmão que age como você.
As veias no pescoço de Hércules viraram tão roxas como suas vestes.
— Você não será o primeiro semideus que eu já matei.
— Jason é melhor do que você — Piper falou. — Mas não se preocupe, nós não vamos lutar com você. Nós vamos sair desta ilha com o chifre. Você não merece isso como um prêmio. Eu vou mantê-lo e lembrar-me de como não ser como certos semideuses e recordarei do pobre Aqueloo e de Dejanira.
As narinas do deus estavam queimando.
— Não mencione este nome! Você não pode pensar que eu estou preocupado com o seu namorado insignificante. Ninguém é mais forte do que eu!
— Eu não disse mais forte — Piper corrigiu-o. — Eu disse que ele é melhor.
Piper apontou o chifre na boca de Hércules. Ela largou seu ressentimento, sua dúvida e a raiva que ela estava abrigando desde o Acampamento Júpiter. Concentrou-se em todas as coisas boas que ela compartilhou com Jason Grace: subir no Grand Canyon, caminhar na praia no Acampamento Meio-Sangue de mãos dadas e cantando juntos, vendo as estrelas, sentados ao lado dos campos de morango juntos nas tardes preguiçosas e ouvir os sátiros tocar suas flautas. Ela pensou em um futuro em que os gigantes tinham sido derrotados, Gaia estava dormindo e eles viveriam felizes juntos – nenhuma inveja, nenhum monstro livre para batalhar. Ela encheu seu coração com esses pensamentos e sentiu a cornucópia esquentar.
O chifre explodiu em uma enxurrada de alimentos tão poderosos quanto o rio de Aqueloo. Uma torrente de presuntos frescos e defumados, frutas, produtos de panificação, enterrando Hércules completamente. Piper não entendia como todas essas coisas poderiam passar pela entrada do chifre, mas pensou que os presuntos eram particularmente apropriados.
Quando já tinha vomitado guloseimas suficientes para encher uma casa, o chifre parou. Piper ouviu Hércules gritando e lutando em algum lugar embaixo. Aparentemente, mesmo o deus mais forte do mundo poderia ser pego de surpresa quando enterrado sob produtos frescos.
— Vá! — disse Jason, que tinha esquecido a sua parte do plano e estava olhando com espanto para a pilha de frutas. — Vamos!
Ele agarrou a cintura de Piper e convocou o vento. Eles dispararam longe da ilha rapidamente, e Piper quase teve traumatismo cervical, mas era cedo para verificar.
À medida que a ilha recuava de vista, a cabeça Hércules apareceu acima do monte de guloseimas. Metade de um coco estava preso em sua cabeça como um capacete de guerra.
— Matar! — ele gritou, como se ele tivesse praticando para dizer isso muitas vezes.
Jason desceu no convés do Argo II. Felizmente, Leo tinha feito sua parte. Os remos do navio já estavam no modo aéreo. A âncora foi puxada para cima. Jason convocou um vento tão forte que empurrou-os para o céu, enquanto Percy enviou uma onda de dez metros de altura contra a costa, derrubando Hércules uma segunda vez em uma cascata de água do mar e abacaxis.
No momento em que o deus se recuperou, ele começou a arremessar cocos para eles lá de baixo, o Argo II já navegando por entre as nuvens acima do Mediterrâneo.