quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Capitulo XXXI - Hazel






HAZEL PENSOU EM CORRER DALI.
Ela não confiava na rainha Hylla e certamente não confiaria na outra senhora, Otrera. Somente três guardas foram deixadas na sala. Todas elas mantiveram distância.
Hylla estava armada somente com uma adaga. No subterrâneo profundo, Hazel poderia causar um terremoto na sala do trono, ou convocar uma pilha de xisto ou ouro. Se pudesse causar uma distração, poderia escapar e encontrar seus amigos.
Infelizmente ela tinha visto como as Amazonas lutavam. Mesmo a rainha tendo somente uma adaga, Hazel suspeitava que ela pudesse usá-la muito bem. E Hazel estava desarmada. Elas não a tinham revistado, o que significava que felizmente não tinham lhe tomado a lenha de Frank no bolso do seu casaco, mas sua espada se fora.
A rainha pareceu ler seus pensamentos.
— Esqueça sobre a fuga. Claro, te respeitaríamos por tentar. Mas teríamos que matá-la.
— Obrigada pelo aviso.
Hylla encolheu os ombros.
— É o mínimo que posso fazer. Acredito que você veio em paz. Creio que Reyna lhe enviou.
— Mas você não irá ajudar?
A rainha estudou o colar que ela tinha tirado de Percy.
— É complicado — disse. — As Amazonas sempre tiveram uma relação complicada com outros semideuses, especialmente semideuses masculinos. Lutamos pelo rei Príamo na guerra de Tróia, mas Aquiles matou nossa rainha, Penthesilea. Alguns anos antes disso, Hércules roubou o cinto da rainha Hipólita – este cinto que estou usando. Levou séculos para recuperá-lo. Bem antes disso, no início da nação Amazona, um herói chamado Belerofonte matou a nossa primeira rainha, Otrera.
— Isso significa que a senhora...
— ...que acabou de sair, sim. Otrera, nossa primeira rainha, filha de Ares.
— Marte?
Hylla fez uma careta azeda.
— Não. Definitivamente Ares. Otrera viveu muito antes de Roma, numa época em que todos os semideuses eram gregos. Infelizmente, alguns de nossos guerreiros preferem os velhos modos. Filhos de Ares... sempre são os piores.
— Os velhos modos...
Hazel tinha ouvido boatos sobre os semideuses gregos. Octavian acreditava que eles existiam e que conspiravam secretamente contra Roma. Mas ela nunca realmente tinha acreditado, mesmo quando Percy veio para o acampamento. Ele simplesmente não iria golpeá-la por causa das conspirações gregas.
— Você quer dizer que as Amazonas são uma mistura... Greco-romana?
Hylla continuou a examinar o colar – as contas de argila, a placa de probatio. Ela deslizou o anel de prata de Reyna pelo cordão e colocou-o em seu próprio dedo.
— Suponho que eles não ensinem sobre isso no Acampamento Júpiter. Os deuses possuem muitos aspectos. Marte, Ares. Plutão, Hades. Sendo imortais, tendem a acumular personalidades. São greco-romanos, americanos... uma combinação de todas as culturas que os influenciaram durante a eternidade. Está me entendendo?
— Eu... eu não tenho certeza. Todas as Amazonas são semideusas?
A rainha estendeu as mãos.
— Todas nós temos algum sangue imortal, mas muitas de minhas guerreiras são descendentes de semideuses. Algumas foram Amazonas por incontáveis gerações. Outras são filhas de deuses menores. Kinzie, aquela que te trouxe aqui, é filha de uma ninfa. Ah... ela está aqui agora.
A menina de cabelo ruivo se aproximou da rainha e se curvou.
— Os prisioneiros estão presos em segurança — Kinzie informou. — Mas...
— Sim? — A rainha perguntou.
Kinzie engoliu como se tivesse um gosto ruim em sua boca.
— Otrera certificou-se que suas seguidoras vigiassem as celas. Sinto muito, minha rainha.
Hylla franziu os lábios.
— Não importa. Fique conosco, Kinzie. Estávamos falando sobre a nossa, hã, situação.
— Otrera — Hazel supôs. — Gaia a trouxe dos mortos para lançar as Amazonas em uma guerra civil.
A rainha expirou.
— Se esse era o plano dela, está funcionando. Otrera é uma lenda entre nosso povo. Ela planeja voltar ao trono e conduzir-nos a uma guerra contra os romanos. Muitas de minhas irmãs irão segui-la.
— Nem todas — Kinzie resmungou.
— Mas Otrera é um espírito! — Hazel disse. — Ela nem mesmo é...
— Real? — A rainha estudou Hazel cuidadosamente. — Trabalhei com a feiticeira Circe durante muito tempo. Conheço uma alma devolvida quando vejo uma. Quando você morreu, Hazel? Mil novecentos e vinte? Mil novecentos e trinta?
— Mil novecentos e quarenta e dois — Hazel respondeu. — Mas... mas eu não fui mandada por Gaia. Voltei para detê-la. Esta é minha segunda chance.
— Sua segunda chance... — Hylla olhou para as fileiras de empilhadeiras de batalha, agora vazias. — Eu sei sobre segundas chances. Aquele menino, Percy Jackson, ele destruiu minha antiga vida. Se você me visse antigamente, não me reconheceria. Eu usava vestidos e maquiagem. Era uma secretária glorificada. Uma maldita boneca Barbie.
Kinzie fechou a mão sobre o peito, apontando três dedos para o coração, como o gesto vodu que a mãe de Hazel usava para afastar mal olhado.
— A ilha de Circe era um lugar seguro para Reyna e para mim — a rainha continuou. — Éramos as filhas da deusa da guerra, Belona. Eu queria proteger Reyna de toda essa violência. Então Percy Jackson soltou os piratas. Eles nos sequestraram, e Reyna e eu aprendemos a ser duras. Descobrimos que éramos boas com armas. Nos últimos quatro anos eu quis matar Percy Jackson pelo que ele nos fez passar.
— Mas Reyna tornou-se pretora do Acampamento Júpiter — Hazel disse. — Você se tornou a rainha das Amazonas. Talvez esse fosse seu destino.
Hylla tocou o colar em sua mão.
— Eu não posso ser rainha por muito tempo...
— Você prevalecerá! — Kinzie insistiu.
— Como o decreto dos Destinos — disse Hylla sem entusiasmo. — Você vê Hazel, Otrera desafiou-me para um duelo. Cada Amazona tem esse direito. Hoje à meia-noite, iremos batalhar pelo trono.
— Mas... você é boa, certo? — Hazel perguntou.
Hylla conseguiu dar um sorriso seco.
— Boa, sim, mas Otrera é a fundadora das Amazonas.
— Ela é muito mais velha. Talvez esteja sem prática, estando morta por tanto tempo.
— Espero que tenha razão, Hazel. Veja, é uma luta até a morte...
Ela pareceu se afundar por dentro. Hazel lembrou o que Fineu tinha dito em Portland – como ele tinha conseguido um atalho para voltar da morte, graças a Gaia. Se lembrou das górgonas tentando se reformar no Tibre.
— Mesmo que você a mate — disse Hazel — Ela voltará. Enquanto Tânatos estiver acorrentado, ela não morrerá.
— Exatamente — Hylla concordou. — Otrera já nos falou que não pode morrer. Assim, mesmo que eu consiga derrotá-la hoje à noite, amanhã simplesmente ela irá voltar e me desafiará novamente. Não há nenhuma lei contra desafiar a rainha várias vezes. Ela pode insistir em lutar comigo todas as noites, até que finalmente me derrote. Eu não posso vencer.
Hazel olhou para o trono. Imaginou Otrera lá, sentada com suas vestes finas e seu cabelo prateado, ordenando suas guerreiras a atacar Roma. Ela imaginou a voz de Gaia enchendo a caverna.
— Tem que haver um jeito. As Amazonas não têm poderes especiais... ou algo parecido?
— Não mais do que outros semideuses — Hylla disse. — Nós podemos morrer, como qualquer mortal. Há um grupo de arqueiras que seguem a deusa Ártemis. Elas são confundidas muitas vezes com as Amazonas, mas as Caçadoras abandonaram a companhia dos homens em troca de uma vida quase eterna. Nós, Amazonas... preferimos viver a vida ao máximo. Amamos, lutamos, morremos.
— Eu achava que vocês odiavam os homens.
Hylla e Kinzie riram juntas.
— Odiar os homens? — disse a rainha. — Não, não, gostamos de homens. Nós apenas queremos mostrar quem está no comando. Mas isso não vem ao caso. Se eu pudesse, reuniria minhas tropas e as colocaria para ajudar minha irmã. Infelizmente meu poder é frágil. Quando eu morrer em combate – e isso é apenas uma questão de tempo – Otrera será a rainha. Ela irá marchar para o Acampamento Júpiter com nossas forças, mas não para ajudar minha irmã. Ela irá se juntar ao gigantesco exército.
— Temos que impedi-la — Hazel pediu. — Eu e meus amigos matamos Fineu, um dos servos de Gaia em Portland. Talvez possamos ajudar.
A rainha sacudiu a cabeça.
— Você não pode interferir. Como rainha, devo lutar minhas próprias batalhas. Além disso, seus amigos estão presos. Se eu deixá-los ir, parecerei fraca. Ou executo os três como invasores, ou Otrera o fará, quando se tornar rainha.
O coração de Hazel gelou.
— Então acho que ambas estamos mortas. Pela segunda vez.
Na jaula de canto, o garanhão Arion relinchou furiosamente. Ele empinou e bateu seus cascos de encontro às grades.
— O cavalo parece sentir seu desespero — disse a rainha. — Interessante. Ele é imortal, sabe... filho de Netuno e de Ceres.
Hazel piscou.
— Dois deuses tiveram um cavalo como filho?
— É uma longa história.
— Ah — o rosto de Hazel ficou quente de vergonha.
— Ele é o cavalo mais rápido do mundo — Hylla disse. — O pégaso é famoso por suas asas, mas Arion corre como o vento, sobre a terra ou sobre o mar. Nenhuma criatura é mais rápida. Levamos anos para capturá-lo... um dos nossos maiores prêmios. Mas ele não nos fez nenhum bem. O cavalo não permite que ninguém o monte. Acho que ele odeia Amazonas. E é dispendioso para se manter. Come qualquer coisa, mas prefere ouro.
A parte de trás do pescoço de Hazel formigava.
— Ele come ouro?
Lembrou-se do cavalo que a seguiu há muito tempo atrás no Alasca. Ela tinha pensado que ele estava comendo as pepitas de ouro que ficavam por onde ela passava. Ela ajoelhou-se e apertou sua mão de encontro ao chão.
Imediatamente a pedra rachou. Um pedaço de ouro do tamanho de uma ameixa brotou da terra. Hazel ficou de pé, examinando seu prêmio.
Hylla e Kinzie a encararam.
— Como você...? — engasgou a rainha. — Hazel, tenha cuidado!
Hazel aproximou-se da jaula do garanhão. Ela colocou a mão entre as barras e Arion comeu vagarosamente o grosso pedaço de ouro na palma de sua mão.
— Incrível! — Kinzie disse. — A última garota que tentou isso...
— Agora tem um braço de metal — terminou a rainha. Ela estudou Hazel com um novo interesse, como se decidisse se deveria dizer mais ou não. — Hazel... nós passamos anos caçando esse cavalo. Foi predito que a mulher guerreira mais corajosa domaria Arion algum dia e o montaria para a vitória, conduzindo-nos para uma nova era de prosperidade para as Amazonas. Contudo, nenhuma Amazona pode tocar nele, muito menos controlá-lo. Mesmo Otrera, tentou e falhou. Outras duas morreram tentando montá-lo.
Isso provavelmente deveria ter preocupado Hazel, mas ela não poderia imaginar esse lindo cavalo lhe ferindo. Passou sua mão através das barras outra vez, e afagou o nariz de Arion. Ele aninhou o braço dela, murmurando alegremente, como se perguntasse: Mais ouro? Humm.
— Gostaria de alimentá-lo mais, Arion — Hazel olhou de relance para a rainha. — Mas acho que estou prestes a ser executada.
A rainha Hylla olhou da Hazel para o cavalo, e para Hazel novamente.
— Inacreditável.
— A profecia — Kinzie disse. — É possível...?
Hazel quase podia ver as engrenagens girando dentro da cabeça da rainha e formulando um plano.
— Você tem coragem, Hazel Levesque. E parece que Arion te escolheu. Kinzie?
— Sim, minha rainha?
— Você disse que as seguidoras de Otrera estão protegendo as celas?
 Kinzie assentiu com a cabeça.
— Eu deveria ter previsto isso. Sinto muito.
— Não, está tudo bem — os olhos da rainha brilharam da mesma maneira que o elefante Hannibal faz, quando está prestes a destruir uma fortaleza. — Seria constrangedor para Otrera, se suas seguidoras falhassem em seus deveres, por exemplo, sendo superadas por estrangeiros e uma fuga da prisão ocorresse.
Kinzie começou a sorrir.
— Sim, minha rainha. Muito vergonhoso.
— Naturalmente — Hylla continuou. — Nenhuma das minhas guardas saberia nada sobre isso. Kinzie nunca permitiria uma fuga.
— Certamente não — concordou Kinzie.
— E nós não poderíamos ajudá-las — a rainha levantou as sobrancelhas para Hazel. — Mas se de alguma forma você dominar as guardas e libertar os seus amigos... e se, por exemplo, você tomar um dos cartões de proteção das Amazonas...
— Com um clique de adesão habilitado — disse Kinzie — Abrirá as celas da prisão com um clique.
— Se... os deuses permitissem e algo como isso acontecesse — continuou a rainha. — Você encontraria as armas de seus amigos no posto de guarda, ao lado das celas... E quem sabe? Se você de alguma forma conseguisse voltar a essa sala do trono, quando eu estivesse fora me preparando para o duelo... bem, como mencionei, Arion é um cavalo muito rápido. Seria uma vergonha se ele fosse roubado e usado para uma fuga.
Hazel sentiu como se tivesse sido ligada a uma tomada na parede. Eletricidade percorria por todo seu corpo. Arion... Arion poderia ser dela. Tudo que ela teria que fazer era salvar seus amigos e lutar contra uma nação inteira de guerreiras altamente treinadas.
— Rainha Hylla — ela disse — Eu... eu não sou muito boa lutadora.
— Oh, há muitos tipos de luta, Hazel. Tenho a sensação que você é muito engenhosa. E se a profecia estiver correta, você vai ajudar a nação Amazona a alcançar a prosperidade. Se tiver sucesso em sua procura para libertar Tânatos, por exemplo...
— ...então Otrera não voltaria, se fosse morta — Hazel completou — Você só teria que derrotá-la... hum, todas as noites até que tenhamos sucesso.
A rainha assentiu com seriedade.
— Parece que ambas temos tarefas impossíveis à nossa frente.
— Mas você está confiando em mim. E eu confio em você. Irá ganhar quantas vezes for preciso.
Hylla estendeu o colar de Percy e colocou nas mãos de Hazel.
— Espero que tenha razão — disse a rainha. — Mas quanto mais cedo você conseguir, melhor, certo?
Hazel colocou o colar no bolso. Sacudiu a mão da rainha, querendo saber se era possível fazer uma amiga tão rápido, especialmente uma que estava prestes a lhe enviar para a prisão.
— Essa conversa nunca aconteceu — Hylla falou para Kinzie. — Leve nossa prisioneira para as celas e entregue-a às guardas de Otrera. E, Kinzie, certifique-se que você saia antes que qualquer coisa infeliz aconteça. Não quero que minha leal seguidora seja responsabilizada por uma fuga da prisão.
A rainha sorriu maliciosamente, e pela primeira vez, Hazel sentiu ciúmes de Reyna. Desejou ter uma irmã como esta.
— Adeus, Hazel Levesque — disse a rainha. — Se ambas morrermos hoje à noite... bem, estou feliz de tê-la conhecido.