quinta-feira, 17 de outubro de 2013

XXII - Leo






ELES ESTAVAM NUM PÁTIO ANTIGO, como um mosteiro. Paredes de tijolos vermelhos estavam cobertas de vinhas. Magnólias grandes tinham rachado o pavimento. O sol batia e a umidade era cerca de duzentos por cento, mais rígidas do que em Houston. Em algum lugar nas proximidades, Leo cheirava fritura de peixe. Lá em cima, a cobertura de nuvens era baixa e cinza, listrado como uma pele de tigre.
O pátio era do tamanho de uma quadra de basquete. Havia um campinho de futebol vazio em um canto, na base de uma estátua da Virgem Maria. Ao longo dos lados havia edifícios de janelas abertas. Leo podia ver lampejos de movimento dentro, mas estava estranhamente silencioso. Ele não viu nenhum sinal de ar condicionado, o que significa que devia estar mil graus lá.
— Onde estamos? — perguntou.
— Minha velha escola — disse Hazel ao lado dele. — Academia St. Agnes para Crianças de Cor e Indígenas.
— Que tipo de nome...?
Ele se virou para Hazel e gritou. Ela era um fantasma, apenas uma silhueta de vapor no ar úmido. Leo olhou para baixo e percebeu que seu próprio corpo se transformara em neblina também.
Tudo ao seu redor parecia sólido e real, mas ele era um espírito. Depois de ter sido possuído por um eidolon há três dias, não gostou da sensação. Antes que pudesse fazer perguntas, um sinal tocou dentro: não um som eletrônico moderno, mas um antiquado zumbido de martelo sobre o metal.
— Esta é uma memória — disse Hazel — então ninguém vai nos ver. Olha, aqui vamos nós.
— Nós?
De cada porta, dezenas de crianças derramaram-se no pátio, gritando e empurrando umas as outras. Eram em sua maioria afro-americanas, com uma pitada de crianças de aparência hispânica, algumas jovens no jardim de infância e outras tão velhas quanto estudantes do ensino médio. Leo pôde deduzir que aquilo era no passado, porque todas as meninas usavam vestidos e sapatos de couro com fivela. E os meninos usavam camisas brancas e calças de colarinho presas por suspensórios. Muitos usavam bonés como de jóqueis.
Algumas crianças almoçavam. Muitas não. Suas roupas eram impecáveis, mas desgastadas e desbotadas. Alguns tinham buracos nos joelhos de suas calças, ou sapatos com os saltos desmoronando.
Umas meninas começaram a pular corda com um velho pedaço de varal. Os mais velhos jogavam uma bola de beisebol surrada para frente e pra trás. Crianças com almoços sentavam juntas, comiam e conversaram.
Ninguém prestava atenção em Hazel ou no Leo Fantasma.
Então Hazel – Hazel do passado – entrou no pátio. Leo a reconheceu sem problemas, embora ela parecesse cerca de dois anos mais jovem que agora. Seu cabelo estava preso para trás. Seus olhos de ouro corriam ao redor do pátio, inquietos. Ela usava um vestido escuro, ao contrário das outras meninas usando algodão branco ou estampas florais em tom pastel, então se destacava como uma pessoa de luto em um casamento.
Ela agarrou um saco de lona do almoço e moveu-se ao longo da parede, como se tentasse não ser notada.
Não funcionou. Um menino gritou:
― Menina bruxa!
Ele se arrastou em direção a ela, fechando-a em um canto. O menino poderia ter 14 ou 19 anos. Era difícil dizer, porque era tão grande e alto, facilmente o maior cara do parque infantil. Leo imaginou que ele tinha repetido algumas vezes. Usava uma camisa suja com cor dos panos de graxa, calças de lã surradas (com este calor, elas não poderiam ter sido confortáveis) e estava descalço. Talvez os professores estivessem aterrorizados em insistir que o garoto usasse sapatos ou talvez ele simplesmente não tivesse.
— Esse é Rufus — disse Hazel Fantasma com desgosto.
— Sério? De jeito nenhum que o nome dele é Rufus — Leo disse.
— Vamos lá — disse Hazel Fantasma.
Ela se dirigiu para o confronto. Leo a seguiu. Ele não flutuava normalmente, mas tinha montado um Segway uma vez e a experiência tinha sido parecida com aquela. Ele simplesmente se inclinou na direção que queria ir e deslizou.
O grande garoto Rufus tinha uma cara achatada, como se passasse a maior parte de seu tempo como a cara no pavimento da calçada. Seu cabelo era cortado tão plano na parte superior, de modo que os aviões em miniatura poderiam usar sua cabeça como pista de pouso.
Rufus estendeu a mão.
— Almoço.
A Hazel do passado não protestou. Ela entregou sua bolsa de lona como se essa ocorrência fosse diária. Algumas garotas mais velhas chegaram mais perto para assistir a diversão. Uma riu com Rufus.
— Você não quer comer isso — alertou. — Provavelmente é veneno.
— Você está certa — disse Rufus. — É a sua mãe bruxa que faz isso, Levesque?
— Ela não é uma bruxa — Hazel murmurou.
Rufus deixou cair o saco e pisou sobre ele, esmagando o conteúdo com seu calcanhar.
— Você pode tê-lo de volta. No entanto, eu quero um diamante. Ouvi que sua mãe pode fazer a partir do nada. Me dê um diamante.
— Eu não tenho diamantes — disse Hazel. — Vá embora.
Rufus cerrou os punhos. Leo tinha ido a inúmeras escolas difíceis e lares adotivos para saber perceber quando as coisas estavam prestes a ficar feias. Ele queria entrar e ajudar Hazel, mas ele era um fantasma. Além disso, tudo tinha acontecido há décadas.
Então, outro garoto tropeçou à luz do sol.
Leo conteve o fôlego. O menino parecia exatamente com ele.
— Você vê? — perguntou a Hazel Fantasma.
O falso Leo era da mesma altura que o Leo original, era pequeno e tinha a mesma energia nervosa – pressionando os dedos contra as calças, escovando sua camisa de algodão branco, ajustando o boné de jóquei em seu cabelo castanho encaracolado. (Realmente, Leo pensou, pessoas baixas não devem usar bonés de jóquei a menos que fossem jóqueis.)  O Leo falso tinha o mesmo sorriso diabólico que saudava Leo sempre que ele olhava em um espelho – uma expressão que fazia professores imediatamente gritar: Nem pense nisso! e o punham na primeira fila.
Aparentemente, Leo falso tinha acabado de ser repreendido por um professor. Ele estava segurando um boné de burro – um cone de papelão de honestidade e bondade que dizia BURRO. Leo pensou que aquilo era algo que você só via em desenhos animados.
Ele podia entender por que Leo falso não estava usando. Já era ruim o suficiente ele estar com um boné de jóquei. Com aquele cone na cabeça, pareceria um gnomo. Algumas crianças afastaram-se quando o Leo falso entrou em cena. Outros empurraram uns aos outros e correram em direção a ele como se estivessem esperando um show.
Enquanto isso, Rufus ainda estava tentando tirar um diamante de Hazel, alheio  chegada do falso Leo.
— Vamos, garota — Rufus pairava sobre Hazel com os punhos cerrados — me dê!
Hazel apertou-se contra a parede. De repente, o chão a seus pés fez um estalo, como um galho quebrando. Um diamante perfeito do tamanho de uma cereja brilhava entre seus pés.
— Há! — Rufus latiu quando o viu.
Ele começou a inclinar-se para baixo, mas Hazel gritou:
— Não, por favor.
Como se ela estivesse realmente preocupada com o grande capanga. Foi quando o Leo falso se aproximou.
Aí vem, pensou Leo. O falso Leo vai arrebentá-lo como o Treinador Hedge – estilo jiu-jitsu e salvar o dia. Em vez disso, o Leo Falso colocou o topo do cone de burro na boca como um megafone e gritou:
— Corta!
Ele disse com tanta autoridade que todas as outras crianças momentaneamente congelaram. Mesmo Rufus se ajeitou e recuou em confusão.
Um dos meninos riu baixinho:
— Sammy, Sammy.
Sammy... Leo estremeceu. Quem diabos era esse garoto?
Sammy/Leo falso foi até Rufus com seu chapéu de burro na mão, olhando com raiva.
— Não, não, não! — anunciou ele, acenando com a mão livre descontroladamente para as outras crianças, que estavam se reunindo para ver o entretenimento.
Sammy virou para Hazel.
— Miss Lamarr, sua fala é... — Sammy olhou em volta, exasperado. — Script! Qual é a fala de Hedy Lamarr?
— Não, por favor, seu vilão! — Um dos meninos falou.
— Obrigado! — Sammy disse. — Miss Lamarr, você deveria dizer, Não, por favor, seu vilão! E você, Clark Gable...
O pátio inteiro caiu na gargalhada. Leo sabia vagamente que Clark Gable era um velho ator, mas não sabia muito mais. Aparentemente, a ideia de que Clark Glabe poderia ser Rufus cabeça plana foi hilário para as crianças.
— Sr. Gable.
— Não! — Uma das meninas gritou. — Faça-o Gary Cooper.
Mais risadas. Rufus olhou como se estivesse prestes a explodir. Ele cerrou os punhos como se quisesse bater em alguém, mas não poderia atacar toda a escola. Claramente, ele odiava ser o centro das atenções, mas sua mente um pouco lenta não conseguia entender o que Sammy estava fazendo.
Leo balançou a cabeça em apreciação. Sammy era como ele. Leo tinha feito o mesmo tipo de coisa para intimidações por anos.
— Certo! — Sammy gritou imperiosamente. — Sr. Cooper, você diz: Ah, mas o diamante é meu, minha querida traiçoeira! E então recolha o diamante assim!
— Sammy, não! — Hazel protestou, mas Sammy pegou a pedra e colocou-a em seu bolso em um movimento suave.
Ele virou-se para Rufus.
— Eu quero emoção! Eu quero que as senhoras desmaiem na audiência! Senhoras, o Sr. Cooper as fizeram desmaiar agora?
— Não — várias das meninas gritaram de volta.
— Está vendo? — Sammy chorou. — Agora, do início — ele gritou em seu chapéu de burro. — Ação!
Rufus estava começando a superar a sua confusão. Ele deu um passo em direção a Sammy e disse:
— Valdez, eu vou...
O sino tocou. As crianças invadiram as portas. Sammy puxou Hazel fora do caminho dos pequenos – que agiram como se estivessem dando salários a Sammy – conduzindo Rufus junto com eles, então ele foi arrastado pra dentro por uma maré de jardim de infância.
Logo Sammy e Hazel estavam sozinhos, exceto pelos fantasmas.
Sammy pegou o almoço de Hazel e bateu, fez um show de tirar a poeira do saco de lona e apresentou a ela com uma profunda reverência, como se fosse sua coroa.
— Miss Lamarr.
Hazel do passado pegou o almoço em ruínas. Parecia que ela estava prestes a chorar, mas Leo não poderia dizer se era de alívio, miséria ou admiração.
— Sammy... Rufus vai matar você.
— Ah, ele sabe o que acontece se arrumar confusão comigo — Sammy jogou o cone de burro em cima de seu boné de jóquei. Ele ficou de pé e estendeu seu peito magro. O chapéu de burro caiu.
Hazel riu.
— Você é ridículo.
— Bem, obrigado, Miss Lamarr.
— Não há de quê, meu querido traiçoeiro.
O sorriso de Sammy vacilou. O ar tornou-se desconfortavelmente carregado. Hazel olhou para o chão.
— Você não deveria ter tocado no diamante. É perigoso.
— Ah, vamos lá — disse Sammy. — Não é para mim!
Hazel estudou-o cautelosamente, como se quisesse acreditar.
— Coisas ruins podem acontecer. Você não deveria...
— Eu não vou vendê-lo — disse Sammy. — Eu prometo! Vou mantê-lo como um símbolo de seu sabor.
Hazel forçou um sorriso.
— Eu acho que você quer dizer símbolo de meu favor.
— Aí está você! Devemos ir. É hora da nossa próxima cena: Miss Lamarr quase morre de tédio na aula de Inglês.
Sammy estendeu seu braço como um cavalheiro, mas Hazel empurrou-o alegremente.
— Ainda bem que você vai estar lá, Sammy.
— Miss Lamarr, eu vou sempre estar lá por você — ele disse brilhantemente.
Os dois correram de volta a escola.
Leo se sentia mais fantasma do que nunca. Talvez ele tivesse sido realmente um eidolon toda a sua vida, porque tinha acabado de ver que esse garoto deveria ter sido o Leo real. Ele era mais esperto, mais frio e engraçado. Flertou tão bem com Hazel que obviamente havia roubado seu coração.
Não é de admirar que Hazel tivesse olhado para Leo tão estranhamente quando eles se conheceram. Não é de admirar que ela falara de Sammy com tanto sentimento. Mas Leo não era Sammy, não mais do que o cabeça plana Rufus era Clark Gable.
— Hazel — disse ele. — E-eu não...
A escola se dissolveu em uma cena diferente.
Hazel e Leo ainda eram fantasmas, mas agora eles estavam na frente de uma casa, ao lado de uma vala de drenagem cheio de ervas daninhas. Havia um grupo de bananeiras no quintal. Debruçado nos degraus, um rádio antigo tocava um conjunto de músicas e na varanda sombreada, sentado em uma cadeira de balanço, havia um homem magro e velho que olhava para o horizonte.
— Onde estamos? — Hazel perguntou. Ela ainda era apenas vapor, mas sua voz estava cheia de alarme. — Esta não é minha vida!
Leo sentiu como se seu próprio eu fantasma estivesse engrossando, se tornando mais real. Este lugar parecia estranhamente familiar.
— É Houston — ele percebeu. — Eu conheço esta vista. Essa vala de drenagem... Este é o velho bairro da minha mãe, onde ela cresceu. Hobby Airport, algo assim.
— Esta é a sua vida? — disse Hazel. — Eu não entendo! Como?
— Você está me perguntando? — Leo exigiu.
De repente, o velho murmurou:
— Ah, Hazel...
Um choque subiu a coluna de Leo. Os olhos do velho ainda estavam fixos no horizonte. Como ele sabia que eles estavam aqui?
— Eu acho que acabou o nosso tempo — o velho continuou sonhador. — Bem...
Ele não terminou o pensamento.
Hazel e Leo ficaram muito quietos. O velho não fez nenhum sinal de que os viu ou ouviu. Ficou claro para Leo que o velho estava falando para si mesmo. Mas, então, por que ele disse o nome de Hazel?
Ele tinha a pele coriácea, cabelos brancos encaracolados e as mãos nodosas, como se tivesse passado a vida inteira trabalhando em uma oficina mecânica. Ele usava uma camisa amarela pálida, impecável de limpa, com suspensórios, uma calça cinza e sapatos pretos polidos.
Apesar de sua idade, seus olhos eram nítidos e claros. Ele sentou-se com uma espécie de dignidade. Ele perecia estar em paz – mesmo divertido, como se estivesse pensando: maldito seja, eu vivi esse tempo? Legal!
Leo tinha certeza de que nunca vira esse homem antes. Então, por que ele parecia familiar? Depois percebeu que o homem estava batendo com os dedos no braço da cadeira, mas a batida não era aleatória. Ele estava usando código Morse, assim como a mãe de Leo costumava fazer com ele... E o velho homem estava batendo a mesma mensagem: eu te amo.
A porta de tela abriu. Uma mulher jovem saiu. Ela usava jeans e uma blusa turquesa. Seu cabelo estava cortado como em uma cunha, preto e curto. Ela era bonita, mas não delicada. Tinha musculosos braços e mãos calejadas. Como o velho homem, seus olhos castanhos brilhavam com diversão. Em seus braços havia um bebê, enrolado em um cobertor azul.
— Olha, mi hijo — disse ela para o bebê. — Este é o seu bisabuelo. Bisabuelo, você quer segurá-lo?
Quando Leo ouviu a voz dela, ele soluçou.
Era a sua mãe – só que mais jovem do que se lembrava, mas muito viva. Isso significava que o bebê em seus braços...
O velho abriu um sorriso enorme. Ele tinha dentes perfeitos, brancos como o seu cabelo. Seu rosto enrugado com linhas de sorriso.
— Um menino! Mi bebito, Leo!
— Leo? — Hazel sussurrou. — Aquele... Aquele é você? O que é bisabuelo?
Leo não conseguia encontrar sua voz. Bisavô, ele queria dizer.
O velho tomou o bebê Leo em seus braços, rindo com apreciação e fez cócegas no queixo do bebê Leo – e o Leo Fantasma finalmente entendeu o que estava vendo. De alguma forma, o poder de Hazel de revisitar o passado tinha encontrado um evento que ligava suas vidas – onde a linha do tempo de Leo tocou na de Hazel. Este velho...
— Ah... — Hazel pareceu perceber quem ele era no mesmo momento. Sua voz ficou muito pequena, à beira das lágrimas. — Oh, Sammy, não...
— Ah, o pequeno Leo — disse Sammy Valdez, que envelheceu bem em seus setenta anos. — Você vai ter que ser meu dublê, hein? Isso é o que eles chamam, eu acho. Diga a ela por mim. Eu esperava que vivêssemos juntos, mas a maldição não deixou!
Hazel soluçou.
— Gaia... Gaia me disse que ele morreu de ataque cardíaco, em 1960. Mas esse... esse não pode ser...
Sammy Valdez continuou falando com o bebê, enquanto a mãe de Leo, Esperanza, olhava com um sorriso aflito – talvez um pouco preocupada porque o bisabuelo de Leo fez uma caminhada ou um pouco triste por ele estar falando bobagem.
— Aquela senhora, Doña Callida, ela me avisou — Sammy balançou a cabeça, triste — ela disse que os grandes perigos de Hazel não iriam acontecer na minha vida. Mas eu prometi que estaria lá para ela. Você tem que dizer a ela que eu sinto muito, Leo. E ajude-a se puder.
— Bisabuelo — Esperanza disse — você deve estar cansado.
Ela estendeu os braços para levar o bebê, mas o velho abraçou-o por mais um momento. O bebê Leo parecia perfeitamente bem com ele.
— Diga a ela que eu sinto muito por vender o diamante, hein? — Sammy disse. — Eu quebrei minha promessa. Quando ela desapareceu no Alasca... Ah, há muito tempo, eu finalmente usei o diamante, me mudei para o Texas como sempre sonhei. E iniciei a minha oficina. Comecei a minha família! Era uma vida boa, mas Hazel estava certa. O diamante veio com uma maldição. Eu nunca mais a vi.
— Oh, Sammy — disse Hazel. — Não, a maldição não me afastou. Eu queria voltar. Eu morri!
O velho parecia não ouvir. Ele sorriu para o bebê e beijou-o na cabeça.
— Dou-vos a minha bênção, Leo. Primeiro bisneto homem! Tenho a sensação de que você é especial, como Hazel era. Você é mais do que um bebê normal, né? Você vai continuar por mim. Vai vê-la algum dia. Diga-lhe olá para mim.
— Bisabuelo — Esperanza disse, com um pouco mais de insistência.
— Sim, sim — Sammy riu. — El viejo loco divaga um pouco. Estou cansado, Esperanza. Você esta certa. Mas vou descansar logo. Foi uma vida boa. Faça-o crescer bem, nieta.
A cena se desvaneceu.
Leo estava em pé no convés do Argo II, segurando a mão de Hazel. O sol já tinha se posto e o navio era iluminado apenas por lanternas de bronze. Os olhos castanhos de Hazel estavam inchados de tanto chorar.
O que tinham visto era demais. O oceano inteiro arfava sob eles e por um primeiro momento Leo sentiu como se estivessem totalmente à deriva.
— Olá, Hazel Levesque — ele disse, sua voz grave.
Seu queixo tremia. Ela se virou e abriu a boca para falar, mas antes que pudesse, o navio balançou para um lado.
— Leo! — Treinador Hedge gritou.
Festus zumbia em alarme e soprou chamas para o céu noturno. O sino do navio tocou.
— Sabe esses monstros que estávamos preocupados? — Hedge gritou. — Um deles nos encontrou!