quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Capitulo XLI - Hazel






— SEU ARCO! — HAZEL GRITOU.Frank não fez perguntas. Ele largou sua mochila e deslizou o arco para fora de seu ombro.O coração de Hazel disparou. Ela não tinha pensado sobre esse solo alagadiço – pantanoso – desde antes que tinha morrido.Agora, tarde demais, se lembrou das advertências terríveis que os moradores tinham dado a ela. Lodo pantanoso e plantas em decomposição faziam uma superfície que parecia completamente sólida, mas era ainda pior do que areia movediça. Poderia ter seis metros de profundidade ou mais, era impossível escapar.Ela tentou não pensar no que aconteceria se fosse mais profundo que o comprimento do arco.— Segure na ponta — disse a Frank. — Não solte.Ela agarrou a outra extremidade, respirou fundo e saltou para o pântano. A terra se fechou sobre sua cabeça.Imediatamente ela foi congelada em uma memória.Não agora! Ela queria gritar. Ella disse que os apagões tinham acabado!Ah, mas minha cara, disse a voz de Gaia, isto não é um de seus apagões. Este é um presente meu.Hazel estava de volta à Nova Orleans. Ela e sua mãe estavam sentadas no parque perto de seu apartamento, fazendo um piquenique no café da manhã. Ela se lembrava disso. Tinha sete anos de idade. Sua mãe acabara de vender a primeira pedra preciosa de Hazel: um pequeno diamante. Nenhuma delas tinha ainda percebido a maldição de Hazel.A Rainha Marie estava com um humor excelente. Tinha comprado suco de laranja para Hazel e champanhe para si mesma, além de rosquinhas polvilhadas com chocolate em pó e açúcar. Ela até comprou uma caixa de lápis de cor e um bloco de papel novos para Hazel. Sentaram-se juntas, Rainha Marie estava cantarolando alegremente enquanto Hazel desenhava.O Bairro Francês acordou em torno deles, pronto para o Mardi Grãs. Bandas de jazz ensaiavam. Carros alegóricos estavam sendo decorados com flores recém-colhidas. As crianças riam e perseguiam umas às outras, adornadas em tantos colares coloridos que mal conseguiam andar. O nascer do sol voltou ao céu vermelho-ouro, o ar quente e úmido cheirava à magnólias e rosas.Havia sido a manhã mais feliz da vida de Hazel.— Você pode ficar aqui. — Sua mãe sorriu, mas seus olhos estavam brancos, vazios. A voz era de Gaia.— Isso é falso — disse Hazel.Ela tentou se levantar, mas a cama macia de grama a deixava preguiçosa e sonolenta. O cheiro de pão e chocolate derretendo era inebriante. Era a manhã do Mardi Gras, e o mundo parecia cheio de possibilidades. Hazel quase podia acreditar que tinha um futuro brilhante.— O que é real? — perguntou Gaia, falando através do rosto de sua mãe. — É a sua segunda vida real, Hazel? Você deveria estar morta. É real que você está afundando em um pântano, sufocante?— Deixe-me ajudar o meu amigo! — Hazel tentou forçar-se de volta à realidade.Ela podia imaginar sua mão fechada no fim do arco, mas mesmo isso estava começando a parecer indistinto. Seu aperto estava afrouxando. O cheiro de magnólias e rosas era avassalador.Sua mãe ofereceu-lhe uma rosquinha.Não, Hazel pensou. Esta não é minha mãe. Esta é Gaia me enganando.— Você quer sua antiga vida de volta — disse Gaia. — Eu posso dar isso. Este momento pode durar anos. Você pode crescer em Nova Orleans, e sua mãe vai te adorar. Nunca vai ter de lidar com o fardo de sua maldição. Você pode ficar com Sammy...— É uma ilusão! — Hazel interrompeu, engasgando com o doce aroma de flores.— Você é uma ilusão, Hazel Levesque. Você foi apenas trazida de volta à vida porque os deuses têm uma tarefa para você. Eu posso ter te usado, mas Nico te usou e mentiu sobre isso. Você deve estar contente por eu tê-lo capturado.— Capturado? — Um sentimento de pânico cresceu no peito de Hazel. — O que você quer dizer?Gaia sorriu, bebendo seu champanhe.— O garoto deveria ter sabido melhor como procurar as Portas. Mas não importa, não é realmente uma preocupação sua. Uma vez que você solte Tânatos, vai ser jogada de volta no Mundo Inferior para apodrecer para sempre. Frank e Percy não vão impedir isso de acontecer. Amigos verdadeiros teriam lhe pedido para desistir de sua vida? Diga-me quem está mentindo, e quem diz a verdade.Hazel começou a chorar. Amargura brotou dentro dela. Ela perdeu a vida uma vez. Não queria morrer novamente.— É isso mesmo — Gaia ronronou. — Você estava destinada a se casar com Sammy. Sabe o que aconteceu com ele depois que você morreu no Alasca? Ele cresceu e se mudou para o Texas. Ele casou e teve uma família. Mas nunca esqueceu você. Sempre quis saber porque você desapareceu. Ele está morto hoje, teve um ataque cardíaco nos anos sessenta. A vida que vocês poderiam ter juntos sempre o perseguia.— Pare com isso! — Hazel gritou. — Você tirou isso de mim!— E você pode tê-lo novamente — disse Gaia. — Eu te tenho no meu abraço, Hazel. Você vai morrer de qualquer jeito. Se desistir, pelo menos posso tornar isso agradável para você. Esqueça salvar Percy Jackson. Ele pertence a mim. Vou mantê-lo seguro na terra até que eu esteja pronta para usá-lo. Você pode ter uma vida inteira em seus momentos finais, pode crescer, se casar com Sammy. Tudo o que tem que fazer é se soltar.Hazel apertou seu punho sobre o arco. Abaixo dela, algo agarrou seus tornozelos, mas ela não entrou em pânico. Ela sabia que era Percy, sufocando, desesperadamente segurando uma oportunidade de vida. Hazel olhou para a deusa.— Eu nunca vou cooperar com você! NOS – DEIXE – IR!O rosto da mãe de Hazel se dissolveu. A manhã de Nova Orleans derreteu na escuridão. Hazel estava se afogando na lama, uma mão sobre o arco, as mãos de Percy em torno de seu tornozelo, no fundo do buraco. Hazel balançou o fim do arco freneticamente. Frank puxou-a com tanta força que quase tirou seu braço do lugar.Quando ela abriu os olhos, estava deitada na grama, coberta de lama. Percy estava deitado a seus pés, tossindo e cuspindo lama.Frank pairava sobre eles, gritando:— Oh, deuses! Oh, deuses! Oh, deuses!Ele arrancou algumas roupas extras de sua bolsa e começou a passar a toalha do rosto de Hazel, mas não fez muito bem. Ele arrastou Percy mais para longe do pântano.— Você ficou lá tanto tempo! — Frank chorou. — Eu não pensei – oh, deuses, nunca faça algo assim de novo!Ele embrulhou Hazel em um abraço de urso.— Não posso... respirar — ela sufocou.— Desculpe! — Frank voltou a passar a toalha neles.Finalmente, ele conseguiu levá-los para o lado da estrada, onde se sentaram e tremeram e cuspiram torrões de barro.Hazel não conseguia sentir suas mãos. Não tinha certeza se estava com frio ou em estado de choque, mas conseguiu explicar sobre o pântano e a visão que tinha visto enquanto estava sob a terra. Não a parte sobre Sammy – que ainda era muito dolorosa para dizer em voz alta – mas ela lhes contou sobre a oferta de Gaia de uma falsa vida, e a afirmação da deusa que de ela tinha capturado seu irmão Nico. Hazel não queria manter isso para si mesma. Estava com medo que o desespero a dominasse.Percy esfregou os ombros. Seus lábios estavam azuis.— Você... você me salvou Hazel. Nós vamos descobrir o que aconteceu com Nico, prometo.Hazel olhou para o sol, que agora estava alto no céu. O calor parecia bom, mas não a impedia de tremer.— Não parece que Gaia nos deixou ir com muita facilidade?Percy arrancou um torrão de lama de seu cabelo.— Talvez ela ainda nos queira como peões. Talvez ela apenas estivesse dizendo coisas para mexer com sua mente.— Ela sabia o que dizer — Hazel concordou. — Sabia como para chegar a mim.Frank colocou seu casaco sobre os ombros dela.— Esta é uma vida real. Você sabe disso, certo? Nós não vamos deixar você morrer novamente.Ele parecia tão determinado. Hazel não queria discutir, mas não conseguia ver como Frank iria conseguir parar a Morte. Ela pressionou o bolso do casaco, onde a lenha meio queimada de Frank ainda estava bem embrulhada. Perguntou-se o que teria acontecido com ele se tivesse afundado na lama para sempre. Talvez isso tivesse salvado-o. Fogo não poderia queimar a madeira lá embaixo.Ela teria feito qualquer sacrifício para manter Frank seguro. Talvez ela não tivesse sempre sentido isso fortemente, mas Frank havia confiado nela com sua vida. Ele acreditava nela. Ela não podia suportar a ideia de algum mal vindo para ele.Ela olhou para o sol nascente. O tempo estava se esgotando. Pensou em Hylla, a Rainha das Amazonas em Seattle. Hylla teria duelado com Otrera duas noites seguidas agora, supondo que ela tenha sobrevivido. Ela estava contando com Hazel para liberar a Morte.A menina conseguiu ficar de pé. O vento que vinha da Baía da Ressurreição era tão frio quanto ela se lembrava.— Nós devemos ir. Estamos perdendo tempo.Percy olhou para baixo da estrada. Seus lábios estavam voltando para sua cor normal.— Há por aqui qualquer hotel ou algum lugar onde pudéssemos nos limpar? Quero dizer... hotéis que aceitam pessoas cheias de lama?— Eu não tenho certeza — Hazel admitiu.Ela olhou para a cidade lá embaixo e não podia acreditar no quanto tinha crescido desde 1942. O porto principal tinha se mudado para o leste conforme a cidade se expandiu. A maioria dos edifícios eram novos para ela, mas a grade de ruas do centro parecia familiar. Pensou reconhecer alguns armazéns ao longo da costa.— Eu devo conhecer um lugar em que nós poderemos nos limpar.