quinta-feira, 17 de outubro de 2013

XII - Piper






PIPER NÃO CONSEGUIA EXPLICAR COMO ELA SABIA DAQUILO.
Histórias de aparições e almas torturadas sempre a apavoraram. Seu pai costumava tirar onda das lendas Cherokee quando seu avô Tom ainda estava na reserva indígena, mas mesmo em casa, na grande mansão em Malibu, olhando para o Pacífico, sempre que ele recontava aquelas histórias de fantasmas, nunca conseguia tirá-las da cabeça.
Espíritos Cherokee sempre foram incansáveis. Eles frequentemente perdiam seus caminhos para a Terra dos Mortos ou ficavam para trás com os vivos por pura teimosia. Às vezes, nem percebiam que estavam mortos.
Quanto mais Piper aprendia sobre ser uma semideusa, mais convencida ficava de que as lendas Cherokee não eram tão diferentes dos mitos gregos. Esses eidolons agiam de forma bastante semelhante aos espíritos das histórias de seu pai.
Piper sentia dentro de si que eles ainda estavam ali simplesmente porque ninguém os havia mandado ir embora.
Quando ela terminou de explicar, os outros a olharam desconfortáveis. Acima deles, no convés, Hedge cantou algo que pareceu ser In the navy enquanto Blackjack batia seus cascos, relinchando em protesto.
Finalmente Hazel suspirou.
— Piper tem razão.
— Como pode ter tanta certeza? — Annabeth perguntou.
— Eu já vi eidolons. No Mundo Inferior, quando eu estava... Vocês sabem.
Morta.
Piper havia esquecido que Hazel era uma segunda chance. Da sua maneira, Hazel também era um fantasma renascido.
— Então... — Frank passou a mão no seu corte de cabelo curto, como se algum fantasma pudesse ter invadido seu couro cabeludo. — Você acha que essas coisas estão à espreita no navio, ou...
— Possivelmente à espreita dentro de um de nós — disse Piper. — Não sabemos.
Jason cerrou os punhos.
— Se isso é verdade...
— Devemos tomar uma iniciativa — Piper completou. — Acho que posso fazer isso.
— Fazer o quê? — Percy perguntou.
— Apenas escutem, ok? — Piper respirou fundo. — Todos me escutem.
Piper olhou em seus olhos, uma pessoa de cada vez.
— Eidolons — ela disse, usando seu charme — levantem suas mãos.
Houve um tenso silêncio.
Leo riu nervosamente.
— Você realmente achou que isso iria...?
Sua voz morreu. Sua face ficou inexpressiva. Ele levantou a mão.
Jason e Percy fizeram o mesmo. Seus olhos se tornaram vítreos e dourados. Hazel prendeu a respiração. Próximo a Leo, Frank se contorceu em sua cadeira e pôs as costas contra a parede.
— Oh, deuses — Annabeth olhou para Piper suplicante. — Você pode curá-los?
Piper queria chorar e se esconder debaixo da mesa, mas tinha que ajudar Jason. Ela não podia acreditar que havia ficado de mãos dadas com... Não, ela se recusava a pensar naquilo.
Ela se focou em Leo, que era o menos intimidador.
— Há mais de vocês nesse navio? — ela perguntou.
— Não — disse Leo em uma voz profunda — a Mãe Terra enviou três. Os mais fortes, os melhores. Nós viveremos novamente.
— Não aqui, vocês não irão — Piper rosnou. — Todos os três, escutem atentamente.
Jason e Percy se viraram para ela. Aqueles olhos dourados eram desencorajadores, mas ver todos os três garotos daquela forma foi um combustível para a raiva de Piper.
— Vocês vão deixar esses corpos — ela ordenou.
— Não — Percy respondeu.
Leo deixou sibilou baixinho.
— Nós devemos viver.
Frank tateou procurando seu arco.
— Marte, Todo-Poderoso, isso é tenebroso! Saiam daqui, espíritos! Deixem nossos amigos em paz!
Leo se virou para ele.
— Você não pode nos dar ordem, filho da guerra. Sua própria vida é frágil. Sua alma pode irromper em chamas a qualquer momento.
Piper não tinha certeza do que aquilo significava, mas Frank ficou atordoado como se tivesse sido socado no estômago. Ele sacou uma flecha, as mãos tremendo.
— E-eu já encarei coisas piores que você. Se você quer lutar...
— Frank, não — Hazel se levantou.
Próximo a ela, Jason sacou sua espada.
— Pare! — Piper ordenou, mas sua voz estremeceu.
Rapidamente estava perdendo fé nos seus planos. Ela havia feito os eidolons aparecerem, mas e agora? Se não conseguisse persuadi-los a irem embora, qualquer derramamento de sangue seria sua culpa. No fundo de sua mente, quase podia ouvir Gaia gargalhando.
— Escutem a Piper — Hazel apontou para a espada de Jason.
A lâmina dourada parecia crescer pesadamente em suas mãos. A espada bateu na mesa com um baque surdo e Jason se afundou em sua cadeira novamente.
Percy rosnou de uma forma bastante diferente de seu jeito.
— Filha de Plutão, você pode controlar gemas e metais, mas não controla os mortos.
Annabeth se aproximou de Percy como se tentasse contê-lo, mas Hazel a afastou.
— Escutem, eidolons — Hazel disse firmemente. — Vocês não pertencem a este lugar. Posso não dar ordem a vocês, mas Piper pode. Obedeçam-na.
Ela se virou para Piper, com uma expressão claramente dizendo: Tente de novo. Você consegue.
Piper juntou toda sua coragem. Ela olhou diretamente para Jason, diretamente para os olhos daquela coisa que o controlava.
— Vocês vão abandonar estes corpos — Piper repetiu com ainda mais força.
Jason franziu sua face. Sua testa estava encharcada de suor.
— Nós... nós iremos deixar estes corpos.
— Vocês irão jurar pelo Estige que nunca retornarão a esse navio — Piper continuou — e nunca mais possuirão qualquer membro dessa tripulação.
Ambos, Leo e Percy, silvaram em protestos.
— Vocês irão jurar pelo Estige — Piper insistiu.
Houve um momento de tensão, ela podia sentir suas vontades lutando contra a dela. Então os três eidolons falaram em uníssono:
— Nós juramos pelo Rio Estige.
— Vocês estão mortos — Piper disse.
— Estamos mortos — eles concordaram.
— Agora, vão.
Todos os três garotos tombaram bruscamente para frente. Percy caiu de cara em sua pizza.
— Percy! — Annabeth o agarrou.
Piper e Hazel seguraram os braços de Jason enquanto ele escorregava de sua cadeira. Leo não teve tanta sorte. Ele caiu em frente a Frank, que não fez nenhuma tentativa de segurá-lo. Leo acertou o chão.
— Aii! — ele grunhiu.
— Você está bem? — perguntou Hazel.
Leo levantou-se sozinho. Ele tinha um pedaço de espaguete no formato de um 3 pregado na sua testa.
— Funcionou?
— Sim — Piper disse, com plena certeza de que estava certa. — Não acho que voltarão.
Jason piscou.
— Isso significa que agora posso parar de machucar minha cabeça?
Piper riu, exalando todo seu nervosismo.
— Qual é, Garoto Relâmpago! Venha tomar um ar fresco.
***
Piper e Jason andaram pra frente e pra trás pelo convés. Jason ainda estava cambaleante, então Piper o encorajou a segurar em seu braço para que ele pudesse se apoiar.
Leo permaneceu no leme, conferenciando com Festus através do interfone; ele sabia por experiência própria dar espaço ao Jason e Piper. Desde que a TV por satélite voltou a funcionar, o treinador Hedge estava em sua cabine se atualizando sobre suas lutas de MMA.
O pégaso de Percy, Blackjack, havia voado para algum lugar. Os outros semideuses estavam se ajeitando para a noite.
O Argos II rumava a leste, velejando centenas de metros acima do solo. Abaixo deles, pequenas cidades passavam como se fossem ilhas iluminadas no meio de um mar negro.
Piper se lembrou do último inverno, quando voou em Festus, o dragão, sobre a cidade de Quebec. Ela nunca tinha visto algo tão bonito ou se sentido tão feliz em ter os braços de Jason a seu redor, mas isso era ainda melhor.
A noite estava morna. O navio velejava de forma mais suave do que o dragão. E o melhor de tudo: eles estavam se afastando do Acampamento Júpiter o mais rápido que podiam. Não importava o quão perigoso as terras antigas eram, Piper não via a hora de chegar lá. Ela esperava que Jason estivesse certo, que os romanos não os seguiriam através do Atlântico.
Jason parou e se inclinou contra o parapeito do navio. A luz da lua fez com que seus cabelos loiros ficassem prateados.
— Obrigado, Pipes — ele disse. — Você me salvou de novo.
Ele colocou seus braços em volta da cintura dela. Ela lembrou do dia em que eles caíram do Grand Canyon, a primeira vez que ela percebeu que Jason podia controlar o ar. Ele a havia segurado tão firme que ela podia sentir seu coração bater. Então eles pararam de cair e flutuaram no meio do ar. O. Melhor. Namorado. De. Todos.
Ela queria beijá-lo agora, mas algo a impedia.
— Eu não sei se Percy voltará a confiar em mim novamente — ela disse. — Não depois de eu ter feito seu cavalo nocauteá-lo.
Jason riu.
— Não se preocupe com isso. Percy é um cara legal, mas tenho a impressão de que ele precisa de uns nocautes de vez em quando.
— Você poderia tê-lo matado.
O sorriso de Jason sumiu.
— Aquele não era eu.
— Mas eu quase permiti que você o fizesse — disse Piper. — Quando Gaia disse que eu tinha que escolher, eu hesitei e...
Ela piscou, amaldiçoando-se por estar chorando.
— Não seja tão dura consigo. Você nos salvou.
— Mas se dois do nosso grupo realmente têm de morrer, um garoto e uma garota...
— Eu não aceito isso. Nós vamos parar Gaia. Todos os sete voltarão vivos. Eu juro.
Piper desejou que ele não tivesse jurado. A palavra só a fazia lembrar-se da Profecia dos Sete: um juramento a manter com um alento final.
Por favor, ela pensou, se perguntando se sua mãe, deusa do amor, podia ouvi-la. Não deixe com que seja o alento final de Jason. Se amor significa alguma coisa, não o leve.
Assim que fez seu pedido ela se sentiu culpada. Como ela poderia aguentar ver Annabeth naquele tipo de dor se Percy morresse? Como poderia viver consigo se qualquer um dos sete semideuses morresse? Cada um deles já havia aguentado bastante. Até mesmo os dois novos garotos romanos, Hazel e Frank, a quem Piper mal conhecia, já pareciam da família. No Acampamento Júpiter, Percy havia recontado a viagem deles para o Alasca, o que soou tão angustiante quanto qualquer coisa que Piper tenha passado. E pelo jeito que Frank e Hazel tentaram ajudar durante o exorcismo, ela podia dizer que eles eram corajosos, pessoas boas.
— A lenda que Annabeth mencionou — ela lembrou — sobre a Marca de Atena... Por que você não queria falar sobre aquilo?
Ela temia que Jason pudesse afastá-la, mas ele abaixou a cabeça como se estivesse esperando aquela pergunta.
— Piper, eu não sei o que é verdade ou não. A lenda... Isso pode ser bem perigoso.
— Pra quem?
— Para todos nós — ele disse, sorrindo. — A história fala que os romanos roubaram algo importante dos gregos, nos tempos antigos, quando Roma conquistou as cidades da Grécia.
Piper esperou, mas Jason parecia perdido em pensamentos.
— O que eles roubaram? — ela perguntou.
— Eu não sei. Não tenho certeza se a legião já soube algum dia. Mas de acordo com a história, essa coisa foi levada para Roma e escondida lá. Os filhos de Atena, semideuses gregos, tem nos odiado desde então. Eles sempre alertavam seus irmãos sobre os romanos. Como eu disse, não sei o quanto essa história é verdade...
— Mas por que não contar para Annabeth? — Piper perguntou. — Ela não vai te odiar de repente.
Ele parecia ter problemas em focar nela.
— Espero que não. Mas a lenda diz que os filhos de Atena têm procurado essa coisa por milênios. Cada geração, alguns poucos são escolhidos pela deusa para achar a coisa. Parece que eles são guiados à Roma por um sinal... A Marca de Atena.
— Se Annabeth é um desses buscadores... Nós podemos ajudá-la.
Jason hesitou.
— Talvez. Quando chegarmos mais perto de Roma eu irei contar a ela o pouco que sei. Sério. Mas a história, pelo menos da forma que eu a ouvi, diz que se os gregos algum dia acharem o que foi roubado, nunca nos perdoarão. Eles destruiriam as legiões e Roma, de uma vez por todas. Depois do que Nêmesis disse para o Leo, sobre Roma ser destruída daqui cinco dias...
Piper estudou o rosto de Jason. Ele era, sem sombra de dúvidas, a pessoa mais corajosa que já conheceu, mas percebeu que ele estava com medo. A lenda – a ideia de que ela poderia separar o grupo e demolir uma cidade – absolutamente o amedrontava.
Piper se perguntou o que poderia ter sido roubado dos gregos que seria tão importante. Ela não conseguia imaginar nada que pudesse tornar Annabeth repentinamente vingativa. Mas novamente, Piper não conseguia escolher entre a vida de um semideus ou outro, e hoje na rodovia deserta, apenas por um momento, Gaia quase a havia tentado a...
— A propósito, desculpa — disse Jason.
Piper limpou a ultima lágrima de seu rosto.
— Desculpa por quê? Foi o eidolon que atacou...
— Não estou falando disso.
A pequena cicatriz no lábio superior de Jason parecia ter um brilho esbranquiçado na luz da lua. Ela sempre adorou aquela cicatriz. A imperfeição tornava seu rosto bem mais interessante.
— Fui estúpido lhe pedir para contatar Reyna — ele continuou. — Eu não estava pensando.
— Ah! — Piper olhou para as nuvens e se perguntou se sua mãe, Afrodite, estava de alguma forma o influenciando. Seu pedido de perdão parecia bom demais para ser verdade.
Mas não pare, ela pensou.
— Sério, está tudo bem.
— É só que... nunca me senti daquele jeito perto de Reyna — Jason falou — então, não pensei sobre como isso a deixaria desconfortável. Você não precisa se preocupar com nada, Pipes.
— Eu queria odiá-la — Piper admitiu — Eu estava com tanto medo de que você voltasse para o Acampamento Júpiter.
Jason pareceu surpreso.
— Isso não vai acontecer nunca. Não a menos que você venha comigo. Eu juro.
Piper segurou sua mão. Ela conseguiu forçar um sorriso, mas estava pensando: Outra promessa. Um juramento a manter com um alento final.
Ela tentou tirar aqueles pensamentos de sua cabeça. Sabia que deveria apenas aproveitar esse tranquilo momento com Jason. Mas à medida que olhava pela borda do navio, não conseguia parar de lembrar o quanto a pradaria à noite parecia como água negra – como o cômodo em que eles se afogavam que ela havia visto na lâmina de sua adaga.