quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Capitulo XXX - Hazel






— HAZEL — PERCY ESTAVA BALANÇANDO SEU OMBRO. — Acorde. Nós chegamos a Seattle.
Ela sentou-se tonta, com os olhos semicerrados no sol da manhã.
— Frank?
Frank gemeu, esfregando os olhos.
— Nós acabamos de... eu acabei de...?
— Vocês dois desmaiaram — Percy disse. — Eu não sei por que, mas Ella me disse para não me preocupar. Ela disse que vocês estavam... compartilhando?
— Compartilhando — Ella concordou. Ela se agachou na popa, alisando suas penas com os dentes, o que não parecia uma forma muito eficiente de higiene pessoal. Ela cuspiu algumas penas vermelhas. — Compartilhar é bom. Sem mais apagões. "Maior apagão americano, 14 de agosto de 2003". Hazel compartilhou. Sem mais apagões.
Percy coçou a cabeça.
— É... nós estamos tendo conversas assim a noite toda. Eu ainda não sei sobre o que ela está falando.
Hazel pressionou sua mão contra o bolso do casaco. Ela pôde sentir o pedaço de lenha enrolado em um pano. Ela olhou para Frank.
— Você estava lá.
Ele balançou a cabeça. Não disse nada, mas sua expressão era clara: ele queria dizer o que ele disse. Queria que ela mantivesse o pedaço de madeira seguro. Ela não tinha certeza se se sentia honrada ou com medo. Ninguém jamais tinha confiado a ela algo tão importante.
— Espera — Percy disse. — Você quer dizer que vocês compartilharam um desmaio? Vocês dois vão desmaiar juntos de agora em diante?
— Não — Ella disse. — Não, não e não. Sem mais desmaios. Mais livros para Ella. Livros em Seattle.
Hazel olhava por cima da água. Eles estavam navegando através de uma grande baia, fazendo o seu caminho em direção a um aglomerado de edifícios no centro da cidade. Bairros através das colinas. Da mais alta, subia uma torre branca estranha com um disco no topo, como uma nave espacial dos antigos filmes de Flash Gordon que Sammy costumava amar.
Sem mais desmaios?, Hazel pensou. Depois de sofrer com eles por tanto tempo, a ideia parecia boa demais para ser verdade. Como Ella podia ter certeza que eles acabaram? Agora Hazel se sentia diferente... Mais presa ao chão, como se não estivesse mais tentando viver em dois períodos. Todo músculo no seu corpo começou a relaxar. Ela sentiu como se finalmente tirasse um casaco de chumbo que estivera usando por meses. De algum modo, ter Frank com ela durante o apagão ajudou.
Ela reviveu seu passado inteiro, até chegar direto no presente. Nenhum obstáculo que ela tivesse que se preocupar no futuro – assumindo que ela tivesse um.
Percy dirigiu o barco para o cais do centro da cidade. Conforme chegavam mais perto, Ella arranhava nervosamente no seu ninho de livros. Hazel começou a se sentir nervosa também. Não tinha certeza do por quê. Era um dia ensolarado, e Seattle parecia um lugar bonito, com enseadas e pontes, ilhas arborizadas pontilhando a baia, montanhas cobertas de neve crescendo na distância. Ainda assim, sentia como se estivesse sendo vigiada.
— Hum... porque estamos parando aqui? — ela perguntou.
Percy lhes mostrou o anel de prata em seu colar.
— Reyna tem uma irmã aqui. Me pediu para encontrá-la e mostrar isso.
— Reyna tem uma irmã? — Frank perguntou, como se a ideia o assustasse.
Percy assentiu.
— Aparentemente, Reyna pensa que a irmã dela pode mandar ajuda para o acampamento.
— Amazonas — Ella murmurou. — País das Amazonas. Hmm. Ella vai procurar bibliotecas ao invés. Não gosto de Amazonas. Cerca. Escudos. Espadas. Pontudo. Ai.
Frank pegou sua lança.
— Amazonas? Como... mulheres guerreiras?
— Isso faria sentido — disse Hazel. — Se a irmã de Reyna também é filha de Belona, posso entender porque se juntou às Amazonas. Mas... é seguro para nós estarmos aqui?
— Não, não, não — Ella respondeu. — Pegue livros ao invés disso. Sem Amazonas.
— Nós temos que tentar — Percy falou. — Eu prometi a Reyna. Além disso, Pax não está indo muito bem. Eu tenho forçado-o bastante.
Hazel olhou para seu pés. Água estava vazando entre o assoalho.
— Oh.
— Sim — Percy concordou. — Nós vamos precisar consertar isso ou encontrar um barco novo. Ella, você faz ideia de onde podemos encontrar as Amazonas?
— E, hum — Frank disse nervosamente — elas não... tipo, matam os homens que aparecem, não é?
Ella olhou para o cais, só algumas centenas de metros adiante.
— Ella vai encontrar amigos mais tarde. Ella vai voar agora.
E voou.
— Bem... — Frank pegou uma única pena vermelha no ar. — Isso é encorajador.
Eles ancoraram no cais. Mal tiveram tempo para descarregar suas coisas antes do Pax estremecer e quebrar em pedaços. A maior parte dele afundou, deixando apenas uma borda com um olho pintado e outro com a letra P balançando nas ondas.
— Acho que não vamos consertá-lo — Hazel disse. — E agora?
Percy olhou para as colinas do centro de Seattle.
— Torcemos para que as Amazonas nos ajudem.

Eles exploraram por horas. Encontraram alguns chocolates em uma loja de doces. Compraram um pouco de café tão forte que a cabeça de Hazel parecia com um gongo vibrando. Eles pararam em uma lanchonete e comeram uns sanduíches de salmão grelhado excelentes.
Uma vez eles viram Ella voando entre os arranha-céus, um livro em cada garra. Mas não encontraram as Amazonas. Durante todo o tempo, Hazel estava preocupada com o tempo passando. Era 22 de junho agora, e o Alasca ainda estava muito longe.
Finalmente eles foram para o sul do centro da cidade, em uma praça cercada de pequenos prédios de vidro e tijolos. Os nervos de Hazel começaram a formigar. Ela olhou ao redor, certa de que estava sendo observada.
— Ali — ela disse.
O prédio na sua esquerda tinha uma única palavra gravada nas portas de vidro: AMAZON.
— Oh — Frank disse. — Uh, não, Hazel. Isso é uma coisa moderna. É uma empresa, certo? Eles vendem coisas na Internet. Não são Amazonas de verdade.
— A não ser... — Percy andou através das portas.
Hazel tinha um sentimento ruim sobre esse lugar, mas ela e Frank o seguiram.
O saguão era como um aquário vazio – paredes de vidro, um piso preto brilhante, algumas plantas e mais nada. Contra a parede de trás, uma escada de pedra negra subia e descia. No meio da sala estava uma mulher jovem em um terninho preto, com longos cabelos ruivos e um fone de ouvido da segurança. Seu crachá dizia Kinzie. Seu sorriso era suficientemente amigável, mas seus olhos lembravam Hazel dos policiais de Nova Orleans que costumavam patrulhar o Bairro Francês durante a noite. Eles sempre pareciam olhar por dentro de você, como se estivessem pensando quem poderiam atacar em seguida.
Kinzie acenou para Hazel, ignorando os rapazes.
— Posso ajudá-los?
— Hum... Espero que sim — Hazel falou. — Nós estamos procurando por Amazonas.
Kinzie olhou para a espada de Hazel, e para a lança de Frank, apesar de que não deveriam ser visíveis através da névoa.
— Essa é a base principal das Amazonas — ela disse, cuidadosamente. — Vocês tem um compromisso com alguma, ou...
— Hylla — Percy interrompeu. — Nós estamos procurando por uma garota chamada...
Kinzie se mexeu tão rápido, que os olhos de Hazel quase não conseguiram acompanhar. Ela chutou Frank no peito e o mandou voando pelo saguão. Puxou uma espada e derrubou Percy com a parte chata da lâmina, e pressionou o ponto em baixo do queixo.
Tarde demais, Hazel sacou sua espada. Mais uma dúzia de meninas de preto inundaram a escadaria, espadas na mão e a renderam.
Kinzie olhou para Percy.
— Primeira regra: Homens não falam sem permissão. Segunda regra, invadir o nosso território é punível com a morte. Vocês vão encontrar a Rainha Hylla, tudo bem. Ela será a que decidirá o seu destino.
As Amazonas confiscaram as armas deles e marcharam para baixo tantos lances de escada que Hazel perdeu a conta. Finalmente surgiram em uma caverna tão grande que poderia ter acomodado dez colégios, com quadras esportivas e tudo. Luzes fluorescentes brilhavam no teto de pedra. Correias percorriam a sala toda, como tobogãs, carregando caixas para todo lado. Prateleiras de metal se estendiam indefinidamente, repletas de caixas de mercadoria. Guindastes e braços robóticos estavam dobrando caixas de papelão e embalando encomendas. Algumas das prateleiras eram tão altas que eram acessíveis somente através de escadas e passarelas, que corriam pelo teto como arquibancadas de teatro.
Hazel se lembrou de noticiários que ela viu quando criança. Sempre ficara impressionada pelas cenas de fábricas construindo aviões e armas para a guerra – centenas e centenas de armas saindo da fábrica todo dia. Mas aquilo não era nada comparado a isto, e quase todo o trabalho feito por computadores e robôs. Os únicos humanos que Hazel conseguia ver eram algumas mulheres da segurança patrulhando as passarelas, e alguns homens de laranja, como uniformes de prisão, dirigindo empilhadeiras pelos corredores, entregando mais caixas. Os homens usavam colares de ferro no pescoço.
— Vocês têm escravos? — Hazel sabia que devia ser perigoso falar, mas estava tão ultrajada que não conseguiu evitar.
— Os homens? — Kinzie disse. — Eles não são escravos. Apenas conhecem seu lugar. Agora, ande.
Eles andaram tanto que o pé de Hazel começou a doer. Ela pensou que eles deviam estar chegando ao final do armazém quando Kinzie abriu um grande conjunto de portas duplas e os deixou entrar em outra caverna, tão grande quando a primeira.
— O Mundo Inferior não é tão grande — Hazel se queixou, o que provavelmente não era verdade, mas parecia para os seus pés.
Kinzie sorriu, pretensiosa.
— Você admira nossa base de operações? Sim, nosso sistema de distribuição é mundial. Levou muitos anos e boa parte de nossa fortuna para construir. Agora, finalmente, estamos tendo algum lucro. Os mortais não percebem que estão financiando o reino das Amazonas. Logo, nós seremos mais ricas que qualquer nação mortal. Então quando os fracos mortais dependerem de nós em tudo – a revolução começará.
— O que vocês vão fazer? — Frank perguntou — cancelar o frete grátis?
Uma das guardas bateu o punho da espada no seu intestino. Percy tentou ajudar, mas duas outras guardas o empurraram de volta.
— Você vai aprender a ter respeito — Kinzie disse. — São machos como você que arruinaram o mundo mortal. A única sociedade harmoniosa é uma governada pelas mulheres. Nós somos mais fortes, mais espertas...
— Mais humildes — Percy completou.
As mulheres tentaram atingi-lo, mas ele se esquivou.
— Parem com isso! — Hazel disse. Surpreendentemente, as guardas ouviram. — Hylla vai nos julgar, certo? — Hazel perguntou. — Então nos leve até ela. Nós estamos perdendo tempo.
Kinzie assentiu.
— Talvez você esteja certa. Nós temos problemas mais importantes. E tempo... tempo é definitivamente um problema.
— O que você quer dizer? — Hazel perguntou.
Uma guarda grunhiu.
— Nós poderíamos levá-los direto para Otrera. Talvez ganhar o apoio dela desse jeito.
— Não! — Kinzie discordou. — Eu usaria um colar de ferro e dirigiria uma empilhadeira antes de fazer isso. Hylla é a rainha.
— Até hoje à noite — outra grunhiu.
Kinzie sacou sua espada. Por um segundo, Hazel pensou que as Amazonas começariam a lutar umas contra as outras, mas Kinzie pareceu controlar a raiva.
— Já chega — ela disse. — Vamos.
Eles atravessaram um trânsito de empilhadeiras, um labirinto de correias e engatinharam embaixo de uma fileira de braços robóticos que estavam empilhando caixas.
A maior parte da mercadoria parecia completamente comum: Livros, eletrônicos, fraldas. Mas em uma parede estava uma carruagem com um grande código de barras do lado. Pendurado nela estava uma placa escrita: SOMENTE UMA SOBRANDO NO ESTOQUE. ENCOMENDE LOGO! (MAIS A CAMINHO)
Finalmente eles entraram em uma caverna menor que parecia uma combinação de sala do trono com zoológico. As paredes estavam revestidas com prateleiras de metal de seis andares, decoradas com estandartes de guerra, escudos pintados e cabeças empalhadas de dragões, hidras, leões gigantes e javalis selvagens. De guarda de cada lado, estavam dúzias de empilhadeiras modificadas para guerra. Um homem com colar de ferro dirigia cada máquina, mas uma Amazona estava numa plataforma atrás de cada uma, manejando uma besta gigante. As pontas de cada empilhadeira foram afiadas como espadas.
As prateleiras nessa sala estavam cheias com caixas de animais vivos. Hazel não pôde acreditar no que ela via – águias gigantes, uma mistura de águia com leão que deveria ser um grifo e um tamanduá vermelho do tamanho de um carro.
Ela assistia horrorizada enquanto uma empilhadeira entrava na sala, pegava uma gaiola com um belo pégaso branco e saia enquanto o cavalo grunhia em protesto.
— O que vocês estão fazendo com aquele pobre animal? — Hazel perguntou.
Kinzie franziu a testa.
— O pégaso? Ele ficará bem. Alguém o encomendou. Os custos de manuseio e transporte são altos, mas...
— Podemos comprar um pégaso online? — Percy perguntou.
Kinzie olhou para ele.
— Obviamente você não pode, homem. Mas Amazonas podem. Nós temos seguidores pelo mundo todo. Elas precisam de suprimentos. Desse jeito.
No fundo do armazém estava um estrado feito de capas de livros: Capas de histórias de vampiros, pôsteres de filmes de James Patterson e um trono feito de aproximadamente mil cópias de algo chamado Os cinco Hábitos da mulher altamente agressiva.
Na base estavam várias Amazonas em camuflagem. Elas estavam tendo uma discussão enquanto uma jovem mulher – rainha Hylla, Hazel supôs – assistia e escutava do trono.
Hylla tinha por volta dos vinte anos, magra e rápida como um tigre. Ela usava uma capa preta e botas pretas. Não tinha nenhuma coroa, mas em volta dela tinha um estranho cinto feito juntando vários elos de ouro, como um labirinto. Hazel não podia acreditar como ela parecia com Reyna – um pouco mais velha, talvez, mas com o mesmo longo cabelo preto, os mesmos olhos negros e a mesma expressão, como se estivesse tentando decidir qual das Amazonas em sua frente mais merecia morrer.
Kinzie ouviu os argumentos e grunhiu com desgosto.
— Agentes da Otrera, espalhando suas mentiras.
— O quê? — Frank perguntou.
Então Hazel parou tão abruptamente que as guardas atrás dela tropeçaram. Alguns passos do trono, duas Amazonas guardavam uma gaiola.
Dentro estava um cavalo lindo – não alado, mas um majestoso e poderoso alazão com um casco cor de mel e uma crina preta. Seus ferozes olhos castanhos analisaram Hazel, e ela podia jurar que ele parecia impaciente, como se estivesse pensando: Finalmente você chegou aqui.
— É ele — Hazel murmurou.
— Ele quem? — Percy perguntou.
Kinzie fez uma careta de aborrecimento, então ela viu o que Hazel estava olhando, sua expressão suavizou.
— Ah, sim. Bonito, não?
Hazel piscou para ter certeza de que não estava alucinando. Era o mesmo cavalo que ela perseguiu no Alasca. Ela tinha certeza disso... Mas era impossível. Nenhum cavalo poderia viver tanto.
— Ele está... — Hazel mal podia controlar sua voz. — Ele está à venda?
As guardas todas riram.
— Aquele é Arion — Kinzie disse pacientemente, como se ela entendesse a fascinação de Hazel. — Ele é um tesouro real das Amazonas, a ser herdado pela nossa mais corajosa guerreira, se acredita na profecia.
— Profecia? — Hazel perguntou.
A expressão de Kinzie mudou, quase embaraçada.
— Deixa para lá. Mas não, ele não esta à venda.
— Então porque ele está em uma gaiola?
Kinzie fez uma careta.
— Porque... ele é difícil de lidar.
Bem na hora, o cavalo bateu com a cabeça contra a porta da gaiola. O metal estremeceu e as guardas recuaram nervosas.
Hazel queria libertar o cavalo. Ela queria isso mais que qualquer coisa que ela já quis antes. Mas Percy, Frank e uma dúzia de Amazonas estavam encarando-a, então ela tentou mascarar as suas emoções.
— Só perguntando — ela disse. — Vamos ver a rainha.
A discussão na sala foi ficando mais barulhenta. Finalmente a rainha notou o grupo de Hazel se aproximando e falou:
— Já chega!
As Amazonas ficaram quietas imediatamente. A rainha as deixou de lado e chamou Kinzie.
Kinzie levou Hazel e seus amigos até o trono.
— Minha rainha, esses semideuses...
A rainha saltou para a base do trono.
— Você!
Ela encarou Percy Jackson com muita raiva.
Percy amaldiçoou algo em grego antigo que Hazel estava certa que a freira Agnes não gostaria.
— Prancheta — ele disse. — SPA. Piratas.
Isso não fez sentido para Hazel, mas a rainha assentiu. Ela desceu do estrado de Best Sellers e sacou uma adaga.
— Você foi incrivelmente tolo ao vir aqui — ela disse. — Você destruiu minha casa. Fez com que minha irmã e eu fossemos presas e exiladas.
— Percy — Frank disse. — O que a mulher assustadora com a adaga está dizendo?
— Ilha da Circe — Percy respondeu. — Acabei de lembrar. O sangue de górgona provavelmente está começando a curar minha memória. O mar de monstros. Hylla... ela nos recebeu nas docas, nos levou até sua mestra. Hylla trabalhava para as feiticeiras.
Hylla arreganhou seus perfeitos dentes brancos.
— Você está me dizendo que teve amnésia? Você sabe, eu poderia acreditar em você. Como seria tão estúpido a ponto de vir aqui?
— Nós viemos em paz — Hazel insistiu. — O que Percy fez?
— Paz? — A rainha levantou suas sobrancelhas. — O que ele fez? Esse homem destruiu a escola de magia da Circe!
— Circe me transformou em um porquinho da índia! — Percy protestou.
— Sem desculpas! — Hylla interrompeu. — Circe era uma sábia e generosa empregadora. Eu tinha um quarto, um bom plano dentário e de saúde, mascotes, poções grátis – tudo! E esse semideus com seus amigos, a loira...
— Annabeth — Percy deu um tapa em sua testa como se ele quisesse que suas memórias voltassem mais rápido. — Está certo. Eu estava lá com Annabeth.
— Você libertou os prisioneiros, Barba Negra e seus piratas — ela virou para Hazel. — Você já foi sequestrada por piratas? Não é legal. Eles queimaram o SPA. Minha irmã e eu fomos prisioneiras por meses. Felizmente nós éramos filhas de Bellona. Aprendemos a lutar rapidamente. Se nós não tivéssemos... — ela estremeceu. — Bem, os piratas aprenderam a nos respeitar. Eventualmente, nós achamos nosso caminho até Califórnia, onde nós... — ela hesitou como se a memória fosse dolorosa. — Onde minha irmã e eu nos separamos.
Ela andou até Percy até que estivesse nariz com nariz. Ela apontou sua adaga para seu queixo.
— Claro, eu sobrevivi e prosperei. Consegui me tornar a rainha das Amazonas. Então talvez devesse agradecer você.
— De nada — Percy respondeu.
A rainha enfiou a adaga um pouco mais fundo.
— Deixa para lá. Acho que vou te matar.
— Espere! — Hazel disse. — Reyna nos mandou! Sua irmã! Olhe o anel no colar dele.
Hylla franziu a testa. Ela abaixou a adaga até o colar de Percy até que a ponta ficasse sobre o anel de prata. A cor deixou seu rosto.
— Explique isso — ela olhou para Hazel. — Rápido.
Hazel tentou. Ela descreveu Acampamento Júpiter. Contou para as Amazonas sobre Reyna ser sua pretora, e o exército de monstros que estavam indo para sul. Contou sobre sua missão para libertar Tânatos.
Enquanto Hazel falava, outro grupo de Amazonas entrou na sala. Uma era mais alta e mais velha que o resto, com cabelos prateados e um fino obe de seda como uma romana. As outras Amazonas foram até ela, tratando-a com tanto respeito que Hazel imaginou se era a mãe de Hylla – até que ela notou como Hylla e as mulheres mais velhas apontaram as adagas umas contras as outras.
— Então nós precisamos de sua ajuda — Hazel terminou sua história. — Reyna precisa de sua ajuda.
Hylla agarrou o colar de Percy e arrancou do seu pescoço – contas, anel, placa de probatio e tudo.
— Reyna... aquela tola garota...
— Bem! — A mulher mais velha interrompeu. — Romanos precisam de nossa ajuda? — Ela riu, e as Amazonas a sua volta se juntaram a ela. — Quantas vezes lutamos com os romanos em meu tempo? — A mulher perguntou. — Quantas vezes eles mataram nossas irmãs em batalhas? Quando eu era uma rainha...
— Otrera — Hylla interrompeu — você está aqui como uma convidada. Você não é mais rainha.
A mulher mais velha fez um gesto de zombaria.
— Como você dizia, ao menos, até hoje à noite. Mas eu disse a verdade, rainha Hylla. — Ela disse a palavra como um insulto. — Eu fui trazida de volta pela Mãe Terra! Trouxe notícias de uma nova guerra. Porque as Amazonas deveriam seguir Júpiter, aquele tolo rei do Olimpo, quando nós podemos seguir uma rainha? Quando eu assumir o controle...
— Se você assumir o controle — Hylla disse. — Mas por enquanto, eu sou a rainha. Minha palavra é lei.
— Entendo — Otrera olhou para as Amazonas, que estavam muito paradas, como se elas se encontrassem entre dois tigres selvagens. — Nós ficamos tão fracas que temos que ouvir a homens semideuses? Você vai poupar a vida desse filho de Netuno, mesmo quando ele destruiu sua casa? Talvez você o deixe destruir sua nova casa também!
Hazel prendeu a respiração. As Amazonas olhavam entre Hylla e Otrera, procurando qualquer sinal de fraqueza.
— Eu vou julgar — Hylla disse em um tom frio — quando eu tiver todos os fatos. É assim que eu governo – por razão, não medo. Primeiro, vou falar com essa aqui — ela apontou para Hazel. — É meu dever escutar primeiro uma mulher guerreira antes de sentenciar seus aliados à morte. Esse é o jeito das Amazonas. Ou seus anos no Mundo Inferior prejudicaram sua memória, Otrera?
A mulher mais velha suspirou, mas não tentou argumentar.
Hylla virou para Kinzie.
— Leve esses guerreiros para suas celas. O resto de vocês, saiam.
Otrera levantou sua mão para a multidão.
— Como nossa rainha deseja. Mas qualquer um de vocês que gostaria de ouvir mais sobre Gaia e nosso glorioso futuro com ela, venha comigo!
Aproximadamente metade das Amazonas a seguiram para fora da sala. Kinzie suspirou com desgosto, então levou Percy e Frank.
Logo Hylla e Hazel estavam sozinhas, exceto pela guarda pessoal da rainha. Ao sinal de Hylla, até eles saíram da sala. A rainha virou para Hazel. Sua raiva foi dissolvida e Hazel viu desespero em seus olhos. A rainha parecia um de seus animais engaiolados sendo retirados por uma correia.
— Nós devemos conversar — Hylla disse — não temos muito tempo. À meia noite, eu provavelmente estarei morta.