quinta-feira, 17 de outubro de 2013

XXXVI - Annabeth





O TÚNEL SEGUIA EM LINHA RETA, mas depois de sua queda, Annabeth decidiu não arriscar. Ela usava as paredes como suporte e tateava o piso à sua frente com sua muleta improvisada para ter certeza de que não havia armadilhas.
Enquanto andava, o cheiro doce e doentio fica mais forte e atiçava seus nervos ao limite. O som de água corrente desaparecia atrás dela. Em seu lugar veio um coro de sussurros como milhões de minúsculas vozes. Parecia vir de dentro das paredes e ficava cada vez mais alto.
Annabeth tentou acelerar o passo, mas não conseguia ir mais rápido sem perder o equilíbrio ou sacudir seu tornozelo quebrado. Seguiu mancando, convencida de que alguma coisa a estava seguindo. As pequenas vozes estavam se juntando, chegando mais perto. Ela tocou a parede e sua mão voltou coberta de teias.
Ela ganiu e então se amaldiçoou por ter feito barulho.
É apenas uma teia, ela disse a si mesma. Mas isso não parou os zunidos em seus ouvidos.
Ela já esperava que houvesse aranhas. Sabia o que viria pela frente: A tecelã. Sua Senhoria. A voz na escuridão. Mas as teias a fizeram perceber o quanto ela estava próxima.
Suas mãos estremeceram enquanto ela as limpava nas pedras. O que estava pensando? Ela não podia fazer essa missão sozinha.
Tarde mais, disse a si mesma. Apenas siga em frente.
Ela seguiu seu caminho descendo o corredor, um doloroso passo de cada vez. Os sons sussurrantes ficaram mais altos atrás dela até que soasse como um turbilhão de milhões de folhas secas ao vento. As teias ficaram mais grossas, preenchendo o túnel. Logo ela estava tirando-as de seu rosto, rasgando e passando por cortinas transparentes que a cobriam como se fossem serpentina.
Seu coração queria se libertar do seu peito e sair correndo. Ela cambaleou para frente de forma inconsequente, tentando ignorar a dor em seu tornozelo. Finalmente, o corredor terminou em um vão de uma porta, coberto até a altura da cintura com madeira velha. Parecia que alguém havia tentado barricar a abertura. Aquilo não era um bom presságio, mas Annabeth usou sua muleta para empurrar as tábuas o melhor que pôde. Ela engatinhou sobre o restante da pilha, ganhando algumas dúzias de farpas em sua mão. Do outro lado da barricada havia uma câmara do tamanho de uma quadra de basquete. O piso foi feito com mosaicos romanos. Tapeçarias estavam penduradas na parede. Duas tochas apagadas se encontravam em anteparos na parede de cada lado do vão da porta, ambas cobertas por teias.
No fundo do aposento, a Marca de Atena ardia sobre outra soleira. Infelizmente, entre Annabeth e a saída, o chão estava dividido por um abismo de dezessete metros de um lado ao outro. Sobre a fenda havia duas vigas paralelas de madeira, muito distantes uma da outra para andar com um pé em cada, mas muito estreita para andar em apenas uma, a menos que Annabeth fosse uma acrobata, o que não era, e não tivesse um tornozelo quebrado, o que tinha.
O corredor pela qual ela tinha vindo estava se enchendo de barulhos chiados. Teias estremeciam e dançavam quando as primeiras das aranhas apareceram: não eram maiores do que uma jujuba, mas eram roliças e negras, deslizando pelas paredes e pelo piso.
Que tipo de aranha? Annabeth não sabia. Ela só sabia que elas estavam vindo para pegá-la e só tinha alguns segundos para planejar alguma coisa.
Annabeth queria chorar. Ela queria que alguém, qualquer um, estivesse ali com ela. Ela queria Leo com suas habilidades de fogo ou Jason com seu raio ou Hazel para desmoronar o túnel. Mas mais do que tudo, ela queria Percy. Sempre se sentiu mais corajosa quando estava com ele.
Eu não vou morrer aqui, disse para si. Vou ver o Percy de novo.
As primeiras aranhas estavam quase na porta. Atrás delas vinha o batalhão do exército – um mar negro de coisas arrepiantes e rastejantes.
Annabeth cambaleou para um dos anteparos na parede e pegou uma tocha. O final dela estava coberto de piche para acender de forma mais fácil. Seus dedos pareceram chumbo, mas ela remexeu sua mochila e achou os fósforos. Ela riscou um e acendeu a tocha. Aproximou a tocha da barricada. A madeira velha e seca pegou fogo imediatamente. Chamas saltaram para as teias e rugiram pelo corredor em um flash de fogo, tostando milhares de aranhas.
Annabeth se afastou de sua fogueira. Ela havia conseguido algum tempo, mas duvidava que houvesse matado todas as aranhas. Elas iriam se reagrupar e formar um novo enxame assim que o fogo acabasse. Ela se posicionou a beira do abismo. Iluminou a fenda com a tocha, mas não conseguia ver o fundo. Pular ali dentro seria suicídio.
Ela poderia tentar atravessar uma das vigas se pendurando e usando as mãos, mas não confiava na força dos seus braços e não via como conseguiria subir do outro lado com uma mochila cheia e um tornozelo quebrado uma vez que chegasse lá.
Ela se agachou e estudou as vigas. Cada uma tinha um conjunto de parafusos com ganchos por toda a extensão, colocados com um intervalo de aproximadamente 30 centímetros entre cada um. Talvez as vigas houvessem sido os lados de uma ponte e as tábuas do meio haviam sido removidas ou destruídas. Mas parafusos com ganchos? Eles não pareciam estar ali para suportar tábua. Estavam mais para...
Ela olhou para parede. Os mesmos tipos de ganchos haviam sido usados para pendurar as tapeçarias em farrapos. Ela percebeu que as vigas não tinham o propósito de serem pontes. Elas eram algum tipo de tear.
Annabeth jogou sua tocha em chamas para o outro lado do abismo. Ela não tinha fé de que seu plano iria funcionar, mas puxou toda a linha que estava em sua mochila e começou a tecer entre as vigas, fazendo algo parecido com uma cama de gato seguindo para frente e para trás, de um gancho a outro, dobrando e triplicando a grossura da linha.
Suas mãos se moveram em velocidade surpreendente. Ela parou de pensar em sua tarefa e apenas a fez, dando voltas e nós nas linhas, vagarosamente estendendo sua rede de tecido pelo abismo. Se esqueceu da dor em sua perna e da barricada ardente queimando atrás de si. Ela seguiu lentamente sobre a fenda. A tecelagem aguentou seu peso. Antes que percebesse, já estava na metade do caminho.
Como ela havia aprendido a fazer isso?
É Atena, ela lembrou-se. A habilidade de minha mãe com artesanato. Tecer nunca havia parecido ser particularmente útil para Annabeth – até agora.
Ela olhou para trás. O fogo na barricada estava morrendo. Algumas aranhas rastejaram para dentro pelas bordas da porta.
Desesperadamente, ela continuou tecendo e finalmente conseguiu cruzar a fenda. Ela pegou a tocha e pôs fogo em sua ponte de tecido. Chamas correram pela corda. Até as vigas pegaram fogo como se estivessem previamente banhadas em óleo.
Por um momento, a ponte queimou em um padrão claro – uma fila ardente de corujas idênticas. Teria Annabeth realmente as tecido nas linhas ou seria apenas algum tipo de mágica? Ela não sabia, mas quando as aranhas começaram a cruzar, as vigas pegaram fogo e desmoronaram no abismo.
Annabeth prendeu a respiração. Não via nenhum motivo pelo qual as aranhas não poderiam alcançá-la escalando a parede ou o teto. Se elas começassem a fazer isso, ela teria que correr, e tinha bastante certeza de que não conseguiria se mover rápido o suficiente.
Por algum motivo, as aranhas não a seguiram. Elas se agruparam na beira da fenda – um fervente carpete negro arrepiante. Então se dispersaram, inundando o corredor queimado, quase como se Annabeth não fosse mais interessante.
— Ou eu passei no teste — ela falou em voz alta.
Sua tocha se apagou, deixando-a apenas com a luz da adaga. Ela percebeu que havia deixado sua muleta improvisada do outro lado do abismo.
Sentiu-se exausta e sem nenhum truque, mas sua mente estava límpida. Seu medo parecia ter-se queimado junto com a ponte de tecido.
A tecelã, ela pensou. Eu devo estar perto. Pelo menos sei o que vem pela frente.
Ela rumou para o próximo corredor, mancando para evitar que o peso sobre caísse sobre seu pé ruim. Não teve que ir muito longe.
Depois de uns sete metros, o túnel se abriu em uma caverna tão larga quanto uma catedral, tão majestosa que Annabeth teve problemas em processar tudo o que viu. Ela supôs que aquele era o aposento do sonho de Percy, mas não estava escuro. Braseiros de bronze de luzes mágicas, como as que os deuses usavam no Monte Olimpo, brilhavam ao longo da circunferência do aposento, intercalados com tapeçarias maravilhosas.
O chão de pedra estava coberto de fissuras como um lençol de gelo. O teto era tão alto e estava perdido na escuridão de camadas e mais camadas de teias. Fios de seda mais grossos do que pilares percorriam todo o aposento, ancorando as paredes e o chão como se fossem cabos de suspensão. Teias também cobriam a peça central do santuário, o que era tão intimidador que Annabeth teve problemas em olhar para ela.
Agigantando-se sobre ela estava uma estátua de 13 metros de Atena, com pele de marfim luminosa e um vestido de ouro. Em sua mão estendida, Atena segurava uma estátua de Nice, a deusa alada da vitória – uma estátua que parecia pequena daqui, mas era provavelmente tão alta quanto uma pessoa real. Na outra mão de Atena repousava um escudo tão grande quanto um outdoor, com uma cobra esculpida espiando de trás dele, como se Atena a estivesse protegendo.
A face da deusa era serena e gentil... E parecia com Atena. Annabeth havia visto várias estátuas que não pareciam sua mãe nem um pouco, mas essa versão gigante, feita milhares anos atrás, a fez pensar que o artista deve ter conhecido Atena pessoalmente. Ele a havia capturado perfeitamente.
— A Atena Partenos — Annabeth murmurou. — Realmente está aqui.
Toda a sua vida ela quis visitar o Partenon. Agora ela estava vendo a atração principal que costumava estar lá – e ela era a primeira filha de Atena a fazer isso em milênios. Percebeu que sua boca estava aberta. Ela se forçou a engolir. Annabeth poderia ter ficado ali o dia todo olhando para a estátua, mas havia apenas concluído metade da sua missão. Ela encontrou a Atena Partenos. Agora, como iria levá-la dessa caverna?
Fios de teias cobriam a estátua como se fosse um pavilhão de gaze. Annabeth suspeitou que sem aquelas teias, a estátua teria caído pelo chão enfraquecido há muito tempo. Enquanto entrava no aposento, podia ver que as rachaduras abaixo eram tão largas que ela poderia ter perdido seu pé nelas. Abaixo das rachaduras ela não via nada além de uma escuridão vazia.
O frio a percorreu. Onde estava o guardião? Como Annabeth libertaria a estátua sem desmoronar o chão? Ela não poderia empurrar a estátua pelo corredor de onde tinha vindo.
Ela vasculhou a câmara com os olhos, esperando ver alguma coisa que pudesse ajudar. Seus olhos se demoraram nas tapeçarias, que eram bonitas de torcer o coração. Uma mostrava uma cena pastoreira tão tridimensional que poderia ser uma janela. Outra mostrava os deuses combatendo os gigantes. Annabeth viu uma paisagem do Mundo Inferior. Próxima a ela havia a vista do horizonte de Roma moderna. E na tapeçaria ao lado...
Ela prendeu a respiração. Era um retrato de dois semideuses se beijando embaixo d‘água: Annabeth e Percy, no dia em que seus amigos os jogaram no lago de canoagem do acampamento. Era tão real que ela se perguntou se a tecelã teria estado lá, espreitando no lago com uma câmera a prova d‘água.
— Como isso é possível? — ela murmurou.
Acima dela na escuridão, uma voz falou.
— Por eras, eu sabia que você viria, minha querida.
Annabeth se arrepiou. De repente, ela tinha sete anos de novo, se escondendo debaixo de suas cobertas, esperando pelas aranhas a atacarem à noite. A voz soou como Percy a havia descrito: um zumbido raivoso e de múltiplos tons, feminino, mas não humano. Nas teias acima da estátua, alguma coisa se moveu – algo preto e grande.
— Eu a tenho visto em meus sonhos — a voz disse, doentiamente doce e perversa, como o cheiro nos corredores. — Eu tinha que me garantir que você era digna, a única filha de Atena inteligente o suficiente para passar nos meus testes e alcançar este lugar viva. De fato, você é a filha mais talentosa dela. Isso fará sua morte muito mais dolorosa para minha antiga inimiga quando você falhar completamente.
A dor no tornozelo de Annabeth não era nada comparada com o ácido congelante que agora corria em suas veias. Ela queria correr. Queria implorar por misericórdia. Mas não podia demonstrar fraqueza – não agora.
— Você é Aracne — ela anunciou. — A tecelã que foi transformada em aranha.
A figura desceu, se tornando mais clara e mais horrível.
— Amaldiçoada por sua mãe. Desprezada por todos e transformada nessa coisa hedionda... Porque eu era a melhor tecelã.
— Mas você perdeu a competição — Annabeth disse.
— Essa é a história escrita pelo vencedor! — choramingou Aracne. — Olhe para o meu trabalho! Veja você mesma!
Annabeth não precisava. As tapeçarias eram as melhores que ela já havia visto – melhor do que o trabalho da feiticeira Circe, e sim, até mesmo melhor do que algumas que ela havia visto no Monte Olimpo. Ela se perguntava se sua mãe teria realmente perdido – se ela teria escondido Aracne e reescrito a verdade. Mas agora, isso não importava.
— Você tem vigiado essa estátua desde os tempos antigos — Annabeth supôs. — Mas ela não pertence a este lugar. Estou pegando ela de volta.
— Há — Aracne resmungou.
Mesmo Annabeth teve de admitir que sua ameaça soou ridícula. Como poderia uma garota com um tornozelo enrolado em plástico bolha remover essa imensa estátua de uma câmara subterrânea?
— Temo que você tenha que me derrotar primeiro, minha querida — Aracne respondeu. — E, infelizmente, isso é impossível.
A criatura apareceu das cortinas de teia e Annabeth percebeu que sua missão não tinha mais esperança. Ela estava prestes a morrer.
Aracne tinha o corpo de uma viúva negra gigante, com marcas cabeludas vermelhas em forma de uma ampulheta na parte inferior do seu abdômen. Suas oito magras patas eram revestidas com farpas curvas do tamanho da adaga de Annabeth.
Se a aranha chegasse mais perto, seu cheiro fétido adocicado seria suficiente para fazer Annabeth desmaiar. Mas as parte mais horrível era a sua cara disforme.
Um dia ela pode ter sido uma mulher bonita. Agora, mandíbulas negras se projetavam de sua boca como presas. Seus outros dentes haviam crescido como finas agulhas brancas. Bigodes bem negros saiam de sua bochecha. Seus olhos eram grandes, sem pálpebras e todo preto, com dois olhos menores saindo das têmporas.
A criatura fez um rip-rip-rip violento que deve ter sido uma risada.
— Agora eu banquetearei você, querida — Aracne disse. — Mas não tema. Eu farei uma bonita tapeçaria representando sua morte.